Capítulo 13: O Reconhecimento
O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.
Eles estão prontos.
Mike não abre a porta. Ele trava de novo.
"Testa."
Sérgio olha pro medidor na bateria que tá dentro da mochila dele. "Noventa e nove."
"Deixa ligado", Mike fala. "Dez minutos."
Eles ficam dentro. Sete pessoas apertadas. O campo faz o som ficar abafado. O relógio da parede anda.
Sérgio não tira o olho do número. 99... 98... 97.
"Caindo", ele avisa.
Maria marca no caderno. "Normal."
Jonathan esfrega a testa. "Tô zonzo."
Marcos respira fundo. "Peso no peito."
Apolo apoia a mão na bobina. Suando.
Sérgio pisca. Olha de novo.
"Noventa e oito."
Mike franze a testa. "Subiu?"
"Noventa e nove... cem." Sérgio bate com o dedo no medidor. "Cem por cento."
Ele desliga o domo. O campo cai. Todo mundo solta o ar de uma vez.
Mike sai primeiro. "Vocês sentiram?"
"Tontura", Jonathan fala.
"Parece que corri", Apolo completa.
Sérgio encosta a mão na bateria da mochila. Tá fria. Ele abre o caderno do pai da Maria e escreve rápido.
"Campo estável. Bateria caiu pra 97 e voltou pra 100 sozinha. Consumo elétrico zero. A gente pagou a conta."
Maria olha. "Pagou como?"
"Energia vital", Sérgio responde. "Pouco. Mas tirou da gente e jogou na bateria. Ele se alimenta da gente pra se manter."
Mike guarda a informação sem discutir. Ele já tá pensando na rua.
"Então a gente não leva o domo ligado. Leva desligado, na mochila. Só liga se for pra não morrer."
Apolo levanta. "A gente vai agora."
Mike aponta pra ele com o queixo.
"Você não."
O bunker silencia.
"Você fica", Mike continua. "Eu vou. Sérgio vai. Jonathan vai."
Apolo: "Por quê eu fico?"
"Porque eu sou defesa", Mike fala. "Se tiver tiro, eu seguro. Sérgio é inteligência, ele sabe o que coletar e o que não tocar. E o Jonathan é reconhecimento. É a única planta baixa viva daquela casa."
Marcos levanta a cabeça. "Meu vô..."
"Pode tá vivo", Mike corta, mas sem prometer. "Teu avô sumiu, não acharam corpo. Velho da roça não morre fácil. Se esconde. Todo veterano tem um canto."
Apolo olha pro irmão. "E eu?"
Mike põe a mão no ombro dele. Firme.
"Porque alguém tem que segurar o bunker se der merda. Porque teu irmão vai precisar de alguém lúcido no rádio. E porque corre no sangue de vocês."
"Sangue do quê?"
"Do Alcides", Mike responde. "Teu tio avô. Militar e cientista. O cara que todo mundo chamou de doido e que mandou o bip certo na hora certa. Ele não era covarde. Era preparado. Você é igual seu tio-avô, só tá com medo de admitir."
Apolo respira. Olha pra Maria. Ela assente.
"Você fica e lê", Sérgio fala, e entrega os três cadernos pra ele. Dois do pai da Maria, cheios de grafite, e um velho de capa de couro do avô da Maria. "A gente leva o domo e traz a amostra. Você acha a defesa."
Apolo segura os cadernos. "Vinte e cinquenta. Se vocês não voltarem em duas horas, eu mantenho o rádio aberto e o bunker trancado."
"Vinte e cinquenta", Mike confirma. Olha o relógio. 20:47.
Maria entrega o rádio curto pra Sérgio. "Canal três. Só emergência."
Beatriz entrega três potes de vidro. "Pra gosma."
Marcos entrega a chave do Chevrolet. "Tanque cheio."
20:50. Eles saem.
A noite tá fechada. Sem lua. O Chevrolet amarelo acende o farol baixo e desce a serra. Mike dirige. Sérgio no banco do passageiro com a mochila do domo desligado nas costas. Jonathan atrás, com a espingarda no colo.
Mike quebra o silêncio primeiro.
"Fala do sítio, Jonathan. Quantas entradas tem?"
Jonathan se inclina pra frente.
"Duas. Portão da frente pela estrada de chão, e uma trilha por trás que sai no rio. A casa é grande, não é casinha. Chácara boa. Meu vô tinha galpão, paiol, e a casa principal com dois andares."
Sérgio vira meio de lado. "Energia?"
"Tinha luz que nunca caía", Jonathan responde. "Mesmo quando Pomerode ficava no escuro, lá ficava aceso. Ele falava que era 'nobreak de hospital'."
Mike assente. "Velho precavido."
"Tem mais", Jonathan continua, a voz mais baixa. "Nos fundos, atrás da cozinha, tem uma porta de aço. Pintada da cor da parede. Ele chamava de sala da pólvora. Dizia que se a gente entrasse, explodia tudo. Nunca deixou nem eu nem o Marcos chegar perto."
"Não é pólvora", Mike fala. "É o canto dele."
"Ele tinha câmera também", Jonathan lembra. "Eu via as luzinhas vermelhas de noite, mas nunca achava onde tava. Ele ria e falava 'quem procura acha problema'."
Mike dá um meio sorriso sem humor. "Então teu vô tava esperando isso faz tempo."
Jonathan engole seco. "Acho que sim."
Vinte e cinco minutos. Eles param a duzentos metros. Mike apaga o farol. Apaga tudo. Vão a pé.
O cheiro bate primeiro. Mesmo de longe. Sangue velho, víscera, bicho morto no sol. Só que é noite. Tá frio. E fede igual.
Mike levanta a mão. Param.
A casa do avô tá do jeito que o Seu Carlos descreveu no rádio. Porta da frente arrancada das dobradiças. Três riscos paralelos na madeira, fundos, de cima a baixo. Sangue preto espirrado na parede da varanda. No chão do terreiro, os bezerros. Abertos no meio. Não cortados. Rasgados. Ocos por dentro, secos, como se tivessem sugado a carne e deixado o couro.
As galinhas em volta, mesma coisa. Penas intactas, dentro vazio.
E o rastro. Grosso como um braço. Preto. Não brilha na lanterna. Sai da cozinha, atravessa a sala e some no boeiro atrás do galinheiro.
Jonathan morde o lábio até sangrar. "Vô..."
"Depois", Mike sussurra. "Primeiro prova."
Sérgio já tá de luva. Ajoelha do lado do bezerro. Tira foto com o celular sem flash. Coleta com cotonete o sangue preto da borda do corte. Guarda no tubinho. Raspa a matéria do chão, coloca no pote de vidro. Fecha.
"Temperatura ambiente", ele fala. "Não coagula. Não cheira a ferro. Cheira a ozônio."
Ele anda até a parede. Pega uma cápsula no chão. Não é de bala. É menor. Redonda, achatada, cor de chumbo fosco. Tem um sulco no meio.
"Olha isso", ele chama Mike.
Mike pega. "Não é 9mm. Não é 12. Não é nada nosso."
"Parece pastilha", Sérgio fala. "De arma de pressão. Ou de outra coisa."
Jonathan aponta pro canto da sala. Cápsulas de 12 espalhadas. Pólvora no chão. "Ele atirou."
"Muito", Mike confirma. "E não adiantou."
Sérgio guarda a pastilha estranha no segundo pote. "Batalha. Arma convencional contra campo."
Jonathan já tá indo pros fundos. Para na frente da porta de aço, pintada da mesma cor da parede. Intacta. Sem risco. Sem sangue. Do lado, um aviso escrito à mão pelo avô: PERIGO PÓLVORA NÃO ENTRAR.
"É essa", Jonathan sussurra. "A sala da pólvora."
Ele encosta o ouvido. "Tá zumbindo."
Sérgio chega perto. "É igual. Não é igual ao domo, mas é parecido. Frequência baixa."
Mike olha pra cima. Aponta a lanterna. Três câmeras pequenas, escondidas nos cantos do batente. Lentes pretas. Mortas.
"Sem energia", ele fala.
Um som estoura longe. Vem da direção da estrada de baixo. Um grunhido fino, gutural, que não é de gente. Depois um tiro. Seco. Depois outro.
Mike apaga a lanterna na hora. Os três se agacham atrás da porta da frente.
Na estrada, na frente da casa dos McKenzie, aquela família alemã de Pomerode que fazia linguiça pra festa, uma luz de lanterna balança. Um vulto passa correndo. Rápido demais pra ser humano. Atravessa o facho de luz e some no mato.
Sérgio tira a mochila das costas. Abre. O protótipo do domo tá lá, com a bateria acoplada. Ele segura firme, dedo no botão, mas não liga.
Eles respiram pesado.
Lá dentro da casa, atrás da porta de aço, algo cai no chão. De propósito. Metal batendo em metal.
Mike levanta a espingarda. Sérgio se levanta devagar, encostado na parede. Ele passa a mão na porta. Tem três botões embutidos, quase invisíveis na pintura. Uma trilha de dedo marcada na poeira.
Ele aperta. Um, três, dois. Nada. Dois, dois, um. Nada.
Jonathan sussurra. "O cartão."
"O quê?"
"Meu vô não usava código", Jonathan fala rápido. "Ele tinha um cartão. Magnético. Guardava nos vasos da entrada. Ele trocava de vaso todo dia pra ninguém achar."
Jonathan levanta e corre até o aparador da entrada. Três vasos de barro. Ele vira o primeiro. Nada. O segundo. Nada. O terceiro tá caído, quebrado. No meio dos cacos, um cartão branco, todo sujo de sangue seco.
Jonathan pega. Volta correndo. Passa no leitor do lado da porta.
Click.
A porta de aço desliza pra dentro, sem barulho. Atrás não tem pólvora. Tem escada de metal descendo. Luz de emergência vermelha piscando fraca. Cheiro de óleo e fio quente.
E o zumbido. Persistente. Uma frequência grave que faz o peito vibrar.
Sérgio olha pra Mike. Mike olha pra Jonathan.
O rádio na cintura de Sérgio tá desligado. Eles não falaram com o bunker desde que saíram.
Lá de baixo, o zumbido muda de tom. Como se tivesse ouvido a porta abrir.
Jonathan segura o cartão com força. "Vô?"
Ninguém responde.
Mike destrava a espingarda mesmo sabendo que não serve. Sérgio liga a bateria do domo na mochila. A luz azul acende fraca, só em modo espera.
Os três se entreolham.
Sérgio sussurra. "Vamos."
E descem.
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