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sábado, 15 de agosto de 2026

Capítulo 14: Na escuta, na escuta?

 


Capítulo 14: Na escuta, na escuta?


Pouco tempo depois da saída da equipe de busca. 20:53.


O bunker tá em silêncio. Não é paz. É peso.


Maria tá cabisbaixa, sentada no sofá da sala. Olho no chão. Mãos entrelaçadas, apertando até os dedos ficarem brancos.


Beatriz se achega. Senta na beirada do sofá. 


Não fala nada de cara. Só fica ali.


“Maria?”, Beatriz chama baixo.


Maria não levanta a cabeça. “É tudo culpa minha.”


“Que que cê tá falando?”


“Eu fui conivente, Beatriz.” A voz dela quebra. “Eu sabia dos riscos. Eu entendi o que tava vindo. E mesmo assim deixei acontecer. Deixei todo mundo entrar nisso. O Sérgio, o Mike... até os meninos.” O choro vem de uma vez. Engasgado, doído. “Parece que tudo isso... é culpa só minha.”


Beatriz puxa ela pro abraço. Acaricia o cabelo. “Não fala assim. Ninguém sabia de nada. Nem você.”


Maria chora no ombro dela. “Mas eu devia saber. Eu sou a cientista. 


Era pra eu ter previsto.”


Beatriz espera o choro diminuir. Respira fundo. Muda o tom. “Tô preocupada com o Apolo.”


Maria se afasta um pouco, enxuga o rosto. “Por quê?”


“Ele é impulsivo demais, Maria. Cê viu como ele ficou quando o Mike mandou ele ficar. Se der alguma merda lá fora, ele vai querer sair correndo. E com esses cadernos na mão...”


Maria abaixa a cabeça. Fica em silêncio uns segundos. Depois solta: “Eu também amo alguém impulsivo.”


Beatriz arregala o olho. “Quem?”


Maria respira fundo. “Em toda minha vida, eu tive uma prioridade: ciência. Ser como meu pai, como meu avô. Carregar o legado. Poucas vezes eu senti que... gostei de alguém de verdade. Eu achei que tinha conhecido o amor. Lark Andersen.” Maria balança a cabeça. “A gente estudou junto quando criança. Formamos juntos. Ele conhecia minha família por minha causa. Mas a gente nunca evoluiu. O amor dele, o meu... a ambição tava toda voltada pra ciência. A gente escolheu o laboratório.”


Maria olha pro chão de novo e diz: “Eu não sei lidar com o que eu sinto porque a pessoa que eu nunca pensei que ia amar vive pra lá e pra cá limpando arma, resmungando, tomando cerveja e fumando cigarro. Totalmente diferente de uma pessoa como o Lark, que era intelectual. Mas o Lark vendeu sua alma, enquanto o Mike quase perdeu a sua vida por mim.” Ela engole seco e disse: “Eu amo o Mike. Ele é o impulsivo que eu amo.”


Beatriz fica boquiaberta por dois segundos. Depois ri, sem humor, pra quebrar o peso. “Cê descobriu essa face do Apolo agora. Eu descobri a do General faz tempo.”


As duas dão um meio sorriso. Triste, mas verdadeiro.


Aí ouvem.


Um choro. Abafado. Vindo da cozinha do bunker.


Elas se levantam na hora. Vão até lá.


Marcos tá no chão. Posição fetal, encostado na parede da pia. Chorando compulsivo, ombro tremendo.


Beatriz e Maria se abaixam. Cada uma pega numa mão do garoto.


“Vem, Marquinhos”, Beatriz chama baixo. “Vamos até o sofá.”


Ele balança a cabeça, negando. A voz sai entre soluços: “Não consigo... acreditar em Deus. Deus deixou isso acontecer com meu vô. Deixou todas essas tragédias. Não é possível que exista um Deus bom. Igual o Pastor de Josué falou na célula na casa de Josué.”


Beatriz abraça ele. “Marcos, não é tempo de ficar tentando achar culpados numa situação como essa. É muito difícil pensar, se quer. Então julgar algo... se acalma.”


Maria fica quieta um segundo. A Maria cética. A cientista sem coração. Ela se abaixa na altura do Marcos. Olha no olho dele.


“Marcos, não é porque Deus tenha permitido tudo isso que essa seja a vontade Dele. Talvez Ele esteja aguardando o tempo certo. Depois de tudo que eu vi, não existe possibilidade lógica de não existir alguém por trás de todas essas coisas. Maior do que as coisas que vieram acontecer.”


Ela puxa o garoto e abraça. “Fica calmo.”


Marcos respira fundo no ombro dela. O choro diminui. O corpo relaxa.


Após o abraço, eles se afastam devagar.


Aí tudo dá errado.


As lâmpadas começam a piscar. Frenético. O alarme de movimentação externa dispara. Um som agudo, cortando o bunker.


Maria, Beatriz e Marcos se jogam contra a parede. Se abaixam. Esperam o pior.


Apolo sai do laboratório correndo. Na mão, um protótipo novo. Um holofote de 2.000W com lâmpadas UVC acopladas. Junto, duas caixas de som relativamente altas, ligadas num gravador. A frequência 963Hz começa a ecoar, grave, preenchendo o bunker.


Ele se posiciona na frente delas. O holofote e o som formam um escudo.


As lâmpadas param de piscar. Tudo volta ao normal. Silêncio.


Aí ouvem.


Passos. Firmes. Em cima do bunker. Pesados, mas não humanos. 


Apolo sussurra: “Silêncio.”


Pou. Pou. Pou.


Os passos continuam. Depois um grunhido. Grave, abafado. Do lado de fora.


O som dos passos some. Rápido. Velocidade absurda.


Breve silêncio.


Aí vem outro som. De longe. Um cervo sendo atacado. Um berro agudo, cortado no meio.


Todos ficam apavorados. Paralisados.


O som some. Silêncio absurdo de novo.


Eles começam a se levantar devagar.


Apolo diz: “Eu preciso fazer uma ronda.” Ele já tá com as duas pistolas na mão. Entrega o protótipo ligado pra Beatriz. “Fica com isso.”


Ele some pelos corredores do bunker. O resto fica intenso. Respirando baixo.


Depois de algum tempo, Apolo volta. “A barra tá limpa.”


No momento em que ele diz isso, o rádio do laboratório chia.


Maria trava. Estado de choque e alerta. “Mike.”


Ela levanta e sai correndo pro laboratório improvisado. Todos atrás.


Ela roda o botão de frequência. Nada. Volta pra posição anterior. Chiado de novo.


E do chiado, a voz de Sérgio sai. Baixa. Urgente. Desesperada:


“Na escuta. Na escuta.”


Maria responde com a voz desesperada: “Tá tudo bem?”


Sérgio responde: “Tenho notícias. Nós acabamos não nos comunicando quando chegamos. Nos desculpe pela falta de notícias. Então, exatamente como o pai do Jonathan e do Marcos disse, tá a casa do avô deles. Uma destruição absurda. Portas arrancadas, animais mortos, um cheiro horrível de sangue podre e cadáveres que estão espalhados por todo o terreno. Porém, eu tenho novidades. Coletei algumas amostras dessa gosma que ele havia dito e posso afirmar: é algo que não pertence a essa dimensão. Claramente.” A voz de Sérgio saía falando em movimento. “Porém...”, ele continuou. “Nos encontramos aqui uma porta que leva para um subsolo da casa do avô de Jonathan. Que se lembrou de uma porta chamada de casa de pólvora, que na verdade é uma entrada para um subsolo. Estamos descendo. Preciso desligar o rádio.”


Maria responde desesperada: “Sérgio! Sérgio! Não desligue! Fale conosco! Eu preciso de informações! Como vai que tá e já.”


O rádio corta. Não sai mais som do buzzer. 0.0.


Maria se levanta rapidamente, de forma nervosa. “O que diabos esses homens têm que eles não conseguem finalizar uma conversa?”


Marcos corta a cena, puxando a blusa de Maria. “Você pode me deixar fazer algumas pesquisas do seu notebook?”


Maria olha pra Marcos. Ele estava visualmente diferente. O semblante estava diferente. Ela assente e leva o garoto até o seu notebook. Rapidamente, ele começa as suas pesquisas.


Enquanto isso, Maria volta os olhos para Apolo, que estava abraçando Beatriz. E ela aperta os próprios braços e fica com um olhar perdido. Enquanto sussurra: “Mike, onde você está?”


A cena muda.


Mike à frente, com a sua calibre doze na mão.


Atrás dele, Jonathan que estava perdido em olhares. Pois nunca tinha visto aquela parte da casa do seu avô.


E Sérgio, colocando o rádio no cinto.


Ao término dessa escada eles dão direto de frente com um corredor. Nesse corredor as luzes de segurança estão totalmente apagadas. Não há som. E eles seguem apenas com as luzes da lanterna UVC ligadas e apontadas em direção à frente. Enquanto Sérgio segura o protótipo dentro da sua mochila, que estava posicionada de frente ao seu corpo e não nas suas costas. O dedo estava trêmulo em cima do botão, enquanto o protótipo estava em ponto de funcionamento. Só o que se ouve nesse corredor é apenas respiração pesada. O corredor estava limpo. Não tinha sinais da entrada de ninguém.


Mike olha para Sérgio e pergunta: “Cê fechou a porta na hora que a gente entrou?”


Sérgio disse: “Sim. Bati a porta.”


Então eles se deparam no final do corredor com uma bifurcação. O corredor era estreito, porém tinha um percurso grande. E ao chegar nessa bifurcação, eles se perguntam: “E agora? Qual lado?”


Sérgio disse: “Vamos pela direita.” Enquanto Jonathan fica perdido entre qual lado gostaria de ir. Mike diz: “Vamos, Jonathan. Para de ficar olhando em volta. Precisamos encontrar algum vestígio.”


Jonathan volta para a realidade. Seus olhos enchem de água e ele fala baixinho: “Vô.”


Eles ouvem um barulho vindo da direita. Como se fossem cabos de vassoura caindo. Mike levanta sua arma e disse: “Fiquem atrás de mim.” E segue.


Esse corredor era um corredor menor. Logo eles chegam com uma porta comum. E quando eles abrem essa porta, eles se deparam com o avô dos garotos. Ferido gravemente no pescoço e braço esquerdo. Mas com uma arma diferente nas mãos. Muito fraco e perdendo sangue, mesmo com um torniquete no braço.


Mike disse: “Senhor Artur? Senhor Artur, é você? Responda-me.” E o senhor vira o rosto para ele e balança a cabeça.


Então eles saem correndo em direção ao Senhor Artur. Mike rapidamente aperta o ferimento e pede para que Sérgio prepare para usar o Domo de defesa. Mike, sem evitar, coloca Senhor Jankolski nas costas. Todos se preparam para sair dali o quanto antes. Eles marcham em velocidade acelerada até a porta. Enquanto Artur balbucia palavras e diz: “Vocês não têm noção do que está à solta.”


Mike disse: “Senhor Artur, poupe suas palavras. Primeiro vamos chegar à nossa base e lá o senhor vai ficar melhor e vai poder nos explicar com muito mais detalhes.” Artur concorda com a cabeça e com o seu olhar e desmaia nas costas de Mike.


Enquanto isso, Jonathan enxuga as lágrimas e segue a princípio. Juntamente a Sérgio, que continua trêmulo, porém agora aguardando sair do subsolo. Aonde ele começa a perceber que Artur estava utilizando no subsolo de sua casa, no bunker dele, a mesma frequência que Marcos havia dito quando começaram a pesquisar formas de defesa. A frequência 963.


Eles saem até a escada. E ao subir a escada, Sérgio pega o cartão, passa na frente deles e passa. E diz: “Acesso negado.” Então eles ficam olhando um para os outros. “E agora?” E Mike diz: “Sr. Artur, acorde. Como saímos daqui?”


Enquanto isso, Sérgio nem olha para Mike. Ele vê os três botões posicionados ao lado da porta. O primeiro botão ele aperta 9 vezes. O segundo botão ele aperta 6 vezes. E o terceiro botão ele aperta 3 vezes. A porta abre instantaneamente. E eles saem em direção ao carro.


Chegando do lado de fora do rancho, eles notam que a casa dos Mackenzie estava totalmente sem energia. As janelas apagadas, nenhum sinal de luz. O breu engolia a estrutura inteira, como se a casa tivesse sido arrancada da existência. Nem a lâmpada da varanda piscava. Só escuridão. Rapidamente eles ajeitam Senhor Artur. Sentam Jonathan de um lado, Sérgio do outro, segurando a toalha que estancava o sangramento.


Mike dá partida no carro, que liga instantaneamente. Ele acelera. Enquanto isso ele disse: “Sérgio, já aperta esse botão.” E quando o Sérgio aperta o botão, o Domo toma completamente o carro. Assustando a eles, porque Mike pensava que o Domo de segurança não comportaria totalmente o carro. Porém ele se adaptou ao tamanho do carro.


Artur olha para a mão de Sérgio e disse: “Você é o garoto estranho que anda com Marcos e com o Jonathan. Eu prometo que nunca mais te chamo de estranho.”


“Na verdade, você não é tão estranho pra mim. Você me lembra alguém... Eu só não consigo lembrar o nome, mas...” E Sérgio disse: “Eu sou da família do Alcides.”


Então Artur, com a voz fraca, disse: “General Alcides? Eu não acredito...” Porém Jonathan corta a conversa e diz: “Vô, apenas respira. Você está fraco. Precisa repousar. Vamos chegar. Por favor, só aguente.”


Mike estava tenso, segurando o volante, pensando que o Domo estava sendo testado pela primeira vez agora. Eles nem perceberam se a bateria estava subindo ou descendo, se mantendo. Eles só queriam chegar na base.


Porém, enquanto eles estavam na estrada acelerando, passa e vem um carro preto. Uma SUV que estava vindo na direção oposta com vidros filmados. O carro passa em alta velocidade ao lado da SUV enquanto ela freia brutamente e começa a fazer o contorno para vir atrás do carro deles. Então Mike engata a quarta e acelera no máximo. Pede para que se segurem e começa uma perseguição.


Mike toma um outro caminho e sobe para o lado das Colinas. Enquanto a SUV começa a seguir. Mike faz o contorno pelo caminho das Colinas, ganhando muito espaço de distância da SUV, e entra em um túnel que dá próximo ao lago. Enquanto a SUV passa direto, mas percebe que eles não estão à frente e volta para trás pelo túnel. Mas Mike dá a volta e acelera o máximo que pode na reta, voltando para a estrada e entrando para o lado das lanchonetes.


E ele começa a perceber que no caminho muitas casas estão desligadas. Enquanto isso, ele estava olhando para os lados. Ele atropela algo.


Um corpo totalmente negro, cor de pixe.

Fica caído na estrada. Não era gente. Bateu no Domo e caiu. Mike dentro de si disse: “Teste concluído com sucesso. Domo funciona.” E continua acelerando sentido à clareira, aonde fica a entrada escondida do bunker.


Logo ele entra, dessa vez com o carro, para dentro do compartimento de segurança do Bunker, que foi acionado com sucesso. Logo a entrada se fecha. E eles ouvem, do lado de dentro da parte de segurança do Bunker, os carros passando em alta velocidade por ali. O que significa que eles não estão 100% seguros.


Então os garotos descem, tirando o Senhor Artur, carregando ele nos seus ombros até a escada que dá acesso à porta interna do Bunker. 


E Sérgio dá o rádio para Mike, que chama: “Apolo, na escuta. Abra a porta rápido.”


Apolo estava sentado no sofá ao lado de Beatriz, passando a mão na cabeça de Marcos que havia se deitado em seu colo e dormindo. Ele deixa a cabeça do garoto no colo de Beatriz e sai correndo. Porém Maria chega primeiro.


Maria pega o comunicador e responde: “Mike, onde você está?” Ele disse: “Maria, abre essa porta!” E Apolo, vendo que ela já tinha atendido, corre para a porta e faz a combinação e abre a porta.


O que eles veem: Mike sujo de sangue, com rádio na mão, a 12 pendurada junto ao seu pescoço por uma bandoleira, e os garotos carregando Artur Jankolski em seus braços.


Com o barulho de Mike entrando, Marcos desperta quando Beatriz se levanta a pedido de Apolo. Corre Beatriz. Então Marcos se assusta e corre junto. E quando ele vê o seu avô na situação que estava, Marcos se ajoelha e disse: “Muito obrigado, meu Deus. A partir de hoje eu sou todo seu!!!”

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Capítulo 13: O Reconhecimento




 Capítulo 13: O Reconhecimento


O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.


Eles estão prontos.


Mike não abre a porta. Ele trava de novo.

"Testa."


Sérgio olha pro medidor na bateria que tá dentro da mochila dele. "Noventa e nove."


"Deixa ligado", Mike fala. "Dez minutos."


Eles ficam dentro. Sete pessoas apertadas. O campo faz o som ficar abafado. O relógio da parede anda.


Sérgio não tira o olho do número. 99... 98... 97.

"Caindo", ele avisa.


Maria marca no caderno. "Normal."


Jonathan esfrega a testa. "Tô zonzo."


Marcos respira fundo. "Peso no peito."


Apolo apoia a mão na bobina. Suando.


Sérgio pisca. Olha de novo.

"Noventa e oito."


Mike franze a testa. "Subiu?"


"Noventa e nove... cem." Sérgio bate com o dedo no medidor. "Cem por cento."


Ele desliga o domo. O campo cai. Todo mundo solta o ar de uma vez.


Mike sai primeiro. "Vocês sentiram?"


"Tontura", Jonathan fala.


"Parece que corri", Apolo completa.


Sérgio encosta a mão na bateria da mochila. Tá fria. Ele abre o caderno do pai da Maria e escreve rápido.

"Campo estável. Bateria caiu pra 97 e voltou pra 100 sozinha. Consumo elétrico zero. A gente pagou a conta."


Maria olha. "Pagou como?"


"Energia vital", Sérgio responde. "Pouco. Mas tirou da gente e jogou na bateria. Ele se alimenta da gente pra se manter."


Mike guarda a informação sem discutir. Ele já tá pensando na rua.

"Então a gente não leva o domo ligado. Leva desligado, na mochila. Só liga se for pra não morrer."


Apolo levanta. "A gente vai agora."


Mike aponta pra ele com o queixo.

"Você não."


O bunker silencia.


"Você fica", Mike continua. "Eu vou. Sérgio vai. Jonathan vai."


Apolo: "Por quê eu fico?"


"Porque eu sou defesa", Mike fala. "Se tiver tiro, eu seguro. Sérgio é inteligência, ele sabe o que coletar e o que não tocar. E o Jonathan é reconhecimento. É a única planta baixa viva daquela casa."


Marcos levanta a cabeça. "Meu vô..."


"Pode tá vivo", Mike corta, mas sem prometer. "Teu avô sumiu, não acharam corpo. Velho da roça não morre fácil. Se esconde. Todo veterano tem um canto."


Apolo olha pro irmão. "E eu?"


Mike põe a mão no ombro dele. Firme.

"Porque alguém tem que segurar o bunker se der merda. Porque teu irmão vai precisar de alguém lúcido no rádio. E porque corre no sangue de vocês."


"Sangue do quê?"


"Do Alcides", Mike responde. "Teu tio avô. Militar e cientista. O cara que todo mundo chamou de doido e que mandou o bip certo na hora certa. Ele não era covarde. Era preparado. Você é igual seu tio-avô, só tá com medo de admitir."


Apolo respira. Olha pra Maria. Ela assente.


"Você fica e lê", Sérgio fala, e entrega os três cadernos pra ele. Dois do pai da Maria, cheios de grafite, e um velho de capa de couro do avô da Maria. "A gente leva o domo e traz a amostra. Você acha a defesa."


Apolo segura os cadernos. "Vinte e cinquenta. Se vocês não voltarem em duas horas, eu mantenho o rádio aberto e o bunker trancado."


"Vinte e cinquenta", Mike confirma. Olha o relógio. 20:47.


Maria entrega o rádio curto pra Sérgio. "Canal três. Só emergência."


Beatriz entrega três potes de vidro. "Pra gosma."


Marcos entrega a chave do Chevrolet. "Tanque cheio."


20:50. Eles saem.


A noite tá fechada. Sem lua. O Chevrolet amarelo acende o farol baixo e desce a serra. Mike dirige. Sérgio no banco do passageiro com a mochila do domo desligado nas costas. Jonathan atrás, com a espingarda no colo.


Mike quebra o silêncio primeiro.

"Fala do sítio, Jonathan. Quantas entradas tem?"


Jonathan se inclina pra frente.

"Duas. Portão da frente pela estrada de chão, e uma trilha por trás que sai no rio. A casa é grande, não é casinha. Chácara boa. Meu vô tinha galpão, paiol, e a casa principal com dois andares."


Sérgio vira meio de lado. "Energia?"


"Tinha luz que nunca caía", Jonathan responde. "Mesmo quando Pomerode ficava no escuro, lá ficava aceso. Ele falava que era 'nobreak de hospital'."


Mike assente. "Velho precavido."


"Tem mais", Jonathan continua, a voz mais baixa. "Nos fundos, atrás da cozinha, tem uma porta de aço. Pintada da cor da parede. Ele chamava de sala da pólvora. Dizia que se a gente entrasse, explodia tudo. Nunca deixou nem eu nem o Marcos chegar perto."


"Não é pólvora", Mike fala. "É o canto dele."


"Ele tinha câmera também", Jonathan lembra. "Eu via as luzinhas vermelhas de noite, mas nunca achava onde tava. Ele ria e falava 'quem procura acha problema'."


Mike dá um meio sorriso sem humor. "Então teu vô tava esperando isso faz tempo."


Jonathan engole seco. "Acho que sim."


Vinte e cinco minutos. Eles param a duzentos metros. Mike apaga o farol. Apaga tudo. Vão a pé.


O cheiro bate primeiro. Mesmo de longe. Sangue velho, víscera, bicho morto no sol. Só que é noite. Tá frio. E fede igual.


Mike levanta a mão. Param.


A casa do avô tá do jeito que o Seu Carlos descreveu no rádio. Porta da frente arrancada das dobradiças. Três riscos paralelos na madeira, fundos, de cima a baixo. Sangue preto espirrado na parede da varanda. No chão do terreiro, os bezerros. Abertos no meio. Não cortados. Rasgados. Ocos por dentro, secos, como se tivessem sugado a carne e deixado o couro.


As galinhas em volta, mesma coisa. Penas intactas, dentro vazio.


E o rastro. Grosso como um braço. Preto. Não brilha na lanterna. Sai da cozinha, atravessa a sala e some no boeiro atrás do galinheiro.


Jonathan morde o lábio até sangrar. "Vô..."


"Depois", Mike sussurra. "Primeiro prova."


Sérgio já tá de luva. Ajoelha do lado do bezerro. Tira foto com o celular sem flash. Coleta com cotonete o sangue preto da borda do corte. Guarda no tubinho. Raspa a matéria do chão, coloca no pote de vidro. Fecha.


"Temperatura ambiente", ele fala. "Não coagula. Não cheira a ferro. Cheira a ozônio."


Ele anda até a parede. Pega uma cápsula no chão. Não é de bala. É menor. Redonda, achatada, cor de chumbo fosco. Tem um sulco no meio.

"Olha isso", ele chama Mike.


Mike pega. "Não é 9mm. Não é 12. Não é nada nosso."


"Parece pastilha", Sérgio fala. "De arma de pressão. Ou de outra coisa."


Jonathan aponta pro canto da sala. Cápsulas de 12 espalhadas. Pólvora no chão. "Ele atirou."


"Muito", Mike confirma. "E não adiantou."


Sérgio guarda a pastilha estranha no segundo pote. "Batalha. Arma convencional contra campo."


Jonathan já tá indo pros fundos. Para na frente da porta de aço, pintada da mesma cor da parede. Intacta. Sem risco. Sem sangue. Do lado, um aviso escrito à mão pelo avô: PERIGO PÓLVORA NÃO ENTRAR.


"É essa", Jonathan sussurra. "A sala da pólvora." 


Ele encosta o ouvido. "Tá zumbindo."


Sérgio chega perto. "É igual. Não é igual ao domo, mas é parecido. Frequência baixa."


Mike olha pra cima. Aponta a lanterna. Três câmeras pequenas, escondidas nos cantos do batente. Lentes pretas. Mortas.

"Sem energia", ele fala.


Um som estoura longe. Vem da direção da estrada de baixo. Um grunhido fino, gutural, que não é de gente. Depois um tiro. Seco. Depois outro.


Mike apaga a lanterna na hora. Os três se agacham atrás da porta da frente.


Na estrada, na frente da casa dos McKenzie, aquela família alemã de Pomerode que fazia linguiça pra festa, uma luz de lanterna balança. Um vulto passa correndo. Rápido demais pra ser humano. Atravessa o facho de luz e some no mato.


Sérgio tira a mochila das costas. Abre. O protótipo do domo tá lá, com a bateria acoplada. Ele segura firme, dedo no botão, mas não liga.


Eles respiram pesado.


Lá dentro da casa, atrás da porta de aço, algo cai no chão. De propósito. Metal batendo em metal.


Mike levanta a espingarda. Sérgio se levanta devagar, encostado na parede. Ele passa a mão na porta. Tem três botões embutidos, quase invisíveis na pintura. Uma trilha de dedo marcada na poeira.


Ele aperta. Um, três, dois. Nada. Dois, dois, um. Nada.


Jonathan sussurra. "O cartão."


"O quê?"


"Meu vô não usava código", Jonathan fala rápido. "Ele tinha um cartão. Magnético. Guardava nos vasos da entrada. Ele trocava de vaso todo dia pra ninguém achar."


Jonathan levanta e corre até o aparador da entrada. Três vasos de barro. Ele vira o primeiro. Nada. O segundo. Nada. O terceiro tá caído, quebrado. No meio dos cacos, um cartão branco, todo sujo de sangue seco.


Jonathan pega. Volta correndo. Passa no leitor do lado da porta.


Click.


A porta de aço desliza pra dentro, sem barulho. Atrás não tem pólvora. Tem escada de metal descendo. Luz de emergência vermelha piscando fraca. Cheiro de óleo e fio quente.


E o zumbido. Persistente. Uma frequência grave que faz o peito vibrar.


Sérgio olha pra Mike. Mike olha pra Jonathan.


O rádio na cintura de Sérgio tá desligado. Eles não falaram com o bunker desde que saíram.


Lá de baixo, o zumbido muda de tom. Como se tivesse ouvido a porta abrir.


Jonathan segura o cartão com força. "Vô?"


Ninguém responde.


Mike destrava a espingarda mesmo sabendo que não serve. Sérgio liga a bateria do domo na mochila. A luz azul acende fraca, só em modo espera.


Os três se entreolham.


Sérgio sussurra. "Vamos."


E descem.

Capítulo 12: O Bip da Herança




 Capítulo 12: O Bip da Herança


Batidas na porta. Não as de antes. Secas. Ritmo de quem manda.


Mike já tá com a arma em punho.  

— Quem é?  


— Abre, Apolo. É seu pai.  


O bunker congela. Sérgio larga o lápis. Apolo olha pra porta como se tivesse ouvido um fantasma.  


Mike destrava. A porta abre.  


Seu Carlos e Dona Lúcia. Pai e mãe de Apolo e Sérgio. Roupa de estrada, cara de quem dirigiu a noite inteira. Atrás deles, o jipe parado com farol aceso.


Dona Lúcia entra primeiro. Olha pro braço de Apolo, pro rosto de Sérgio, pra Maria, pros garotos. O olho dela enche.  

— Meu Deus… vocês tão vivos.


Seu Carlos fecha a porta. Não cumprimenta. Vai direto no Apolo.  

— Arruma suas coisas. Você e seu irmão. A gente tá indo embora. Agora.


Apolo recua um passo.  

— Indo pra onde, pai?


— Amazônia. — Seu Carlos fala baixo, como se a palavra pesasse. — Fortaleza do seu tio-avô. O Alcides.  


Sérgio ri. Um riso seco, sem humor.  

— O Alcides? O doido do pager?  


Dona Lúcia corta.  

— Não fala assim do seu tio-avô, Sérgio.  


— Por que não? — Sérgio levanta, e o ódio que tava no papel agora tá no corpo todo. — A vida inteira a gente ouviu que ele era desertor. Que surtou na guerra e sumiu no mato. Que mandava bip pra chamar atenção.  


Seu Carlos puxa um aparelho preto, antigo, do bolso. Um pager. A tela verde acesa: SAIAM. AGORA. 47.9° -65.3°  

— Chegou ontem de madrugada. Junto com a notícia da vacina. Junto com o sumiço do gado do Seu Antônio. — Ele olha pra Apolo. — Seu tio-avô passou 40 anos chamando a gente de cego. Ontem a gente enxergou.


Apolo balança a cabeça.  

— A gente não vai, pai.  


— Vai sim. — Seu Carlos dá um passo. — Vocês dois. Já.  


Sérgio se mete na frente do irmão.  

— Não. — A palavra sai trincada. — A gente não abandona ninguém.  


Seu Carlos segura o braço do filho. Forte.  

— Você me escuta, moleque. Eu deixei você brincar de cientista. De mecatrônica. De herói. Acabou. Lá fora tem coisa matando. Seu tio-avô tem concreto de três metros, gerador subterrâneo, comida pra dois anos. Aqui vocês têm o quê? Ódio?  


Sérgio arranca o braço.  

— Aqui eu tenho gente que sangrou por mim! — Ele aponta pra Maria, pro Apolo, pro Mike. — O vô deles tá desaparecido! A gente tá a uma equação de botar um domo magnético pra funcionar e ir buscar! E você quer que eu corra pro mato?  


O silêncio é épico. Pai e filho se encaram. Igual a igual. Só que um tem 50 anos de medo guardado e o outro tem 20 anos de raiva destilada.


Dona Lúcia chora baixo.  

— Carlos… olha pra eles.  


Seu Carlos olha. Pro filho com olheira. Pro caderno cheio de cálculo. Pra Maria com a mão suja de grafite. Pros garotos no canto, tremendo.  

— Vocês… sabem de alguma coisa há dias. — Não é pergunta. — E não falaram.  


Apolo sustenta o olhar do pai.  

— A gente não ia arrastar vocês pra isso.  


Seu Carlos fecha os olhos. Um segundo. Quando abre, tá derrotado. E orgulhoso.  

— Então tá. — Ele solta o ar. — A gente vai. Eu e sua mãe. Sozinhos.  


Marcos levanta do nada. Vai até a bancada. Pega o rádio. O da viagem interdimensional. Aquele que chiou com a voz do avô.  

— Tio Carlos. — Ele entrega. — Leva isso.  


Seu Carlos franze a testa.  

— Pra quê?  


— É um protótipo. — Marcos olha pra Jonathan, que assente. — Meu vô deixou pra gente. Se conecta com a Buzzer 0.0. — Ele engole seco. — Vai até a casa dele. Na casa do meu vô. Lá vocês vão ter o que precisam pra crer.  


Marcos respira fundo, olha direto no olho do Seu Carlos.  

— E conversa com meus pais. Convence eles a irem com vocês até lá. Na casa do meu avô. Eles precisam ver pra acreditar. E pra seguirem com vocês. Com o senhor e com a tia Lúcia.  


Dona Lúcia pega o rádio com as duas mãos. Olha pros meninos. Olha pra Maria. Pra Sérgio.  

— Vocês… tão lutando de verdade. Não é de hoje. É há dias.  


Ela beija a testa de Apolo. Depois a de Sérgio.  

— Termina isso. — Ela aponta pros cadernos. — E depois vai buscar a gente.  


Seu Carlos segura a porta. Olha pro Sérgio uma última vez.  

— Não morre, filho.  


— Não vou. — Sérgio responde. — Eu já morri ontem. Hoje eu só volto.  


Eles saem. O jipe arranca. O barulho do motor some na estrada.


O bunker fica em silêncio por dez segundos.  


Aí Sérgio vira pra bancada.  

— Simulação. De novo.  


Maria senta do lado dele. Sem mandar. Sem liderar. Lado a lado.  

— Base reta. — Ela fala. — Oval em cima. Esquece a bolha perfeita. A gente precisa de chão.  


Sérgio já tá alterando os parâmetros.  

— Dois anéis concêntricos ainda. Mas o de baixo com campo estático. Âncora. O de cima oscila. Domo.  


Jonathan e Marcos puxam as cadeiras. Apolo segura o caderno do pai da Maria aberto na página que Sérgio marcou. Beatriz traz café. Mike fica na porta, vigiando.  


Três horas depois.  


A tela pisca: SIMULAÇÃO ESTÁVEL.  


Não é oval. É um domo. Base reta de 2 metros quadrados. Altura cravada em 2 metros. Cabe os sete, apertado, mas cabe.  


— Pode colapsar se a carga cair abaixo de 40%. — Sérgio lê o relatório. — Mas já dá pra rodar o teste físico.  


Maria levanta. Pega os cabos. Olha pra Sérgio.  

— Você terminou. — A voz dela falha. — O que meu pai tentou antes de morrer… você terminou.    


Sérgio não responde. Só assente. O ódio no rosto dele baixou. Virou outra coisa. Dever.


Eles montam o protótipo. Dois metros quadrados. Dois metros de altura. Condensa tudo ali. Fios, bobinas, o gerador no centro.  


Walk toc. Walk toc.  


O rádio. O outro. Que ficou no bunker. Chia.  


Voz baixa. Cansada.  

— Apolo… aqui é seu pai.  


Todos congelam.  


— A gente tá na casa do avô dos garotos. — A voz de Seu Carlos sai falha. — A casa tá toda revirada. Tem sangue… por toda parte. E uma matéria escura, tipo um rastro. Grosso. Vai na direção do boeiro.  


Jonathan morde a mão pra não gritar.  


— Seu avô não tá aqui. — Seu Carlos continua. — Mas… todas as criações dele. Os bezerros. As galinhas. Tão rasgados ao meio. Secos. Como se alguma coisa tivesse sugado tudo.  


Dona Lúcia chora ao fundo.  


— O Matteo e a Helena (pais dos Garotos) -  estão com a gente. — Seu Carlos respira fundo. — A gente vai pro bunker do seu tio-avô. Amazônia. Agora. Assim que amanhecer.  


O rádio chia. Depois morre.  


Maria desliga o gerador do protótipo. Olha pra cada um.  

— A gente tem um domo. Dois metros por dois. — Ela aponta pra porta. — E a gente tem um alvo.  


Sérgio pega a barra de ferro.  

— Então testa.  


Mike destrava a porta.  


O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.  


Eles estão prontos.

domingo, 2 de agosto de 2026

Capítulo 11: O Dia D e o Silêncio da mídia.






Capítulo 11: O Dia D e o silêncio da mídia


07:40 da manhã. 

Apolo tá encostado na parede fria do corredor. Olho vermelho de quem não dormiu. Ninguém dormiu. O bunker cheira a suor velho e metal quente. 

Ele pensa. A qualquer segundo aquela coisa pode voltar. Ou outra pior. Lá fora tem a CIA farejando Maria e Mike. Aqui dentro teve a Sentinela medindo tudo. Nenhum lugar é seguro. 

Na sala, Mike quebra o silêncio. Voz baixa, mas tensa.  
— Maria. Tô preocupado.  

Ela ergue o rosto. Olheiras fundas.  
— Com o quê especificamente, Mike? A lista é grande.  

— Com defesa. — Ele aponta pro teto. — O que a gente tem aqui não segura outra visita. A Sentinela entrou e saiu. Se vier algo maior…  

Apolo entra na sala, mancando. O braço ainda dói.  
— Na primeira captura a gente usou aquela pseudo-gaiola. — Ele olha pra Maria. — Efeito magnético. Dava pra fazer isso em escala maior? Cobrir o perímetro?

Maria leva a mão ao rosto. Fecha os olhos dois segundos.  
— Apolo… isso levaria tempo. Material, energia, cálculo de campo. Semanas. Talvez meses. E a gente tem dias.

Apolo ouve. Vira pra Mike.  
— Munição. Você ainda tem? Quanto?  

Antes de Mike abrir a boca, Beatriz corta da cozinha.  
— É lógico que agora tudo é perigoso. — Ela entra na sala com uma caneca vazia. — Comprar munição, sair na rua, respirar. Tá claro pra mim.  

Ela para no meio da sala. Olha pra cada um.  
— Eu não volto mais pro serviço. Se essa vacina for imposta, eu não vou aplicar. Não quero fazer parte daquilo.  

Ninguém discute. Todos consentem com a cabeça. Só isso. O silêncio volta a dominar o bunker. Pesado. Úmido.

Até que começa.

Batidas. Várias. Desesperadas. Gritos abafados pela porta de aço.  

— Abre! Pelo amor de Deus, abre!  

O cenário de terror voltou em dois segundos. Maria já tá de pé. Apolo pega a barra de ferro.  

Mike vai até a porta com a pistola numa mão e a lanterna na outra.  
— Afasta. — Ele rosna. Destrava. Abre.

Marcos, Jonathan e Sérgio caem pra dentro. Sérgio bate a porta atrás de si e gira a tranca. Os três tão ofegantes, sujos de terra.

Mike aponta a arma pro chão, mas não guarda.  
— Vocês tão loucos? Querem morrer? A gente precisa ser rápido aqui. Vocês explicam o que aconteceu e voltam pra casa. Agora.  

— Não, tio, espera — Marcos tá com a câmera do Sérgio na mão. — Você tem que ver isso.  

Antes que Mike comece o sermão, Sérgio já tá ligando a máquina. A tela acende. Fotos. Vídeos curtos.  

— Vizinhança inteira. — Jonathan fala rápido, atropelando as palavras. — Perto de casa. Perto daqui.  

Vídeo 1: Seu Antônio mostrando o curral vazio. “Onze vacas, Mike. Onze. Sumiram de noite.”  
Vídeo 2: Dona Lúcia chorando no galinheiro. Só pena no chão.  
Vídeo 3: O chiqueiro dos Borges. Silêncio. Nada.

Sérgio engole seco. Passa pro último vídeo.  
— Esse foi no fundo da casa do Marcos. A gente gravou pela fresta da janela.  

O vídeo treme. Escuro. Só o contorno do pasto. Então algo se move. Uma sombra de cócoras, grande demais pra ser gente. Tá curvada sobre o corpo de um boi. Não dá pra ver direito. Só o movimento. A cabeça baixa, depois ergue. Baixa de novo.  

O áudio capta Jonathan sussurrando: “Tá… bebendo?”.  

Marcos pausa o vídeo.  
— A gente sentiu. De madrugada. O chão tremia. — Ele bate o pé no chão do bunker, devagar. — Assim. A cada passo que aquilo dava. Um tremor. Breve. Mas o beliche vibrava.

O bunker fica mudo. Mike que ia dar bronca fecha a boca. A arma pesa na mão dele.

Sérgio quebra o silêncio.  
— O bunker é o único lugar seguro agora.  

Apolo balança a cabeça, devagar. Negando. Não pra ele, pro mundo.

Sérgio vê o gesto. Vê o braço do irmão enfaixado, roxo até o pulso. Os olhos dele arregalam.  
— Apolo… o que foi que aconteceu com você?  

Maria puxa o ar. Senta. E conta. Tudo. A Sentinela. As garras. O teto. O 963. A fuga. A TV. A vacina. Não poupa detalhe.

Quando ela termina, os três garotos não têm chão. Marcos afunda no sofá. Jonathan passa a mão no cabelo, repetindo “não, não, não” baixo.  

Marcos levanta a cabeça. Os olhos cheios de água.  
— E os nossos pais… — A voz quebra. — Com essa vacina… minha mãe já disse que vai levar minha vó e meu vô. Falou que é a esperança deles viverem mais tempo.  

Ele olha pra todos.  
— Minha mãe tá enganada.  

O caos que era de monstro e tiro agora vira outra coisa. Virou drama. Virou casa. Virou família. O ar ficou mais pesado que antes.

Walk toc. Walk toc.

O rádio. Aquele da viagem interdimensional. Em cima da bancada. Começa a chiar.

Não era um chiado comum. Era fino. Com um sonzinho agudo por baixo, quase um apito. 

Todos congelam. 

A voz sai baixa, entrecortada, mas conhecida.  
— Garotos. Garotos, vocês estão bem, garotos?  

Jonathan reconhece primeiro.  
— Vô?  

A voz volta, sussurrada.  
— Garotos, preciso de ajuda. Fui atacado nessa madrugada. Algo que eu não consigo compreender o que foi… atacou.  

Um estalo seco corta a transmissão. Um som estranho, como um raio estalando perto demais. 

E o grito. O grito do avô dele ao fundo. Longo. Rasgado.  

Depois a conexão morre.  

Fica apenas o som de chiado, pronto.  

O ambiente fica transtornado porque os garotos são segurados por Mike que não permite a saída deles do bunker.  

Então eles começam a gritar, chorar e é uma comoção total. Maria, Apolo, Beatriz tentam acalentar os garotos.  

Sérgio fica desesperado.  
— E agora? O que será que aconteceu?  

Ele tem um lapso. Olha pro lado, vê a TV desligada. Levanta num pulo e liga.

A primeira coisa que aparece é a RS News. O repórter tá na frente de uma fila gigantesca. Gente com roupa de hospital, cadeirante, idosos.  

— A missão midiática foi um sucesso — o repórter sorri. — E agora vamos expor as imagens e os vídeos que foram feitos na tal dimensão que é chamada de Dimensão Zero. Mas que agora está sendo chamada de Dimensão da Esperança.  

Cortam pra imagens. Céu azul demais. Grama verde demais. Prédios limpos, sem uma mancha. Gente andando, sorrindo. Tudo parece computadorizado, digitalizado. Num lugar maravilhoso que é totalmente semelhante à dimensão comum. Como se fosse apenas uma extensão material. Como se fosse mesmo um novo ambiente igual ao ambiente que já existia anteriormente. Na Terra, no jeito comum das coisas.  

Mike olha para a noticia e cospe as palavras:  
— Isso é uma farsa.  

Enquanto isso os garotos soluçam e choram preocupados com o seu avô e pensando sobre seus pais.  

Então todos se voltam para a TV por conta daquilo que começa a ser falado.  

— Temos uma notícia de que a vacinação ela teve que ser paralisada momentaneamente em todo o Brasil. — O repórter muda o tom, fica sério. — E a situação é a seguinte: tivemos um excesso volumoso de pedidos de socorro por alguns fatos rurais que vêm acontecendo. Possivelmente problemas internos e conflitos entre moradores. Talvez seja desinformação. Mas a polícia pediu que temporariamente não houvesse o início da vacinação para que eles pudessem corrigir essas situações locais. Porém, é uma situação que vem recorrente em todo o Brasil. Mas não de coisas iguais. Se tratam de coisas diferentes, mas que o presidente estava ciente, os governadores e todos estavam de comum acordo de que poderiam aguardar. Até mesmo porque eles estariam visualizando como seria o início da vacinação que ocorreu na madrugada do dia anterior lá nos Estados Unidos.  

Cortam para imagens dos americanos se vacinando. Fila organizada. Gente de jaleco aplicando. Pessoas recebendo a injeção no braço e saindo andando, como se nada tivesse acontecido. Sorrindo. Acenando.  

Todos olham com um olhar de muito, muito desespero.  

Beatriz puxa o ar.  
— Dos males esse era o pior. Porque eles ganharam tempo.  

Ela vira pra Marcos, tenta tocar o ombro dele.  
— A sua vó ainda não vai ser vacinada. E nós iremos descobrir uma forma de ir até a casa do seu avô. Fique calmo. Talvez não tenha acontecido nada com ele. Só uma queda de energia.  

Enquanto ela dizia isso, Sérgio estava com semblante de ódio. Os olhos vermelhos, mas não de choro. De raiva. Ele olhava pra Mike. Furioso.  

— Deixa ele sair daqui. — A voz dele sai trincada. — Precisamos ir até lá. O que aconteceu essa madrugada foi com vocês e não foi com a gente.  

Mike dá um passo pra frente. Mão aberta, mas firme. Olha pra Marcos e Jonathan.  
— Ninguém vai sair. Vocês ouviram o que o avô de vocês falou? Vocês ouviram o grito? Lá fora tem coisa caçando.  

— E aqui dentro a gente fica esperando morrer? — Sérgio empurra a mão de Mike. — É o vô deles! O vô deles, Mike!  

Apolo se mete no meio, tenta segurar o braço do irmão.  
— Sérgio, calma. A gente vai pensar em algo.  

— Pensar? — Sérgio puxa o braço. — Vocês tão pensando desde ontem! E o vô deles tá lá sozinho! E se tiver morrido por nossa causa? Por causa dessa merda de bunker?  

Mike mantém a voz baixa, mas dura. Olha pra Jonathan.  
— Se você abrir aquela porta, você morre. E aí quem ajuda o vô deles, cara… Hem?  

— Melhor morrer tentando do que ficar aqui escutando chiado de rádio! — Sérgio tá transtornado, cuspindo as palavras. — Vocês não entendem! O vô não é meu, mas é deles!  

Apolo segura os dois ombros do irmão, força ele a olhar.  
— Sérgio. Olha pra mim. Olha pro meu braço. Foi ontem. Quase que eu não volto. Você quer isso pra eles?  

Sérgio encara o roxo no braço de Apolo. Respira fundo. 
Não acalma. 
Mas para de gritar.  

Maria se levanta. Vai até a bancada. Bate a mão na mesa.  
— Chega. — Todo mundo olha. — Gritar não tira ele de lá. E morrer na porta também não.  

Silêncio. 
Só os soluços do Jonathan ao fundo.

Maria aponta pra Apolo.  
— A gaiola magnética. Você lembrou dela.  

Apolo assente.  
— Falei. Mas você disse que levava semanas.

— Levava. Pra cobrir o bunker. 

— Maria olha pra cada um. — Mas a gente não vai cobrir o bunker. A gente vai cobrir a gente.  

Beatriz entende.  
— Um domo. Móvel. De equipe.  

— Com perímetro de cinco metros. — Maria completa. — Cabe todo mundo. E a gente anda com ele.  

Mike franze a testa.  
— E como a gente faz isso em horas?  

Sérgio limpa o rosto com a manga. O ódio não foi embora. Virou outra coisa. Foco.  
— A gente agiliza. — A voz dele tá fria agora. 

— Corrida contra o tempo. Protótipo. Testa por simulação primeiro.  

Todos concordam. Sem votação. Sem dúvida. Corrida contra o tempo.  

Maria vai até o armário de aço. Chaveia. Tira três cadernos grossos, capa de couro gasta.  
— Do meu pai. — Joga na mesa. 

— Ele mexeu com campo unificado antes de sumir. 

Tem cálculo aqui.  

Sérgio puxa um caderno antes de Maria. Abre. 


Os olhos dele correm pelas fórmulas.  
— Capacitor de fluxo… inversão de fase… — Ele murmura. — Isso aqui tá pré-escrito. Ele já pensou num campo portátil.  

Apolo olha pro irmão. Nunca viu ele assim. O Sérgio que montava drone com sucata sumiu. Agora tem um crânio em mecatrônica no máximo, cuspindo termo técnico, folheando página com dedo sujo de terra.  

— Preciso do gerador, das bobinas do estoque, e dos cabos de cobre. — Sérgio não pede. Ordena. — Jonathan, busca. Marcos, me ajuda com a bancada.  

Maria puxa o outro caderno.  
— Página 47. Ele fala de colapso de borda. Se o campo não fechar em 360, vaza.  

— Então a gente fecha. — Sérgio já tá rabiscando no verso de uma conta de luz. — Dois anéis concêntricos, defasados em 90 graus. Gera uma bolha, não um muro.  

Uma hora depois. Primeira simulação. Usam o notebook velho da Maria. Modelam no software de física.  

O resultado pisca na tela: FALHA.  

Sérgio bate na mesa.  
— Parede magnética. Só isso que a gente fez. — Ele aponta pro gráfico. — Funciona como escudo frontal. 

Cobre 120 graus. Atrás fica pelado. Não é suficiente. Se a coisa vier por trás, acabou.  

Mike olha a simulação.  
— Então volta pros livros.  

Sérgio não responde. Já tá com o caderno do pai da Maria aberto de novo. O ódio no rosto dele virou combustível. Cada linha que ele lê, ele rosna uma ideia. Cada erro da simulação, ele risca e reescreve.  

— Aqui. — Ele marca com a unha. — ‘Coerência de fase por harmônicos não-lineares’. Ele não terminou. Mas a gente termina.  

Maria senta do lado dele. Pela primeira vez, ela não lidera. Ela assiste.  
— Fala. O que você precisa?  

Sérgio não tira o olho do papel.  
— Tempo. E que ninguém me chame pra chorar. — Ele olha pra ela, rápido. — Eu tiro o vô deles de lá. Mas eu preciso que vocês calem a boca e me deixem pensar.  

O bunker ficou em silêncio. Só o barulho de lápis no papel. E o chiado do rádio, ainda ligado.  

A corrida começou.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Capítulo 9: A Fenda Gosmenta e as leis da matéria. (A visita da sonda Sentinela.)

 







 

Capítulo 9: A Fenda Gosmenta e as leis da matéria.

(A visita da sonda Sentinela.)


Eram 03:15 da madrugada quando o primeiro alarme disparou, cortando o silêncio pesado do bunker.


Só restavam os quatro adultos: Mike e Maria, Apolo e Beatriz. Os garotos haviam sido levados para casa horas antes.


Todos acordaram sobressaltados. Maria sentou na cama primeiro, olhos arregalados.


— Mike… ouviu isso?


Mike já estava de pé, pegando a pistola debaixo do travesseiro.


— Levanta. Rápido.


Um ruído úmido, como carne sendo rasgada devagar, veio da sala principal. Quando os quatro chegaram correndo ao corredor, a visão os paralisou.


Uma criatura humanóide de quase dois metros de altura havia rasgado um túnel dimensional diretamente dentro do bunker. Pele cor de cadáver, meio amarronzada, com textura oleosa e irregular, cabeça alongada. Seus olhos grandes, vermelhos sanguíneos e brilhantes, sem pupila, pareciam perfurar a escuridão. A boca entreaberta revelava fileiras de dentes afiados, irregulares e amarelados, como lâminas tortas.


Assim que a criatura se manifestou completamente, ela emitiu um som aterrador — um grunhido grave e distorcido que fez o ar tremer, como se a própria realidade vibrasse. Os alarmes do bunker dispararam imediatamente.


— O que e isso??? — murmurou Apolo, empurrando Beatriz para trás.


Mike não hesitou.


— Atira!


Os tiros ecoaram altos. A criatura recuou, mas logo inclinou a cabeça. Mike abaixou um pouco a pistola.


— Olha a postura dela. Não veio pra matar agora. Veio observar.


Maria, já no console do laboratório, completou:


— A assinatura dimensional é parecida com a da Fortaleza. É a mesma instabilidade que Kairos avisou que poderia acontecer se o bracelete fosse usado de forma errada. Essa criatura foi lançada nos tecidos dimensionais… pra encontrar cortes, traços, qualquer coisa que tivesse ficado aberta.


Mike assentiu.


— Exato. Ela veio só pra observar. Pra descobrir o que tinha do outro lado dos rasgos que a gente deixou.


Mal terminou de falar e a criatura soltou outro grunhido gutural, muito mais alto. Seus olhos vermelhos brilharam com fúria. Ela cravou as garras na parede e, num movimento impossível, subiu no teto, andando de cabeça para baixo com as garras raspando o concreto.


— Ela tá vindo! — gritou Beatriz.


Mike esvaziou o pente inteiro. Apolo atirou também. As balas ricocheteavam, mas a criatura não parava. Maria correu desesperada para o painel principal do laboratório.


A criatura soltou um rugido gutural ensurdecedor e saltou do teto diretamente sobre Apolo, derrubando-o no chão. Seus dentes afiados estavam a centímetros do pescoço dele, as garras erguidas para rasgar.


— Apolo! — berrou Beatriz.


No exato instante em que as garras desceram, Maria ativou a defesa de Hertz.


— Frequência 963! Agora!


Um pulso sonoro invisível, agudo e penetrante, encheu o bunker. A criatura congelou no ar. Seu corpo começou a tremer violentamente, desfigurando-se. A forma humanóide derreteu como fumaça preta, virando uma massa disforme e sombria que se contorcia. Ela soltou um último guincho agonizante e, engatinhando rápido como um quadrúpede deformado, arrastou-se de volta para o buraco gosmento na parede.


O buraco pulsou uma última vez e se fechou automaticamente, como se a realidade tecesse a si mesma novamente. Não sobrou nenhum rastro — nem marca, nem líquido, nem fenda.


Silêncio absoluto.


Apolo ainda estava no chão, ofegante, com Beatriz ajoelhada ao lado dele. Mike mantinha a pistola apontada para o lugar onde a criatura desaparecera. Maria encostou na parede do laboratório, mãos tremendo.


— Que merda era aquela! — sussurrou Apolo, sentando-se devagar. — Aquilo quase me matou.


Beatriz, voz embargada:


— Eu achei que você ia morrer… Meu Deus, aqueles dentes…


Maria respirou fundo, ainda processando.


— Na dimensão 3 as leis são mais rígidas. As coisas tendem a regredir, a voltar ao equilíbrio. Aquela frequência 963… ela reforçou a lei natural daqui. A criatura tinha poder de desfigurar a realidade pelo caos, mas não consegue quebrar as leis concretas quando a brecha que permitiu ela entrar é fechada. Por isso ela regrediu pra fumaça e fugiu.


Mike guardou a pistola devagar, mas seu rosto estava sério.


— Isso não muda o principal. Agora não estamos mais seguros. Se essas coisas são parte de uma consciência coletiva, como o Larkin insinuou na entrevista sobre a D2.9… então o bunker já é conhecido. Eles sabem exatamente onde estamos. E podem mandar mais.


Maria olhou para o grupo, exausta.


— A brecha que a gente deixou com o bracelete… virou uma porta. E eles estão do outro lado, esperando.


Apolo se levantou com ajuda de Beatriz, ainda sentindo o corpo tremer.


— Então o que a gente faz agora?


Mike olhou para o lugar vazio na parede e respondeu baixo:


— A gente reforça tudo. Porque isso foi só o primeiro.


O medo havia tomado conta do bunker de vez. O suposto último refúgio seguro agora parecia apenas uma caixa frágil, exposta aos olhos de algo muito maior.

domingo, 19 de julho de 2026

Capítulo 6: Demiurgo, a matéria que Respira.






 Capítulo 6: Demiurgo, a Matéria que Respira


O Templo Seródio pulsou uma vez, como se aprovasse a decisão deles.


Kairós não caminhou, ele deslizou, e a luz sob seus pés se recolheu, abrindo um corredor espiral que descia para dentro da própria estrutura do templo.

As paredes não eram paredes; eram membranas translúcidas que respiravam em ritmo lento, expandindo e contraindo como pulmões gigantes.

Cada batida emitia um som grave, quase um zumbido de órgão, que fazia vibrar o tórax.


Apolo sentiu o ar ficar mais denso.  

— Esse lugar... ele tá vivo.

Kairós respondeu sem olhar para trás.  

— Não como você esteja interpretando. 

Vocês estão prestes a ver o que eu vi dentro do abismo no laboratório onde estão desenvolvendo o Demiurgo.


Mike levou a mão à têmpora. 

A dor de cabeça voltou, mais sutil que antes, como uma agulha quente.

Era a mesma sensação do sonho, quando as mãos escuras o seguravam e a voz sussurrava “escolhido”. Ele não disse nada, apenas seguiu.


O corredor terminou numa câmara circular.

 Não havia porta, apenas um véu de luz dourada, fino como névoa, que tremia como superfície de água e Kairós parou diante dele.

— A Câmara do Véu. 

O que vocês virem aqui é a verdade por de trás do mecanismo.


Ele passou a mão pelo véu. 

A luz se abriu como cortina de água, revelando um espaço imenso, escuro, onde algo parecia respirar.

No centro estava suspensa uma massa.


 Não tinha forma definida mais era semelhante a um coração feito de matéria morta.

Era um amontoado de carne como que escurecida cheia de veias pulsantes. 

Um coração colossal não um pequeno coração era algo de entorno de quatro a cinco metros.

 A massa pulsava, e a cada pulsação pequenas fagulhas vermelhas subiam e se apagavam no ar.

Ela tinha um som como de respiração.

O som era úmido e visceral.

A intensidade da visão ficou mais profunda.

Então uma boca apareceu daquela massa, uma boca com dentes como de aço.

E de dentro saiu uma língua como um tentáculo com outra boca nele menor.


Apolo engoliu seco e disse: QUE MERDA E ESSA!


Já Mike sentiu o estômago embrulhar.  


— Isso é o Demiurgo 

— Disse Kairós.


Uma consciência coletiva feita de energia corrompida, alimentada por tudo que os humanos emanam: medo, desejo, violência, idolatria. Ela não pensa como vocês. Ela reage.

Mas agora ela ganhou a capacidade de se alimentar de matéria o que pode fazer com que seu estado seja construído no mundo matéria para completar a sua transformação caótica. 


Nesse espaço vazio estavam prostrados diante da criatura o presidente Giovanni Conte, Larkin Andersen, Elliot Gillard e o General Fontoura.

A matéria começou a se mover, e lentamente o tentáculo tocou cada um deles.

 Após o toque, todos vomitaram uma gosma verde e caíram como mortos.

No meio dos corpos surgiu uma fila de encapuzados com capuzes vermelho escarlate e preto.

Logo a escuridão se revelou como uma sala de um templo e no entorno de tudo muitas taças estavam de baixo do ser caótico.

Então todos os que estavam caídos como mortos, receberam da criatura algo como uma sombra densa.  E ela entrou por suas bocas se apoderou do corpo de cada um deles.

neste momento deu para ouvir estalos de ossos e os corpos se quebrando ate que se colocaram de pé com um semblante assustador e seus olhos tornaram vermelhos.

Então, todos da fila de encapuzados se ajoelharam diante da criatura e também os que haviam recebido a entidade sombria.

Então o último homem que não era como os outros se aproximou.

O rosto estava oculto por uma manta que cobria o corpo inteiro, com cor roxa escura, bordada com detalhes em ouro e cor branca. 

O capuz era um trabalho meticuloso: todo feito de penas e moldado no formato de uma cabeça de coruja, os olhos estavam brilhando com um reflexo dourado provavelmente feito de ouro.

Ele segurava uma taça com as duas mãos.

O Demiurgo moveu lentamente o tentáculo, chegando próximo da taça daquele tentáculo deixou cair na taça algumas gotas de um líquido de cor esverdeado mais muito escuro.


Mike olhou para Kairós, a voz quase sumindo.  

— O que é isso?

— O Elixir do Caos respondeu Kairós.


O homem da manta roxa guardou a taça junto ao peito e virou as costas. 

Um a um, tanto os lideres envolvidos naquela trama de horror quanto os encapuzados, se levantaram e o seguiram, saindo da câmara em silêncio.


Kairós colocou a mão no ombro de Apolo e na nuca de Mike.  

— Venham.


O véu se fechou atrás deles.

O corredor espiral os puxou para cima e, quando atravessaram a curvatura da luz, o ar mudou.

O chão apareceu sob os pés. 

Liso, de pedra clara, firme.

O corpo deles voltou a ser corpo: peso, respiração, pele sensível.

Estavam agora na câmara temporal, um salão amplo dentro da Dimensão Quatro onde a forma material humana era restaurada.


Os dois ficaram em pé, junto a Kairós; Respiravam com esforço, o coração ainda acelerado.

 O silêncio era pesado.


Mike passou a mão no rosto, a voz trêmula.  

— Eu nunca imaginei que veria algo assim… Aquela coisa… ela estava viva.

 Respirando e aquelas pessoas… entregando parte de si para ela.


Apolo estava pálido, os olhos ainda arregalados.  

— Foi pior do que qualquer coisa que a gente viu até agora.


 A Dimensão Quatro já era demais… mas ver aquilo… ver o presidente Giovanni Conte ajoelhado, vomitando aquela gosma… e sendo quebrado por dentro foi assustador.

E aquele homem da manta roxa levando o Elixir embora… Meu Deus, Kairós… O que eles vão fazer com aquilo?


Kairós manteve a voz calma, mas grave.  

— O Elixir do Caos será disseminado.

Eles pretendem introduzi-lo na água, nos alimentos e, através de vetores biológicos, espalhá-lo pelo mundo. 

Não é para matar rapidamente.

É para enfraquecer, gerar pânico e dor em escala global.

Cada morte, cada momento de medo e submissão, vai alimentar o Demiurgo.

É um sacrifício coletivo. 

Quando a massa estiver saciada, eles pretendem fazer o reset. 

Reiniciar a ordem mundial sob o controle total deles.


Apolo engoliu em seco.  

— Tenho uma teoria, esta coisa de coruja e as cores quando estudávamos acões paranormais conspirações e toda a parafernália ufológica este simbolismo sempre nos levaram a uma família muito rica da Europa, os Rothvelth.

— Talvez  aquele homem da manta roxa… Seja, Nathaniel Rothvelth.

Líder da família Campo Vermelho. 


Um dos homens mais ricos e influentes do planeta.

Aparece nas maiores revistas como filantropo, envolvido em ajudas humanitárias e doações bilionárias… 

 Sera que é ele a mão invisível que sustenta a moeda mundial e financia esse horror ?


Mike respirou fundo, ainda sentindo o eco da dor na cabeça.  

— Então o cara que controla boa parte do dinheiro do mundo estava ajoelhado diante daquela coisa…

E levou embora um "veneno" para espalhar de alguma forma?

Tudo que a gente viu no Projeto Prometheus era só fachada.


Kairós assentiu.  

— Exatamente. 


O silêncio voltou por alguns segundos.

Apolo e Mike trocaram um olhar carregado de tremor e incredulidade.

Um triangulo perfeito apareceu diante deles. 

Kairós disse: Como prometido, vamos mais antes quero o bracelete por que tenho que devolver ele ao lugar certo.

E vocês ficaram com outro meio pois este não é um opção para uso na terceira dimensão a dimensão material. 

E como viram, agora mais que nunca vocês sabem que não tem mais volta..

terça-feira, 14 de julho de 2026

Capítulo 4: A Manhã da Partida.


Capítulo 4: A Manhã da Partida.

Apolo respirou fundo e desligou o rádio.  
"Gente, chega por hoje. A cabeça de todo mundo tá fervendo."  

Ele olhou para Jonathan, Marcos e Sérgio.  
"Vocês vão ficar no bunker. Eu falei pra Dona Helena que era uma maratona de série.

Mas a verdade é outra e vocês sabem que aqui vocês estão mais seguros."  

Jonathan acenou, sério. Marcos deu de ombros, tentando parecer descolado. Sérgio apenas assentiu.  

Apolo disse:  
"Mike, vamos até a cidade comprar umas pizzas. Logo nós voltamos. A gente come e descarrega um pouco de toda essa ansiedade e estresse."  

Mike levantou a sobrancelha.  
"Pizza? Depois de ouvir sobre Yuri, descobrir tantas coisas uma atrás da outra… E eu ainda estou tentando assimilar, Apolo."  

Apolo respondeu:  
"Exatamente por isso. Precisamos dar um respiro, senão a gente surta."  

Apolo pegou as chaves. Mike se levantou. Os dois saíram e o som do carro ligando foi o último ruído na rua do bunker.

Tudo isso aproveitando que todos os agentes simplesmente sumiram nada escola deixando apenas a escola interditada e a lanchonete que ocorreu a perseguição de Apolo e Sérgio..

Eles foram até a porta do bunker com seus “disfarces”
Um boné velho e óculos escuros que mais chamavam a atenção que escondiam que eles eram…

Então saíram.

O carro deslizou pela rua vazia. O rádio do carro tocava baixo I Remember — Skid Row.  

Mike falou:  
"Você tá pronto?"  

Apolo demorou a responder.  
"Pronto não é a palavra. Eu tô disposto. É diferente. A gente viu coisas que não tem explicação, e agora o Kairós vai nos levar pra um lugar que nem existe no nosso mapa. 
Que loucura é essa !!
Confio nele? 
Não sei. 
Mas confio mais nele do que em continuar parado sem entender nada."  

Mike assentiu.  
"Eu também. Só que… é pesado. Parece que a gente vai pisar num lugar onde um passo errado apaga a gente da existência."  

Apolo deu um meio sorriso cansado.  
"Então a gente pisa com cuidado."  

Eles riram controladamente e na mente o medo rondava seus pensamentos..

                                 ⸻ ✦ ⸻ ✦ ⸻

Com os adultos fora, o clima mudou. Não era mais sala de guerra; era uma sala com três adolescentes.  

Marcos se jogou numa caixa de ferramentas vazia, esticou as pernas e soltou:  
"Se a gente for enfrentar o Demogorgon, eu vou querer uma arma de oração. Tipo, aponta e reza. Pronto, acabou."  

Sérgio revirou os olhos.  
Deu com as mãos no rosto, seus dedos escorrendo no rosto…

"Marcos, não é Demogorgon. É Demiurgo. E não é série de TV nem RPG. 
A gente está falando de algo extradimensional que você, pelo jeito, não entende."  

Marcos deu de ombros e foi pegar o celular na mochila para escutar música.  

Jonathan, mais quieto, apoiou os cotovelos nos joelhos:  
"Eu só fico pensando… o Apolo sempre vai na frente. E se der ruim lá?"  

Sérgio respondeu:  
"Vai dar certo. O Mike está com ele. E o Kairós parece saber o que faz. Mas eu também estou preocupado, sim."  

Marcos voltou, sentou-se e quase caiu. Os dois caíram na gargalhada.  

Marcos tirou o fone:  
"Na real eu tô com medo mesmo. 
Eu só não quero pensar muito. 
Que talvez o nosso professor e o tio Mike possam não voltar… assim como aconteceu com esse Yuri."  

Houve um silêncio pesado. 
Os três trocaram olhares. 

Era medo, mas também companheirismo — a sensação de que, mesmo ficando, eles faziam parte da engrenagem.

Na mesa, Maria estava com olheiras fundas, ombros caídos. Beatriz se aproximou, colocou a mão em seu ombro e disse:  

"Você está exausta, hein."  

Maria ergueu o olhar e deu um sorriso fraco.  

"É… exausta."  

Beatriz sentou-se de frente para ela:  

"Como tudo isso começou? Parece que isso existe desde sempre."  

Maria respirou fundo:  
"Eu topei entrar nessa porque o governo pintou tudo tão lindo. Disseram que eu era neta do Dr. Alberto Costa,  filha de Eduardo H. C. costa.

Que eu seria a única que teria condição de seguir o legado destes dois grandes homens.

Que só eu tinha capacidade, que ia ajudar a evoluir a tecnologia, acabar com a fome, curar doenças, descobrir coisas novas. Eles me colocaram num pedestal e eu acreditei."  

Fez uma pausa.  
"Eu não tinha segundas intenções. Eu só segui a cartilha."  

Beatriz apertou a mão dela.  
"Vai ficar tudo bem. Depois de tudo que a gente viveu, eu tenho rezado mais. Sinto como se alguém estivesse me vigiando o tempo todo."  

Maria balançou a cabeça.  
"Eu acho que não é vigilância. 
É estresse. 
A gente não sabe o que vem amanhã, então o corpo fica em alerta. Mas… obrigada."  

Beatriz sorriu.  
"Depois da pizza a gente respira. Um passo de cada vez."  

O bunker ficou em silêncio por alguns segundos — o tipo de silêncio que não deixa o medo dominar completamente.

Mike e Apolo voltaram com as pizzas. 
A garotada ficou alegre e o ambiente se controlou, com conversas leves e bem-humoradas. 

Mike e Apolo comeram com vontade. Maria olhou surpresa para Mike. 
Beatriz perguntou se eles estavam bem?

— Parece que quem estava preso por décadas eram vocês.

Mike respondeu, com um meio sorriso:  

"Estamos bem, né? 

Só que a gente não sabe se vai comer pizza de novo, então tá com um pouco mais de vontade."  

Todos riram, num tom leve.  

Depois, montaram as camas com aquela expectativa silenciosa no ar. 

Todos foram dormir.

Apolo acordou antes de todo mundo. 

DiParece que quanto mais a gente sabe, mais pesado fica."  

Mike puxou uma cadeira e sentou-se do outro lado da mesa.  
"Eu também. 

Ontem, quando a gente estava comprando pizza, eu fiquei pensando: “E se a gente não voltar?”. 
É uma sensação estranha… como se a gente estivesse se despedindo sem admitir."  

Apolo finalmente olhou para ele.  
"É exatamente isso. 
Mas ficar parado também não resolve. 

Se tem uma chance de entender o que está acontecendo, de proteger as pessoas que a gente ama… eu prefiro ir. 
Mesmo com medo."  

Mike assentiu devagar.  
"Então a gente vai junto. Sem heroísmo idiota. Se der ruim, a gente tenta voltar. Combinado?"  

Apolo estendeu a mão por cima da mesa.  
"Combinado."  

Aos poucos o pessoal foi acordando. 
Primeiro Beatriz, depois Maria. 
Em seguida, Sérgio apareceu na cozinha.
Todos se juntaram à mesa e começaram a comer a pizza fria que havia sobrado, com um café fresco.
Maria estava esquentando água pois queria variar e fez para si uma bela cuia de Chimarrão, despejou a água quente colocou a bomba e deu aquele gole.

Jonathan entrou bocejando:  
"Bom dia…"  

Marcos veio correndo da sala com uma cara de desespero pois havia sentido quando o ar havia mudado…
No exato momento em que as luzes começaram a piscar. 

Um deslocamento de ar mais forte invadiu o ambiente e, da sala, veio um som parecido com trincar de vidro.  

O portal dimensional triangular dourado se expandiu, brilhando. Kairós surgiu.  

Marcos de pronto disse: tá maluco meu Irmão você que me matar parece assombração…

Kairós olha do para baixo e vendo o garoto assustado deu um breve sorriso.
Minhas visitas são no momento certo.
Peço perdão se ainda não estavam preparando, mas estamos quase na hora.
  
O ambiente ficou mais sério. Todos saíram da cozinha em direção à sala, com o rosto carregado de preocupação.  

Kairós olhou para Apolo e Mike e disse com voz calma, quase solene:  
"Vocês estão prestes a ver o que a Dimensão Três não consegue conter. 

Cores que não nascem da luz como vocês conhecem, um tempo que não corre em linha reta, o tempo emana dos portais celestiais e inundam a terceira dimensão.
A quarta dimensão é uma ordem que não precisa de esforço para existir. 
O que vocês vão experienciar primeiro será beleza, depois compreensão."  

Kairós olhou para Apolo e Mike:  

Vocês precisam de alguma coisa já estão prontos?
"É hora."  
Disse Mike e Apolo em tom uníssono.

Todos no bunker sentiram o nó na garganta ao ouvir que agora não tinha mais volta caso algo desse errado.

Mike beijou Maria com carinho.
Eu volto!

Disse sem tirar os olhos dos olhos de sua amada..

 Apolo beijou Beatriz, sua noiva. 
E disse: “Eu estou indo porque eu amo você e se tem alguma coisa que possa ser feita pra te proteger eu irei fazer.”

Os dois colocaram a mão no ombro de Kairós.  

Eles se despediram com um aceno silencioso.  

O Triângulo Dourado diante dos olhos de todos se expandiu, Mike e Apolo e Kairós ao centro olhando para todos com um aspecto de até breve.
Então o portal os engoliu.

E o brilho deixou a sala e todos ali olhando pra parede com o coração apertadorigiu-se à cozinha sem fazer barulho, colocou água no fogo e passou o café.

 O cheiro se espalhou pelo bunker. 

Lavou o rosto, visivelmente ansioso. 

Por descuido, deixou uma frigideira cair na pia com um estrondo.  

Mike acordou assustado, levantou-se rápido e foi até a cozinha. 
Viu Apolo encostado na pia, olhando para o nada.  

Mike esfregou os olhos e perguntou em voz baixa:  
"Não conseguiu dormir direito?"  

Apolo suspirou.
"Dormi mal. Fico repassando tudo. 
O Yuri… as coisas que a gente descobriu… e agora isso.

domingo, 5 de julho de 2026

Capítulo 3 UVB 0.0 Buzzer a frequência Fantasma.



Capítulo 3: UVB 0.0 Buzzer a Frequência Fantasma.

O diário se fechou com um baque surdo, um som final que sugou todo o ar do bunker. Maria permaneceu imóvel, os dedos pálidos pressionados contra a capa dura, o olhar fixo no nada, vendo não a parede de concreto, mas os fantasmas de seu pai e de seu avô. Projeto Prometeus. O nome não era mais uma anotação histórica; era uma ferida aberta no centro de sua família, sangrando através das décadas.

Beatriz, que organizava um conjunto de chaves de fenda por tamanho, sentiu a mudança abrupta na atmosfera. "Maria? O que foi? Você ficou pálida como um fantasma."

Mike e Apolo, que estavam debruçados sobre o mapa rudimentar desenhado por Kairós, ergueram a cabeça, atraídos pela quietude magnética.

"O que você encontrou?", perguntou Mike, a voz baixa.

Maria não respondeu de imediato. Ela respirou fundo e, com uma determinação que parecia vir de um lugar além de si mesma, abriu o diário novamente na página marcada. Seus olhos encontraram os de Mike, depois os de Apolo e Beatriz, um por um. O tempo para segredos havia acabado.

"Meu avô... Alberto Costa...", começou ela, a voz um sussurro frágil. Ela limpou a garganta e leu em voz alta, as palavras de um homem morto ecoando nas paredes de concreto. "...Mas entre nós, o círculo interno, o nome é outro. Nós o chamamos de Projeto Prometeus."

Ela ergueu o olhar do diário. "Eu conheço esse nome." As palavras saíram como estilhaços de vidro. "Meu pai. Antes de desaparecer, ele passou semanas trancado em seu escritório, queimando documentos. Eu o vi uma noite, pela fresta da porta... com uma caneta preta grossa... riscando furiosamente uma palavra de todos os relatórios que sobraram." Ela fez uma pausa. "Era essa palavra. Prometeus."

Apolo sentiu um calafrio. Não era apenas um lugar, ou uma entidade. Era um projeto. Uma construção deliberada. Mike foi o primeiro a processar, seu rosto se tornando uma máscara sombria. "Prometeus... ouvi sussurros. Lendas de corredor sobre acidentes catastróficos na Guerra Fria."

A luta deles era contra o legado dos homens que tentaram roubar o fogo dos deuses. Maria fechou o diário com uma força renovada. "Eles criaram isso. E meu pai... ele tentou impedir." Ela olhou para a caixa de peças de rádio. "Nós vamos construir a voz que vai gritar de volta."

Ela então se virou para Apolo. "Os garotos. Chame-os. Agora."

Apolo correu para o pequeno rádio comunicador que usavam. "Apolo para Jonathan, câmbio. Estão na escuta?"

A resposta veio quase imediatamente. "Estamos a caminho, Apolo. O que houve?"

"Escuta", disse Apolo. "A coisa ficou séria. Maria encontrou uma palavra-chave. Talvez a única coisa que possa convencer seu avô. Você precisa usar esse nome. Está pronto?"

"Manda, Apolo. Fala logo."

"O nome é 'Projeto Prometeus'. Repita: Prometeus. Diga a ele que a Maria sabe de tudo. Diga que é sobre isso. É a nossa única chance."

Houve um segundo de silêncio. "Entendido, Apolo. Projeto Prometeus. Estamos chegando lá. Câmbio, desligo."

                                             ─── ⚜ ───

Enquanto a fúria focada tomava conta do bunker, Marcos e Jonathan guiaram Sérgio até a propriedade que parecia ter sido esquecida pelo tempo. Eles encontraram o avô nos fundos. Artur Jankowski, um polonês de olhar duro, estava sentado em um banquinho, limpando metodicamente as peças de um fuzil Kalashnikov.

"Vô?", chamou Marcos, hesitante.

Artur nem levantou a cabeça. "Não é dia de visita. E trouxeram um amigo de novo. Espero que não seja para quebrar outra janela com aquela bola de futebol." Ele finalmente os encarou. "O que vocês querem?"

"Vô, a gente precisa da sua ajuda", começou Jonathan. "É sobre construir uma coisa. Um comunicador... interdimensional."

Artur parou e encarou os próprios netos com puro escárnio. "Comunicador interdimensional?" Ele soltou uma risada curta. "Vocês andaram cheirando éter? Jonathan, Marcos, o que eu lhes disse sobre as más influências da cidade?" ele disse, olhando diretamente para Sérgio. "Saiam daqui."

Frustrado, Marcos explodiu, usando a carta que Apolo lhe dera. "Não é brincadeira! É sobre o avô dela, Alberto Costa! É sobre o seu pai! É sobre o Projeto Prometeus!"

O sarcasmo no rosto de Artur se estilhaçou. O pano com óleo de arma caiu de sua mão. "O que... foi que você disse?", ele perguntou, a voz baixa e perigosa.

"Projeto Prometeus, Vô", repetiu Jonathan.

"Entrem. Agora."

Dentro da oficina, Artur revelou seu passado. "Alberto Costa era um poeta", disse ele, a voz um rosnado amargo. "E meu pai... meu pai era o tolo que o seguia. Um cão leal a uma seita. Prometeus era o altar deles." Ele contou sobre sua rebelião, o pacto com a KGB, a criação do Buzzer 76 como arma contra seu próprio sangue. E então, a dor. "Minha tecnologia foi corrompida. Eu tinha um aliado na KGB. Um amigo. Yuri. Estávamos aprimorando o Buzzer... e então, tudo deu errado." Ele fechou os olhos. "Sabotagem. A alma de Yuri... foi arrancada. Seu corpo ficou para trás, em algum hospital militar em Moscou. Mas sua mente... está presa lá. Naquele ruído."

Artur os encarou. "Eu não vou ao bunker. Mas farei uma oferta. Vou construir para vocês uma UVB 0.0, uma versão 2.0 da Buzzer, a frequência Fantasma. É uma frequência exclusiva para que ninguém nos rastreie. Serei seu escudo. Em troca... vocês têm que trazer meu amigo de volta. Vocês têm que trazer Yuri para casa."

                                             ─── ⚜ ───

De volta ao bunker, Maria encontrou a anotação de seu avô sobre as "frequências fantasmas". Os garotos voltaram. O comunicador militar foi ligado. A voz de Artur encheu o bunker e, sob sua orientação, a ciência e a bruxaria se uniram.

As horas passaram em um borrão de solda, faíscas e o cheiro de ozônio. "Está pronto", disse Maria, exausta.

"Agora", ordenou Artur. "Gire o dial. Devagar."

Maria girou o botão. O chiado familiar se tornou um zumbido grave, rítmico. O som da UVB ponto zero. Ele bateu uma, duas, três vezes. E então, falhou. No silêncio que se seguiu, uma voz emergiu. Fraca, quebrada.

... pomogite ... ya zdes ... kholodno ... pomogite ...

Mike empalideceu. Maria já estava com o tablet em mãos — o mesmo que usaram para traduzir as palavras do russo que encontraram antes. Seus dedos voaram sobre a tela, capturando a fala.

Ela ergueu os olhos, o rosto pálido.

"Tradução: Ajuda... estou aqui... frio... ajuda."

A voz de Artur no rádio tremeu, carregada de uma emoção que ele tentava esconder há décadas. "É ele. É Yuri."

Mas Maria, com a mente a mil, interveio. "Senhor Artur, espere." Ela pegou o microfone. "Com todo respeito, como pode ter certeza? Nós... nós encontramos outro russo. Ele nos contou sobre um desaparecimento, mas foi agora, recente. O que o senhor descreveu aconteceu há décadas. Não estamos... não estamos sendo enganados?"

Houve um longo silêncio. Quando Artur falou, sua voz era a de um professor revelando um segredo terrível.

"Uma pergunta inteligente, menina." Ele respirou fundo. "Vocês conhecem a história do Experimento Filadélfia? A KGB tinha seu próprio projeto, muito mais avançado. Yuri... e outro homem estavam nessa missão."

"Outro homem?", perguntou Mike.

"Sim. Nicolau Zorbatrov. Um cientista quase um século à frente de seu tempo. Ele acreditava que podia usar as dobras dimensionais para se conectar ao que chamava de... dimensão wireless visual. Yuri era o piloto. Nicolau era o navegador. Mas eles não apenas viajaram no espaço. Eles escorregaram no tempo."

"O russo que vocês conheceram era Zorbatrov. Deslocado no tempo, revivendo o momento em que perdeu Yuri. Para ele, aconteceu ontem. Para mim, há uma vida. E para Yuri... para Yuri, está acontecendo agora. Ele está preso naquele único segundo de agonia, congelado entre as dimensões."

Um silêncio chocado tomou conta do bunker. Maria processou a informação. Viagem no tempo. Almas arrancadas. Nada mais parecia impossível. "Eu... eu entendo", disse ela.

Enquanto a revelação assentava, Apolo, sempre pragmático, pegou o telefone. Ele discou um número que conhecia bem.

"Alô, Dona Helena? É o Apolo... Sim, tudo bem por aqui... Olha, eu sei que é em cima da hora, mas será que os meninos e o Sérgio podiam dormir aqui em casa hoje? A gente ia fazer uma maratona de séries, sabe como é..."

Houve uma pausa e a voz de Helena soou, um pouco cansada. "Ah, Apolo, querido. O Matteo vai reclamar que eles não estão aqui pra ajudar a arrumar a garagem amanhã, mas... por mim tudo bem. Juízo, hein?"

Apolo sorriu, aliviado. "Prometo, sem bagunça! Muito, muito obrigado! Boa noite para a senhora também, e manda um abraço pro Seu Matteo!"

Ele desligou. "Pronto. Vocês oficialmente não existem para o mundo exterior esta noite. Estão salvos."

A voz de Artur soou uma última vez pelo rádio, agora focada, a dor guardada novamente. "Obrigado, menina, por sua cautela. E por sua confiança. Agora vocês sabem a verdade. A troca começa. Eu serei seu fantasma. E vocês serão a esperança de Yuri."

Eles se olharam. A missão tinha um nome, um rosto e uma urgência que transcendia o tempo. Não era mais apenas sobre atacar a CIA ou a KGB, mas sim as consequências das ações destas organizações.

Era um resgate e uma missão de reconhecimento.

E o relógio de trinta e seis horas, implacável, continuava correndo, cada segundo um eco mais próximo da chegada de Kairós e da abertura do portal, não para a guerra, mas para a Dimensão 4.
A busca pelo manual que ele promete decifrar.

Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...