Capítulo 16: O Eco que não dorme.
23:47. Bunker....
O ar estava pesado por conta dos ocorridos.
As luzes vermelhas de emergência estavam apagadas; só restava a lâmpada amarela da cozinha, fraca, jogando sombras longas nas paredes de concreto.
Pela primeira vez em quase vinte e quatro horas, ninguém corria. Ninguém gritava.
Ninguém apontava uma arma.
Beatriz trocava o curativo no pescoço de Artur com mãos firmes, mas com a delicadeza de quem fez isso por muitos anos e entende bem o protocolo de atendimento de primeiros socorros.
O velho respirava devagar, olhos entreabertos, ainda zonzo efeitocolateral do uso de adrenalina e perda de sangue.
Mike estava encostado na parede do laboratório, calibre doze apoiada no ombro como se fosse uma muleta.
Maria ao lado dele, ombro tocando o dele — um toque pequeno, quase tímido, mas que dizia tudo o que não precisava ser dito.
Apolo e Sérgio sentados no chão, costas na bancada, olhando o nada.
Marcos dormia encostado em Jonathan, exausto.
Jonathan por sua vez estava a olhar na direção da maca.
Depois de tudo ele voltou ao Buzzer 0.0.
Dedos sujos de terra giravam o dial devagar, teimoso, como se a frequência fosse corresponder sua vontade..
— Base Arara… aqui é Jankolski.
Código familiar 7-7-1. Câmbio.
Chiado.
Ele repetiu.
Voz rouca, mas ainda sim resiliente.
De repente, o chiado mudou.
Virou um estalo limpo.
E então uma voz, cansada, mas viva.
— Marcos? Filho… é você?
Marcos quase caiu da cadeira onde estava sentado, e com um pul repentino que despertou Marcos ele disse:
— Pai!
No bunker inteiro o ar mudou todos se aproximaram, mas em silêncio, como se tivessem medo de quebrar o milagre.
A voz do pai saiu entrecortada, cheia de estática, mas clara o suficiente:
— Conseguimos, filho.
Estamos a caminho de chegar a Amazônia.
O General Alcides está nos levando em um avião particular.
Chegamos em duas horas.
O jipe do Alcides está na pista de pouso estamos a salvo.
Então uma voz rouca diz no fundo parem de falar já é suficiente.. A frequência pode estar grampeada.
Disse ele sem saber que estavam a usar uma frequência alternada por Jankolski
Marcos sorriu, aliviado, lágrimas escorrendo sem vergonha.
— Pai, não se preocupe, avise ao General que essa frequência é muito segura.
Foi o vovô Arthur quem fez.
Do outro lado, um segundo de silêncio. Depois a voz do pai, mais baixa, quase reverente:
— Seu vô… meu sogro. Arthur Jankowski.
Se ouve ao fundo uma voz rouca esbravejar
Jankolski....
Está mula empacada não sabe a hora de morrer e riu de forma inexplicável..
Beatriz parou de mexer no curativo,.
Arthur, deitado na maca, abriu os olhos e moveu seu braço devagar.
Então o pai de Jonathan indagou:
— Eu queria saber… o que aconteceu com ele, literalmente. Como ele está.
Sua mãe tá muito triste aqui, filho. Ela não para de chorar desde que a gente saiu.
Marcos olhou na direção de eu avó e disse:
— Ele tá bem, pai ele está aqui com a gente.
Ferido, mas vivo.
A gente trouxe ele do subsolo da chácara.
Ele tá… protegido.
Do rádio veio um soluço abafado.
O pai embargou, voz tremendo:
— Filho… eu tenho muito orgulho de vocês.
De verdade e sei que de alguma forma o universo conspira a favor de vocês.
Marcos fechou os olhos e uma lágrima quente escorreu pelo rosto.
— Pai… Deus está ao nosso lado.
A transmissão chiou mais uma vez.
Depois a voz do pai, quase sussurrando:
— Fiquem vivos a gente se vê em breve.
O rádio voltou ao chiado normal.
Jonathan girando o dial desligou devagar.
Sentou no chão, mãos ainda tremendo Marcos o abraçou forte. Sérgio deu um tapa leve no ombro dele.
— O mais próximo de um “parabéns” que ele conseguia dar. Maria sorriu pela primeira vez em horas.
Um sorriso pequeno, exausto, mas verdadeiro.
Então Apolo disse eu espero que por hoje tenha acabado..
Beatriz terminou o curativo e limpou as mãos.
— Ele vai dormir agora a pressão está estabilizando.
Pela manhã a gente vê se consegue mais soro.
Apolo se levantou, pernas bambas.
— Vou fazer um chimarrão ou um café de verdade não aquela merda solúvel.
Sérgio riu baixo.
— Eu ajudo e se sobrar pão…
Nós comeremos como gente.
Por quase uma hora o bunker viveu uma paz frágil, ela quase soava falsa.
Eles comeram — pão dormido, queijo, latas de sardinha aquecidas no fogareiro.
Sérgio contou, pela primeira vez sem ódio na voz, como o domo tinha se adaptado ao carro.
Apolo falou do tio Alcides com um respeito novo.
Maria e Mike trocaram olhares que ninguém comentou.
Até Artur, acordado de novo, tomou um gole de água e murmurou:
— Vocês fizeram mais em dois dias do que eu em vinte anos.
Beatriz riu.
— O senhor ainda vai nos ensinar muita coisa, Seu Arthur.
O velho sorriu de canto — um sorriso torto, dolorido.
A noite foi passando. O relógio marcou 02:14.
A falsa paz parecia querer ficar.
Até que o Buzzer chiou sozinho.
Marcos, que ainda estava perto do aparelho, franziu a testa.
— Que isso?
Artur, deitado, ficou rígido de repente. Os olhos — antes cansados — ficaram alertas, quase assustados. Ele tentou sentar. Beatriz o segurou.
Mike já estava de pé.
— Apolo Câmeras; Agora.
Apolo correu para o painel e as telas piscaram e acenderam e então:
Clareira vazia, floresta quieta nada se mexendo.
Mas o chiado continuou.
Artur falou, voz rouca, quase um sussurro:
— Desliga o 963 por dois segundos.
Maria olhou para ele.
— Senhor Arthur…
— Só dois segundos ele disse baixo..
Mike fez sinal, Apolo obedeceu.
O silêncio foi absoluto.
Então, dentro daquele breve vazio, o outro som veio claro: um bip-bip-bip ritmado, grave, quase subaudível.
Artur fechou os olhos o rosto dele envelheceu dez anos em dois segundos.
— Buzzer 0.0 — murmurou. — Eu vendi isso pros russos em 1987. Nunca pensei que ia ouvir de novo.
Todos pararam.
O velho continuou, voz baixa, mas cada palavra pesada como chumbo:
— Eles nunca esquecem uma frequência, garotos.
E se essa coisa tá usando a que eu criei…
significa que o Projeto Erebus não morreu.
Alguém ainda tá escutando
Alguém que não é daqui.
Ele olhou para Marcos. Depois para todos.
— A noite acabou.
Mas o que vem aí… não é só mais uma Sentinela.
Mike ligou o 963 de novo.
O som familiar voltou, cobrindo o bip distante.
Mas agora ninguém conseguia ignorar o que estava por baixo.
Beatriz apagou a luz da cozinha
Só ficou o brilho vermelho do painel de energia.
— Amanhecer em três horas — disse ela, voz calma. — Vamos tentar dormir.
Eles se deitaram onde puderam com cobertores no chão. Cabeças no colo uns dos outros.
A falsa paz tinha voltado.
Mas agora ela tinha um eco.
Um bip grave, quase inaudível, que pulsava por baixo do 963 Hz como um segundo coração.
Lá fora, o céu começava a clarear — um amanhecer cinzento, sem cor.
Dentro do bunker, ninguém dormiu de verdade.
Apenas descansaram um pouco.

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