domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 31 — Perseguição

Capítulo 31: Perseguição

O sinal tocou às onze e vinte.

Apolo estacionou o Opala na rua lateral, antes da curva que dava acesso ao portão principal da escola. Já de longe viu.

Viaturas. Um caminhão da polícia militar estacionado de través na calçada, bloqueando a entrada de veículos. Carros pretos — três, quatro, talvez cinco — espalhados pelo estacionamento e pela rua em frente. SUVs com vidros escuros, motor ligado, antenas no teto. Parecia cena de filme, mas não era.

— Caramba — murmurou Sérgio, no banco de trás, abaixando a cabeça para olhar pela janela. — Tudo isso por causa de um funcionário?

— Não é por causa do funcionário — disse Apolo. — Fica aí. Se alguém chegar perto do carro, se abaixa e tranca as portas. Não abre pra ninguém.

— Se baterem?

— Não vão bater. Mas se baterem, não abre.

Apolo desceu.

O ar estava pesado, a umidade grudando na pele. O chão ainda molhado da chuva da noite anterior. Ao se aproximar do portão principal, um policial o parou — mão erguida, expressão neutra.

— Área interditada, senhor. Só funcionários e autoridades.

— Sou professor — disse Apolo, mostrando a identificação. — Professor Apolo Mendes. Física.

O policial olhou para o crachá. Depois para Apolo.

— Seu nome está na lista, professor?

— Não sei. O diretor está aí?

O policial hesitou. Depois acenou com a cabeça.

— Acompanhe.

Apolo passou pelo portão. O pátio estava vazio — nenhum aluno, nenhum funcionário da limpeza, nenhum rosto conhecido. Apenas os homens fardados e os de terno preto, circulando entre as alas do prédio com a discrição forçada de quem não quer parecer que está investigando.

O diretor estava na porta da secretaria.

Um homem baixo, barriga proeminente, bigode grisalho mal aparado. Sapatos engraxados, camisa branca passada a ferro, gravata azul-marinho frouxa no pescoço.

— Professor Apolo — disse o diretor, estendendo a mão. — Obrigado por vir.

— O que aconteceu? — perguntou Apolo.

— O funcionário da limpeza foi encontrado no pátio dos fundos às duas da madrugada. A escola está interditada por tempo indeterminado. Aulas virtuais começam na segunda-feira. O governo garantiu o salário de todo mundo — isso eles deixaram claro. Mas, professor... — o diretor baixou a voz — ...esses homens de terno preto chegaram antes da polícia. Não perguntaram nada. Só começaram a andar.

Apolo ouviu em silêncio.

— O senhor está dispensado — continuou o diretor. — Pegue o que veio buscar e vá. Quanto menos eu souber, melhor.

— Só vim pegar uma camisa que deixei no armário — disse Apolo. — E os materiais das aulas virtuais. Provas, exercícios, planejamento. Não tenho nada em casa.

— Seja rápido.

Apolo foi até a sala dos professores. O corredor estava vazio, as portas das salas abertas. Na sala dos professores, abriu o armário com a chave. Pegou a camisa xadrez velha. E no fundo, atrás dos livros, a pasta preta — grossa, pesada, com todo o material que ele ia precisar para dar aula à distância.

Guardou na mochila. Fechou o armário. Saiu.

No pátio, os homens de terno preto o observaram. Um deles falou algo no rádio de punho.

O policial no portão liberou Apolo com um aceno.

O Opala estava onde havia deixado. Sérgio estava abaixado no banco de trás, trancado.

— Tudo certo? — perguntou Sérgio, aparecendo.

— Tudo. Peguei o material das aulas.

Apolo ligou o motor. Saiu devagar. Olhou no retrovisor — nenhum carro preto o seguiu.

Mas ele não confiou.

— Vamos dar uma volta.

— Pra quê?

— Pra ver se alguém vem atrás.

Ninguém veio. Fizeram o trajeto mais longo até o centro — praça, igreja matriz, rua das lanchonetes.

— Vamos parar ali — disse Apolo, apontando para a Lancheria do Beto. — Tô com fome.

— Umas três pessoas lá dentro — disse Sérgio, olhando. — Parece tranquilo.

— Tranquilo.

Desceram.

A lanchonete estava com movimento baixo — um casal de meia-idade perto da janela, um caminhoneiro no balcão lendo jornal, uma senhora no fundo tomando chimarrão. Beto atrás do balcão.

— Apolo! — Beto ergueu a mão. — A escola fechou mesmo?

— Fechou. Aulas virtuais agora.

— Pois é, a cidade inteira já sabe.

Pedram pastéis. Comeram devagar. O casal foi embora. O caminhoneiro pagou e saiu. Ficaram só eles e a senhora do fundo.

— Vou lavar as mãos — disse Apolo, levantando.

— Vou junto — disse Sérgio.

Foram até o fundo. O banheiro masculino era pequeno — azulejo branco, pia minúscula, uma lâmpada piscando. No fundo, uma janela de escotilha que abria para fora, na altura do peito.

Apolo abriu a torneira.

Foi quando ele olhou pela janela.

O beco entre a lanchonete e o prédio vizinho — escuro, úmido, paredes descascadas. E no fundo do beco, parado, um homem.

Terno preto. Imóvel. Olhando direto para a janela do banheiro.

Apolo não se mexeu.

— Sérgio.

— O quê?

— Não olha agora. Tem um cara ali fora. Terno preto.

Sérgio prendeu a respiração.

— O que a gente faz?

— Espera.

Apolo desceu a tampa do vaso — barulho. Deu descarga. Abriu a torneira de novo. Demorou.

O homem não se mexeu.

Foi quando ouviram.

Um grito. Do outro lado da lanchonete. Vindo do banheiro feminino.

Alto. Cortante.

— Socorro! Tem alguém aqui!

Passos. Muitos passos. Porta do banheiro feminino sendo aberta à força. Vozes masculinas — "calma, senhora", "saia daí", "olha ali, tem alguém".

Apolo olhou pela janela de novo.

O beco estava vazio.

O homem de terno preto tinha corrido para dentro.

— Agora — disse Apolo.

Abriu a janela com força. Pulou para o beco, caiu de lado no chão molhado. Levantou.

— Vem!

Sérgio pulou atrás. Caiu pior — joelho no chão, um gemido — mas levantou.

Correram. Saíram na rua de trás, deram a volta pelo quarteirão, chegaram no Opala.

Apolo entrou. Ligou o motor.

A mão bateu no botão do rádio sem querer.

A música explodiu. _*Runaway - Bon Jovi*_

_*"On a steel horse I ride...*_

_*I'm wanted... dead or alive..."*_

— Puta merda — ele abaixou o volume, mas não desligou. Não dava tempo. Engatou a ré, saiu da vaga com os pneus cantando.

No retrovisor, dois carros pretos saíram do estacionamento da lanchonete. Faróis acesos.

— Eles tão vindo — disse Sérgio, o rosto branco.

Apolo acelerou. Pegou a avenida, passou o sinal vermelho. Virou à esquerda, depois à direita, entrou num bairro residencial.

Os carros pretos acompanharam.

_*"Sometimes I sleep, sometimes it's not for days..."*_

— Segura — disse Apolo.

Entrou numa rua sem saída. No fundo, um terreno baldio, mato alto. Do outro lado, a continuação da avenida.

— Vai dar?

— Vai ter que dar.

Apolo jogou o Opala no terreno baldio. Galhos arranharam as portas. Lama respingou nos vidros. O carro pulou nos buracos, bateu o fundo numa raiz — mas passou.

Saiu na avenida do outro lado.

Os carros pretos não apareceram.

_*"The people I know all got something to do..."*_

Apolo olhou no retrovisor. Nada.

Não reduziu. Continuou acelerando, fez mais curvas, pegou a estrada de terra. A lama espirrava, o carro derrapava, mas ele não parou até chegar na clareira.

Desligou o motor. A música parou no meio da frase — corte seco, abrupto.

O silêncio foi ensurdecedor.

Apolo ficou com as mãos no volante, ofegante. Suor escorrendo pela testa.

— Vai entrar — disse ele. — Fala pra Maria que a gente foi seguido. Eu vou já.

Sérgio desceu. Correu para o barraco. Digitou o código na porta de ferro — a luz azul piscou, a porta abriu. Ele desceu a rampa correndo.

— Maria! — gritou. — A gente foi seguido!

Maria largou o computador na hora. Levantou, foi até ele.

— Onde está o Apolo?

— Lá fora. No carro. Ele disse que vinha.

Lá fora, Apolo não foi direto para o barraco.

Ele contornou a clareira, foi até a garagem velha — uma construção de madeira coberta de musgo, quase invisível no meio da mata. Ninguém usava aquilo há anos.

Pressionou a mão contra um painel escondido atrás de uma tábua solta. A luz azul do leitor biométrico brilhou. A porta de madeira — que parecia parte da parede, sem maçaneta, sem trinco — se abriu devagar, rangendo.

Apolo entrou. A porta se fechou atrás dele.

Dentro, a garagem.

O espaço era amplo, empoeirado, com cheiro de óleo e ferrugem. Uma prateleira com caixas velhas. Ferramentas espalhadas. Livros empoeirados sobre fenômenos extraterrestres — os restos do antigo grupo de estudos ufológicos.

E a moto.

A Harley Davidson de Mike estava no centro da garagem, exposta, sem lona. As ferramentas no chão ao redor — chaves inglesas, alicates, uma lata de óleo vazia. Alguém tinha mexido nela recentemente.

Apolo estranhou. Mas não teve tempo de pensar.

Ouviu um rangido atrás dele. Uma parte do piso de madeira se levantou — uma escotilha no chão, que ele nem sabia que existia.

Mike saiu de dentro.

Jaqueta jeans, camiseta preta, óculos escuros enfiados na cabeça.

— Você tá aí — disse Mike.

Apolo deu um passo para trás, assustado.

— Como você... o que você está fazendo aqui?

— Tava mexendo na moto. Usei a escotilha dos fundos — liga a garagem com o bunker. O pessoal antigo instalou. Você nunca usou?

— Não sabia que existia.

— Nem eu, até umas semanas atrás. O Sérgio que achou, mexendo nos papéis antigos.

Mike olhou para Apolo de cima a baixo. A calça suja de lama. A camisa molhada de suor. A respiração ofegante.

— O que aconteceu?

Apolo respirou fundo.

— Fui na escola. Peguei o material das aulas virtuais — provas, exercícios, planejamento. Nada demais.

— E?

— E me seguiram.

Mike ficou em silêncio.

— Dois carros pretos. Saíram da lanchonete atrás de mim. Perdi eles no caminho, mas... chegaram perto. Muito perto.

— Eles viram você saindo da escola com a pasta?

— Provavelmente. Devem ter achado que era outra coisa.

— O que você disse pro diretor?

— Que vim buscar material pras aulas virtuais. É a verdade.

Mike pensou por um segundo.

— E eles acreditaram?

— Não sei. Mas me seguiram até a lanchonete. Entraram atrás de mim. Tiveram que invadir o banheiro feminino pra me procurar. A senhora gritou, se assustou. Foi aí que eu escapei pelo beco.

Mike assentiu devagar.

— Eles estão te marcando. Querem saber onde você vai. Quem você encontra.

— Eu sei.

— Vamos descer. Você conta direito lá dentro.

Desceram pela escotilha do chão — uma escada de ferro enferrujada que levava direto para o bunker. O corredor subterrâneo era estreito, mal iluminado, com cheiro de terra úmida.

Chegaram na sala principal.

Maria estava de pé, os braços cruzados. Sérgio no sofá, ainda pálido.

— Senta — disse Maria, apontando para a cadeira.

Apolo sentou. Contou tudo — desde a chegada na escola, a conversa com o diretor, a interdição, o material que pegou no armário. As aulas virtuais. O movimento na lanchonete. O homem de terno preto no beco. O grito no banheiro feminino. A fuga pela janela. A perseguição de carro. O terreno baldio.

Quando terminou, o bunker ficou em silêncio.

Mike foi até a bancada. Pegou a pasta preta, abriu, folheou rápido. Provas. Exercícios. Planejamento de aula. Nada mais.

— Não é isso que eles querem — disse Mike. — Eles querem saber o que você sabe. Onde você vai. Quem você encontra. A pasta é só um pretexto.

— E agora? — perguntou Apolo.

Mike fechou a pasta.

— Agora a gente sabe que eles estão mais perto do que a gente imaginava.

Apolo olhou para a rampa que subia para a porta de ferro. Lá em cima, a clareira. A mata. A estrada de terra.

— Será que eles viram a gente entrar aqui?

— Não sei — disse Mike. — Mas não podemos contar com a sorte.

Foi até a parede onde os monitores estavam instalados — desligados ainda, aguardando as câmeras que ele planejava colocar. Passou a mão na tela preta.

— A partir de agora, a gente assume que estão vigiando.

Maria foi até ele.

— O que você quer dizer com isso?

— Quero dizer que a porta de ferro lá em cima pode não ser segura por muito tempo.

O silêncio pesou.

A frequência 963 zumbia baixo no fundo — o som invisível que agora fazia parte da rotina.

Lá fora, a tarde caía. A clareira escurecia.

E dentro do bunker, ninguém sabia quantos olhos estavam parados na mata, esperando.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...