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sábado, 15 de agosto de 2026

Capítulo 14: Na escuta, na escuta?

 


Capítulo 14: Na escuta, na escuta?


Pouco tempo depois da saída da equipe de busca. 20:53.


O bunker tá em silêncio. Não é paz. É peso.


Maria tá cabisbaixa, sentada no sofá da sala. Olho no chão. Mãos entrelaçadas, apertando até os dedos ficarem brancos.


Beatriz se achega. Senta na beirada do sofá. 


Não fala nada de cara. Só fica ali.


“Maria?”, Beatriz chama baixo.


Maria não levanta a cabeça. “É tudo culpa minha.”


“Que que cê tá falando?”


“Eu fui conivente, Beatriz.” A voz dela quebra. “Eu sabia dos riscos. Eu entendi o que tava vindo. E mesmo assim deixei acontecer. Deixei todo mundo entrar nisso. O Sérgio, o Mike... até os meninos.” O choro vem de uma vez. Engasgado, doído. “Parece que tudo isso... é culpa só minha.”


Beatriz puxa ela pro abraço. Acaricia o cabelo. “Não fala assim. Ninguém sabia de nada. Nem você.”


Maria chora no ombro dela. “Mas eu devia saber. Eu sou a cientista. 


Era pra eu ter previsto.”


Beatriz espera o choro diminuir. Respira fundo. Muda o tom. “Tô preocupada com o Apolo.”


Maria se afasta um pouco, enxuga o rosto. “Por quê?”


“Ele é impulsivo demais, Maria. Cê viu como ele ficou quando o Mike mandou ele ficar. Se der alguma merda lá fora, ele vai querer sair correndo. E com esses cadernos na mão...”


Maria abaixa a cabeça. Fica em silêncio uns segundos. Depois solta: “Eu também amo alguém impulsivo.”


Beatriz arregala o olho. “Quem?”


Maria respira fundo. “Em toda minha vida, eu tive uma prioridade: ciência. Ser como meu pai, como meu avô. Carregar o legado. Poucas vezes eu senti que... gostei de alguém de verdade. Eu achei que tinha conhecido o amor. Lark Andersen.” Maria balança a cabeça. “A gente estudou junto quando criança. Formamos juntos. Ele conhecia minha família por minha causa. Mas a gente nunca evoluiu. O amor dele, o meu... a ambição tava toda voltada pra ciência. A gente escolheu o laboratório.”


Maria olha pro chão de novo e diz: “Eu não sei lidar com o que eu sinto porque a pessoa que eu nunca pensei que ia amar vive pra lá e pra cá limpando arma, resmungando, tomando cerveja e fumando cigarro. Totalmente diferente de uma pessoa como o Lark, que era intelectual. Mas o Lark vendeu sua alma, enquanto o Mike quase perdeu a sua vida por mim.” Ela engole seco e disse: “Eu amo o Mike. Ele é o impulsivo que eu amo.”


Beatriz fica boquiaberta por dois segundos. Depois ri, sem humor, pra quebrar o peso. “Cê descobriu essa face do Apolo agora. Eu descobri a do General faz tempo.”


As duas dão um meio sorriso. Triste, mas verdadeiro.


Aí ouvem.


Um choro. Abafado. Vindo da cozinha do bunker.


Elas se levantam na hora. Vão até lá.


Marcos tá no chão. Posição fetal, encostado na parede da pia. Chorando compulsivo, ombro tremendo.


Beatriz e Maria se abaixam. Cada uma pega numa mão do garoto.


“Vem, Marquinhos”, Beatriz chama baixo. “Vamos até o sofá.”


Ele balança a cabeça, negando. A voz sai entre soluços: “Não consigo... acreditar em Deus. Deus deixou isso acontecer com meu vô. Deixou todas essas tragédias. Não é possível que exista um Deus bom. Igual o Pastor de Josué falou na célula na casa de Josué.”


Beatriz abraça ele. “Marcos, não é tempo de ficar tentando achar culpados numa situação como essa. É muito difícil pensar, se quer. Então julgar algo... se acalma.”


Maria fica quieta um segundo. A Maria cética. A cientista sem coração. Ela se abaixa na altura do Marcos. Olha no olho dele.


“Marcos, não é porque Deus tenha permitido tudo isso que essa seja a vontade Dele. Talvez Ele esteja aguardando o tempo certo. Depois de tudo que eu vi, não existe possibilidade lógica de não existir alguém por trás de todas essas coisas. Maior do que as coisas que vieram acontecer.”


Ela puxa o garoto e abraça. “Fica calmo.”


Marcos respira fundo no ombro dela. O choro diminui. O corpo relaxa.


Após o abraço, eles se afastam devagar.


Aí tudo dá errado.


As lâmpadas começam a piscar. Frenético. O alarme de movimentação externa dispara. Um som agudo, cortando o bunker.


Maria, Beatriz e Marcos se jogam contra a parede. Se abaixam. Esperam o pior.


Apolo sai do laboratório correndo. Na mão, um protótipo novo. Um holofote de 2.000W com lâmpadas UVC acopladas. Junto, duas caixas de som relativamente altas, ligadas num gravador. A frequência 963Hz começa a ecoar, grave, preenchendo o bunker.


Ele se posiciona na frente delas. O holofote e o som formam um escudo.


As lâmpadas param de piscar. Tudo volta ao normal. Silêncio.


Aí ouvem.


Passos. Firmes. Em cima do bunker. Pesados, mas não humanos. 


Apolo sussurra: “Silêncio.”


Pou. Pou. Pou.


Os passos continuam. Depois um grunhido. Grave, abafado. Do lado de fora.


O som dos passos some. Rápido. Velocidade absurda.


Breve silêncio.


Aí vem outro som. De longe. Um cervo sendo atacado. Um berro agudo, cortado no meio.


Todos ficam apavorados. Paralisados.


O som some. Silêncio absurdo de novo.


Eles começam a se levantar devagar.


Apolo diz: “Eu preciso fazer uma ronda.” Ele já tá com as duas pistolas na mão. Entrega o protótipo ligado pra Beatriz. “Fica com isso.”


Ele some pelos corredores do bunker. O resto fica intenso. Respirando baixo.


Depois de algum tempo, Apolo volta. “A barra tá limpa.”


No momento em que ele diz isso, o rádio do laboratório chia.


Maria trava. Estado de choque e alerta. “Mike.”


Ela levanta e sai correndo pro laboratório improvisado. Todos atrás.


Ela roda o botão de frequência. Nada. Volta pra posição anterior. Chiado de novo.


E do chiado, a voz de Sérgio sai. Baixa. Urgente. Desesperada:


“Na escuta. Na escuta.”


Maria responde com a voz desesperada: “Tá tudo bem?”


Sérgio responde: “Tenho notícias. Nós acabamos não nos comunicando quando chegamos. Nos desculpe pela falta de notícias. Então, exatamente como o pai do Jonathan e do Marcos disse, tá a casa do avô deles. Uma destruição absurda. Portas arrancadas, animais mortos, um cheiro horrível de sangue podre e cadáveres que estão espalhados por todo o terreno. Porém, eu tenho novidades. Coletei algumas amostras dessa gosma que ele havia dito e posso afirmar: é algo que não pertence a essa dimensão. Claramente.” A voz de Sérgio saía falando em movimento. “Porém...”, ele continuou. “Nos encontramos aqui uma porta que leva para um subsolo da casa do avô de Jonathan. Que se lembrou de uma porta chamada de casa de pólvora, que na verdade é uma entrada para um subsolo. Estamos descendo. Preciso desligar o rádio.”


Maria responde desesperada: “Sérgio! Sérgio! Não desligue! Fale conosco! Eu preciso de informações! Como vai que tá e já.”


O rádio corta. Não sai mais som do buzzer. 0.0.


Maria se levanta rapidamente, de forma nervosa. “O que diabos esses homens têm que eles não conseguem finalizar uma conversa?”


Marcos corta a cena, puxando a blusa de Maria. “Você pode me deixar fazer algumas pesquisas do seu notebook?”


Maria olha pra Marcos. Ele estava visualmente diferente. O semblante estava diferente. Ela assente e leva o garoto até o seu notebook. Rapidamente, ele começa as suas pesquisas.


Enquanto isso, Maria volta os olhos para Apolo, que estava abraçando Beatriz. E ela aperta os próprios braços e fica com um olhar perdido. Enquanto sussurra: “Mike, onde você está?”


A cena muda.


Mike à frente, com a sua calibre doze na mão.


Atrás dele, Jonathan que estava perdido em olhares. Pois nunca tinha visto aquela parte da casa do seu avô.


E Sérgio, colocando o rádio no cinto.


Ao término dessa escada eles dão direto de frente com um corredor. Nesse corredor as luzes de segurança estão totalmente apagadas. Não há som. E eles seguem apenas com as luzes da lanterna UVC ligadas e apontadas em direção à frente. Enquanto Sérgio segura o protótipo dentro da sua mochila, que estava posicionada de frente ao seu corpo e não nas suas costas. O dedo estava trêmulo em cima do botão, enquanto o protótipo estava em ponto de funcionamento. Só o que se ouve nesse corredor é apenas respiração pesada. O corredor estava limpo. Não tinha sinais da entrada de ninguém.


Mike olha para Sérgio e pergunta: “Cê fechou a porta na hora que a gente entrou?”


Sérgio disse: “Sim. Bati a porta.”


Então eles se deparam no final do corredor com uma bifurcação. O corredor era estreito, porém tinha um percurso grande. E ao chegar nessa bifurcação, eles se perguntam: “E agora? Qual lado?”


Sérgio disse: “Vamos pela direita.” Enquanto Jonathan fica perdido entre qual lado gostaria de ir. Mike diz: “Vamos, Jonathan. Para de ficar olhando em volta. Precisamos encontrar algum vestígio.”


Jonathan volta para a realidade. Seus olhos enchem de água e ele fala baixinho: “Vô.”


Eles ouvem um barulho vindo da direita. Como se fossem cabos de vassoura caindo. Mike levanta sua arma e disse: “Fiquem atrás de mim.” E segue.


Esse corredor era um corredor menor. Logo eles chegam com uma porta comum. E quando eles abrem essa porta, eles se deparam com o avô dos garotos. Ferido gravemente no pescoço e braço esquerdo. Mas com uma arma diferente nas mãos. Muito fraco e perdendo sangue, mesmo com um torniquete no braço.


Mike disse: “Senhor Artur? Senhor Artur, é você? Responda-me.” E o senhor vira o rosto para ele e balança a cabeça.


Então eles saem correndo em direção ao Senhor Artur. Mike rapidamente aperta o ferimento e pede para que Sérgio prepare para usar o Domo de defesa. Mike, sem evitar, coloca Senhor Jankolski nas costas. Todos se preparam para sair dali o quanto antes. Eles marcham em velocidade acelerada até a porta. Enquanto Artur balbucia palavras e diz: “Vocês não têm noção do que está à solta.”


Mike disse: “Senhor Artur, poupe suas palavras. Primeiro vamos chegar à nossa base e lá o senhor vai ficar melhor e vai poder nos explicar com muito mais detalhes.” Artur concorda com a cabeça e com o seu olhar e desmaia nas costas de Mike.


Enquanto isso, Jonathan enxuga as lágrimas e segue a princípio. Juntamente a Sérgio, que continua trêmulo, porém agora aguardando sair do subsolo. Aonde ele começa a perceber que Artur estava utilizando no subsolo de sua casa, no bunker dele, a mesma frequência que Marcos havia dito quando começaram a pesquisar formas de defesa. A frequência 963.


Eles saem até a escada. E ao subir a escada, Sérgio pega o cartão, passa na frente deles e passa. E diz: “Acesso negado.” Então eles ficam olhando um para os outros. “E agora?” E Mike diz: “Sr. Artur, acorde. Como saímos daqui?”


Enquanto isso, Sérgio nem olha para Mike. Ele vê os três botões posicionados ao lado da porta. O primeiro botão ele aperta 9 vezes. O segundo botão ele aperta 6 vezes. E o terceiro botão ele aperta 3 vezes. A porta abre instantaneamente. E eles saem em direção ao carro.


Chegando do lado de fora do rancho, eles notam que a casa dos Mackenzie estava totalmente sem energia. As janelas apagadas, nenhum sinal de luz. O breu engolia a estrutura inteira, como se a casa tivesse sido arrancada da existência. Nem a lâmpada da varanda piscava. Só escuridão. Rapidamente eles ajeitam Senhor Artur. Sentam Jonathan de um lado, Sérgio do outro, segurando a toalha que estancava o sangramento.


Mike dá partida no carro, que liga instantaneamente. Ele acelera. Enquanto isso ele disse: “Sérgio, já aperta esse botão.” E quando o Sérgio aperta o botão, o Domo toma completamente o carro. Assustando a eles, porque Mike pensava que o Domo de segurança não comportaria totalmente o carro. Porém ele se adaptou ao tamanho do carro.


Artur olha para a mão de Sérgio e disse: “Você é o garoto estranho que anda com Marcos e com o Jonathan. Eu prometo que nunca mais te chamo de estranho.”


“Na verdade, você não é tão estranho pra mim. Você me lembra alguém... Eu só não consigo lembrar o nome, mas...” E Sérgio disse: “Eu sou da família do Alcides.”


Então Artur, com a voz fraca, disse: “General Alcides? Eu não acredito...” Porém Jonathan corta a conversa e diz: “Vô, apenas respira. Você está fraco. Precisa repousar. Vamos chegar. Por favor, só aguente.”


Mike estava tenso, segurando o volante, pensando que o Domo estava sendo testado pela primeira vez agora. Eles nem perceberam se a bateria estava subindo ou descendo, se mantendo. Eles só queriam chegar na base.


Porém, enquanto eles estavam na estrada acelerando, passa e vem um carro preto. Uma SUV que estava vindo na direção oposta com vidros filmados. O carro passa em alta velocidade ao lado da SUV enquanto ela freia brutamente e começa a fazer o contorno para vir atrás do carro deles. Então Mike engata a quarta e acelera no máximo. Pede para que se segurem e começa uma perseguição.


Mike toma um outro caminho e sobe para o lado das Colinas. Enquanto a SUV começa a seguir. Mike faz o contorno pelo caminho das Colinas, ganhando muito espaço de distância da SUV, e entra em um túnel que dá próximo ao lago. Enquanto a SUV passa direto, mas percebe que eles não estão à frente e volta para trás pelo túnel. Mas Mike dá a volta e acelera o máximo que pode na reta, voltando para a estrada e entrando para o lado das lanchonetes.


E ele começa a perceber que no caminho muitas casas estão desligadas. Enquanto isso, ele estava olhando para os lados. Ele atropela algo.


Um corpo totalmente negro, cor de pixe.

Fica caído na estrada. Não era gente. Bateu no Domo e caiu. Mike dentro de si disse: “Teste concluído com sucesso. Domo funciona.” E continua acelerando sentido à clareira, aonde fica a entrada escondida do bunker.


Logo ele entra, dessa vez com o carro, para dentro do compartimento de segurança do Bunker, que foi acionado com sucesso. Logo a entrada se fecha. E eles ouvem, do lado de dentro da parte de segurança do Bunker, os carros passando em alta velocidade por ali. O que significa que eles não estão 100% seguros.


Então os garotos descem, tirando o Senhor Artur, carregando ele nos seus ombros até a escada que dá acesso à porta interna do Bunker. 


E Sérgio dá o rádio para Mike, que chama: “Apolo, na escuta. Abra a porta rápido.”


Apolo estava sentado no sofá ao lado de Beatriz, passando a mão na cabeça de Marcos que havia se deitado em seu colo e dormindo. Ele deixa a cabeça do garoto no colo de Beatriz e sai correndo. Porém Maria chega primeiro.


Maria pega o comunicador e responde: “Mike, onde você está?” Ele disse: “Maria, abre essa porta!” E Apolo, vendo que ela já tinha atendido, corre para a porta e faz a combinação e abre a porta.


O que eles veem: Mike sujo de sangue, com rádio na mão, a 12 pendurada junto ao seu pescoço por uma bandoleira, e os garotos carregando Artur Jankolski em seus braços.


Com o barulho de Mike entrando, Marcos desperta quando Beatriz se levanta a pedido de Apolo. Corre Beatriz. Então Marcos se assusta e corre junto. E quando ele vê o seu avô na situação que estava, Marcos se ajoelha e disse: “Muito obrigado, meu Deus. A partir de hoje eu sou todo seu!!!”

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Capítulo 13: O Reconhecimento




 Capítulo 13: O Reconhecimento


O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.


Eles estão prontos.


Mike não abre a porta. Ele trava de novo.

"Testa."


Sérgio olha pro medidor na bateria que tá dentro da mochila dele. "Noventa e nove."


"Deixa ligado", Mike fala. "Dez minutos."


Eles ficam dentro. Sete pessoas apertadas. O campo faz o som ficar abafado. O relógio da parede anda.


Sérgio não tira o olho do número. 99... 98... 97.

"Caindo", ele avisa.


Maria marca no caderno. "Normal."


Jonathan esfrega a testa. "Tô zonzo."


Marcos respira fundo. "Peso no peito."


Apolo apoia a mão na bobina. Suando.


Sérgio pisca. Olha de novo.

"Noventa e oito."


Mike franze a testa. "Subiu?"


"Noventa e nove... cem." Sérgio bate com o dedo no medidor. "Cem por cento."


Ele desliga o domo. O campo cai. Todo mundo solta o ar de uma vez.


Mike sai primeiro. "Vocês sentiram?"


"Tontura", Jonathan fala.


"Parece que corri", Apolo completa.


Sérgio encosta a mão na bateria da mochila. Tá fria. Ele abre o caderno do pai da Maria e escreve rápido.

"Campo estável. Bateria caiu pra 97 e voltou pra 100 sozinha. Consumo elétrico zero. A gente pagou a conta."


Maria olha. "Pagou como?"


"Energia vital", Sérgio responde. "Pouco. Mas tirou da gente e jogou na bateria. Ele se alimenta da gente pra se manter."


Mike guarda a informação sem discutir. Ele já tá pensando na rua.

"Então a gente não leva o domo ligado. Leva desligado, na mochila. Só liga se for pra não morrer."


Apolo levanta. "A gente vai agora."


Mike aponta pra ele com o queixo.

"Você não."


O bunker silencia.


"Você fica", Mike continua. "Eu vou. Sérgio vai. Jonathan vai."


Apolo: "Por quê eu fico?"


"Porque eu sou defesa", Mike fala. "Se tiver tiro, eu seguro. Sérgio é inteligência, ele sabe o que coletar e o que não tocar. E o Jonathan é reconhecimento. É a única planta baixa viva daquela casa."


Marcos levanta a cabeça. "Meu vô..."


"Pode tá vivo", Mike corta, mas sem prometer. "Teu avô sumiu, não acharam corpo. Velho da roça não morre fácil. Se esconde. Todo veterano tem um canto."


Apolo olha pro irmão. "E eu?"


Mike põe a mão no ombro dele. Firme.

"Porque alguém tem que segurar o bunker se der merda. Porque teu irmão vai precisar de alguém lúcido no rádio. E porque corre no sangue de vocês."


"Sangue do quê?"


"Do Alcides", Mike responde. "Teu tio avô. Militar e cientista. O cara que todo mundo chamou de doido e que mandou o bip certo na hora certa. Ele não era covarde. Era preparado. Você é igual seu tio-avô, só tá com medo de admitir."


Apolo respira. Olha pra Maria. Ela assente.


"Você fica e lê", Sérgio fala, e entrega os três cadernos pra ele. Dois do pai da Maria, cheios de grafite, e um velho de capa de couro do avô da Maria. "A gente leva o domo e traz a amostra. Você acha a defesa."


Apolo segura os cadernos. "Vinte e cinquenta. Se vocês não voltarem em duas horas, eu mantenho o rádio aberto e o bunker trancado."


"Vinte e cinquenta", Mike confirma. Olha o relógio. 20:47.


Maria entrega o rádio curto pra Sérgio. "Canal três. Só emergência."


Beatriz entrega três potes de vidro. "Pra gosma."


Marcos entrega a chave do Chevrolet. "Tanque cheio."


20:50. Eles saem.


A noite tá fechada. Sem lua. O Chevrolet amarelo acende o farol baixo e desce a serra. Mike dirige. Sérgio no banco do passageiro com a mochila do domo desligado nas costas. Jonathan atrás, com a espingarda no colo.


Mike quebra o silêncio primeiro.

"Fala do sítio, Jonathan. Quantas entradas tem?"


Jonathan se inclina pra frente.

"Duas. Portão da frente pela estrada de chão, e uma trilha por trás que sai no rio. A casa é grande, não é casinha. Chácara boa. Meu vô tinha galpão, paiol, e a casa principal com dois andares."


Sérgio vira meio de lado. "Energia?"


"Tinha luz que nunca caía", Jonathan responde. "Mesmo quando Pomerode ficava no escuro, lá ficava aceso. Ele falava que era 'nobreak de hospital'."


Mike assente. "Velho precavido."


"Tem mais", Jonathan continua, a voz mais baixa. "Nos fundos, atrás da cozinha, tem uma porta de aço. Pintada da cor da parede. Ele chamava de sala da pólvora. Dizia que se a gente entrasse, explodia tudo. Nunca deixou nem eu nem o Marcos chegar perto."


"Não é pólvora", Mike fala. "É o canto dele."


"Ele tinha câmera também", Jonathan lembra. "Eu via as luzinhas vermelhas de noite, mas nunca achava onde tava. Ele ria e falava 'quem procura acha problema'."


Mike dá um meio sorriso sem humor. "Então teu vô tava esperando isso faz tempo."


Jonathan engole seco. "Acho que sim."


Vinte e cinco minutos. Eles param a duzentos metros. Mike apaga o farol. Apaga tudo. Vão a pé.


O cheiro bate primeiro. Mesmo de longe. Sangue velho, víscera, bicho morto no sol. Só que é noite. Tá frio. E fede igual.


Mike levanta a mão. Param.


A casa do avô tá do jeito que o Seu Carlos descreveu no rádio. Porta da frente arrancada das dobradiças. Três riscos paralelos na madeira, fundos, de cima a baixo. Sangue preto espirrado na parede da varanda. No chão do terreiro, os bezerros. Abertos no meio. Não cortados. Rasgados. Ocos por dentro, secos, como se tivessem sugado a carne e deixado o couro.


As galinhas em volta, mesma coisa. Penas intactas, dentro vazio.


E o rastro. Grosso como um braço. Preto. Não brilha na lanterna. Sai da cozinha, atravessa a sala e some no boeiro atrás do galinheiro.


Jonathan morde o lábio até sangrar. "Vô..."


"Depois", Mike sussurra. "Primeiro prova."


Sérgio já tá de luva. Ajoelha do lado do bezerro. Tira foto com o celular sem flash. Coleta com cotonete o sangue preto da borda do corte. Guarda no tubinho. Raspa a matéria do chão, coloca no pote de vidro. Fecha.


"Temperatura ambiente", ele fala. "Não coagula. Não cheira a ferro. Cheira a ozônio."


Ele anda até a parede. Pega uma cápsula no chão. Não é de bala. É menor. Redonda, achatada, cor de chumbo fosco. Tem um sulco no meio.

"Olha isso", ele chama Mike.


Mike pega. "Não é 9mm. Não é 12. Não é nada nosso."


"Parece pastilha", Sérgio fala. "De arma de pressão. Ou de outra coisa."


Jonathan aponta pro canto da sala. Cápsulas de 12 espalhadas. Pólvora no chão. "Ele atirou."


"Muito", Mike confirma. "E não adiantou."


Sérgio guarda a pastilha estranha no segundo pote. "Batalha. Arma convencional contra campo."


Jonathan já tá indo pros fundos. Para na frente da porta de aço, pintada da mesma cor da parede. Intacta. Sem risco. Sem sangue. Do lado, um aviso escrito à mão pelo avô: PERIGO PÓLVORA NÃO ENTRAR.


"É essa", Jonathan sussurra. "A sala da pólvora." 


Ele encosta o ouvido. "Tá zumbindo."


Sérgio chega perto. "É igual. Não é igual ao domo, mas é parecido. Frequência baixa."


Mike olha pra cima. Aponta a lanterna. Três câmeras pequenas, escondidas nos cantos do batente. Lentes pretas. Mortas.

"Sem energia", ele fala.


Um som estoura longe. Vem da direção da estrada de baixo. Um grunhido fino, gutural, que não é de gente. Depois um tiro. Seco. Depois outro.


Mike apaga a lanterna na hora. Os três se agacham atrás da porta da frente.


Na estrada, na frente da casa dos McKenzie, aquela família alemã de Pomerode que fazia linguiça pra festa, uma luz de lanterna balança. Um vulto passa correndo. Rápido demais pra ser humano. Atravessa o facho de luz e some no mato.


Sérgio tira a mochila das costas. Abre. O protótipo do domo tá lá, com a bateria acoplada. Ele segura firme, dedo no botão, mas não liga.


Eles respiram pesado.


Lá dentro da casa, atrás da porta de aço, algo cai no chão. De propósito. Metal batendo em metal.


Mike levanta a espingarda. Sérgio se levanta devagar, encostado na parede. Ele passa a mão na porta. Tem três botões embutidos, quase invisíveis na pintura. Uma trilha de dedo marcada na poeira.


Ele aperta. Um, três, dois. Nada. Dois, dois, um. Nada.


Jonathan sussurra. "O cartão."


"O quê?"


"Meu vô não usava código", Jonathan fala rápido. "Ele tinha um cartão. Magnético. Guardava nos vasos da entrada. Ele trocava de vaso todo dia pra ninguém achar."


Jonathan levanta e corre até o aparador da entrada. Três vasos de barro. Ele vira o primeiro. Nada. O segundo. Nada. O terceiro tá caído, quebrado. No meio dos cacos, um cartão branco, todo sujo de sangue seco.


Jonathan pega. Volta correndo. Passa no leitor do lado da porta.


Click.


A porta de aço desliza pra dentro, sem barulho. Atrás não tem pólvora. Tem escada de metal descendo. Luz de emergência vermelha piscando fraca. Cheiro de óleo e fio quente.


E o zumbido. Persistente. Uma frequência grave que faz o peito vibrar.


Sérgio olha pra Mike. Mike olha pra Jonathan.


O rádio na cintura de Sérgio tá desligado. Eles não falaram com o bunker desde que saíram.


Lá de baixo, o zumbido muda de tom. Como se tivesse ouvido a porta abrir.


Jonathan segura o cartão com força. "Vô?"


Ninguém responde.


Mike destrava a espingarda mesmo sabendo que não serve. Sérgio liga a bateria do domo na mochila. A luz azul acende fraca, só em modo espera.


Os três se entreolham.


Sérgio sussurra. "Vamos."


E descem.

Capítulo 12: O Bip da Herança




 Capítulo 12: O Bip da Herança


Batidas na porta. Não as de antes. Secas. Ritmo de quem manda.


Mike já tá com a arma em punho.  

— Quem é?  


— Abre, Apolo. É seu pai.  


O bunker congela. Sérgio larga o lápis. Apolo olha pra porta como se tivesse ouvido um fantasma.  


Mike destrava. A porta abre.  


Seu Carlos e Dona Lúcia. Pai e mãe de Apolo e Sérgio. Roupa de estrada, cara de quem dirigiu a noite inteira. Atrás deles, o jipe parado com farol aceso.


Dona Lúcia entra primeiro. Olha pro braço de Apolo, pro rosto de Sérgio, pra Maria, pros garotos. O olho dela enche.  

— Meu Deus… vocês tão vivos.


Seu Carlos fecha a porta. Não cumprimenta. Vai direto no Apolo.  

— Arruma suas coisas. Você e seu irmão. A gente tá indo embora. Agora.


Apolo recua um passo.  

— Indo pra onde, pai?


— Amazônia. — Seu Carlos fala baixo, como se a palavra pesasse. — Fortaleza do seu tio-avô. O Alcides.  


Sérgio ri. Um riso seco, sem humor.  

— O Alcides? O doido do pager?  


Dona Lúcia corta.  

— Não fala assim do seu tio-avô, Sérgio.  


— Por que não? — Sérgio levanta, e o ódio que tava no papel agora tá no corpo todo. — A vida inteira a gente ouviu que ele era desertor. Que surtou na guerra e sumiu no mato. Que mandava bip pra chamar atenção.  


Seu Carlos puxa um aparelho preto, antigo, do bolso. Um pager. A tela verde acesa: SAIAM. AGORA. 47.9° -65.3°  

— Chegou ontem de madrugada. Junto com a notícia da vacina. Junto com o sumiço do gado do Seu Antônio. — Ele olha pra Apolo. — Seu tio-avô passou 40 anos chamando a gente de cego. Ontem a gente enxergou.


Apolo balança a cabeça.  

— A gente não vai, pai.  


— Vai sim. — Seu Carlos dá um passo. — Vocês dois. Já.  


Sérgio se mete na frente do irmão.  

— Não. — A palavra sai trincada. — A gente não abandona ninguém.  


Seu Carlos segura o braço do filho. Forte.  

— Você me escuta, moleque. Eu deixei você brincar de cientista. De mecatrônica. De herói. Acabou. Lá fora tem coisa matando. Seu tio-avô tem concreto de três metros, gerador subterrâneo, comida pra dois anos. Aqui vocês têm o quê? Ódio?  


Sérgio arranca o braço.  

— Aqui eu tenho gente que sangrou por mim! — Ele aponta pra Maria, pro Apolo, pro Mike. — O vô deles tá desaparecido! A gente tá a uma equação de botar um domo magnético pra funcionar e ir buscar! E você quer que eu corra pro mato?  


O silêncio é épico. Pai e filho se encaram. Igual a igual. Só que um tem 50 anos de medo guardado e o outro tem 20 anos de raiva destilada.


Dona Lúcia chora baixo.  

— Carlos… olha pra eles.  


Seu Carlos olha. Pro filho com olheira. Pro caderno cheio de cálculo. Pra Maria com a mão suja de grafite. Pros garotos no canto, tremendo.  

— Vocês… sabem de alguma coisa há dias. — Não é pergunta. — E não falaram.  


Apolo sustenta o olhar do pai.  

— A gente não ia arrastar vocês pra isso.  


Seu Carlos fecha os olhos. Um segundo. Quando abre, tá derrotado. E orgulhoso.  

— Então tá. — Ele solta o ar. — A gente vai. Eu e sua mãe. Sozinhos.  


Marcos levanta do nada. Vai até a bancada. Pega o rádio. O da viagem interdimensional. Aquele que chiou com a voz do avô.  

— Tio Carlos. — Ele entrega. — Leva isso.  


Seu Carlos franze a testa.  

— Pra quê?  


— É um protótipo. — Marcos olha pra Jonathan, que assente. — Meu vô deixou pra gente. Se conecta com a Buzzer 0.0. — Ele engole seco. — Vai até a casa dele. Na casa do meu vô. Lá vocês vão ter o que precisam pra crer.  


Marcos respira fundo, olha direto no olho do Seu Carlos.  

— E conversa com meus pais. Convence eles a irem com vocês até lá. Na casa do meu avô. Eles precisam ver pra acreditar. E pra seguirem com vocês. Com o senhor e com a tia Lúcia.  


Dona Lúcia pega o rádio com as duas mãos. Olha pros meninos. Olha pra Maria. Pra Sérgio.  

— Vocês… tão lutando de verdade. Não é de hoje. É há dias.  


Ela beija a testa de Apolo. Depois a de Sérgio.  

— Termina isso. — Ela aponta pros cadernos. — E depois vai buscar a gente.  


Seu Carlos segura a porta. Olha pro Sérgio uma última vez.  

— Não morre, filho.  


— Não vou. — Sérgio responde. — Eu já morri ontem. Hoje eu só volto.  


Eles saem. O jipe arranca. O barulho do motor some na estrada.


O bunker fica em silêncio por dez segundos.  


Aí Sérgio vira pra bancada.  

— Simulação. De novo.  


Maria senta do lado dele. Sem mandar. Sem liderar. Lado a lado.  

— Base reta. — Ela fala. — Oval em cima. Esquece a bolha perfeita. A gente precisa de chão.  


Sérgio já tá alterando os parâmetros.  

— Dois anéis concêntricos ainda. Mas o de baixo com campo estático. Âncora. O de cima oscila. Domo.  


Jonathan e Marcos puxam as cadeiras. Apolo segura o caderno do pai da Maria aberto na página que Sérgio marcou. Beatriz traz café. Mike fica na porta, vigiando.  


Três horas depois.  


A tela pisca: SIMULAÇÃO ESTÁVEL.  


Não é oval. É um domo. Base reta de 2 metros quadrados. Altura cravada em 2 metros. Cabe os sete, apertado, mas cabe.  


— Pode colapsar se a carga cair abaixo de 40%. — Sérgio lê o relatório. — Mas já dá pra rodar o teste físico.  


Maria levanta. Pega os cabos. Olha pra Sérgio.  

— Você terminou. — A voz dela falha. — O que meu pai tentou antes de morrer… você terminou.    


Sérgio não responde. Só assente. O ódio no rosto dele baixou. Virou outra coisa. Dever.


Eles montam o protótipo. Dois metros quadrados. Dois metros de altura. Condensa tudo ali. Fios, bobinas, o gerador no centro.  


Walk toc. Walk toc.  


O rádio. O outro. Que ficou no bunker. Chia.  


Voz baixa. Cansada.  

— Apolo… aqui é seu pai.  


Todos congelam.  


— A gente tá na casa do avô dos garotos. — A voz de Seu Carlos sai falha. — A casa tá toda revirada. Tem sangue… por toda parte. E uma matéria escura, tipo um rastro. Grosso. Vai na direção do boeiro.  


Jonathan morde a mão pra não gritar.  


— Seu avô não tá aqui. — Seu Carlos continua. — Mas… todas as criações dele. Os bezerros. As galinhas. Tão rasgados ao meio. Secos. Como se alguma coisa tivesse sugado tudo.  


Dona Lúcia chora ao fundo.  


— O Matteo e a Helena (pais dos Garotos) -  estão com a gente. — Seu Carlos respira fundo. — A gente vai pro bunker do seu tio-avô. Amazônia. Agora. Assim que amanhecer.  


O rádio chia. Depois morre.  


Maria desliga o gerador do protótipo. Olha pra cada um.  

— A gente tem um domo. Dois metros por dois. — Ela aponta pra porta. — E a gente tem um alvo.  


Sérgio pega a barra de ferro.  

— Então testa.  


Mike destrava a porta.  


O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.  


Eles estão prontos.

domingo, 5 de julho de 2026

Capítulo 1: O Convite do Interventor.


                                                   Capítulo 1: O Convite do Interventor
Arco 3: Projeto Érebus

O silêncio no bunker pesava como uma mão sobre o peito de cada um. O portal triangular dourado atrás de Kairós pulsava devagar, como um coração de luz, projetando sombras que se alongavam pelas paredes de concreto. Ninguém se mexia. Maria segurava a respiração. Beatriz tinha as mãos frias. Os garotos, encolhidos no canto, pareciam estátuas.

Mike foi o primeiro a falar. Não se moveu, mas a voz saiu baixa e cortante.

— Guardião... interino? — Ele pesou cada palavra. — O que aconteceu com o titular do cargo?

Kairós ficou em silêncio por um instante. Seus olhos percorreram o ambiente com calma, como quem está acostumado a esperar antes de responder. Por um breve momento, seu olhar pousou no chão — numa marca circular e escura, como se algo tivesse sido apagado da existência. Um vazio perfeito.

Então ele desviou os olhos. Olhou para Apolo. Diretamente nos olhos dele. O rosto de Apolo ainda estava pálido do choque da batalha, das visões, de tudo o que tinham visto na fortaleza. Kairós sustentou o olhar por alguns segundos, como se lesse algo ali que ninguém mais conseguia ver.

Depois, com uma voz baixa e cansada, respondeu:

— Meu irmão, Chronos... desapareceu.

A frase caiu no bunker como uma âncora. Maria levou a mão à boca. Mas ali, no fundo do peito, algo se mexeu. Uma vibração fina, como uma corda esticada que alguém acabara de tocar. Ela já tinha ouvido aquele nome antes. Não em voz alta, não num livro. Mas em algum lugar dentro dela — numa noite silenciosa, num transe que ela nunca soube explicar. A palavra chegou antes de ele dizer. Mas ela não contou a ninguém. Não agora. Não ainda.

Apolo piscou, como se tivesse levado um soco.

— E por que você acha que nós temos algo a ver com isso? — Maria perguntou, dando um passo à frente. A desconfiança era evidente em seus olhos.

Kairós inclinou a cabeça.

— Porque vocês são os primeiros, em muito tempo, que conseguiram fazer barulho o suficiente para que eu os ouvisse. — Ele apontou com o queixo para o bracelete no pulso de Mike. — Este dispositivo. Ele não viaja pelo tempo. Ele rasga o tecido dele. Cada salto de vocês deixa uma cicatriz na realidade. E quando vocês abriram caminho por entre as dimensões como uma faca quente... eu ouvi.

Ele deu alguns passos lentos pela sala. Suas botas gastas quase não faziam som no concreto. Parou perto da mesa principal, e seus olhos encontraram novamente a marca escura no chão.

— Foi um desses gritos que me trouxe até a memória deste lugar. A memória de um roubo. — Sua voz mudou de tom, ficou mais grave. — Vocês conheceram um homem. Um russo. Desesperado. Assustado. Vocês o viram como uma vítima. E ele era. Mas ele também era um ladrão.

Kairós tocou a superfície da mesa com um dedo. O ar vibrou. Um holograma dourado surgiu, mostrando imagens fluidas como pinturas vivas: um templo colossal feito de engrenagens e luz, figuras encapuzadas em movimento, um pedestal onde glifos brilhantes flutuavam em dança lenta.

— O Templo do Tempo Serôdio. — A voz dele se tornou mais suave. — Na minha dimensão. É um lugar de equilíbrio, onde as memórias do que foi e os ecos do que pode ser são guardados. — A imagem focou nos glifos. — Estas não são apenas chaves para viagens. São atalhos fundamentais para as leis da física. Cada um é um "dízimo" pago pela realidade para se manter coesa.

A cena mudou. Dois homens invadindo o templo. Um deles arrancou os glifos do pedestal com as mãos nuas. O holograma tremeu.

— Ele não sabia o que estava roubando. A KGB ameaçou a família dele, e ele obedeceu. Ele e seu parceiro. — A imagem mostrou a fuga para um portal instável. — Na tentativa de voltar, a realidade exigiu seu pagamento. O parceiro dele foi... fundido. Parte dele ficou aqui, parte ficou lá. Ivan escapou com os glifos, mas trouxe o caos consigo.

Kairós desfez o holograma com um gesto.

— Estou aqui por dois motivos. — Ele ergueu os dedos. — Recuperar o que foi roubado. E entender o que vocês viram lá dentro.

Apolo estremeceu ao ouvir a referência à fortaleza.

— Você viu também? — perguntou, a voz falhando.

— Não preciso ver. — Kairós baixou a mão. — Eu sinto. O que vocês viram — seres que mudam de forma, sombras que se vestem de carne — são habitantes da Dimensão Dois. A prisão que foi criada para eles.

— E agora a prisão está com os portões abertos — Mike disse, a mandíbula tensa.

— Pior. — A voz de Kairós ficou ainda mais grave. — Eles estão sendo convidados a entrar. Aqueles seres são peões de uma vontade maior. Uma consciência que busca reescrever a criação à sua própria imagem. Nós o chamamos de Demiurgo.

Maria franziu a testa.

— Demiurgo?

— Um arquiteto que não construiu a casa, mas acha que pode reformá-la melhor. — Kairós a encarou. — O projeto da CIA é um ritual para dar a ele um ponto de entrada neste plano. E com Chronos fora do caminho, não há mais um sistema imunológico para combatê-lo.

Beatriz falou pela primeira vez.

— Você disse que é o guardião interino. Por que não pode impedi-lo?

Kairós olhou para ela com respeito.

— Porque eu sou Kairós. — Sua voz pareceu ecoar. — Eu governo os momentos, as oportunidades. Meu irmão governava a linearidade — o rio do tempo. Eu posso abrir uma porta no meio de uma tempestade, mas não posso impedi-la.

Ele se virou para Mike e Apolo.

— Vocês entraram naquela fortaleza como um meteoro. Deixaram rastros. Fizeram barulho. Mas não entenderam o que enfrentavam. — Ele estendeu a mão sobre o bracelete de Mike, e os glifos brilharam em resposta. — Vocês têm as chaves, mas não sabem lê-las. Para enfrentar o Demiurgo, precisam entender as regras que ele está quebrando.

O tom de Kairós mudou.

— Mike. Apolo. — Ele os chamou pelo nome. — Venham comigo para a Dimensão Quatro. Venham ao Templo do Tempo Serôdio. Deixem-me mostrar o que vocês realmente carregam no pulso. Ensiná-los a usar essas chaves com precisão — não como quem arromba uma porta, mas como quem a destranca.

— Não! — Maria exclamou, entrando na frente. — Eles acabaram de voltar. Você não pode levá-los para outro universo!

— Ele é nossa única chance, Maria. — Apolo falou, e sua voz tinha uma nova qualidade. — Nós vimos o que está lá fora. A física que eu conheço não se aplica mais. Precisamos de um novo manual.

Mike olhou para Kairós.

— O que garante que podemos voltar?

Kairós sustentou o olhar dele.

— Eu sou a garantia. — Não havia arrogância em sua voz, apenas certeza. — Meus caminhos são estáveis. Vocês irão. Voltarão. Isso é um fato.

Mike respirou fundo. Olhou para sua equipe. Viu a determinação em Apolo, o medo em Maria, a confiança em Beatriz. Os garotos atrás, apertados uns contra os outros.

— Tudo bem. — A voz saiu firme. — Nós vamos

Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...