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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Capítulo 13: O Reconhecimento




 Capítulo 13: O Reconhecimento


O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.


Eles estão prontos.


Mike não abre a porta. Ele trava de novo.

"Testa."


Sérgio olha pro medidor na bateria que tá dentro da mochila dele. "Noventa e nove."


"Deixa ligado", Mike fala. "Dez minutos."


Eles ficam dentro. Sete pessoas apertadas. O campo faz o som ficar abafado. O relógio da parede anda.


Sérgio não tira o olho do número. 99... 98... 97.

"Caindo", ele avisa.


Maria marca no caderno. "Normal."


Jonathan esfrega a testa. "Tô zonzo."


Marcos respira fundo. "Peso no peito."


Apolo apoia a mão na bobina. Suando.


Sérgio pisca. Olha de novo.

"Noventa e oito."


Mike franze a testa. "Subiu?"


"Noventa e nove... cem." Sérgio bate com o dedo no medidor. "Cem por cento."


Ele desliga o domo. O campo cai. Todo mundo solta o ar de uma vez.


Mike sai primeiro. "Vocês sentiram?"


"Tontura", Jonathan fala.


"Parece que corri", Apolo completa.


Sérgio encosta a mão na bateria da mochila. Tá fria. Ele abre o caderno do pai da Maria e escreve rápido.

"Campo estável. Bateria caiu pra 97 e voltou pra 100 sozinha. Consumo elétrico zero. A gente pagou a conta."


Maria olha. "Pagou como?"


"Energia vital", Sérgio responde. "Pouco. Mas tirou da gente e jogou na bateria. Ele se alimenta da gente pra se manter."


Mike guarda a informação sem discutir. Ele já tá pensando na rua.

"Então a gente não leva o domo ligado. Leva desligado, na mochila. Só liga se for pra não morrer."


Apolo levanta. "A gente vai agora."


Mike aponta pra ele com o queixo.

"Você não."


O bunker silencia.


"Você fica", Mike continua. "Eu vou. Sérgio vai. Jonathan vai."


Apolo: "Por quê eu fico?"


"Porque eu sou defesa", Mike fala. "Se tiver tiro, eu seguro. Sérgio é inteligência, ele sabe o que coletar e o que não tocar. E o Jonathan é reconhecimento. É a única planta baixa viva daquela casa."


Marcos levanta a cabeça. "Meu vô..."


"Pode tá vivo", Mike corta, mas sem prometer. "Teu avô sumiu, não acharam corpo. Velho da roça não morre fácil. Se esconde. Todo veterano tem um canto."


Apolo olha pro irmão. "E eu?"


Mike põe a mão no ombro dele. Firme.

"Porque alguém tem que segurar o bunker se der merda. Porque teu irmão vai precisar de alguém lúcido no rádio. E porque corre no sangue de vocês."


"Sangue do quê?"


"Do Alcides", Mike responde. "Teu tio avô. Militar e cientista. O cara que todo mundo chamou de doido e que mandou o bip certo na hora certa. Ele não era covarde. Era preparado. Você é igual seu tio-avô, só tá com medo de admitir."


Apolo respira. Olha pra Maria. Ela assente.


"Você fica e lê", Sérgio fala, e entrega os três cadernos pra ele. Dois do pai da Maria, cheios de grafite, e um velho de capa de couro do avô da Maria. "A gente leva o domo e traz a amostra. Você acha a defesa."


Apolo segura os cadernos. "Vinte e cinquenta. Se vocês não voltarem em duas horas, eu mantenho o rádio aberto e o bunker trancado."


"Vinte e cinquenta", Mike confirma. Olha o relógio. 20:47.


Maria entrega o rádio curto pra Sérgio. "Canal três. Só emergência."


Beatriz entrega três potes de vidro. "Pra gosma."


Marcos entrega a chave do Chevrolet. "Tanque cheio."


20:50. Eles saem.


A noite tá fechada. Sem lua. O Chevrolet amarelo acende o farol baixo e desce a serra. Mike dirige. Sérgio no banco do passageiro com a mochila do domo desligado nas costas. Jonathan atrás, com a espingarda no colo.


Mike quebra o silêncio primeiro.

"Fala do sítio, Jonathan. Quantas entradas tem?"


Jonathan se inclina pra frente.

"Duas. Portão da frente pela estrada de chão, e uma trilha por trás que sai no rio. A casa é grande, não é casinha. Chácara boa. Meu vô tinha galpão, paiol, e a casa principal com dois andares."


Sérgio vira meio de lado. "Energia?"


"Tinha luz que nunca caía", Jonathan responde. "Mesmo quando Pomerode ficava no escuro, lá ficava aceso. Ele falava que era 'nobreak de hospital'."


Mike assente. "Velho precavido."


"Tem mais", Jonathan continua, a voz mais baixa. "Nos fundos, atrás da cozinha, tem uma porta de aço. Pintada da cor da parede. Ele chamava de sala da pólvora. Dizia que se a gente entrasse, explodia tudo. Nunca deixou nem eu nem o Marcos chegar perto."


"Não é pólvora", Mike fala. "É o canto dele."


"Ele tinha câmera também", Jonathan lembra. "Eu via as luzinhas vermelhas de noite, mas nunca achava onde tava. Ele ria e falava 'quem procura acha problema'."


Mike dá um meio sorriso sem humor. "Então teu vô tava esperando isso faz tempo."


Jonathan engole seco. "Acho que sim."


Vinte e cinco minutos. Eles param a duzentos metros. Mike apaga o farol. Apaga tudo. Vão a pé.


O cheiro bate primeiro. Mesmo de longe. Sangue velho, víscera, bicho morto no sol. Só que é noite. Tá frio. E fede igual.


Mike levanta a mão. Param.


A casa do avô tá do jeito que o Seu Carlos descreveu no rádio. Porta da frente arrancada das dobradiças. Três riscos paralelos na madeira, fundos, de cima a baixo. Sangue preto espirrado na parede da varanda. No chão do terreiro, os bezerros. Abertos no meio. Não cortados. Rasgados. Ocos por dentro, secos, como se tivessem sugado a carne e deixado o couro.


As galinhas em volta, mesma coisa. Penas intactas, dentro vazio.


E o rastro. Grosso como um braço. Preto. Não brilha na lanterna. Sai da cozinha, atravessa a sala e some no boeiro atrás do galinheiro.


Jonathan morde o lábio até sangrar. "Vô..."


"Depois", Mike sussurra. "Primeiro prova."


Sérgio já tá de luva. Ajoelha do lado do bezerro. Tira foto com o celular sem flash. Coleta com cotonete o sangue preto da borda do corte. Guarda no tubinho. Raspa a matéria do chão, coloca no pote de vidro. Fecha.


"Temperatura ambiente", ele fala. "Não coagula. Não cheira a ferro. Cheira a ozônio."


Ele anda até a parede. Pega uma cápsula no chão. Não é de bala. É menor. Redonda, achatada, cor de chumbo fosco. Tem um sulco no meio.

"Olha isso", ele chama Mike.


Mike pega. "Não é 9mm. Não é 12. Não é nada nosso."


"Parece pastilha", Sérgio fala. "De arma de pressão. Ou de outra coisa."


Jonathan aponta pro canto da sala. Cápsulas de 12 espalhadas. Pólvora no chão. "Ele atirou."


"Muito", Mike confirma. "E não adiantou."


Sérgio guarda a pastilha estranha no segundo pote. "Batalha. Arma convencional contra campo."


Jonathan já tá indo pros fundos. Para na frente da porta de aço, pintada da mesma cor da parede. Intacta. Sem risco. Sem sangue. Do lado, um aviso escrito à mão pelo avô: PERIGO PÓLVORA NÃO ENTRAR.


"É essa", Jonathan sussurra. "A sala da pólvora." 


Ele encosta o ouvido. "Tá zumbindo."


Sérgio chega perto. "É igual. Não é igual ao domo, mas é parecido. Frequência baixa."


Mike olha pra cima. Aponta a lanterna. Três câmeras pequenas, escondidas nos cantos do batente. Lentes pretas. Mortas.

"Sem energia", ele fala.


Um som estoura longe. Vem da direção da estrada de baixo. Um grunhido fino, gutural, que não é de gente. Depois um tiro. Seco. Depois outro.


Mike apaga a lanterna na hora. Os três se agacham atrás da porta da frente.


Na estrada, na frente da casa dos McKenzie, aquela família alemã de Pomerode que fazia linguiça pra festa, uma luz de lanterna balança. Um vulto passa correndo. Rápido demais pra ser humano. Atravessa o facho de luz e some no mato.


Sérgio tira a mochila das costas. Abre. O protótipo do domo tá lá, com a bateria acoplada. Ele segura firme, dedo no botão, mas não liga.


Eles respiram pesado.


Lá dentro da casa, atrás da porta de aço, algo cai no chão. De propósito. Metal batendo em metal.


Mike levanta a espingarda. Sérgio se levanta devagar, encostado na parede. Ele passa a mão na porta. Tem três botões embutidos, quase invisíveis na pintura. Uma trilha de dedo marcada na poeira.


Ele aperta. Um, três, dois. Nada. Dois, dois, um. Nada.


Jonathan sussurra. "O cartão."


"O quê?"


"Meu vô não usava código", Jonathan fala rápido. "Ele tinha um cartão. Magnético. Guardava nos vasos da entrada. Ele trocava de vaso todo dia pra ninguém achar."


Jonathan levanta e corre até o aparador da entrada. Três vasos de barro. Ele vira o primeiro. Nada. O segundo. Nada. O terceiro tá caído, quebrado. No meio dos cacos, um cartão branco, todo sujo de sangue seco.


Jonathan pega. Volta correndo. Passa no leitor do lado da porta.


Click.


A porta de aço desliza pra dentro, sem barulho. Atrás não tem pólvora. Tem escada de metal descendo. Luz de emergência vermelha piscando fraca. Cheiro de óleo e fio quente.


E o zumbido. Persistente. Uma frequência grave que faz o peito vibrar.


Sérgio olha pra Mike. Mike olha pra Jonathan.


O rádio na cintura de Sérgio tá desligado. Eles não falaram com o bunker desde que saíram.


Lá de baixo, o zumbido muda de tom. Como se tivesse ouvido a porta abrir.


Jonathan segura o cartão com força. "Vô?"


Ninguém responde.


Mike destrava a espingarda mesmo sabendo que não serve. Sérgio liga a bateria do domo na mochila. A luz azul acende fraca, só em modo espera.


Os três se entreolham.


Sérgio sussurra. "Vamos."


E descem.

domingo, 19 de julho de 2026

Capítulo 6: Demiurgo, a matéria que Respira.






 Capítulo 6: Demiurgo, a Matéria que Respira


O Templo Seródio pulsou uma vez, como se aprovasse a decisão deles.


Kairós não caminhou, ele deslizou, e a luz sob seus pés se recolheu, abrindo um corredor espiral que descia para dentro da própria estrutura do templo.

As paredes não eram paredes; eram membranas translúcidas que respiravam em ritmo lento, expandindo e contraindo como pulmões gigantes.

Cada batida emitia um som grave, quase um zumbido de órgão, que fazia vibrar o tórax.


Apolo sentiu o ar ficar mais denso.  

— Esse lugar... ele tá vivo.

Kairós respondeu sem olhar para trás.  

— Não como você esteja interpretando. 

Vocês estão prestes a ver o que eu vi dentro do abismo no laboratório onde estão desenvolvendo o Demiurgo.


Mike levou a mão à têmpora. 

A dor de cabeça voltou, mais sutil que antes, como uma agulha quente.

Era a mesma sensação do sonho, quando as mãos escuras o seguravam e a voz sussurrava “escolhido”. Ele não disse nada, apenas seguiu.


O corredor terminou numa câmara circular.

 Não havia porta, apenas um véu de luz dourada, fino como névoa, que tremia como superfície de água e Kairós parou diante dele.

— A Câmara do Véu. 

O que vocês virem aqui é a verdade por de trás do mecanismo.


Ele passou a mão pelo véu. 

A luz se abriu como cortina de água, revelando um espaço imenso, escuro, onde algo parecia respirar.

No centro estava suspensa uma massa.


 Não tinha forma definida mais era semelhante a um coração feito de matéria morta.

Era um amontoado de carne como que escurecida cheia de veias pulsantes. 

Um coração colossal não um pequeno coração era algo de entorno de quatro a cinco metros.

 A massa pulsava, e a cada pulsação pequenas fagulhas vermelhas subiam e se apagavam no ar.

Ela tinha um som como de respiração.

O som era úmido e visceral.

A intensidade da visão ficou mais profunda.

Então uma boca apareceu daquela massa, uma boca com dentes como de aço.

E de dentro saiu uma língua como um tentáculo com outra boca nele menor.


Apolo engoliu seco e disse: QUE MERDA E ESSA!


Já Mike sentiu o estômago embrulhar.  


— Isso é o Demiurgo 

— Disse Kairós.


Uma consciência coletiva feita de energia corrompida, alimentada por tudo que os humanos emanam: medo, desejo, violência, idolatria. Ela não pensa como vocês. Ela reage.

Mas agora ela ganhou a capacidade de se alimentar de matéria o que pode fazer com que seu estado seja construído no mundo matéria para completar a sua transformação caótica. 


Nesse espaço vazio estavam prostrados diante da criatura o presidente Giovanni Conte, Larkin Andersen, Elliot Gillard e o General Fontoura.

A matéria começou a se mover, e lentamente o tentáculo tocou cada um deles.

 Após o toque, todos vomitaram uma gosma verde e caíram como mortos.

No meio dos corpos surgiu uma fila de encapuzados com capuzes vermelho escarlate e preto.

Logo a escuridão se revelou como uma sala de um templo e no entorno de tudo muitas taças estavam de baixo do ser caótico.

Então todos os que estavam caídos como mortos, receberam da criatura algo como uma sombra densa.  E ela entrou por suas bocas se apoderou do corpo de cada um deles.

neste momento deu para ouvir estalos de ossos e os corpos se quebrando ate que se colocaram de pé com um semblante assustador e seus olhos tornaram vermelhos.

Então, todos da fila de encapuzados se ajoelharam diante da criatura e também os que haviam recebido a entidade sombria.

Então o último homem que não era como os outros se aproximou.

O rosto estava oculto por uma manta que cobria o corpo inteiro, com cor roxa escura, bordada com detalhes em ouro e cor branca. 

O capuz era um trabalho meticuloso: todo feito de penas e moldado no formato de uma cabeça de coruja, os olhos estavam brilhando com um reflexo dourado provavelmente feito de ouro.

Ele segurava uma taça com as duas mãos.

O Demiurgo moveu lentamente o tentáculo, chegando próximo da taça daquele tentáculo deixou cair na taça algumas gotas de um líquido de cor esverdeado mais muito escuro.


Mike olhou para Kairós, a voz quase sumindo.  

— O que é isso?

— O Elixir do Caos respondeu Kairós.


O homem da manta roxa guardou a taça junto ao peito e virou as costas. 

Um a um, tanto os lideres envolvidos naquela trama de horror quanto os encapuzados, se levantaram e o seguiram, saindo da câmara em silêncio.


Kairós colocou a mão no ombro de Apolo e na nuca de Mike.  

— Venham.


O véu se fechou atrás deles.

O corredor espiral os puxou para cima e, quando atravessaram a curvatura da luz, o ar mudou.

O chão apareceu sob os pés. 

Liso, de pedra clara, firme.

O corpo deles voltou a ser corpo: peso, respiração, pele sensível.

Estavam agora na câmara temporal, um salão amplo dentro da Dimensão Quatro onde a forma material humana era restaurada.


Os dois ficaram em pé, junto a Kairós; Respiravam com esforço, o coração ainda acelerado.

 O silêncio era pesado.


Mike passou a mão no rosto, a voz trêmula.  

— Eu nunca imaginei que veria algo assim… Aquela coisa… ela estava viva.

 Respirando e aquelas pessoas… entregando parte de si para ela.


Apolo estava pálido, os olhos ainda arregalados.  

— Foi pior do que qualquer coisa que a gente viu até agora.


 A Dimensão Quatro já era demais… mas ver aquilo… ver o presidente Giovanni Conte ajoelhado, vomitando aquela gosma… e sendo quebrado por dentro foi assustador.

E aquele homem da manta roxa levando o Elixir embora… Meu Deus, Kairós… O que eles vão fazer com aquilo?


Kairós manteve a voz calma, mas grave.  

— O Elixir do Caos será disseminado.

Eles pretendem introduzi-lo na água, nos alimentos e, através de vetores biológicos, espalhá-lo pelo mundo. 

Não é para matar rapidamente.

É para enfraquecer, gerar pânico e dor em escala global.

Cada morte, cada momento de medo e submissão, vai alimentar o Demiurgo.

É um sacrifício coletivo. 

Quando a massa estiver saciada, eles pretendem fazer o reset. 

Reiniciar a ordem mundial sob o controle total deles.


Apolo engoliu em seco.  

— Tenho uma teoria, esta coisa de coruja e as cores quando estudávamos acões paranormais conspirações e toda a parafernália ufológica este simbolismo sempre nos levaram a uma família muito rica da Europa, os Rothvelth.

— Talvez  aquele homem da manta roxa… Seja, Nathaniel Rothvelth.

Líder da família Campo Vermelho. 


Um dos homens mais ricos e influentes do planeta.

Aparece nas maiores revistas como filantropo, envolvido em ajudas humanitárias e doações bilionárias… 

 Sera que é ele a mão invisível que sustenta a moeda mundial e financia esse horror ?


Mike respirou fundo, ainda sentindo o eco da dor na cabeça.  

— Então o cara que controla boa parte do dinheiro do mundo estava ajoelhado diante daquela coisa…

E levou embora um "veneno" para espalhar de alguma forma?

Tudo que a gente viu no Projeto Prometheus era só fachada.


Kairós assentiu.  

— Exatamente. 


O silêncio voltou por alguns segundos.

Apolo e Mike trocaram um olhar carregado de tremor e incredulidade.

Um triangulo perfeito apareceu diante deles. 

Kairós disse: Como prometido, vamos mais antes quero o bracelete por que tenho que devolver ele ao lugar certo.

E vocês ficaram com outro meio pois este não é um opção para uso na terceira dimensão a dimensão material. 

E como viram, agora mais que nunca vocês sabem que não tem mais volta..

domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 29: Sem máquina de lavar ?

Capítulo 29: Sem máquina de lavar ?

A quarta-feira amanheceu cinza em Santa Rosa.

Lá fora, a chuva fina começara a cair ainda de madrugada, molhando a terra batida da clareira. O barraco abandonado que servia de entrjada para o bunker rangia com o vento, as telhas soltas batendo uma na outra num ritmo irregular.

Dentro do bunker subterrâneo, o silêncio era profundo — apenas o zumbido baixo do gerador e a respiração de duas pessoas no quarto do fundo. A iluminação vinha de dutos de ar e pequenas escotilhas gradeadas no teto, por onde a luz cinzenta da manhã entrava sem força.

Mike estava de costas para a parede, um braço sob a nuca, o outro envolvendo Maria. Vestia apenas um samba-canção — shorts de dormir — e sem camisa. O peito subia e descia no ritmo lento de quem ainda não quer acordar.

Maria estava encostada no ombro dele. A camisola rosa curta — não vulgar, mas curta — subiu um pouco na coxa durante a noite. O cabelo loiro espalhado no travesseiro. A mão dela pousada no peito dele, onde o coração batia devagar.

O rádio da sala estava desligado. O bunker parecia suspenso no tempo.

Foi o barulho do motor que quebrou tudo.

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Lá fora, na estrada de terra que levava à clareira, o Opala de Apolo subia devagar, os pneus estalando no cascalho molhado. Dentro, Beatriz no banco do carona, Sérgio e Jonathan atrás, Marcos no meio dos dois, a mão direita ainda enfaixada.

— Por que tão devagar? — perguntou Marcos.

— Porque o chão está molhado — respondeu Apolo. — E porque não tenho pressa.

O carro parou na clareira, perto do barraco abandonado. Todos desceram. A chuva fina molhava os cabelos e os ombros.

Apolo foi na frente. Entrou no barraco — o piso de madeira rangendo sob os pés, o cheiro de mofo e terra úmida. No fundo, a porta de ferro maciça. Ele se agachou, girou o primeiro cursor — um daqueles mecanismos antigos, de cofre, que exigiam força e jeito. Girou o segundo. Foi no terceiro quando parou.

Na parte de baixo dos cursores, um pequeno visor quadrado — geralmente apagado, inativo há anos — estava aceso. Azul.

Apolo franziu a testa.

— O que é isso? — perguntou Beatriz, ao lado dele, enxugando o cabelo com a mão.

— Leitor biométrico — respondeu Apolo, surpreso. — Maria ativou a segurança.

— Segurança?

— Porta trancada de verdade. Só entra quem está no sistema.

Ele tentou o código mesmo assim. Os cursores giraram, mas a porta não cedeu.

— Travada — disse Sérgio, atrás, encolhendo os ombros contra o frio.

— Maria! — Apolo bateu na porta com a palma da mão. O som ecoou no espaço confinado do barraco. — Maria, abre!

---

Dentro do bunker, no quarto do fundo, Mike acordou como sempre acordava — de um segundo para o outro, o corpo inteiro em alerta.

Os olhos abriram. A mão direita já foi para a cabeceira, onde a pistola ficava todas as noites. Os dedos encontraram o metal frio.

O movimento brusco sacudiu a cama. Maria acordou com o solavanco, os olhos ainda pesados.

— O que foi? — a voz dela saiu grossa, arrastada. — O que que tá acontecendo?

— Alguém parou na clareira — respondeu Mike, já sentando na borda da cama, a pistola no colo.

Maria piscou duas vezes, o cérebro ligando aos poucos.

— É o Apolo.

— Não sei se é o Apolo — Mike já estava de pé, o corpo tenso, o olhar fixo na porta do quarto. — Mas é bom eu ficar atento.

Maria se sentou, puxando o lençol até o peito por instinto.

— Eu ativei o leitor biométrico ontem à noite — disse ela, a voz ainda rouca. — Depois que todo mundo foi embora. Por segurança. Se for o Apolo, ele não consegue entrar. Mas...

— Mas?

— Mas ele sabe o código. Se a porta não abrir, ele vai saber que algo está diferente.

Mike não respondeu. Levantou-se, a pistola na mão, e foi até a porta do quarto. Abriu devagar, enfiou a cabeça no corredor.

Do outro lado da porta principal, ouvia vozes abafadas vindas do barraco lá em cima. Apolo, Beatriz e os garotos.

— Mike! Maria! — a voz de Apolo ecoava pelo duto de ventilação. — Tá todo mundo aqui fora! Abre essa porta!

Mike suspirou. Baixou a pistola.

— É ele.

— Falei — disse Maria, com um meio sorriso.

— Veste alguma coisa — respondeu Mike, sem olhar para trás. — Eu vou abrir.

Ele já estava saindo do quarto quando Maria pulou da cama.

— Espera! — sussurrou ela, desesperada. — Mike! Espera!

Mike parou. Virou o rosto.

Ela apontou para si mesma — a camisola rosa curta, o cabelo bagunçado, o lençol caído.

— Eu não tô vestida!

Mike olhou. Demorou um segundo a mais que o necessário.

— É curta — disse ele, com uma naturalidade que só ele conseguia.

— Mike!

— Tá bom. — Ele recuou até o quarto. — Mas rápido. Eles vão arrombar a porta.

Maria vestiu a primeira coisa que viu pela frente — a camiseta preta dele, que estava jogada no chão, e uma calça jeans que pegou na mala. Passou a mão pelo cabelo, tentando domesticar o que não tinha jeito.

— Pronto — disse ela, ofegante. — Vai.

Os dois saíram do quarto e percorreram o corredor lado a lado até a base da rampa que subia para a porta de ferro.

Foi quando Apolo conseguiu.

O leitor biométrico apitou. A porta de ferro rangeu. Os cursores giraram no sentido inverso — e a porta se abriu com um baque surdo.

Apolo estava no batente, no fundo do barraco, a luz cinzenta da chuva atrás dele. Beatriz ao lado. Sérgio, Jonathan e Marcos logo depois, todos com os cabelos molhados, os ombros encolhidos.

E todos viram.

Mike e Maria saindo do corredor, no topo da rampa. Ele de samba-canção — o shorts de dormir — sem camisa, a pistola ainda na mão, o cabelo desgrenhado. Ela com a camiseta preta dele — larga, desbotada, bordas desfiadas — e a calça jeans vestida às pressas.

O silêncio durou dois segundos eternos.

Ninguém piscou.

Apolo tentou falar. A voz saiu presa, os lábios se mexendo sem coordenar.

— B-b-bom... bom... — ele pigarreou, tentou de novo, a voz saindo mais alta do que pretendia. — BOM DIA!

Ninguém respondeu.

Apolo passou por Mike e Maria como se não estivessem ali — ou como se estivesse fingindo tão desesperadamente que não estavam que o corpo decidiu agir antes do cérebro. Ele desceu a rampa em disparada, passou pelo corredor e sumiu na direção da cozinha, os passos acelerados ecoando no concreto.

— Vamos, pessoal! — gritou ele, já do outro lado da parede. — Entra! Entra todo mundo! Fecha essa porta que está entrando chuva!

Os garotos entraram — duros, os movimentos retos, como robôs programados para esquecer o que tinham acabado de ver. Beatriz foi a última, mas antes de descer a rampa, olhou para Mike e Maria com um sorriso de canto.

— Vocês dois... — disse ela, balançando a cabeça. Depois desceu.

Mike fechou a porta de ferro. Girou os cursores. O bunker voltou a ficar isolado do mundo lá de cima.

---

Na cozinha, o caos silencioso já estava armado.

Sérgio sentou primeiro. Os olhos arregalados, ele olhou para Mike, para Maria, para a camiseta preta, para o fato de os dois terem saído do mesmo quarto — e em vez de dizer qualquer coisa, pegou o pão que estava na sacola e enfiou uma mordida tão grande na primeira fatia que a boca ficou completamente cheia. Não mastigou. Ficou parado, as bochechas estufadas, como um hamster em estado de choque.

Jonathan ficou pálido. Os olhos foram de Mike para Maria, da camiseta para o quarto, e voltaram para o chão. Ele baixou a cabeça e passou a estudar os próprios tênis com uma atenção que nunca havia dedicado a calçado algum.

Beatriz tentou disfarçar. Tirou uma lixa de unhas do bolso — Deus sabia por que ela carregava uma lixa de unhas num bunker — e começou a lixar a unha do dedo anelar com uma intensidade cirúrgica. Os olhos dela, no entanto, estavam fixos em algum ponto lá no fundo, bem acima da cabeça de todo mundo.

Marcos foi o último a processar.

Olhou para Mike. Olhou para Maria. Olhou para o corredor que levava ao quarto. Olhou de novo para a camiseta preta que ela vestia — uma camiseta que ele já tinha visto antes, no corpo de Mike.

O cérebro de quinze anos fez o cálculo.

— Pessoal... — disse ele, com a voz mais alta que o necessário. — Vocês tão sem máquina de lavar?

Ninguém riu.

A vergonha coletiva foi tão densa que dava para cortar com faca.

O rosto de Maria ficou vermelho — da gola da camiseta preta até a raiz do cabelo. Abriu a boca, fechou, abriu de novo. Nenhum som saiu.

Mike — o homem que já tinha enfrentado criaturas de outra dimensão sem piscar — desviou o olhar. Por um segundo. Só um segundo. Mas foi o suficiente.

Jonathan finalmente ergueu a cabeça. Olhou para Marcos com uma expressão que, se pudesse matar só com o olhar, o irmão mais novo já teria sido enterrado.

— Cala a boca, moleque — disse Jonathan, em voz baixa e mortal.

Marcos encolheu os ombros.

— Foi mal. Foi mal.

Apolo estava na pia, de costas para a mesa, despejando café na garrafa térmica com uma concentração que sugeria que aquela era a tarefa mais importante da vida dele. Não se virou. Não disse nada. Só continuou despejando — mesmo depois que a garrafa transbordou.

Beatriz pegou um pano e enxugou sem comentar.

Mike olhou para Maria.

— Volta — sussurrou ele.

— O quê?

— Volta pro quarto. Pega uma roupa sua. Essa camiseta... — ele fez uma pausa — ...é muito óbvia.

Maria olhou para a própria roupa. A camiseta preta com a caveira desbotada. A que Mike vestia quando chegou de moto. A que ele usava nas noites de insônia.

— Ah, não... — murmurou ela.

— Volta.

Ela voltou pelo corredor. A porta do quarto fechou.

Mike ficou na cozinha sozinho com os outros. Respirou fundo uma vez, duas. Passou a mão pelo cabelo. Guardou a pistola na cintura.

Sentou na ponta da mesa.

---

Quando Maria saiu do quarto — desta vez com uma blusa azul dela, calça cargo, o cabelo preso — a cozinha já estava em clima de velório sem defunto.

Apolo continuava na pia, mas agora de frente para a mesa, os braços cruzados. Beatriz ao lado, a lixa guardada. Sérgio finalmente engoliu o pão. Jonathan mantinha os olhos na mesa. Marcos, felizmente, estava com a boca ocupada com um gole de café — não se sabia de onde tinha tirado aquela xícara.

Mike levantou. Foi até Maria. Puxou a cadeira ao lado dele para ela sentar. Ela sentou.

O silêncio durou mais do que o suportável.

Foi Mike quem quebrou.

— Nós — começou ele, e parou. Olhou para Maria. Ela assentiu. — Nós estamos juntos.

Palavra solta no ar. Simples. Direta. Do jeito que ele fazia tudo.

Beatriz pousou o pano.

Apolo descruzou os braços.

Sérgio prendeu a respiração.

Jonathan ergueu os olhos.

Marcos abriu a boca — e Jonathan o interrompeu antes que saísse qualquer coisa:

— Não fala nada.

Marcos fechou a boca.

Mike continuou:

— Essa situação toda... onde eu perdi tudo. Ela perdeu tudo. — Ele olhou para Maria, depois para os outros. — Gerou entre a gente um senso de unidade. E isso foi evoluindo. De forma natural.

— Um senso de unidade — repetiu Marcos, em voz baixa, testando a palavra.

— Marcos — Jonathan avisou.

— Tô quieto. Tô quieto.

Maria se inclinou na cadeira.

— A gente não planejou esconder de vocês — disse ela, a voz saindo mais firme do que o rosto, que ainda estava corado. — Só... não sabia como dizer.

Apolo finalmente se afastou da pia. Foi até Mike. Estendeu a mão.

— Parabéns — disse ele.

Mike apertou. O aperto demorou um segundo a mais que o normal.

— Obrigado.

Beatriz foi até Maria. Pegou na mão dela.

— Eu estou feliz por vocês — disse Beatriz, e a voz dela tremia um pouco, mas não de nervoso. — Depois de tudo que vocês perderam... vocês merecem.

Maria apertou a mão de volta. Não disse nada. Não precisava.

Sérgio se levantou, foi até Mike, e deu um tapinha no ombro dele — o gesto meio desengonçado de quem não sabe muito bem como demonstrar afeto mas quer tentar.

— É isso aí, tio — disse Sérgio. — Felicidades.

Jonathan foi até Maria. Não falou nada. Só deu um abraço rápido — o suficiente.

Marcos ficou na cadeira. Olhou para todos.

— Posso falar agora?

— Depende — disse Jonathan.

— É sério.

Jonathan assentiu.

Marcos se levantou. Foi até Mike e Maria. Estendeu a mão direita — a enfaixada — e disse, com uma seriedade que surpreendeu todo mundo:

— Bem-vindo à família, tio Mike.

Mike olhou para a mão enfaixada. Depois para o rosto sério de Marcos.

Apertou.

— Obrigado, moleque.

O clima mudou. O ar, antes pesado de vergonha e constrangimento, agora estava mais leve. Não completamente — ainda havia o eco do que tinham visto, o rubor nas bochechas de Maria, a forma como Mike ainda não conseguia olhar Apolo nos olhos por mais de dois segundos. Mas estava melhor.

Apolo se serviu de café de verdade — desta vez numa xícara, não na garrafa térmica.

Beatriz guardou o pano de vez.

Foi então que Apolo bateu a xícara na mesa.

— Bom — disse ele, mudando o tom. — Agora que isso foi resolvido... tem uma outra coisa.

Todos olharam.

— Ontem, quando cheguei em casa com o Sérgio e a Beatriz, passei pela sala. Meu pai estava vendo o jornal nacional. — Ele fez uma pausa. — O presidente vai anunciar alguma coisa hoje. Sobre o calendário escolar. Mudança nas férias.

— Mudança como? — perguntou Sérgio.

— Não sei. O jornal disse que a medida seria votada na madrugada. Se foi aprovada, o presidente vai anunciar ao vivo. Hoje.

— Que horas? — perguntou Mike.

— Nove e meia.

Mike olhou para o relógio na parede. Nove e vinte.

— Liga a TV.

Jonathan pegou o controle. A tela da televisão — pendurada na parede da sala de operações — acendeu.

O logo da RS News apareceu. A âncora — uma mulher de cabelos escuros, blusa azul, expressão contida — já estava no ar, mas o tom dela mudou quando uma nova informação entrou no teleprompter.

— Notícia de última hora — disse ela, com a voz grave. — A polícia confirma uma invasão noturna na Escola Estadual de Educação Básica Santa Rosa, na região metropolitana de Porto Alegre. A direção da escola ainda não se pronunciou oficialmente, mas fontes ligadas à Secretaria de Educação informam que o local foi violado durante a madrugada.

Jonathan ficou com o controle na mão, sem desligar.

— Como assim violado? — perguntou Marcos.

A âncora continuou:

— Como a escola não possui câmeras de segurança em todos os acessos, a polícia ainda não tem pistas concretas sobre os invasores. O caso mais grave, no entanto, é o de um funcionário da limpeza que fazia o fechamento do prédio. Ele foi encontrado caído no pátio dos fundos, com ferimentos graves. Foi socorrido e encaminhado ao Hospital Regional de Santa Rosa, onde permanece internado na UTI. A suspeita inicial é de ataque por animal de grande porte — uma onça, possivelmente.

Marcos ficou pálido.

— Onça? — sussurrou ele.

— Não é onça — disse Mike, a voz seca.

— Você não sabe disso — respondeu Apolo.

— Sei. — Mike virou para ele. — Porque onça não invade escola no meio da cidade.

Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...