sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Pausa por tempo indeterminado...
domingo, 16 de agosto de 2026
Capítulo 16: O eco que não Dorme.
Capítulo 16: O Eco que não dorme.
23:47. Bunker....
O ar estava pesado por conta dos ocorridos.
As luzes vermelhas de emergência estavam apagadas; só restava a lâmpada amarela da cozinha, fraca, jogando sombras longas nas paredes de concreto.
Pela primeira vez em quase vinte e quatro horas, ninguém corria. Ninguém gritava.
Ninguém apontava uma arma.
Beatriz trocava o curativo no pescoço de Artur com mãos firmes, mas com a delicadeza de quem fez isso por muitos anos e entende bem o protocolo de atendimento de primeiros socorros.
O velho respirava devagar, olhos entreabertos, ainda zonzo efeitocolateral do uso de adrenalina e perda de sangue.
Mike estava encostado na parede do laboratório, calibre doze apoiada no ombro como se fosse uma muleta.
Maria ao lado dele, ombro tocando o dele — um toque pequeno, quase tímido, mas que dizia tudo o que não precisava ser dito.
Apolo e Sérgio sentados no chão, costas na bancada, olhando o nada.
Marcos dormia encostado em Jonathan, exausto.
Jonathan por sua vez estava a olhar na direção da maca.
Depois de tudo ele voltou ao Buzzer 0.0.
Dedos sujos de terra giravam o dial devagar, teimoso, como se a frequência fosse corresponder sua vontade..
— Base Arara… aqui é Jankolski.
Código familiar 7-7-1. Câmbio.
Chiado.
Ele repetiu.
Voz rouca, mas ainda sim resiliente.
De repente, o chiado mudou.
Virou um estalo limpo.
E então uma voz, cansada, mas viva.
— Marcos? Filho… é você?
Marcos quase caiu da cadeira onde estava sentado, e com um pul repentino que despertou Marcos ele disse:
— Pai!
No bunker inteiro o ar mudou todos se aproximaram, mas em silêncio, como se tivessem medo de quebrar o milagre.
A voz do pai saiu entrecortada, cheia de estática, mas clara o suficiente:
— Conseguimos, filho.
Estamos a caminho de chegar a Amazônia.
O General Alcides está nos levando em um avião particular.
Chegamos em duas horas.
O jipe do Alcides está na pista de pouso estamos a salvo.
Então uma voz rouca diz no fundo parem de falar já é suficiente.. A frequência pode estar grampeada.
Disse ele sem saber que estavam a usar uma frequência alternada por Jankolski
Marcos sorriu, aliviado, lágrimas escorrendo sem vergonha.
— Pai, não se preocupe, avise ao General que essa frequência é muito segura.
Foi o vovô Arthur quem fez.
Do outro lado, um segundo de silêncio. Depois a voz do pai, mais baixa, quase reverente:
— Seu vô… meu sogro. Arthur Jankowski.
Se ouve ao fundo uma voz rouca esbravejar
Jankolski....
Está mula empacada não sabe a hora de morrer e riu de forma inexplicável..
Beatriz parou de mexer no curativo,.
Arthur, deitado na maca, abriu os olhos e moveu seu braço devagar.
Então o pai de Jonathan indagou:
— Eu queria saber… o que aconteceu com ele, literalmente. Como ele está.
Sua mãe tá muito triste aqui, filho. Ela não para de chorar desde que a gente saiu.
Marcos olhou na direção de eu avó e disse:
— Ele tá bem, pai ele está aqui com a gente.
Ferido, mas vivo.
A gente trouxe ele do subsolo da chácara.
Ele tá… protegido.
Do rádio veio um soluço abafado.
O pai embargou, voz tremendo:
— Filho… eu tenho muito orgulho de vocês.
De verdade e sei que de alguma forma o universo conspira a favor de vocês.
Marcos fechou os olhos e uma lágrima quente escorreu pelo rosto.
— Pai… Deus está ao nosso lado.
A transmissão chiou mais uma vez.
Depois a voz do pai, quase sussurrando:
— Fiquem vivos a gente se vê em breve.
O rádio voltou ao chiado normal.
Jonathan girando o dial desligou devagar.
Sentou no chão, mãos ainda tremendo Marcos o abraçou forte. Sérgio deu um tapa leve no ombro dele.
— O mais próximo de um “parabéns” que ele conseguia dar. Maria sorriu pela primeira vez em horas.
Um sorriso pequeno, exausto, mas verdadeiro.
Então Apolo disse eu espero que por hoje tenha acabado..
Beatriz terminou o curativo e limpou as mãos.
— Ele vai dormir agora a pressão está estabilizando.
Pela manhã a gente vê se consegue mais soro.
Apolo se levantou, pernas bambas.
— Vou fazer um chimarrão ou um café de verdade não aquela merda solúvel.
Sérgio riu baixo.
— Eu ajudo e se sobrar pão…
Nós comeremos como gente.
Por quase uma hora o bunker viveu uma paz frágil, ela quase soava falsa.
Eles comeram — pão dormido, queijo, latas de sardinha aquecidas no fogareiro.
Sérgio contou, pela primeira vez sem ódio na voz, como o domo tinha se adaptado ao carro.
Apolo falou do tio Alcides com um respeito novo.
Maria e Mike trocaram olhares que ninguém comentou.
Até Artur, acordado de novo, tomou um gole de água e murmurou:
— Vocês fizeram mais em dois dias do que eu em vinte anos.
Beatriz riu.
— O senhor ainda vai nos ensinar muita coisa, Seu Arthur.
O velho sorriu de canto — um sorriso torto, dolorido.
A noite foi passando. O relógio marcou 02:14.
A falsa paz parecia querer ficar.
Até que o Buzzer chiou sozinho.
Marcos, que ainda estava perto do aparelho, franziu a testa.
— Que isso?
Artur, deitado, ficou rígido de repente. Os olhos — antes cansados — ficaram alertas, quase assustados. Ele tentou sentar. Beatriz o segurou.
Mike já estava de pé.
— Apolo Câmeras; Agora.
Apolo correu para o painel e as telas piscaram e acenderam e então:
Clareira vazia, floresta quieta nada se mexendo.
Mas o chiado continuou.
Artur falou, voz rouca, quase um sussurro:
— Desliga o 963 por dois segundos.
Maria olhou para ele.
— Senhor Arthur…
— Só dois segundos ele disse baixo..
Mike fez sinal, Apolo obedeceu.
O silêncio foi absoluto.
Então, dentro daquele breve vazio, o outro som veio claro: um bip-bip-bip ritmado, grave, quase subaudível.
Artur fechou os olhos o rosto dele envelheceu dez anos em dois segundos.
— Buzzer 0.0 — murmurou. — Eu vendi isso pros russos em 1987. Nunca pensei que ia ouvir de novo.
Todos pararam.
O velho continuou, voz baixa, mas cada palavra pesada como chumbo:
— Eles nunca esquecem uma frequência, garotos.
E se essa coisa tá usando a que eu criei…
significa que o Projeto Erebus não morreu.
Alguém ainda tá escutando
Alguém que não é daqui.
Ele olhou para Marcos. Depois para todos.
— A noite acabou.
Mas o que vem aí… não é só mais uma Sentinela.
Mike ligou o 963 de novo.
O som familiar voltou, cobrindo o bip distante.
Mas agora ninguém conseguia ignorar o que estava por baixo.
Beatriz apagou a luz da cozinha
Só ficou o brilho vermelho do painel de energia.
— Amanhecer em três horas — disse ela, voz calma. — Vamos tentar dormir.
Eles se deitaram onde puderam com cobertores no chão. Cabeças no colo uns dos outros.
A falsa paz tinha voltado.
Mas agora ela tinha um eco.
Um bip grave, quase inaudível, que pulsava por baixo do 963 Hz como um segundo coração.
Lá fora, o céu começava a clarear — um amanhecer cinzento, sem cor.
Dentro do bunker, ninguém dormiu de verdade.
Apenas descansaram um pouco.
sábado, 15 de agosto de 2026
Capítulo 15: O pulso metafísico
Capítulo 15: O pulso metafísico.
No relógio bate às 21:19.
Energia: 57%
O alarme de proximidade pisca vermelho no painel do Apolo. Dois pontos, Parados a uns 12 metros da entrada secreta
Apolo, diz: “Dois contatos de classe desconhecida parecem ser Estacionários.
Sérgio diz: Parecem... farejar.”
Mike já tá no laboratório, encostado no batente, com a calibre doze na mão e o olho no monitor de energia.
“Beatriz, status do Artur?”
Beatriz, sem tirar o olho do monitor cardíaco, pressionando a gaze no pescoço do Artur: “Complicado a pulsação dele ainda está fraca.
Ele perdeu sangue demais na estrada e no subsolo.
E aqui a gente não tem estoque, nada pra emergência.”
Ela engole seco. “Se ele entrar em choque, eu só tenho soro, adrenalina e as minhas mãos.
E se eu desligar o 963Hz pra economizar energia, não sei o que acontece com ele. A frequência tá estabilizando alguma coisa nele.”
Mike: “Então o 963 fica ligado. Apolo, ativa as câmeras em pulso. 10 segundos ligada, 50 desligada. Economiza.”
Apolo: “Ativando pulso.” As telas piscam. Imagem da clareira. Os dois vultos cor de pixe estão agachados.
Um deles encosta como se fosse a mão na parede da entrada do barraco próximo da entrada secreta.
Como se sentisse a vibração do 963Hz.
Maria, do lado de Apolo analisando os dados: “Eles sabem que a gente tá aqui.”
Jonathan, olhando fixo pro monitor, murmura: “Não... eles não conseguem entrar.
Parece que a pedra tá vibrando com o 963.
Essa frequência... ela tá reafirmando as leis daqui, da Dimensão 3.”
Ele vira pra Marcos e lembra que o laboratório que ficava na casa de pólvora era um ótimo lugar para prender os seres e haveria a possibilidade de destruir eles lá mais sem as coordenadas do seu avô tudo fica mais difícil então ele segue tenso e em silêncio.
Então ele murmura: Enquanto o 963 bater, eles ficam presos do lado de fora. Não conseguem manter forma humanoide direito.”
Mike estreita o olho: “Como cê sabe?”
Jonathan aponta pra câmera:
“Olha o contorno deles Tá falhando Piscando
Larkin Andersen e Eliot Gilliard eu suponho; Eles devem ter assumido sua forma instável.
Após dizer isso ele se vira em direção ao Buzzer.
Preocupado ele tenta contado.
Ao girar o dial do Buzzer com força ele escuta um chiado forte que corta a sala.
Marcos ao ouvir vai até lá e se poe atrás de Jonathan, com a mão no ombro do irmão.
Jonathan, voz trêmula: “Base Arara, aqui é Jankolski. Código familiar 7-7-1. Pai, mãe, alguém me responde. Câmbio.”
(Apenas chiado e mais Nada.)
Marcos: “Tenta de novo. Por favor.”
Jonathan respira fundo, troca a frequência.
"Residência Alcides, código 7-7-1, prioridade alfa.
Aqui é Jonathan Jankolski.
Sérgio e Apolo estão comigo seguros. General Alcides, GENERAL... na escuta? Câmbio.”
Somente Chiado.
Até que um ouviu um estalo, uma voz robótica, quebrada: “...Janko... posição... hostil... não... repito...” então o som silencia..
Jonathan soca a mesa. “MERDA não tá funcionando direito...”
Marcos segura o irmão antes dele quebrar o Buzzer. “Jonathan. Olha pra mim.”
Jonathan se vira chorando de raiva e medo misturados.
“E se eles tiverem mortos, Marcos?
E se o vô for o único que sobrou?”
Isso se a Bia conseguir ajudar ele..
Diz esfregando o rosto e apertando suas mãos nos olhos...
Marcos cola a testa na dele.
“Então a gente honra eles ajudando nossa equipe.
A gente não desiste no Buzzer, vamos continuar tentando.
Tenta de 10 em 10 minutos, Igual o vô ensinou lembra?
"Persistência.”
Jonathan assente, engolindo seco, “Desculpa. Eu... eu não quero perder ele também.”
Marcos: “Nem eu.
Então ajuda a Beatriz, Vê se ela precisa de mais gaze, soro, qualquer coisa. Eu fico no Buzzer.”
Marcos assistiu e foi.
Beatriz tá com as luvas ensanguentadas, fazendo pressão direta no ferimento do pescoço do Artur enquanto Maria tá no terminal, monitorando os sinais vitais.
Mike sai do batente Atravessa o laboratório devagar.
Para atrás da Maria e diz em tom baixo, rouco: “Maria.”
Ela leva um susto, Vira na cadeira. “Mike. Que foi?”
Ele se abaixa e fica na altura dos olhos dela.
Mike: “Cê lembra de quando tudo isso começou?”
Maria franze a testa. “Quando o quê começou?”
Mike: "Toda está maluquice, eu não tenho noção do porquê eu te salvei naquele dia.
Eu realmente achava você uma cientista bruxa maluca sempre com cabelo preso de qualquer jeito, jaleco manchado, falando sozinha com uma prancheta de documentos e livros.
E quando tudo aconteceu eu só queria te tirar daquele lugar e te colocar em um lugar mais seguro.
Realmente não pensei duas vezes.”
Maria para de digitar e de olhar para o monitor.
E olha para ele de verdade, olho no olho, Respira fundo e diz, de um jeito que ele não espera: “Mike. Hoje o motivo de eu me manter bem, é por que fez isso então eu entendo que tenha me salvado mais isso olhando a grosso modo foi até ruim porque pra mim tudo isso é minha culpa. Se eles tivessem me matad—”
Antes dela terminar, ele coloca o dedo indicador na boca dela. Suave, mas firme. Balança a cabeça devagar, olho cravado no dela.
Mike: “Isso não é sua culpa e nem pense nisto.
Se você tivesse morrido eu não teria você e logo nada faria sentido.
O silêncio dura um segundo quando ele tira o dedo, ela segura o ar e solta: “Eu te amo.”
Ele não responde com palavra puxa ela pela nuca e a beija.
É curto, mas é tudo.
Quando separam, a testa dele tá colada na dela.
Mike: “Eu também te amo e se a gente sair dessa vivo, eu não te largo mais.”
Maria assente, sem voz.
Volta pro terminal, com a boca tremendo e o coração batendo mais rápido que o monitor do Artur.
Ele levanta, ajusta a calibre doze no peito e volta pro modo General.
» » » ∆ « « «
Nas câmeras, os dois seres agora estão de pé e um deles ergue como fosse o braço apontando para o barracão Bate na pedra da entrada secreta.
Mike: “Apolo, desliga o pulso. Câmeras off. Agora.”
Apolo: “Desligando.”
Tela preta. Silêncio, Só o Tum. Tum. Tum. Vindo de fora.
Eles devem estar tentando entrar mais alguma coisa não está deixando, está coisa de frequência é absurda como ela exerce tamanha defesa quando se trata destes seres.
Artur, na maca, se mexe. Murmura sem abrir os olhos e ...
E o monitor cardíaco apita em Linha reta.
Beatriz grita: “PARADA CARDÍACA!”
Mike ruge pros meninos: “PRO LABORATÓRIO! AGORA!”
Jonathan, Sérgio e Marcos disparam correndo, com medo estampado na cara.
Beatriz já tá com a seringa de adrenalina na mão: “Maria, segura aqui!” Injeta no peito do Artur, “Um, dois, três...” Começa a massagem cardíaca.
Mike olha pra porta.
Depois pro monitor com a linha reta e pra Beatriz com as mãos no peito do Senhor Artur, bombeando a vida de volta.
Tum. Tum. Tum. Da porta.
Apolo corre, pega a mochila de Sérgio e liga o protótipo do Domo na frente da porta e o domo se arma na proporção de dois metros de altura por dois de largura.
Um campo translúcido de energia magnética negativa.
Como o domo tinha proporção de dois por dois e o corredor tinha a proporção de dois por um e meio, o domo se transformou em uma barreira, se adaptando ao formato do corredor selando a entrada.
Ele volta correndo, pega o protótipo que ele fez, coloca o holofote de UVC de dois mil watts virado para a direção do domo e liga.
Do holofote a luz transpassa o domo e o ruído da frequência 963Hz que vem das caixinhas que foram acopladas a este holofote ecoam de forma mais intensa dentro do domo.
Dentro do bunker. O som fica encorpado, denso, como se a própria lei da Dimensão 3 estivesse gritando.
Ele trava os dois ali e volta correndo.
Agora estão todos ali. Mike, Apolo, Maria de pé ao lado da maca, e Beatriz em cima do Artur, contando: “Vinte e oito, vinte e nove, trinta...” Torcendo pra tudo dar certo.
Jonathan e Sérgio entram no laboratório ofegantes. E param.
Marcos tá ajoelhado no chão, perto de uma cadeira.
Cabeça baixa, mãos juntas, olhos fechados.
Iniciando uma oração.
Sérgio congela e não sabia como faze,ele nunca o fez.
Mas alguma coisa dentro dele quebrou vendo o irmão de Jonathan suplicando.
Ele se ajoelha ao lado, desajeitado.
Junta as mãos, imitando.
Sérgio, sussurra com a voz falhando: “Deus nos ajude, Deus nos ajude.
Por favor.”
Jonathan fica em pé, olhando os dois Engole seco.
Não se ajoelha, mas fecha os olhos com força e diz, engasgando e com a voz embargada: “Senhor... Por favor salve nossas vidas e a dos nossos!
Eu sei que eu não sei orar como se deve.”
Mais ajude-nos..
A cena fica mais distante.
Um som extremamente agudo que estava vindo de fora do bunker.
Dava pra se ouvir claramente mesmo com o zumbido da 963Hz. Um agudo estridente como metal rasgando metal.
Era o som de algo sendo desfeito.
Apolo dispara para o painel ao ouvir o som.
Liga as câmeras.
O que ele vê não faz sentido. As duas criaturas não estavam mais ali.
Apolo, vendo na câmera de segurança da frente do bunker, se assusta.
A imagem começa a piscar.
E tudo fica normal automaticamente..
No laboratório, Marcos e Sérgio ainda estão de joelhos.
Na maca, o corpo do Senhor Artur se arqueia. Beatriz é jogada pra trás com o tranco.
Ele puxa o ar.
Um ronco fundo, gutural, como se tivesse voltando de um lugar muito, muito fundo.
O monitor: bip... bip... bip...
Lento fraco, mas vivo.
Artur abre os olhos cinzentos e ainda confusos..
Ele olha pro teto do bunker logo a após se deitar imóvel.
Depois com um olhar fraco visualiza Beatriz que estava ao seu lado e depois pra Mike.
E sussurra, com a voz de quem viu o inferno:
“Eles... fugiram.”
Capítulo 14: Na escuta, na escuta?
Capítulo 14: Na escuta, na escuta?
Pouco tempo depois da saída da equipe de busca. 20:53.
O bunker tá em silêncio. Não é paz. É peso.
Maria tá cabisbaixa, sentada no sofá da sala. Olho no chão. Mãos entrelaçadas, apertando até os dedos ficarem brancos.
Beatriz se achega. Senta na beirada do sofá.
Não fala nada de cara. Só fica ali.
“Maria?”, Beatriz chama baixo.
Maria não levanta a cabeça. “É tudo culpa minha.”
“Que que cê tá falando?”
“Eu fui conivente, Beatriz.” A voz dela quebra. “Eu sabia dos riscos. Eu entendi o que tava vindo. E mesmo assim deixei acontecer. Deixei todo mundo entrar nisso. O Sérgio, o Mike... até os meninos.” O choro vem de uma vez. Engasgado, doído. “Parece que tudo isso... é culpa só minha.”
Beatriz puxa ela pro abraço. Acaricia o cabelo. “Não fala assim. Ninguém sabia de nada. Nem você.”
Maria chora no ombro dela. “Mas eu devia saber. Eu sou a cientista.
Era pra eu ter previsto.”
Beatriz espera o choro diminuir. Respira fundo. Muda o tom. “Tô preocupada com o Apolo.”
Maria se afasta um pouco, enxuga o rosto. “Por quê?”
“Ele é impulsivo demais, Maria. Cê viu como ele ficou quando o Mike mandou ele ficar. Se der alguma merda lá fora, ele vai querer sair correndo. E com esses cadernos na mão...”
Maria abaixa a cabeça. Fica em silêncio uns segundos. Depois solta: “Eu também amo alguém impulsivo.”
Beatriz arregala o olho. “Quem?”
Maria respira fundo. “Em toda minha vida, eu tive uma prioridade: ciência. Ser como meu pai, como meu avô. Carregar o legado. Poucas vezes eu senti que... gostei de alguém de verdade. Eu achei que tinha conhecido o amor. Lark Andersen.” Maria balança a cabeça. “A gente estudou junto quando criança. Formamos juntos. Ele conhecia minha família por minha causa. Mas a gente nunca evoluiu. O amor dele, o meu... a ambição tava toda voltada pra ciência. A gente escolheu o laboratório.”
Maria olha pro chão de novo e diz: “Eu não sei lidar com o que eu sinto porque a pessoa que eu nunca pensei que ia amar vive pra lá e pra cá limpando arma, resmungando, tomando cerveja e fumando cigarro. Totalmente diferente de uma pessoa como o Lark, que era intelectual. Mas o Lark vendeu sua alma, enquanto o Mike quase perdeu a sua vida por mim.” Ela engole seco e disse: “Eu amo o Mike. Ele é o impulsivo que eu amo.”
Beatriz fica boquiaberta por dois segundos. Depois ri, sem humor, pra quebrar o peso. “Cê descobriu essa face do Apolo agora. Eu descobri a do General faz tempo.”
As duas dão um meio sorriso. Triste, mas verdadeiro.
Aí ouvem.
Um choro. Abafado. Vindo da cozinha do bunker.
Elas se levantam na hora. Vão até lá.
Marcos tá no chão. Posição fetal, encostado na parede da pia. Chorando compulsivo, ombro tremendo.
Beatriz e Maria se abaixam. Cada uma pega numa mão do garoto.
“Vem, Marquinhos”, Beatriz chama baixo. “Vamos até o sofá.”
Ele balança a cabeça, negando. A voz sai entre soluços: “Não consigo... acreditar em Deus. Deus deixou isso acontecer com meu vô. Deixou todas essas tragédias. Não é possível que exista um Deus bom. Igual o Pastor de Josué falou na célula na casa de Josué.”
Beatriz abraça ele. “Marcos, não é tempo de ficar tentando achar culpados numa situação como essa. É muito difícil pensar, se quer. Então julgar algo... se acalma.”
Maria fica quieta um segundo. A Maria cética. A cientista sem coração. Ela se abaixa na altura do Marcos. Olha no olho dele.
“Marcos, não é porque Deus tenha permitido tudo isso que essa seja a vontade Dele. Talvez Ele esteja aguardando o tempo certo. Depois de tudo que eu vi, não existe possibilidade lógica de não existir alguém por trás de todas essas coisas. Maior do que as coisas que vieram acontecer.”
Ela puxa o garoto e abraça. “Fica calmo.”
Marcos respira fundo no ombro dela. O choro diminui. O corpo relaxa.
Após o abraço, eles se afastam devagar.
Aí tudo dá errado.
As lâmpadas começam a piscar. Frenético. O alarme de movimentação externa dispara. Um som agudo, cortando o bunker.
Maria, Beatriz e Marcos se jogam contra a parede. Se abaixam. Esperam o pior.
Apolo sai do laboratório correndo. Na mão, um protótipo novo. Um holofote de 2.000W com lâmpadas UVC acopladas. Junto, duas caixas de som relativamente altas, ligadas num gravador. A frequência 963Hz começa a ecoar, grave, preenchendo o bunker.
Ele se posiciona na frente delas. O holofote e o som formam um escudo.
As lâmpadas param de piscar. Tudo volta ao normal. Silêncio.
Aí ouvem.
Passos. Firmes. Em cima do bunker. Pesados, mas não humanos.
Apolo sussurra: “Silêncio.”
Pou. Pou. Pou.
Os passos continuam. Depois um grunhido. Grave, abafado. Do lado de fora.
O som dos passos some. Rápido. Velocidade absurda.
Breve silêncio.
Aí vem outro som. De longe. Um cervo sendo atacado. Um berro agudo, cortado no meio.
Todos ficam apavorados. Paralisados.
O som some. Silêncio absurdo de novo.
Eles começam a se levantar devagar.
Apolo diz: “Eu preciso fazer uma ronda.” Ele já tá com as duas pistolas na mão. Entrega o protótipo ligado pra Beatriz. “Fica com isso.”
Ele some pelos corredores do bunker. O resto fica intenso. Respirando baixo.
Depois de algum tempo, Apolo volta. “A barra tá limpa.”
No momento em que ele diz isso, o rádio do laboratório chia.
Maria trava. Estado de choque e alerta. “Mike.”
Ela levanta e sai correndo pro laboratório improvisado. Todos atrás.
Ela roda o botão de frequência. Nada. Volta pra posição anterior. Chiado de novo.
E do chiado, a voz de Sérgio sai. Baixa. Urgente. Desesperada:
“Na escuta. Na escuta.”
Maria responde com a voz desesperada: “Tá tudo bem?”
Sérgio responde: “Tenho notícias. Nós acabamos não nos comunicando quando chegamos. Nos desculpe pela falta de notícias. Então, exatamente como o pai do Jonathan e do Marcos disse, tá a casa do avô deles. Uma destruição absurda. Portas arrancadas, animais mortos, um cheiro horrível de sangue podre e cadáveres que estão espalhados por todo o terreno. Porém, eu tenho novidades. Coletei algumas amostras dessa gosma que ele havia dito e posso afirmar: é algo que não pertence a essa dimensão. Claramente.” A voz de Sérgio saía falando em movimento. “Porém...”, ele continuou. “Nos encontramos aqui uma porta que leva para um subsolo da casa do avô de Jonathan. Que se lembrou de uma porta chamada de casa de pólvora, que na verdade é uma entrada para um subsolo. Estamos descendo. Preciso desligar o rádio.”
Maria responde desesperada: “Sérgio! Sérgio! Não desligue! Fale conosco! Eu preciso de informações! Como vai que tá e já.”
O rádio corta. Não sai mais som do buzzer. 0.0.
Maria se levanta rapidamente, de forma nervosa. “O que diabos esses homens têm que eles não conseguem finalizar uma conversa?”
Marcos corta a cena, puxando a blusa de Maria. “Você pode me deixar fazer algumas pesquisas do seu notebook?”
Maria olha pra Marcos. Ele estava visualmente diferente. O semblante estava diferente. Ela assente e leva o garoto até o seu notebook. Rapidamente, ele começa as suas pesquisas.
Enquanto isso, Maria volta os olhos para Apolo, que estava abraçando Beatriz. E ela aperta os próprios braços e fica com um olhar perdido. Enquanto sussurra: “Mike, onde você está?”
A cena muda.
Mike à frente, com a sua calibre doze na mão.
Atrás dele, Jonathan que estava perdido em olhares. Pois nunca tinha visto aquela parte da casa do seu avô.
E Sérgio, colocando o rádio no cinto.
Ao término dessa escada eles dão direto de frente com um corredor. Nesse corredor as luzes de segurança estão totalmente apagadas. Não há som. E eles seguem apenas com as luzes da lanterna UVC ligadas e apontadas em direção à frente. Enquanto Sérgio segura o protótipo dentro da sua mochila, que estava posicionada de frente ao seu corpo e não nas suas costas. O dedo estava trêmulo em cima do botão, enquanto o protótipo estava em ponto de funcionamento. Só o que se ouve nesse corredor é apenas respiração pesada. O corredor estava limpo. Não tinha sinais da entrada de ninguém.
Mike olha para Sérgio e pergunta: “Cê fechou a porta na hora que a gente entrou?”
Sérgio disse: “Sim. Bati a porta.”
Então eles se deparam no final do corredor com uma bifurcação. O corredor era estreito, porém tinha um percurso grande. E ao chegar nessa bifurcação, eles se perguntam: “E agora? Qual lado?”
Sérgio disse: “Vamos pela direita.” Enquanto Jonathan fica perdido entre qual lado gostaria de ir. Mike diz: “Vamos, Jonathan. Para de ficar olhando em volta. Precisamos encontrar algum vestígio.”
Jonathan volta para a realidade. Seus olhos enchem de água e ele fala baixinho: “Vô.”
Eles ouvem um barulho vindo da direita. Como se fossem cabos de vassoura caindo. Mike levanta sua arma e disse: “Fiquem atrás de mim.” E segue.
Esse corredor era um corredor menor. Logo eles chegam com uma porta comum. E quando eles abrem essa porta, eles se deparam com o avô dos garotos. Ferido gravemente no pescoço e braço esquerdo. Mas com uma arma diferente nas mãos. Muito fraco e perdendo sangue, mesmo com um torniquete no braço.
Mike disse: “Senhor Artur? Senhor Artur, é você? Responda-me.” E o senhor vira o rosto para ele e balança a cabeça.
Então eles saem correndo em direção ao Senhor Artur. Mike rapidamente aperta o ferimento e pede para que Sérgio prepare para usar o Domo de defesa. Mike, sem evitar, coloca Senhor Jankolski nas costas. Todos se preparam para sair dali o quanto antes. Eles marcham em velocidade acelerada até a porta. Enquanto Artur balbucia palavras e diz: “Vocês não têm noção do que está à solta.”
Mike disse: “Senhor Artur, poupe suas palavras. Primeiro vamos chegar à nossa base e lá o senhor vai ficar melhor e vai poder nos explicar com muito mais detalhes.” Artur concorda com a cabeça e com o seu olhar e desmaia nas costas de Mike.
Enquanto isso, Jonathan enxuga as lágrimas e segue a princípio. Juntamente a Sérgio, que continua trêmulo, porém agora aguardando sair do subsolo. Aonde ele começa a perceber que Artur estava utilizando no subsolo de sua casa, no bunker dele, a mesma frequência que Marcos havia dito quando começaram a pesquisar formas de defesa. A frequência 963.
Eles saem até a escada. E ao subir a escada, Sérgio pega o cartão, passa na frente deles e passa. E diz: “Acesso negado.” Então eles ficam olhando um para os outros. “E agora?” E Mike diz: “Sr. Artur, acorde. Como saímos daqui?”
Enquanto isso, Sérgio nem olha para Mike. Ele vê os três botões posicionados ao lado da porta. O primeiro botão ele aperta 9 vezes. O segundo botão ele aperta 6 vezes. E o terceiro botão ele aperta 3 vezes. A porta abre instantaneamente. E eles saem em direção ao carro.
Chegando do lado de fora do rancho, eles notam que a casa dos Mackenzie estava totalmente sem energia. As janelas apagadas, nenhum sinal de luz. O breu engolia a estrutura inteira, como se a casa tivesse sido arrancada da existência. Nem a lâmpada da varanda piscava. Só escuridão. Rapidamente eles ajeitam Senhor Artur. Sentam Jonathan de um lado, Sérgio do outro, segurando a toalha que estancava o sangramento.
Mike dá partida no carro, que liga instantaneamente. Ele acelera. Enquanto isso ele disse: “Sérgio, já aperta esse botão.” E quando o Sérgio aperta o botão, o Domo toma completamente o carro. Assustando a eles, porque Mike pensava que o Domo de segurança não comportaria totalmente o carro. Porém ele se adaptou ao tamanho do carro.
Artur olha para a mão de Sérgio e disse: “Você é o garoto estranho que anda com Marcos e com o Jonathan. Eu prometo que nunca mais te chamo de estranho.”
“Na verdade, você não é tão estranho pra mim. Você me lembra alguém... Eu só não consigo lembrar o nome, mas...” E Sérgio disse: “Eu sou da família do Alcides.”
Então Artur, com a voz fraca, disse: “General Alcides? Eu não acredito...” Porém Jonathan corta a conversa e diz: “Vô, apenas respira. Você está fraco. Precisa repousar. Vamos chegar. Por favor, só aguente.”
Mike estava tenso, segurando o volante, pensando que o Domo estava sendo testado pela primeira vez agora. Eles nem perceberam se a bateria estava subindo ou descendo, se mantendo. Eles só queriam chegar na base.
Porém, enquanto eles estavam na estrada acelerando, passa e vem um carro preto. Uma SUV que estava vindo na direção oposta com vidros filmados. O carro passa em alta velocidade ao lado da SUV enquanto ela freia brutamente e começa a fazer o contorno para vir atrás do carro deles. Então Mike engata a quarta e acelera no máximo. Pede para que se segurem e começa uma perseguição.
Mike toma um outro caminho e sobe para o lado das Colinas. Enquanto a SUV começa a seguir. Mike faz o contorno pelo caminho das Colinas, ganhando muito espaço de distância da SUV, e entra em um túnel que dá próximo ao lago. Enquanto a SUV passa direto, mas percebe que eles não estão à frente e volta para trás pelo túnel. Mas Mike dá a volta e acelera o máximo que pode na reta, voltando para a estrada e entrando para o lado das lanchonetes.
E ele começa a perceber que no caminho muitas casas estão desligadas. Enquanto isso, ele estava olhando para os lados. Ele atropela algo.
Um corpo totalmente negro, cor de pixe.
Fica caído na estrada. Não era gente. Bateu no Domo e caiu. Mike dentro de si disse: “Teste concluído com sucesso. Domo funciona.” E continua acelerando sentido à clareira, aonde fica a entrada escondida do bunker.
Logo ele entra, dessa vez com o carro, para dentro do compartimento de segurança do Bunker, que foi acionado com sucesso. Logo a entrada se fecha. E eles ouvem, do lado de dentro da parte de segurança do Bunker, os carros passando em alta velocidade por ali. O que significa que eles não estão 100% seguros.
Então os garotos descem, tirando o Senhor Artur, carregando ele nos seus ombros até a escada que dá acesso à porta interna do Bunker.
E Sérgio dá o rádio para Mike, que chama: “Apolo, na escuta. Abra a porta rápido.”
Apolo estava sentado no sofá ao lado de Beatriz, passando a mão na cabeça de Marcos que havia se deitado em seu colo e dormindo. Ele deixa a cabeça do garoto no colo de Beatriz e sai correndo. Porém Maria chega primeiro.
Maria pega o comunicador e responde: “Mike, onde você está?” Ele disse: “Maria, abre essa porta!” E Apolo, vendo que ela já tinha atendido, corre para a porta e faz a combinação e abre a porta.
O que eles veem: Mike sujo de sangue, com rádio na mão, a 12 pendurada junto ao seu pescoço por uma bandoleira, e os garotos carregando Artur Jankolski em seus braços.
Com o barulho de Mike entrando, Marcos desperta quando Beatriz se levanta a pedido de Apolo. Corre Beatriz. Então Marcos se assusta e corre junto. E quando ele vê o seu avô na situação que estava, Marcos se ajoelha e disse: “Muito obrigado, meu Deus. A partir de hoje eu sou todo seu!!!”
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Capítulo 13: O Reconhecimento
Capítulo 13: O Reconhecimento
O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.
Eles estão prontos.
Mike não abre a porta. Ele trava de novo.
"Testa."
Sérgio olha pro medidor na bateria que tá dentro da mochila dele. "Noventa e nove."
"Deixa ligado", Mike fala. "Dez minutos."
Eles ficam dentro. Sete pessoas apertadas. O campo faz o som ficar abafado. O relógio da parede anda.
Sérgio não tira o olho do número. 99... 98... 97.
"Caindo", ele avisa.
Maria marca no caderno. "Normal."
Jonathan esfrega a testa. "Tô zonzo."
Marcos respira fundo. "Peso no peito."
Apolo apoia a mão na bobina. Suando.
Sérgio pisca. Olha de novo.
"Noventa e oito."
Mike franze a testa. "Subiu?"
"Noventa e nove... cem." Sérgio bate com o dedo no medidor. "Cem por cento."
Ele desliga o domo. O campo cai. Todo mundo solta o ar de uma vez.
Mike sai primeiro. "Vocês sentiram?"
"Tontura", Jonathan fala.
"Parece que corri", Apolo completa.
Sérgio encosta a mão na bateria da mochila. Tá fria. Ele abre o caderno do pai da Maria e escreve rápido.
"Campo estável. Bateria caiu pra 97 e voltou pra 100 sozinha. Consumo elétrico zero. A gente pagou a conta."
Maria olha. "Pagou como?"
"Energia vital", Sérgio responde. "Pouco. Mas tirou da gente e jogou na bateria. Ele se alimenta da gente pra se manter."
Mike guarda a informação sem discutir. Ele já tá pensando na rua.
"Então a gente não leva o domo ligado. Leva desligado, na mochila. Só liga se for pra não morrer."
Apolo levanta. "A gente vai agora."
Mike aponta pra ele com o queixo.
"Você não."
O bunker silencia.
"Você fica", Mike continua. "Eu vou. Sérgio vai. Jonathan vai."
Apolo: "Por quê eu fico?"
"Porque eu sou defesa", Mike fala. "Se tiver tiro, eu seguro. Sérgio é inteligência, ele sabe o que coletar e o que não tocar. E o Jonathan é reconhecimento. É a única planta baixa viva daquela casa."
Marcos levanta a cabeça. "Meu vô..."
"Pode tá vivo", Mike corta, mas sem prometer. "Teu avô sumiu, não acharam corpo. Velho da roça não morre fácil. Se esconde. Todo veterano tem um canto."
Apolo olha pro irmão. "E eu?"
Mike põe a mão no ombro dele. Firme.
"Porque alguém tem que segurar o bunker se der merda. Porque teu irmão vai precisar de alguém lúcido no rádio. E porque corre no sangue de vocês."
"Sangue do quê?"
"Do Alcides", Mike responde. "Teu tio avô. Militar e cientista. O cara que todo mundo chamou de doido e que mandou o bip certo na hora certa. Ele não era covarde. Era preparado. Você é igual seu tio-avô, só tá com medo de admitir."
Apolo respira. Olha pra Maria. Ela assente.
"Você fica e lê", Sérgio fala, e entrega os três cadernos pra ele. Dois do pai da Maria, cheios de grafite, e um velho de capa de couro do avô da Maria. "A gente leva o domo e traz a amostra. Você acha a defesa."
Apolo segura os cadernos. "Vinte e cinquenta. Se vocês não voltarem em duas horas, eu mantenho o rádio aberto e o bunker trancado."
"Vinte e cinquenta", Mike confirma. Olha o relógio. 20:47.
Maria entrega o rádio curto pra Sérgio. "Canal três. Só emergência."
Beatriz entrega três potes de vidro. "Pra gosma."
Marcos entrega a chave do Chevrolet. "Tanque cheio."
20:50. Eles saem.
A noite tá fechada. Sem lua. O Chevrolet amarelo acende o farol baixo e desce a serra. Mike dirige. Sérgio no banco do passageiro com a mochila do domo desligado nas costas. Jonathan atrás, com a espingarda no colo.
Mike quebra o silêncio primeiro.
"Fala do sítio, Jonathan. Quantas entradas tem?"
Jonathan se inclina pra frente.
"Duas. Portão da frente pela estrada de chão, e uma trilha por trás que sai no rio. A casa é grande, não é casinha. Chácara boa. Meu vô tinha galpão, paiol, e a casa principal com dois andares."
Sérgio vira meio de lado. "Energia?"
"Tinha luz que nunca caía", Jonathan responde. "Mesmo quando Pomerode ficava no escuro, lá ficava aceso. Ele falava que era 'nobreak de hospital'."
Mike assente. "Velho precavido."
"Tem mais", Jonathan continua, a voz mais baixa. "Nos fundos, atrás da cozinha, tem uma porta de aço. Pintada da cor da parede. Ele chamava de sala da pólvora. Dizia que se a gente entrasse, explodia tudo. Nunca deixou nem eu nem o Marcos chegar perto."
"Não é pólvora", Mike fala. "É o canto dele."
"Ele tinha câmera também", Jonathan lembra. "Eu via as luzinhas vermelhas de noite, mas nunca achava onde tava. Ele ria e falava 'quem procura acha problema'."
Mike dá um meio sorriso sem humor. "Então teu vô tava esperando isso faz tempo."
Jonathan engole seco. "Acho que sim."
Vinte e cinco minutos. Eles param a duzentos metros. Mike apaga o farol. Apaga tudo. Vão a pé.
O cheiro bate primeiro. Mesmo de longe. Sangue velho, víscera, bicho morto no sol. Só que é noite. Tá frio. E fede igual.
Mike levanta a mão. Param.
A casa do avô tá do jeito que o Seu Carlos descreveu no rádio. Porta da frente arrancada das dobradiças. Três riscos paralelos na madeira, fundos, de cima a baixo. Sangue preto espirrado na parede da varanda. No chão do terreiro, os bezerros. Abertos no meio. Não cortados. Rasgados. Ocos por dentro, secos, como se tivessem sugado a carne e deixado o couro.
As galinhas em volta, mesma coisa. Penas intactas, dentro vazio.
E o rastro. Grosso como um braço. Preto. Não brilha na lanterna. Sai da cozinha, atravessa a sala e some no boeiro atrás do galinheiro.
Jonathan morde o lábio até sangrar. "Vô..."
"Depois", Mike sussurra. "Primeiro prova."
Sérgio já tá de luva. Ajoelha do lado do bezerro. Tira foto com o celular sem flash. Coleta com cotonete o sangue preto da borda do corte. Guarda no tubinho. Raspa a matéria do chão, coloca no pote de vidro. Fecha.
"Temperatura ambiente", ele fala. "Não coagula. Não cheira a ferro. Cheira a ozônio."
Ele anda até a parede. Pega uma cápsula no chão. Não é de bala. É menor. Redonda, achatada, cor de chumbo fosco. Tem um sulco no meio.
"Olha isso", ele chama Mike.
Mike pega. "Não é 9mm. Não é 12. Não é nada nosso."
"Parece pastilha", Sérgio fala. "De arma de pressão. Ou de outra coisa."
Jonathan aponta pro canto da sala. Cápsulas de 12 espalhadas. Pólvora no chão. "Ele atirou."
"Muito", Mike confirma. "E não adiantou."
Sérgio guarda a pastilha estranha no segundo pote. "Batalha. Arma convencional contra campo."
Jonathan já tá indo pros fundos. Para na frente da porta de aço, pintada da mesma cor da parede. Intacta. Sem risco. Sem sangue. Do lado, um aviso escrito à mão pelo avô: PERIGO PÓLVORA NÃO ENTRAR.
"É essa", Jonathan sussurra. "A sala da pólvora."
Ele encosta o ouvido. "Tá zumbindo."
Sérgio chega perto. "É igual. Não é igual ao domo, mas é parecido. Frequência baixa."
Mike olha pra cima. Aponta a lanterna. Três câmeras pequenas, escondidas nos cantos do batente. Lentes pretas. Mortas.
"Sem energia", ele fala.
Um som estoura longe. Vem da direção da estrada de baixo. Um grunhido fino, gutural, que não é de gente. Depois um tiro. Seco. Depois outro.
Mike apaga a lanterna na hora. Os três se agacham atrás da porta da frente.
Na estrada, na frente da casa dos McKenzie, aquela família alemã de Pomerode que fazia linguiça pra festa, uma luz de lanterna balança. Um vulto passa correndo. Rápido demais pra ser humano. Atravessa o facho de luz e some no mato.
Sérgio tira a mochila das costas. Abre. O protótipo do domo tá lá, com a bateria acoplada. Ele segura firme, dedo no botão, mas não liga.
Eles respiram pesado.
Lá dentro da casa, atrás da porta de aço, algo cai no chão. De propósito. Metal batendo em metal.
Mike levanta a espingarda. Sérgio se levanta devagar, encostado na parede. Ele passa a mão na porta. Tem três botões embutidos, quase invisíveis na pintura. Uma trilha de dedo marcada na poeira.
Ele aperta. Um, três, dois. Nada. Dois, dois, um. Nada.
Jonathan sussurra. "O cartão."
"O quê?"
"Meu vô não usava código", Jonathan fala rápido. "Ele tinha um cartão. Magnético. Guardava nos vasos da entrada. Ele trocava de vaso todo dia pra ninguém achar."
Jonathan levanta e corre até o aparador da entrada. Três vasos de barro. Ele vira o primeiro. Nada. O segundo. Nada. O terceiro tá caído, quebrado. No meio dos cacos, um cartão branco, todo sujo de sangue seco.
Jonathan pega. Volta correndo. Passa no leitor do lado da porta.
Click.
A porta de aço desliza pra dentro, sem barulho. Atrás não tem pólvora. Tem escada de metal descendo. Luz de emergência vermelha piscando fraca. Cheiro de óleo e fio quente.
E o zumbido. Persistente. Uma frequência grave que faz o peito vibrar.
Sérgio olha pra Mike. Mike olha pra Jonathan.
O rádio na cintura de Sérgio tá desligado. Eles não falaram com o bunker desde que saíram.
Lá de baixo, o zumbido muda de tom. Como se tivesse ouvido a porta abrir.
Jonathan segura o cartão com força. "Vô?"
Ninguém responde.
Mike destrava a espingarda mesmo sabendo que não serve. Sérgio liga a bateria do domo na mochila. A luz azul acende fraca, só em modo espera.
Os três se entreolham.
Sérgio sussurra. "Vamos."
E descem.
Capítulo 12: O Bip da Herança
Capítulo 12: O Bip da Herança
Batidas na porta. Não as de antes. Secas. Ritmo de quem manda.
Mike já tá com a arma em punho.
— Quem é?
— Abre, Apolo. É seu pai.
O bunker congela. Sérgio larga o lápis. Apolo olha pra porta como se tivesse ouvido um fantasma.
Mike destrava. A porta abre.
Seu Carlos e Dona Lúcia. Pai e mãe de Apolo e Sérgio. Roupa de estrada, cara de quem dirigiu a noite inteira. Atrás deles, o jipe parado com farol aceso.
Dona Lúcia entra primeiro. Olha pro braço de Apolo, pro rosto de Sérgio, pra Maria, pros garotos. O olho dela enche.
— Meu Deus… vocês tão vivos.
Seu Carlos fecha a porta. Não cumprimenta. Vai direto no Apolo.
— Arruma suas coisas. Você e seu irmão. A gente tá indo embora. Agora.
Apolo recua um passo.
— Indo pra onde, pai?
— Amazônia. — Seu Carlos fala baixo, como se a palavra pesasse. — Fortaleza do seu tio-avô. O Alcides.
Sérgio ri. Um riso seco, sem humor.
— O Alcides? O doido do pager?
Dona Lúcia corta.
— Não fala assim do seu tio-avô, Sérgio.
— Por que não? — Sérgio levanta, e o ódio que tava no papel agora tá no corpo todo. — A vida inteira a gente ouviu que ele era desertor. Que surtou na guerra e sumiu no mato. Que mandava bip pra chamar atenção.
Seu Carlos puxa um aparelho preto, antigo, do bolso. Um pager. A tela verde acesa: SAIAM. AGORA. 47.9° -65.3°
— Chegou ontem de madrugada. Junto com a notícia da vacina. Junto com o sumiço do gado do Seu Antônio. — Ele olha pra Apolo. — Seu tio-avô passou 40 anos chamando a gente de cego. Ontem a gente enxergou.
Apolo balança a cabeça.
— A gente não vai, pai.
— Vai sim. — Seu Carlos dá um passo. — Vocês dois. Já.
Sérgio se mete na frente do irmão.
— Não. — A palavra sai trincada. — A gente não abandona ninguém.
Seu Carlos segura o braço do filho. Forte.
— Você me escuta, moleque. Eu deixei você brincar de cientista. De mecatrônica. De herói. Acabou. Lá fora tem coisa matando. Seu tio-avô tem concreto de três metros, gerador subterrâneo, comida pra dois anos. Aqui vocês têm o quê? Ódio?
Sérgio arranca o braço.
— Aqui eu tenho gente que sangrou por mim! — Ele aponta pra Maria, pro Apolo, pro Mike. — O vô deles tá desaparecido! A gente tá a uma equação de botar um domo magnético pra funcionar e ir buscar! E você quer que eu corra pro mato?
O silêncio é épico. Pai e filho se encaram. Igual a igual. Só que um tem 50 anos de medo guardado e o outro tem 20 anos de raiva destilada.
Dona Lúcia chora baixo.
— Carlos… olha pra eles.
Seu Carlos olha. Pro filho com olheira. Pro caderno cheio de cálculo. Pra Maria com a mão suja de grafite. Pros garotos no canto, tremendo.
— Vocês… sabem de alguma coisa há dias. — Não é pergunta. — E não falaram.
Apolo sustenta o olhar do pai.
— A gente não ia arrastar vocês pra isso.
Seu Carlos fecha os olhos. Um segundo. Quando abre, tá derrotado. E orgulhoso.
— Então tá. — Ele solta o ar. — A gente vai. Eu e sua mãe. Sozinhos.
Marcos levanta do nada. Vai até a bancada. Pega o rádio. O da viagem interdimensional. Aquele que chiou com a voz do avô.
— Tio Carlos. — Ele entrega. — Leva isso.
Seu Carlos franze a testa.
— Pra quê?
— É um protótipo. — Marcos olha pra Jonathan, que assente. — Meu vô deixou pra gente. Se conecta com a Buzzer 0.0. — Ele engole seco. — Vai até a casa dele. Na casa do meu vô. Lá vocês vão ter o que precisam pra crer.
Marcos respira fundo, olha direto no olho do Seu Carlos.
— E conversa com meus pais. Convence eles a irem com vocês até lá. Na casa do meu avô. Eles precisam ver pra acreditar. E pra seguirem com vocês. Com o senhor e com a tia Lúcia.
Dona Lúcia pega o rádio com as duas mãos. Olha pros meninos. Olha pra Maria. Pra Sérgio.
— Vocês… tão lutando de verdade. Não é de hoje. É há dias.
Ela beija a testa de Apolo. Depois a de Sérgio.
— Termina isso. — Ela aponta pros cadernos. — E depois vai buscar a gente.
Seu Carlos segura a porta. Olha pro Sérgio uma última vez.
— Não morre, filho.
— Não vou. — Sérgio responde. — Eu já morri ontem. Hoje eu só volto.
Eles saem. O jipe arranca. O barulho do motor some na estrada.
O bunker fica em silêncio por dez segundos.
Aí Sérgio vira pra bancada.
— Simulação. De novo.
Maria senta do lado dele. Sem mandar. Sem liderar. Lado a lado.
— Base reta. — Ela fala. — Oval em cima. Esquece a bolha perfeita. A gente precisa de chão.
Sérgio já tá alterando os parâmetros.
— Dois anéis concêntricos ainda. Mas o de baixo com campo estático. Âncora. O de cima oscila. Domo.
Jonathan e Marcos puxam as cadeiras. Apolo segura o caderno do pai da Maria aberto na página que Sérgio marcou. Beatriz traz café. Mike fica na porta, vigiando.
Três horas depois.
A tela pisca: SIMULAÇÃO ESTÁVEL.
Não é oval. É um domo. Base reta de 2 metros quadrados. Altura cravada em 2 metros. Cabe os sete, apertado, mas cabe.
— Pode colapsar se a carga cair abaixo de 40%. — Sérgio lê o relatório. — Mas já dá pra rodar o teste físico.
Maria levanta. Pega os cabos. Olha pra Sérgio.
— Você terminou. — A voz dela falha. — O que meu pai tentou antes de morrer… você terminou.
Sérgio não responde. Só assente. O ódio no rosto dele baixou. Virou outra coisa. Dever.
Eles montam o protótipo. Dois metros quadrados. Dois metros de altura. Condensa tudo ali. Fios, bobinas, o gerador no centro.
Walk toc. Walk toc.
O rádio. O outro. Que ficou no bunker. Chia.
Voz baixa. Cansada.
— Apolo… aqui é seu pai.
Todos congelam.
— A gente tá na casa do avô dos garotos. — A voz de Seu Carlos sai falha. — A casa tá toda revirada. Tem sangue… por toda parte. E uma matéria escura, tipo um rastro. Grosso. Vai na direção do boeiro.
Jonathan morde a mão pra não gritar.
— Seu avô não tá aqui. — Seu Carlos continua. — Mas… todas as criações dele. Os bezerros. As galinhas. Tão rasgados ao meio. Secos. Como se alguma coisa tivesse sugado tudo.
Dona Lúcia chora ao fundo.
— O Matteo e a Helena (pais dos Garotos) - estão com a gente. — Seu Carlos respira fundo. — A gente vai pro bunker do seu tio-avô. Amazônia. Agora. Assim que amanhecer.
O rádio chia. Depois morre.
Maria desliga o gerador do protótipo. Olha pra cada um.
— A gente tem um domo. Dois metros por dois. — Ela aponta pra porta. — E a gente tem um alvo.
Sérgio pega a barra de ferro.
— Então testa.
Mike destrava a porta.
O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.
Eles estão prontos.
domingo, 2 de agosto de 2026
Capítulo 11: O Dia D e o Silêncio da mídia.
Os olhos dele correm pelas fórmulas.
sábado, 1 de agosto de 2026
Capítulo 10: Amanhecer com cor de trevas.
Pausa por tempo indeterminado...
Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo... Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...
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Protocolo vértice Conspiração Extradimencional. - Arco 1 - O Prologo: A Dimensão Oculta Apresentação: A Dimensão Oculta O escuro era a...
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