Em um click!!
segunda-feira, 22 de junho de 2026
domingo, 21 de junho de 2026
Lançamento Volume 2
"Lançamento da continuação da Websérie Protocolo Vértice Conspiração Extradimensional - Arco 3: Projeto Érebus.
Data: 05 de Julho de 2026.
No Blogger e Whatsapp..
domingo, 14 de junho de 2026
Capítulo 38: Caminhos separados.
Capítulo 38: Caminhos separados.
"Entre mundos"
A manhã clareava lá fora quando Mike já estava de pé no centro da sala de operações.
O bracelete no pulso. A luz azul pulsando fraca. Maria ao lado, os olhos grudados nos monitores. Apolo encostado na parede, braços cruzados. Beatriz na cozinha, mas com um olho no corredor.
— Vai com calma — disse Maria.
— Vou.
Mike fechou os olhos.
Cozinha. A pia. A geladeira.
Expandiu a mente.
O bracelete brilhou. O círculo se abriu — contorno brilhante, raios de luz pulsando. O ar ficou pesado. A frequência 963 aumentou de volume.
Mike foi puxado.
E reapareceu.
Na cozinha.
De pé, como se tivesse dado três passos.
— Consegui — ele disse, a voz saindo com um tom de surpresa.
Maria correu para o corredor. Apolo veio atrás.
— Você foi para a cozinha?
— Foi para onde eu pensei.
— A cozinha não é a clareira — Apolo observou.
— Mas é onde eu pensei.
Maria anotou algo no notebook
— Você controlou o destino, mas não a distância. Sua mente ainda está presa no bunker.
Mike tentou de novo. Fechou os olhos.
Clareira. A porta de ferro. O barraco.
O círculo se abriu. Ele foi puxado.
E reapareceu.
No quarto de Apolo.
De pé ao lado da cama bagunçada.
— Puta... — ele murmurou.
Apolo apareceu na porta.
— Meu quarto?
— Pensei na clareira.
— Pensou errado.
Maria apareceu atrás de Apolo.
— Sua mente está dividida. Medo, ansiedade, preocupação — tudo isso atrapalha a intenção.
Mike tirou o bracelete. Olhou para ele.
— Então não sou eu que tenho que fazer isso.
Virou-se para Apolo.
— Você.
Apolo ergueu a sobrancelha.
— Eu?
— Sua cabeça é mais limpa que a minha. Você é professor. Vive de foco.
Apolo olhou para o bracelete. Depois para Maria.
— É perigoso.
— Tudo é perigoso — Mike respondeu. — Mas você não vai cair no Gasômetro.
Apolo respirou fundo.
Estendeu o braço.
Mike colocou o bracelete no pulso dele.
Ajustou.
— Fecha os olhos. Pensa na clareira. Só nela. Nada mais.
Apolo fechou os olhos.
Clareira. O barraco. A porta de ferro. A terra batida. O cheiro de mato.
Expandiu a mente.
O bracelete brilhou — mais forte do que antes. O círculo se abriu. Os raios de luz pareciam dançar.
Apolo foi puxado.
E sumiu.
Maria correu para os monitores. A frequência 963 vibrava alto.
— Ele foi — ela disse.
*(E lá fora na clareira......)*
Do lado de fora, o sol da manhã começava a esquentar a terra.
E três bicicletas estavam encostadas no barraco.
Sérgio, Jonathan e Marcos.
Os garotos estavam colocando as bicicletas na lateral do barraco velho, como se fosse um dia comum. Como se o mundo não estivesse desabando.
— Cara, pelo amor de Deus disse Jonathan — Que fedor era aquele, cara voce deixou de novo o tênis do lado da minha cama quase morri sem ar..
— Foi sem querer!
— Sem querer o caramba. O tênis tá podre, Marcos. Podre.
— Já lavei ele!
— Não adianta lavar coisa podre!
— Chega, velho — Sérgio cortou, a voz enjoada. — Tô com ânsia de vômito aqui. Para com esse assunto.
Jonathan ia responder. Mas não conseguiu.
Porque o ar mudou.
O círculo se abriu diante deles.
Contorno brilhante. Raios de luz. A escuridão azulada no centro.
E Apolo caiu.
Não foi igual Mike — não caiu sentado, não rolou no chão. Apolo caiu em pé, desequilibrou, deu dois passos para trás e se firmou.
Os garotos congelaram.
Olhos arregalados. Bocas abertas.
— QUE ISSOO VÉIO !!! — Marcos foi o primeiro falar.
Apolo olhou para eles. Depois olhou para o círculo, que se fechou atrás dele.
— Vocês estão vendo isso?
— A gente tá vendo — Jonathan respondeu, a voz falhando.
Sérgio piscou três vezes.
— Como você... o que...
Apolo passou a mão no rosto.
— Entra. Lá dentro a gente explica.
Virou e foi em direção à porta de ferro.
Os garotos se entreolharam. Pegaram as mochilas. Seguiram
A porta de ferro rangeu ao abrir.
Apolo desceu a rampa. Os garotos atrás, ainda em silêncio, ainda processando.
Mike estava na sala de operações, os braços cruzados.
— Viu? — perguntou.
— Vi. Funcionou.
— Funcionou como?
— Eu pensei na clareira. Fui para a clareira.
Maria apareceu no corredor. Beatriz veio atrás.
— Os garotos estão aqui — Beatriz disse, como se não fosse óbvio.
Sérgio largou a mochila no chão.
— Alguém vai explicar o que tá acontecendo?
— Senta — Mike respondeu.
E explicaram.
O bracelete. A intenção. As viagens. O teste de Mike que deu errado. O teste de Apolo que deu certo.
Marcos ouviu com os olhos arregalados.
— O tio Apolo viajou no tempo?
— Não no tempo, No espaço eu suponho disse Sérgio.
— Que doideira Jonathan subindo o óculos no rosto falou.
— Ainda estamos testando disse Maria.
Sérgio não falou nada. Só olhava para o bracelete no pulso de Apolo.
— Você vai tentar de novo? — perguntou.
— Vou — Apolo respondeu.
— Agora?
— Agora.
Maria correu para os monitores.
— Pode ser perigoso.
— A gente precisa saber se foi sorte ou controle.
Apolo fechou os olhos.
Clareira. O barraco. A porta de ferro.
Expandiu a mente.
O círculo se abriu — ali, dentro do bunker, diante de todos.
Os garotos recuaram. Beatriz segurou o braço de Sérgio.
Apolo foi puxado.
Sumiu.
O círculo se fechou.
Silêncio.
Marcos disse preocupado:
— Ele volta?
Antes que alguém respondesse, o círculo se abriu de novo.
Apolo caiu em pé.
De novo.
— Consegui — ele disse, a voz firme. — Pensei na clareira. Fui para a clareira. Pensei no bunker. Voltei para o bunker.
— Você controlou a ida e a volta? — Maria perguntou, os olhos brilhando.
— Controlei.
Mike descruzou os braços.
— Então agora a gente sabe que funciona.
— Agora a gente sabe que EU consigo fazer funcionar — Apolo corrigiu. — Você ainda não.
Mike não respondeu. Mas não discordou.
Os Garotos caíram na risada.
O clima se descontraiu.
Sérgio abriu a mochila e tirou uma Tupperware grande.
— Meus pais pediram pizza ontem. Perguntaram de você.
— O que você falou? — Apolo perguntou.
— Que você tava na casa da Beatriz.
— Mentiroso.
— Mentira branca. Tá tudo meio estranho, mas agora parece que tá ficando mais tranquilo. Depois que isso tudo passar, talvez você volte para casa. Dar um parecer para eles.
Apolo não respondeu.
Sérgio abriu a Tupperware. O cheiro de pizza tomou conta da sala.
— Calabresa, mussarela e frango com catupiry.
Marcos avançou.
— Devagar, garoto — Beatriz segurou o braço dele. — Tem que esquentar primeiro.
— Dá pra comer fria!
— Dá, mas não vai.
Ela levou a Tupperware para a cozinha. Ligou o forno.
Os garotos se espalharam pela sala. Jonathan sentou no sofá. Marcos foi direto para a cozinha, atrás da pizza. Sérgio ficou ao lado de Maria, olhando para os monitores.
— Isso aí é o que? — perguntou, apontando para a tela cheia de linhas e números.
— A energia do bracelete — Maria respondeu. — Olha.
Ela apontou para uma linha que pulsava na tela — igual uma linha de batimento cardíaco.
— Quando o bracelete é ativado, essa linha sobe. E o som aumenta.
Ela aumentou o volume da caixa. A frequência 963 zumbia baixo, constante.
— Escuta. Normal.
Depois mostrou uma gravação do momento em que Mike foi sugado.
— Agora.
O zumbido dobrou de volume. Quase um som.
— E as luzes — ela continuou. — Quando o bracelete está ativo, as luzes do bunker ficam mais claras. Chegam a piscar.
— Por que? — Sérgio perguntou.
— Porque a energia que ele emana interfere em tudo. Luz, som, espaço. É uma energia... etérea. Não consigo captar 100% nos sensores.
— Mas consegue perceber.
— Consigo.
Marcos apareceu no corredor, uma fatia de pizza na mão.
— É mágica?
— Não é mágica — Maria respondeu. — É ciência. Só que a gente ainda não entende.
Marcos deu uma mordida na pizza.
— Pra mim é mágica.
— Marcos, pianinho — Sérgio falou.
Marcos riu. Foi até Beatriz, que saía da cozinha com a Tupperware quente. Abraçou ela.
— Tia, cê tá bem?
— Tô sim. E você?
— Tô. Só... sentindo falta do Josué.
Beatriz ajeitou o cabelo dele.
— Ele era especial.
— Eu não entendia no começo. Mas depois que ele foi embora... eu comecei a entender que existe sim um poder superior. E que eu preciso aprender mais disso.
Beatriz beijou a cabeça dele.
— Vai com calma. Uma coisa de cada vez.
Apolo chamou o Mike e disse vem aqui Mike sem entender bem seguiu ele.
Chegando ao quarto de Apolo Mike disse eu não sou a Beatriz não viu.
Apollo rio mas fechou a porta.
— Preciso te falar uma coisa.
— Fala.
— Eu não vou conseguir fazer o que a gente precisa fazer vestido de professor.
Mike olhou para ele.
— O que você quer dizer?
— Eu preciso abandonar o professor. Deixar ele de lado. Dar espaço para o soldado.
Apolo abriu a gaveta do criado-mudo. Tirou uma máquina de cortar cabelo.
Velha. De cabo. Daquelas de barbearia antiga.
Entregou na mão de Mike.
— Faz.
Mike segurou a máquina. Olhou para ela. Depois para Apolo.
— Ah vai ser uma grande honra pode deixar comigo!!
Na sala de operações, Maria explicava para Sérgio e Jonathan sobre as leituras de energia.
— Quando o bracelete tá ativo, a linha sobe. E o som aumenta. Já percebi que as luzes piscam também.
— Tipo um radar? — Jonathan perguntou.
— Tipo um radar espiritual.
— E a senhora consegue ver quando alguém tá usando?
— Consigo. Aqui no bunker, sim. Se estiver perto.
Marcos se aproximou, curioso.
— Que legal.
— Legal não é a palavra. É assustador.
Mike passou pelo corredor. Não disse nada. Foi direto para o quarto de Apolo e fechou a porta.
Trinta minutos depois, a porta abriu.
Mike saiu primeiro.
Apolo veio atrás.
O cabelo vermelho tinha sumido. Agora era curto, raspado dos lados, estilo militar. A barba — que ele deixava crescer há semanas — estava toda raspada.
O rosto dele era outro. Mais duro. Mais velho.
Vestia uma blusa preta. Colete militar por cima — não à prova de balas, mas daqueles táticos, cheio de bolsos. Calça cargo preta. Coturno.
Dois coldres cruzados no peito. Cada um com uma pistola.
Mike vestia exatamente igual. Só que no lugar dos coldres, o velho revólver na cintura.
Os dois entraram na sala de operações.
O papo morreu.
Beatriz levou a mão à boca.
— Apolo...
— Eu sei — ele respondeu.
— Você tá...
— Diferente.
— Não é diferente. Você tá irreconhecível.
Apolo não respondeu. O olhar dele era outro. Frio. Focado.
Jonathan assobiou baixo.
— Caraca, velho!!
Apolo olhou para ele com um olhar duro e disse não me chama de velho!!
Marcos que não esperava essa resposta se assustando disse:
— Desculpa.
A Paula mudou o semblante novamente com um sorriso aparente e disse:
— Não precisa pedir desculpa era Zoeira.
Marcos ficou olhando, Duas armas a aparência e ficou com a boca cheia de pizza.
— O senhor vai matar alguém?
— Se precisar, sim
Sérgio engoliu em seco.
— Vocês dois vão? Perguntou o Sergio preocupado com o irmão.
— Sim Vamos responder Apolo.
Maria foi até Mike. Ajeitou o coldre dele. Depois olhou no olho.
— Volta.
— Volto.
Beatriz não foi até Apolo. Ficou onde estava. Mas os olhos dela estavam marejados.
— Você promete?
— Prometo.
O silêncio pesou.
Apolo quebrou:
— Temos que ir.
Mike olhou para o relógio. 9h47.
— É a Hora.
Os dois se posicionaram no centro da sala de operações.
Apolo com o bracelete no pulso. Mike ao lado dele.
— Você coloca a mão no meu ombro — Apolo disse. — Não solta até chegarmos.
— Combinado.
Mike colocou a mão no ombro de Apolo.
Os dois respiraram fundo.
Apolo fechou os olhos.
Porto Alegre. O laboratório. A escotilha. O lugar onde entramos com os garotos. A primeira invasão.
Expandiu a mente.
O bracelete brilhou — mais forte do que nunca.
A luz azul-cobalto preencheu a sala. As lâmpadas do bunker piscaram. A frequência 963 não zumbiu — ela vibrou, um som grave que parecia vir de dentro dos ossos.
Maria correu para os monitores. A linha cardíaca da energia disparou.
— Agora! — ela gritou.
Diante de Mike e Apolo, dois círculos se abriram.
Um diante de cada um.
Contornos brilhantes. Raios de luz pulsando.
Os dois círculos giraram, se aproximaram, se uniram em um só — maior, mais intenso, mais profundo.
A escuridão azulada no centro parecia viva.
Apolo abriu os olhos.
— Vamos.
Os dois foram sugados.
Sumiram.
O círculo se fechou.
Silêncio.
Beatriz prendeu a respiração. Maria não tirou os olhos dos monitores. Os garotos ficaram paralisados.
— E agora? — Marcos perguntou, a pizza esquecida na mão.
— Agora a gente espera — Maria respondeu.
Eles caíram dentro de um armário de armazenamento.
O ar gelado cortou os pulmões. Prateleiras gigantescas guardavam milhares de pequenos recipientes, cada um contendo fragmentos de matéria escura e pulsante.
Apolo se levantou primeiro. Estendeu a mão para Mike.
— Tá vivo?
— Tô.
Os dois sacaram as armas.
Apolo abriu a porta do armário devagar.
O laboratório era vasto, estéril, iluminado por luzes brancas e frias. Nenhum soldado à vista. Nenhum alarme.
— Estranho — Mike sussurrou.
— Muito estranho.
Eles avançaram de pilar em pilar, cobertos pelas sombras. Chegaram a uma parede maciça de metal onde antes ficava a porta para a fenda — agora totalmente lacrada.
Mike apontou para o chão. Uma escotilha circular.
— Ali.
Apolo assentiu.
Eles desceram.
A plataforma de metal vibrava sob os pés.
Abaixo deles, o inferno.
A fenda dimensional não era mais uma rachadura. Era um abismo colossal — mais de seiscentos metros de profundidade, uma ferida aberta na realidade, pulsando com uma luz azul cromática que distorcia o ar.
Lá embaixo, cientistas em trajes de proteção se moviam como formigas.
— Isso é muito maior do que da última vez — Apolo disse.
— Eles estão expandindo.
Mike apontou para o centro da fenda.
— Olha.
Uma criatura disforme saiu da luz azul. Se contorceu, se desfigurou, sua forma mudando como argila molhada. Em segundos, assumiu o aspecto de um capitão militar humanoide — mas terrivelmente errado. Os olhos não piscavam. A boca não se movia quando falava.
— Elliot — Mike murmurou.
— Ele não morreu?
— Ele nunca foi humano.
O capitão — ou o que quer que ele fosse — apontou para a plataforma onde Mike e Apolo estavam escondidos.
E começou a subir.
Não pelas escadas. Pelas paredes.
Como uma sombra líquida.
— Vamos — Mike puxou Apolo.
Eles correram.
No topo da plataforma, uma silhueta os esperava.
Larkin Andersen.
Ou o que tinha sido Larkin Andersen.
O rosto era o mesmo. O sorriso também. Mas os olhos — os olhos eram duas fendas de luz azul, profundas como a fenda atrás dele.
— Parabéns — Larkin disse, a voz saindo de sua boca e também de algum lugar distante. — Vocês chegaram longe.
Apolo apontou a pistola.
— Não atira — Mike disse baixo. — Não vai adiantar.
— Por que não?
— Porque ele não tá aqui.
Larkin riu. O som ecoou, se multiplicou, veio de todos os lados ao mesmo tempo.
— Esperto. Sempre foi esperto, general.
A criatura que tinha sido Elliot chegou ao topo da plataforma. Parou ao lado de Larkin.
Os dois se olharam. Sorriram.
O mesmo sorriso.
— Vocês dois... — Apolo falou, a voz falhando.
— Nós dois o quê, professor?
Apolo, ficou surpreso com a forma com que ele o chamou evidenciando que eles sabiam de tudo!
— Vocês são a mesma coisa disse Mike.
Larkin inclinou a cabeça.
— Agora você entendeu.
Elliot deu um passo à frente. Sua forma começou a mudar — a pele derretendo, os ossos se rearranjando. Em segundos, não era mais Elliot. Era Larkin.
E Larkin, ao mesmo tempo, se desfez e se tornou Elliot.
Dois corpos. Uma única presença.
— Nós somos o que vem depois — as duas vozes falaram em uníssono. — E vocês são o que fica para trás.
Mike apertou o ombro de Apolo.
— Agora vai vaiii...
Apolo fechou os olhos.
Bunker. A sala de operações. A Maria.
Expandiu a mente.
O bracelete brilhou.
O círculo se abriu atrás deles.
Os soldados de preto e prata já estavam chegando. Larkin e Elliot avançaram.
Mike empurrou Apolo para dentro do círculo.
Eles caíram.
O teto do laboratório se abriu.
Mike e Apolo caíram juntos, rolando no chão, um em cima do outro.
O círculo que havia soltado eles havia ficado instável e pulsando por alguns segundos como se algo não quisesse que ela fechasse todos ficaram sem ar olhando até que ele se fechou por completo.
Maria correu!!
— Vocês voltaram!
— Voltamos — Mike respirou, ofegante.
Apolo se levantou. As mãos tremiam.
Beatriz segurou o rosto de Apolo com as duas mãos.
— Você tá machucado?
— Não.
— Você tá tremendo.
— Eu sei.
Ela abraçou ele. Forte.
Mike ficou de pé. A mão na pistola, o olhar no teto, como se esperasse o círculo se abrir de novo.
Não abriu.
Maria veio até ele.
— Mike.
— Eu vi ele.
— Quem?
— Larkin. Elliot. Eles não são humanos. Eles nunca foram.
Ela apertou a mão dele.
Os garotos estavam paralisados no canto da sala. Marcos com a pizza espremida na mão. Jonathan com os braços cruzados, os nós dos dedos brancos. Sérgio entre eles, o rosto pálido.
— O que aconteceu lá dentro? — Sérgio perguntou.
Então Mike relatou: Não existe mais uma fenda eles estão com um portal completo aberto é um abismo Azul chromatico...
—Apolo completou é uma abismo Dimensional!!
Então Maria perguntou eles seguiram vocês
Mike ia responder não conseguiu as luzes do banco começaram a piscar desesperadamente o som que antes era como um sussurro mudou sua tonalidade mais parecia um murro cultural o ar mudou parecia que a realidade estava tomando outra forma...
— O que é isso? — Beatriz perguntou.
— Não sei — Maria respondeu.
No centro da sala, diante de todos, o ar começou a brilhar.
Não era azul. Como o bracelete.
Era dourado.
Um amarelo intenso, quente, que preencheu o espaço sem queimar.
As linhas de luz não formaram um círculo.
Formaram um triângulo.
Perfeito.
Que se abriu como um leque, revelando não uma espiral, mas um corredor de luz sólida.
Maria recuou. Mike colocou a mão na pistola. Apolo puxou Beatriz para trás. Os garotos se apertaram uns contra os outros.
Do portal triangular, uma figura saiu.
Cabelo longo, branco, caindo sobre os ombros. Contrastando com o pesado casaco escuro que usava. Por baixo, várias camadas de roupa: túnica clara, colete acolchoado, tudo amarrado por faixas de couro e tecido na cintura.
Um cachecol vermelho com padrões dourados estava jogado sobre o pescoço. Um colar com um medalhão antigo repousava no peito.
Luvas de couro gastas. Botas robustas.
Ele parecia um viajante que atravessou não apenas estradas, mas eras.
O rosto era sério. Os olhos, de uma calma milenar, examinaram cada um deles.
A sala ficou em silêncio absoluto.
Ele parou.
Olhou para o grupo.
E com uma voz que parecia ecoar de um lugar muito distante, disse:
— Olá.
Pausa.
— Eu sou Kairós.
Outra pausa.
— Guardião... interino... da Dimensão Quatro. A dimensão do tempo.
Ele fez uma pausa maior. Um leve sorriso tocou seus lábios.
— Acho que nós precisamos conversar.
O portal triângulo se fechou atrás dele e um ar de medo misturado com incerteza tomou conta daquele ambiente..
As luzes do bunker pararam de piscar.
A frequência 963 voltou ao zumbido baixo de sempre.
Então diante daquele ser daquele homem todos se mantiveram em silêncio e o ambiente do universo de protocolo vértice começa a se desfazer não de qualquer forma mas como uma escuridão que nos leva ao pleno entendimento de que isso não é o fim então começam a tocar os primeiros acordes potentes e inconfundíveis de sintetizador, a música começou a tocar:
Separate Ways (Worlds Apart) — Journey
*FIM DO VOLUME 1 !!*
_Até breve!!_
Capítulos 37: A última despedida
Capítulos 37: A última despedida.
A madrugada no bunker era um silêncio que doía.
Mike estava sentado na cadeira em frente aos monitores. Uma latinha de cerveja na mão — a terceira, talvez a quarta. Ele já tinha perdido a conta. A tela mostrava a clareira vazia, a estrada de terra deserta, as árvores imóveis sob o luar. Nenhum movimento. Nenhum carro preto. Nenhuma luz suspeita.
A cidade continuava "limpa".
E isso o deixava mais tenso do que qualquer barulho.
A frequência 963 zumbia baixo, como sempre. Como uma respiração que nunca parava. Mike tomou mais um gole. A cerveja estava morna. Ele não ligava.
Os olhos dele estavam vermelhos, pesados. Mas o sono não vinha. Não essa noite.
No monitor do canto superior direito, a câmera que apontava para a estrada principal continuava mostrando o mesmo que as outras: nada.
— Merda — murmurou, sozinho.
Lá dentro, Maria dormia. Ele tinha saído da cama devagar, sem acordá-la. Deixou o braço dela pousado no travesseiro vazio.
Não queria que ela visse ele assim. Acordado. Roendo ansiedade.
O relógio na parede marcava 4h47 quando Mike levantou.
Foi até a cozinha. Abriu a geladeira. Pegou outra cerveja. Abriu. Tomou metade de uma vez só.
Depois voltou para os monitores.
Sentou.
Esperou.
5h23.
No banco de trás, no fundo do bunker, Apolo dormia com a porta do quarto aberta — sempre aberta, desde o dia em que o capitão soviético apareceu. Beatriz estava ao lado dele, respirando devagar.
Apolo acordou com o peso de uma noite mal dormida.
Olhou para o lado. Beatriz ainda dormia. Ele não a acordou.
Levantou-se, vestiu a calça jeans, a camiseta do Bon Jovi. Passou a mão no cabelo vermelho, bagunçado.
Foi até a sala de operações.
Parou.
Mike estava lá. Na cadeira. Os olhos fixos nos monitores. Uma cerveja na mão. Cinco latinhas amassadas ao lado da cadeira.
— Você não dormiu — disse Apolo. Não era pergunta.
— Dormi — Mike respondeu, a voz seca. — Uma hora. Talvez.
— Mentiroso.
Mike não respondeu. Virou a latinha e tomou o resto de um gole só.
Apolo sentou no braço do sofá, cruzou os braços.
— A cidade continua limpa?
— Limpa. — Mike apontou para os monitores com o queixo. — Ninguém. Nenhum carro. Nenhuma viatura. Nada desde ontem.
— Isso é bom ou ruim?
— Não sei. E é isso que me mata.
Apolo ficou em silêncio por um segundo. Depois:
— Que horas a gente sai?
— Sete. Aeroporto de Santa Rosa é perto. Quinze minutos. A gente chega antes do check-in do Josué.
— Você vai assim?
— O que quer dizer?
— Quer dizer que você tá com olheira até o pescoço, general.
Mike quase sorriu. Quase.
— Vou tomar um café. Me preparo e vou.
Apolo assentiu.
— Eu vou acordar a Beatriz. E tomar um banho. Volto já.
— Apolo.
O professor parou.
— Obrigado por vir.
Apolo não respondeu. Só acenou com a cabeça e foi.
6h40.
Mike estava pronto.
Boné preto, aba reta. Óculos escuros — um dos pares que ele tinha achado numa caixa velha do bunker. Jaqueta de brim preta, dessas de mecânico, que não era a jeans dele. Camiseta escura por baixo. Calça cargo preta. Botas.
Ele se olhou no pequeno pedaço de espelho que tinham pendurado perto da porta de ferro.
Outro homem. Ninguém olharia duas vezes.
Apolo apareceu no corredor. Tomou um susto.
— Caramba. Até eu quase não te reconheci.
Mike olhou para ele.
— Você vai assim? De Bon Jovi?
Apolo olhou para a própria camiseta.
— É. Acho que vou trocar.
Voltou. Cinco minutos depois reapareceu de camiseta preta lisa, calça jeans escura, tênis preto. O cabelo vermelho amarrado num coque baixo — tentativa de disfarce, mesmo que pequeno.
— Melhorou — disse Mike.
— Tamo junto.
Maria apareceu no corredor. A blusa azul do pai. O cabelo ainda bagunçado do sono que Mike não deixou ela completar. Ela olhou para os dois.
— Vocês parecem dois assassinos.
— É o objetivo — Mike respondeu.
Ela foi até ele. Parou na frente. Ajeitou a gola da jaqueta preta. Depois puxou o boné um pouco mais para baixo.
— Assim.
Mike segurou a mão dela. Apertou.
— A gente volta antes do almoço.
— Volta.
— Volto.
Ela não respondeu. Apenas encostou a testa na dele. Ficaram assim por alguns segundos.
Beatriz saiu do quarto, uma caneca de café na mão. Viu a cena. Não disse nada. Só olhou para Apolo.
— Se cuida.
— Sei me cuidar.
— Eu sei. Mas se cuida mesmo assim.
Apolo beijou a testa dela.
— É uma despedida, não um velório.
Beatriz sorriu. Um sorriso triste.
— Vai logo. Antes que eu mude de ideia e tranque a porta.
6h55.
O Fusca branco estava estacionado na clareira, coberto por galhos que eles mesmos colocaram na noite anterior para camuflar.
Mike e Apolo subiram a rampa. Abriram a porta de ferro com cuidado. A luz da manhã já clareava o céu — um cinza claro, sem nuvens.
Mike olhou para os lados. Ninguém. Nada.
— Vamos.
Entraram no Fusca. Apolo na direção. Mike no passageiro, o olho nos retrovisores.
O motor pegou de primeira.
Desceram a estrada de terra, viraram na asfaltada vazia, seguiram em direção ao aeroporto.
7h20.
O Aeroporto Municipal Luís Alberto Lehr (SRA) era pequeno, do tamanho de quem não quer chamar atenção.
As obras do novo terminal estavam avançadas — tapumes, placas de desvio, uma grua parada. O estacionamento reduzido estava quase vazio. Um táxi. Duas caminhonetes. Nenhum carro preto.
Apolo estacionou o Fusca num canto afastado, perto de um contêiner que servia de escritório provisório.
— Ficamos aqui?
— Ficamos. Desce devagar.
Os dois saíram do carro. Mike manteve os óculos escuros, o boné abaixado. Apolo prendeu o cabelo melhor, colocou um óculos de sol barato que ele tinha no porta-luvas.
Entraram no saguão provisório — uma estrutura metálica com ar-condicionado portátil e cadeiras de plástico.
Cheirava a café requentado e piso molhado.
Josué já estava lá.
O garoto sentado numa cadeira de plástico, mochila no colo, as mãos em cima. Ao lado dele, o pai — Elias Araújo — de terno gasto nos cotovelos, mala simples. A mãe — Ruth — lenço azul-marinho amarrado no cabelo.
Josué levantou quando viu Mike e Apolo.
— Vocês vieram.
— Claro que viemos — Apolo respondeu.
Josué correu. Abraçou Apolo primeiro. Forte. Depois Mike.
— Tio Mike — ele disse, a voz grossa de quem estava segurando choro.
— Garoto — Mike respondeu, dando dois tapinhas nas costas dele. — Se cuida lá no gelo.
— Vou sentir falta de vocês.
— Nós também — Apolo falou.
Elias se aproximou, a mão estendida.
Apolo apertou.
— Apolo Mendes. Sou professor. Vim me despedir do Josué.
— Elias Araújo. Esta é Ruth. Obrigado por acompanhar nosso menino.
— Pastores? — Apolo perguntou, observando os dois.
— Igreja Batista em Winnipeg — Ruth respondeu, ajustando o lenço. — Voltamos às pressas. Tem relatos que viraram rotina: portais que abrem por minutos, fecham sozinhos. O que sai… não é vento. São sombras que se arrastam. A congregação tá assustada.
— Portais onde? Com que frequência? — Apolo perguntou, educado mas firme.
Foi quando Daniel Lopes se aproximou.
Homem de paletó discreto, pasta de couro, olhos que escutavam antes de pousar em alguém. Conhecido de Elias e Ruth. Mentor de Josué.
— Posso entrar na conversa? Daniel Lopes. Aprendo muito com o Elias e a Ruth, e acompanho o Josué desde pequeno.
— Você é o pastor que ele tanto cita? — Apolo ergueu a sobrancelha.
Daniel sorriu, sotaque carioca leve.
— Sim, sou eu o cara por trás dos versículos que o garoto aprendeu. Ele é uma benção.
Apolo assentiu devagar. Mike ficou atrás, observando, os olhos atrás do óculos escuro varrendo o saguão.
Daniel virou para Apolo, a voz simples, direta.
— O Josué me contou sobre o que aconteceu. Sobre a criatura. Sobre o que ele fez. E me perguntou por que as coisas desse mundo pesam tanto. Eu lembrei a ele o aviso: neste mundo vocês terão aflição. Não facilidades. Quem anda na vibe do sistema tem facilidades… mas não paz.
Apolo franziu a testa. O ceticismo rachou ali, na frente de todo mundo.
— Principados, potestades… — Daniel continuou. — Não é boss de jogo, professor. A Bíblia chama assim forças que mandam em regiões inteiras, tipo governos invisíveis. Não é aqui. É numa dimensão diferente da nossa, as tais regiões celestiais. O Josué me contou que, quando repreendeu o ser das sombras, ele explodiu. Isso bate: quando alguém confronta essas forças no nome certo, elas não aguentam ficar.
Apolo não respondeu na hora. Ficou processando.
— O senhor realmente acredita nisso?
Daniel sorriu de novo.
— Eu não acredito, professor. Eu sei.
Apolo abriu a boca para falar. Fechou. Depois:
— Pode me dar um cartão?
Daniel tirou um da pasta. Entregou.
— Qualquer coisa, me chama. Josué se lembra de vocês nas orações dele.
Apolo guardou o cartão no bolso da calça. Ainda atônito. Ainda processando tudo o que tinha ouvido. Aquele homem de paletó discreto falava de dimensões espirituais como quem fala do tempo. E fazia sentido. Fazia maldito sentido.
Daniel olhou para o relógio de pulso.
— Vou pegar meu voo. Uruguai. Tem uma igreja lá pedindo ajuda. Coisas estranhas acontecendo — portais, sombras, igual aqui. Igual no Canadá. Tá se espalhando.
Ele tirou um chapéu discreto da pasta. Colocou na cabeça. Ajeitou.
— Fiquem com Deus. E não desistam.
Apertou a mão de Apolo. Depois a de Mike. Abraçou Josué. Abraçou Elias e Ruth.
Virou e foi em direção a outro portão de embarque.
O anúncio ecoou: voo para Montevidéu. Daniel sumiu no corredor.
Apolo ainda estava parado, olhando para o cartão na mão.
— Ele vai para o Uruguai — disse Mike, baixo.
— Pois é — Apolo respondeu, a voz distante. — E o Josué vai para o Canadá. O negócio tá se espalhando.
O anúncio chamou o voo de Josué e da família: conexão para Winnipeg.
Josué se despediu de Mike e Apolo com um abraço demorado.
— Não esquece de mim, tio Mike.
— Como é que eu vou esquecer de um garoto que faz criatura explodir?
Josué riu. Foi seco, mas riu.
Abraçou Apolo.
— Professor, obrigado por não me tratar igual criança.
— Você nunca agiu igual criança, Josué.
O garoto se virou. Pegou a mochila. Foi com os pais em direção ao portão de embarque — uma porta simples que levava à pista.
Virou uma última vez. Acenou.
Mike acenou de volta.
Apolo só assentiu com a cabeça.
Josué sumiu.
9h15.
O Fusca voltou pela estrada vazia.
Apolo dirigia devagar. Mike olhava o retrovisor. Nada.
Apolo estava quieto demais.
— O que foi? — Mike perguntou.
— Eu achava que sabia de tudo. Sobre física. Sobre o mundo. Sobre como as coisas funcionam.
— E agora?
— Agora um pastor de paletó me explicou dimensões espirituais em cinco minutos e fez mais sentido do que qualquer livro que eu li nos últimos dez anos.
Mike não respondeu.
Apolo apertou o volante.
— Talvez a gente tenha subestimado onde o Josué se segurou todo esse tempo.
Mike continuou em silêncio. Mas pensou a mesma coisa.
9h35.
Chegaram no bunker.
A porta de ferro abriu. Mike entrou na frente, Apolo atrás.
Maria estava na bancada. Beatriz na cozinha, preparando café.
— Como foi? — Maria perguntou, os olhos fixos em Mike.
— Foi pesado. Mas revelador.
Ela foi até ele. Parou na frente. Olhou para o boné, para os óculos escuros.
— Esse visual... até que combina.
— Não acostuma.
Ela sorriu. Mike tirou os óculos. Guardou no bolso.
Beatriz saiu da cozinha com duas canecas. Entregou uma para Apolo. Olhou para ele.
— Tá pronto?
Apolo estava distante. Olhando para o nada.
— Apolo? — Beatriz chamou de novo.
Ele piscou. Voltou.
— Tô. Só pensando.
— No quê?
— Em como a gente é pequeno.
Beatriz não perguntou mais. Beijou a boca dele. Rápido. Um selo. Depois se afastou.
— Vai tomar banho. Você tá com cheiro de aeroporto.
Apolo riu. Foi.
10h00.
Mike estava sentado na cadeira da bancada, a jaqueta preta pendurada no encosto. Maria ao lado, os olhos nos monitores.
— Tá incomodado com alguma coisa?
— A cidade continua limpa — ele respondeu. — Isso não é normal.
— Você já falou isso.
— E vou falar de novo até descobrir o que tá acontecendo.
Maria virou a cadeira para ele.
— Então vai descobrir.
— Como?
— Vai até lá. Dá uma volta. Vê com os seus olhos.
Mike franziu a testa.
— Você tá falando pra eu sair do bunker? De dia?
— Tô falando pra você tirar a prova. Pega a moto. Vai até a rua das lanchonetes. Compra uma cerveja. Olha em volta. Volta.
Mike pensou por um segundo.
— Se eu sumir, você...
— Eu sei o que fazer.
Ele se levantou. Pegou a jaqueta.
— Quinze minutos.
— Vinte. Se passar disso, eu vou atrás.
Mike pegou a chave da moto. Vestiu a jaqueta de couro — a de verdade, não a de brim. Guardou a pistola na cintura, escondida pela jaqueta. Boné preto. Óculos escuros.
Subiu a rampa.
A moto pegou de primeira.
10h15.
Mike estacionou a moto na rua das lanchonetes.
O movimento era normal. Gente indo e vindo. Um caminhão de entrega. Duas senhoras saindo da padaria. Nenhum carro preto. Nenhuma viatura.
Ele entrou na mercearia.
Pegou seis latas de cerveja. Pagou em dinheiro. O caixa nem olhou na cara dele.
Saiu.
Olhou para os dois lados.
Nada.
Absolutamente nada.
A cidade continuava limpa. Tranquila. Normal. Como se nunca tivesse acontecido nada.
E isso era mais assustador do que qualquer coisa.
Mike voltou para a moto. Guardou as latinhas na mochila de couro presa no banco. Ligou o motor. Voltou para o bunker.
O caminho de volta foi silencioso. Nenhum carro passou por ele.
10h30.
Mike entrou no bunker. Largou as cervejas na mesa da cozinha.
— E aí? — Maria perguntou, sem tirar os olhos dos monitores.
— Tudo normal. — Ele sentou. — E isso é o problema.
— Nenhum sinal?
— Nenhum. É como se tivessem desistido.
— Não desistiram.
— Eu sei.
Ele pegou uma cerveja. Abriu. Tomou um gole. O silêncio do bunker pesou.
O dia passou devagar.
Mike revisou as armas. Apolo leu. Beatriz organizou os kits médicos. Maria ficou na bancada o tempo todo, os olhos grudados no bracelete, nos cadernos do avô, nas anotações em russo.
A frequência 963 zumbia baixo, constante, como uma respiração invisível.
Ninguém saiu. Ninguém entrou.
Os garotos não apareceram — Sérgio mandou uma mensagem no rádio dizendo que estavam bem, que a cidade continuava quieta, que ficariam em casa.
Mike respondeu com um "ok" seco.
18h00.
O sol começou a se pôr lá fora. Dentro do bunker, as luzes fluorescentes mantinham tudo no mesmo cinza de sempre.
Maria não saiu da bancada.
— Você tá há horas nisso — Mike disse, encostado na parede.
— Eu quase entendi.
— Quase?
— Tô perto.
Ele não insistiu. Deixou ela trabalhar.
19h30.
— Consegui.
A voz de Maria ecoou no bunker. Mike largou a revista que estava folheando. Apolo saiu do quarto. Beatriz apareceu no corredor.
— Conseguiu o quê? — Apolo perguntou.
Maria se levantou da cadeira. Os olhos brilhando.
— O bracelete. Eu entendi como ele funciona.
Ela apontou para as anotações espalhadas na bancada.
— Não é GPS. Não é coordenada. É intenção.
Mike franziu a testa.
— Intenção?
— O bracelete lê a sua mente. Ele capta ondas cerebrais. Quando você coloca ele no pulso e expande o pensamento — foca em um lugar, em uma intenção — ele te leva para lá.
— Como assim "expande o pensamento"? — Beatriz perguntou.
— Você precisa esvaziar a cabeça. Focar só no destino. Sem medo. Sem dúvida. A intenção pura.
— E se tiver dúvida? — Apolo perguntou.
Maria hesitou.
— Aí ele te leva para qualquer lugar. Ou para lugar nenhum. Ou rasga o tecido sem querer.
O silêncio pesou.
Mike olhou para o bracelete.
— Então a gente precisa testar.
— É arriscado — Maria disse.
— Tudo é arriscado. A gente não tem escolha.
Apolo deu um passo à frente.
— Eu vou.
— Não — Mike cortou. — Eu vou. Eu já usei ele uma vez. Quase morri, mas usei.
— Exatamente — Apolo insistiu. — Você quase morreu. Deixa eu—
— Não.
A voz de Mike foi seca. Final.
Apolo cruzou os braços, mas não insistiu.
20h00.
Mike estava no centro do laboratório.
O bracelete ajustado no pulso esquerdo. A luz azul pulsava fraca, como um coração lento.
Maria ao lado, os olhos no monitor.
— O que você vai fazer? — ela perguntou.
— Vou tentar ir para a clareira.
— É perto. A intenção precisa ser forte.
— Eu sei.
— Sem medo. Sem dúvida.
— Eu sei, Maria.
Ela calou. Apertou o braço dele.
Mike fechou os olhos.
Respirou fundo.
Expandiu a mente.
Clareira. Onde a gente entrou. O barraco. A porta de ferro. Clareira...
O bracelete começou a brilhar.
Não fraco como antes — forte. Uma luz azul-cobalto que preencheu o laboratório.
Apolo recuou um passo. Beatriz segurou a mão dele.
O ar mudou. Ficou pesado. A frequência 963 pareceu aumentar de volume — não um zumbido, um som.
Diante de Mike, o espaço se abriu.
Não foi uma fenda. Não foi um rasgo.
Foi um círculo. Um contorno brilhante, com raios de luz que pulsavam como eletricidade. O centro do círculo era uma escuridão azulada, profunda, que parecia respirar.
Mike abriu os olhos.
— Funcionou — ele sussurrou.
O círculo brilhou mais forte.
E Mike foi puxado.
Não teve tempo de gritar. Seu corpo inteiro foi sugado para dentro do portal em uma fração de segundo.
Ele sumiu.
O círculo se fechou.
O laboratório ficou em silêncio.
— MIKE! — Maria gritou.
Mas ele já não estava ali.
Mike caiu sentado.
Atrás de um pilar.
De frente para um mendigo que estava começando a comer uma coxinha em cima de um jornal.
— Nem diabão não vou dividir meu rango não, viu?!
O mendigo olhou para Mike com cara de desconfiança. Segurou a coxinha contra o peito.
Mike piscou.
Olhou para o mendigo. Olhou para a coxinha. Olhou para o pilar. Para o céu cinza. Para o cheiro de chimarrão no ar.
Ele estava em Porto Alegre. Na calçada do lado de fora da Usina do Gasômetro.
Então Mike voltando os olhos para o Mendigo que estava sentado no chão e segurando a coxinha com força ele não parecia surpreso por um homem cair diante dos olhos dele de dentro de uma fenda.
Parecia que o mendigo estava mais preocupado com a ideia de dividir sua própria coxinha..
Então disse Mike:
— Sai pra lá, coisa ruim! Eu nem queria mesmo.
Mike se levantou, revirando os olhos. Passou a mão na jaqueta. Olhou em volta. Ruas movimentadas. Carros passando. Gente caminhando apressada. O Guaíba ao fundo.
Olhou para o bracelete no braço.
A luz azul ainda pulsava.
— Merda — ele murmurou.
Virou-se para o mendigo, que ainda o encarava, a coxinha protegida contra o peito.
— Fica tranquilo. Não vou roubar seu rango.
— Hum — o mendigo grunhiu. — Tá cheio de doido hoje.
Mike balançou a cabeça com um ar de que que eu tô fazendo Aqui.....
Então, olhou para o mar de pessoas.
Este povo não imagina o que está acontecendo simultaneamente à vida fútil deles.
Fechou os olhos.
E repetia em voz baixa
Bunker. A bancada. A Maria o banker...
Expandiu a mente.
O bracelete vibrou.
O círculo brilhou acima dele.
E Mike sumiu.
20h15.
O teto do laboratório se abriu em um círculo brilhante.
Mike caiu de bruços no meio da sala, rolando no chão.
— Aaaí está Doeu! mas deu certo pelo menos!
Maria Apolo e Beatriz que estavam congelados no mesmo lugar!!
Correram para levantar Mike.
— Onde você estava? — Maria perguntou, a voz trêmula.
— Porto Alegre. Do lado do Gasômetro.
— COMO ASSIM?
— O bracelete funcionou. Mas me jogou longe.
— Você não focou na clareira?
— Foquei. ACHO que foquei.
Mike se levantou, passou a mão na jaqueta suja de pó de calçada.
— Acho que esse negócio ainda não tá 100%.
Ele contou. O mendigo. A coxinha. A briga.
— "Nem diabão não vou dividir meu rango não, viu?!" — Mike imitou a voz do mendigo.
Todos sem exceção cariram né uma gargalhada que parecia sem fim..
— O pobre cara só queria comer a coxinha em paz — Apolo disse.
Até Mike sorriu.
Maria foi até ele. Parou na frente.
— Você tá bem?
— Tô. Só com fome. Aquele mendigo não dividiu o lanche.
Ela riu. Depois segurou o rosto dele com as duas mãos.
Beijou ele na boca.
Devagar. Não era cena de novela. Era verdade.
Mike colocou a mão na nuca dela. Ficaram assim por alguns segundos.
Beatriz desviou o olhar, sem graça. Apolo pigarreou.
— Tá bom, pessoal. Depois vocês se pegam.
Maria se afastou. Sorriu.
Capítulo 36: O caderno na estante.
Capítulo 36: O caderno na estante.
A madrugada já tinha virado manhã quando Mike sentou na cadeira em frente aos monitores.
O sol ainda não tinha subido de vez — a clareira aparecia nas telas num tom cinza-azulado, as árvores imóveis, a estrada de terra vazia. Em uma das câmeras, no canto superior direito, dava para ver Apolo e Beatriz sentados na varanda podre do barraco. Ela com as mãos enroladas numa caneca, ele com os cotovelos nos joelhos, a cabeça baixa.
Conversavam baixo. O áudio não pegava. Mas dava para ver que não era conversa leve.
Mike desviou os olhos das telas.
Foi até a bancada. O bracelete estava lá, deixado ao lado das chaves de fenda e de um pacote de biscoito velho.
Mike pegou. Pesou na mão.
O metal era escuro, desgastado, mas não enferrujado. Os símbolos gravados não pareciam arranhados — pareciam parte do material.
Ele passou o dedo por cima. Frio. Liso.
— Você vai ficar olhando pra isso ou vai deixar eu estudar?
Mike virou. Maria estava encostada na parede do corredor, os braços cruzados. Estava com o cabelo ainda bagunçado do sono que não completou. Agora melhor vestida. Ainda com a camisa jeans azul.
— É o que sobrou — disse Mike, entregando o bracelete.
— Não sei se você viu — disse Maria — o outro virou pó junto com ele.
Mike balançou a cabeça com olhar atônito.
Maria pegou. Levou até a luz da bancada, virou, examinou.
— Não é militar. Isso aqui é... antigo. Mas a tecnologia é extremamente futurista.
— Como assim?
— O material parece daqui. Metal, liga comum. Mas os símbolos... não são gravação a laser. Não são entalhe. Parece que cresceram junto com o metal.
— Isso faz sentido?
— Nenhum.
Ela sentou na cadeira da bancada, ligou a máquina. A tela acendeu azul, os cabos pendurados. Ela conectou o bracelete num suporte improvisado — dois fios presos com fita isolante, um adaptador que ela mesma soldou semanas atrás.
Mike ficou em pé atrás dela, observando.
A máquina chiou. Depois apitou. Uma luz azul começou a pulsar no bracelete.
---
Maria franziu a testa.
— Não está mostrando nada.
— Como assim nada?
— Nenhum dado. Nenhuma leitura. Só essa luz.
Ela girou o bracelete no suporte. Ajustou os parâmetros. A máquina apitou de novo — um som mais grave.
— A frequência 963 está interferindo.
— Interferindo como?
— Não sei. Só sei que esse negócio está produzindo uma energia. Mas a máquina não consegue identificar de que tipo.
Maria tirou os óculos de proteção da testa e colocou nos olhos.
— Desconhecida. Não é elétrica. Não é magnética. Não é térmica. É outra coisa.
Mike se aproximou.
— Outra coisa como?
— Como nada que eu já vi. — Ela desligou o suporte, tirou o bracelete. — Isso aí não veio do futuro. Veio de outro lugar.
— O capitão disse que veio de outra dimensão.
— Pois é. E a máquina está concordando com ele.
Mike pegou o bracelete de volta. Guardou no bolso.
— Chega por enquanto.
Maria não discutiu.
---
A porta de ferro rangeu.
Apolo e Beatriz desceram a rampa. Ela com a caneca ainda na mão, ele com os cabelos vermelhos bagunçados pelo vento da mata.
— Vi vocês nos monitores lá fora — disse Mike. — Conversa boa?
— Conversa necessária — respondeu Beatriz, sentando no sofá.
Apolo puxou o banco da bancada e sentou de frente para eles.
— E aí? Descobriu alguma coisa com o bracelete?
— Nada — respondeu Maria. — Só que ele produz uma energia que a máquina não identifica.
— De outra dimensão — disse Apolo.
— Parece que sim.
Mike se levantou. Foi até o sofá. Sentou. Maria sentou ao lado, encostou o ombro no dele. Ele não afastou. A mão dele pousou no joelho dela, sem pressa, como se já pertencesse ali.
Beatriz olhou para os dois. Não disse nada. Mas um sorriso pequeno apareceu no canto da boca.
Apolo também viu. Também não disse nada.
— E agora? — perguntou Beatriz. — O que a gente faz com esse bracelete?
— Por enquanto, nada — respondeu Mike. — A gente guarda e espera.
— Espera o quê?
— Até ele mostrar alguma coisa. Ou até alguém aparecer pra buscar.
Apolo passou a mão no rosto.
— Essa de esperar nunca foi seu forte.
— Pois é. Mas não tenho escolha.
O silêncio durou alguns segundos.
Foi quando o rádio chiou.
O som veio da mesa ao lado dos monitores. Chiou de novo. Depois uma voz.
— Apolo na escuta? É o Jonathan. Vocês estão aí?
Apolo se levantou rápido. Pegou o rádio que estava perto da central de câmeras improvisada. Voltou e sentou no braço do sofá. Beatriz se aproximou.
— Estou na escuta. Estamos bem. E vocês?
— Marcos e eu estamos bem. Quero avisar que Josué vai embora.
— Como assim vai embora?
— Amanhã. De manhã cedo. Os pais dele conseguiram passagem de última hora. Estão adiantando a ida para o Canadá. Amanhã eles vão embora. Ele pediu pra avisar. E pediu o caderno.
— Caderno de decretos — disse Maria, já levantando. — Está na estante.
Ela foi até a estante, puxou o caderno. Capa de couro e páginas amareladas.
— Tá comigo — disse ela, voltando.
Apolo levou o rádio de volta à boca.
— Tá aqui com a gente. Venham com cuidado.
— Ok, pessoal. É nois.
O rádio chiou e ficou em silêncio.
Beatriz foi até Maria, pegou o caderno das mãos dela. Folheou rápido.
— É isso que ele quer?
— É — respondeu Maria.
Apolo passou a mão no rosto.
— Amanhã. O Josué vai embora amanhã.
Ele pensou por um segundo.
— Preciso dar um jeito de ir me despedir deles.
— Que coisas estranhas estariam ocorrendo que pastores poderiam resolver? — murmurou, pensando alto.
Mike tirou o bracelete do bolso. Olhou para ele.
A luz azul tinha sumido. Era só metal escuro agora.
Mas ele sabia que não.
— Vocês entenderam tudo que o Jonathan disse? — perguntou.
— Sim — respondeu Maria.
Beatriz completou:
— O que será que está acontecendo no Canadá?
Todos ficaram pensativos.
---
A manhã já estava avançada quando os três apareceram na beirada da mata.
Sérgio vinha na frente, a bike branca com os pneus cheios de barro. Jonathan atrás, a mochila verde nas costas, a corrente rangendo. Marcos fechava o grupo, já pulando da bike antes de parar.
Chegaram, subiram a rampa.
A porta de ferro estava fechada. Sérgio bateu. Três vezes. Depois duas.
Mike abriu. Se cumprimentaram rápido. Mike olhou para ver se não foram seguidos.
Achando que todos já tinham entrado, ele ficou olhando para o começo da estradinha de terra. Pensamento longe. Quando voltou os olhos, se assustou.
— Que isso, garoto. Quer me matar?
Marcos caiu na risada.
— Sem arma?
— Difícil. Não sei se é certo, mas tá tudo tranquilo. Nós vimos pelo caminho mais seguro. A cidade está normal.
— A escola está com a barra limpa. Porém segue fechada.
Mike ouviu, franziu a testa.
— Ok. Estranho. Vamos até a sala.
Quando ele estava pra fechar a porta, Apolo passou por eles e disse:
— Deixa que eu fecho.
Mike assentiu. Desceram.
---
Chegando lá, Sérgio já estava olhando para os monitores e para a bancada com a máquina ligada.
Marcos foi até a cozinha beber água.
Mike disse:
— E aí, Pica-Pau? O que achou dessa adaptação?
Sérgio lembrou que o apelido de Apolo era esse. Deu risada.
— Achei que poderia ser melhor aproveitado. Mas vocês que fizeram desta forma. Tá bem.
Mike franziu a testa.
— Tá dizendo que faria melhor?
Sérgio olhou pra ele.
— Talvez.
Na cozinha, Maria e Beatriz estavam fazendo café.
Jonathan perguntou:
— Vocês tão bem?
— Sim — responderam as duas em simultâneo.
Uma olhou pra outra. Riram.
Jonathan também riu. Sentou junto à mesa.
— Foi horrível ficar em casa. Nossos pais não entendem nada. É visível que ninguém tá vendo o que tá acontecendo.
Ele deixou o rosto encostar na mesa fria quando se debruçou após a fala.
Elas ficaram processando.
Mike sentiu o cheiro. Foi até a cozinha.
— Hum. Nada melhor.
Sentou ao lado de Jonathan.
— Sabe de alguma coisa sobre essas coisas que acontecem no Canadá?
— Não sei quase nada. Quem fala mais com ele é Marcos. Eu fiquei tentando estudar de casa. — Ele pausou. — E como foi estes dias aqui presos?
— O mesmo aspecto. Nada diferente, a não ser o que ocorreu esta madrugada.
— Sério? O que houve?
Maria e Beatriz ficaram olhando pra Mike.
Sérgio e Marcos estavam chegando pelo cheiro.
---
Apolo pensou um pouco. Aguardou pacientemente o bunker silenciar lá dentro.
Pegou a bike do irmão e disparou pedalando, com um plano em mente.
---
Maria já tinha o caderno na mão. Entregou para Sérgio.
Sérgio leu a capa em voz baixa:
— "Caderno de Orações e Decretos Espirituais. Josué Araújo."
Letras organizadas e arredondadas.
— Ele escreveu tudo isso? — perguntou Marcos.
— Ele escreveu — respondeu Beatriz.
— Mas será que isso funciona? Tipo igual o dia da criatura?
Mike respondeu:
— Não tenho ideia. Pra mim isso é tudo confuso.
— A gente acredita que ele acredita. E isso já é mais do que a gente tem — disse Marcos.
Marcos pegou o caderno das mãos de Sérgio. Abriu na primeira página.
— "Declaro que nenhuma arma forjada contra mim prosperará" — leu em voz alta.
Fechou.
— É tipo um escudo?
— É tipo uma arma — disse Beatriz. — Só que de outro jeito.
Sérgio guardou o caderno na mochila.
— Não deveríamos nem estar lendo isso — disse, guardando.
Foi quando Jonathan ia falar "cadê o Apolo?"
Alguém bateu na porta.
A cada batida inesperada, o sentimento de todos mudava.
Mike disse:
— Não é o Apolo. Ele não bate. Ele entra.
Foi até a porta. Todos foram como ratos para a cozinha.
Mike com a mão na pistola foi até a central.
Lá na cozinha, eles ouviram o som da porta bater e uma silhueta chegar pelo corredor.
Josué chegou no bunker.
— Bom dia, pessoal.
— Josué? — Beatriz foi a primeira a falar. — O que você está fazendo aqui?
— Vim me despedir. E buscar meu caderno.
Maria olhou para Sérgio. Sérgio tirou o caderno da mochila. Entregou para Josué.
Josué pegou com as duas mãos.
Jonathan perguntou:
— O que tem de tão especial neste caderno? Pode explicar, já que tá aqui.
Josué largou a mochila no chão. Se juntou a eles na mesa.
O café estava posto. Todos atacaram.
Mike ficou olhando, encostado na porta, braços cruzados, vendo enquanto eles começavam a comer.
E pensou: Apolo?
Ele não estava na porta?
Voltou até a sala.
---
Josué abriu o caderno na primeira página. Leu em voz alta:
— "Declaro que sou protegido. Declaro que nenhuma arma forjada contra mim prosperará. Declaro que a verdade vai prevalecer."
— Que viagem é essa? — disse Sérgio.
— É guerra — respondeu Josué, fechando o caderno. — Só que não é contra gente.
— Como assim? — perguntou Marcos.
— Guerra espiritual — disse Beatriz. — Fui de igreja. Já ouvi falar e vivenciei algumas coisas.
O bunker ficou em silêncio.
Josué continuou:
— Isso aqui é um instrumento de autoridade.
Marcos franziu a testa.
— Autoridade como?
— Autoridade espiritual. Igual um oficial tem patente. Igual um juiz tem poder de decisão. Não é porque eu escrevi que acontece. É porque eu decretei no espírito primeiro. O papel só firmou.
— E como você sabe que deu certo? — perguntou Jonathan.
Josué demorou um segundo.
— Porque coisas mudaram. Coisas que eu não podia mudar sozinho. Medo sumiu. Porta fechada abriu. Gente que me perseguia parou. — Ele ergueu o caderno. — Não é mágica. É fé escrita. É declarar o que já é verdade lá em cima e trazer pra cá.
— Isso só funciona pra quem acredita. Não adianta copiar as palavras se o coração não estiver junto.
Josué guardou o caderno na mochila.
Maria perguntou:
— Por que tanta pressa pra ir embora? O Jonathan falou que aconteceu algo no Canadá.
— Meus pais foram chamados pro Canadá. Uma comunidade cristã lá está passando por coisas estranhas. Coisas que ninguém consegue explicar.
— Coisas como aqui? — perguntou Beatriz.
— Coisas parecidas. Não sei explicar especificamente. Só que lá eles não têm ninguém. Pediram ajuda.
— A gente vai.
— Você quer ir? — perguntou Beatriz.
Josué demorou um segundo.
— Quero ficar. Mas não posso.
— Você vai fazer falta. Tão pequeno e já tem tanta sabedoria nas palavras.
— Não é pra sempre. Eu vou voltar.
Mike apareceu na cozinha. Semblante estranho.
— O que vocês e Apolo falavam?
Todos olharam para ele.
— Sobre tudo o que aconteceu e vem acontecendo — disse Maria.
— Josué, o que foi que aconteceu?
Mike não respondeu. Falou:
— Fui lá fora e ele não está no bunker. Puxei as imagens das câmeras. Ele pegou a bicicleta de Sérgio e saiu pedalando.
— Será que está tudo bem?
Todos ficaram se olhando.
Josué repetiu a pergunta:
— O que foi que aconteceu?
Mike explicou a todos. Tudo o que aconteceu com o russo viajante. Deixou todos muito bem inteirados.
— Nossa, que coisa maluca, pessoal — disse Jonathan.
Josué ficou pensativo.
— Se no Canadá for pra resolver coisas assim, meus pais precisam estar preparados.
Ele ia falar mais. Parou.
— Nada não — disse o garoto.
Todos olharam pra ele e seguiram arrumando a mesa de café. Já estava quase na hora do almoço. A conversa tinha se estendido.
---
Todos voltaram à rotina.
Maria e Beatriz estavam terminando de arrumar a cozinha.
Os jovens conversavam com Josué. Parecia que estavam aproveitando uns aos outros ao máximo.
Mike olhava as câmeras. Pensando onde foi Apolo.
Foi quando um Fusca branco parou na clareira.
Mike chegou perto da tela para ver. Sem alardes. Apenas observando.
Foi quando ele viu.
O cabelo apareceu. Ele respirou aliviado.
Era Apolo. Com um Fusca. E duas sacolas de compras nas mãos.
— Cheguei! — disse Apolo.
Os jovens ouviram e foram até ele ajudar.
Mike disse, com tom rígido:
— O que você foi fazer? Você não pensa não? Tá um caos. Você já foi perseguido. Esqueceu?
Apolo respondeu:
— Relaxa, general. A cidade tá limpa. Não tenho ideia do que aconteceu. Mas aproveitei pra ir em casa. Falar com meus pais. Eles precisavam que ajudasse eles a guardar umas compras. Então eu fui. Eles me deram tudo que eu trouxe.
Mike ouviu, franziu a testa. Mas como os garotos realmente tinham falado o mesmo, ele assentiu, balançando a cabeça.
---
A tarde caiu no bunker.
Mike, Maria, Apolo e Beatriz queriam ligar a TV ou o rádio para entender o que havia de novo ocorrendo. Mas decidiram não.
Mike chamou Apolo.
— Vamos lá amanhã então.
— No aeroporto? — perguntou Apolo.
— Sim. Em Caxias, no aeroporto. Vou disfarçado.
Apolo não pensou muito. Estava entediado de ficar preso.
Se levantou.
— Então está tarde. Vou colocar as bikes no carro. Deixar vocês lá.
Todos foram.
Josué deu abraço em cada um. Agradeceu.
Apolo olhou após ligar o carro.
— Eu volto.
Partiu para o seu destino...
Capítulo 35 - O Viajante inesperado.
Capítulo 35: O Viajante inesperado.
Bracelete temporal.
A madrugada no bunker era um silêncio denso.
Mike não dormia. O corpo na cama, os braços ainda envoltos em Maria, mas os olhos abertos no teto escuro. A frequência 963 zumbia baixo — sempre lá, sempre presente. A respiração dela era lenta, profunda. O calmante que Beatriz dera continuava fazendo efeito.
Ele esperou mais alguns minutos. Depois, com cuidado, deslizou os braços de leve, levantou-se.
Maria nem se mexeu.
Mike vestiu a calça cargo, a camiseta preta. A jaqueta jeans ficou pendurada na cadeira — ele pegou no caminho. A pistola estava na bancada, ao lado das caixas de munição que trouxeram da garagem.
Ele passou pela cozinha. Parou.
Os monitores.
No canto inferior direito — a câmera que apontava para a entrada da estrada de terra — uma luz. Não forte, não constante. Pequenos clarões, como lanternas cortando a mata.
Mike se aproximou. Ajustou o brilho da tela.
Luzes. Pelo menos duas. Movendo-se devagar entre as árvores, na direção da clareira.
Ele não hesitou.
Pegou a pistola, verificou o carregador, engatilhou. Calçou as botas. Subiu a rampa em silêncio, abriu a porta de ferro com cuidado, girou os cursores sem fazer barulho.
Lá fora, o ar frio da madrugada bateu no rosto dele.
A mata estava escura. As árvores recortavam o céu estrelado. Nenhuma luz. Nenhum som.
Mike desceu a rampa de terra que levava à clareira, a pistola apontada à frente. Caminhou devagar, os passos abafados no chão úmido. Chegou no meio da clareira.
Nada.
Ele olhou para a direita, para a esquerda. Para o alto das árvores.
Nada.
Foi então que o ar mudou.
Não era vento. Era outra coisa — uma pressão invisível, como se o oxigênio tivesse ficado mais pesado. Mike sentiu os pelos do braço eriçarem.
Três metros à sua frente, o espaço se abriu.
Não foi uma fenda como as que ele tinha visto antes — não foi um rasgão violento, não houve estrondo. Foi uma abertura silenciosa, como se o mundo tivesse sido costurado errado e alguém estivesse puxando a linha.
Uma luz azul-pálida emanou do centro.
E um homem caiu.
Ele simplesmente caiu do meio do ar, como se tivesse sido expulso de dentro da luz. Caiu de joelhos na terra, ofegante, os braços se apoiando no chão para não cair de vez.
Mike apontou a pistola.
— Não se mexe.
O homem ergueu a cabeça. Usava um uniforme — Mike reconheceu na hora. Não era nenhuma farda que ele conhecia dos manuais, mas a cor, o corte, os distintivos. Soviético. União Soviética.
O homem olhou para Mike. Seus olhos estavam arregalados, confusos. Ele tentou falar — saiu um som gutural, depois palavras em russo.
Mike não entendeu nada. Mas entendeu o suficiente pelo tom: era um pedido. Ou uma súplica.
O homem tentou se levantar. A mão direita dele se fechou em punho — Mike viu que ele segurava alguma coisa. Algo pequeno, preso entre os dedos. Um botão. Um gatilho. Algum dispositivo.
Mike não pensou duas vezes.
Avançou, derrubou o homem no chão com um golpe de ombro, a pistola pressionada contra o pescoço dele. O homem tentou gritar, mas o ar não saiu. A mão dele ainda tentava alcançar o dispositivo — Mike apertou o pulso do homem contra a terra, forçando os dedos a abrirem.
— O que você quer apertar? — Mike rosnou, a voz baixa e perigosa.
O homem não respondeu. Ou não entendeu. Continuou lutando, mas o cansaço era maior. Os olhos dele começaram a revirar.
Mike apertou mais um pouco.
O homem desmaiou.
---
Mike ficou parado por um segundo, ofegante. A fenda havia fechado — a luz azul sumiu, o ar voltou ao normal.
Ele se levantou. Olhou para o homem caído no chão.
Uniforme soviético. Botas. Distintivos que ele não reconhecia. E na mão direita — ainda fechada, mesmo desmaiado — alguma coisa.
Mike abriu os dedos do homem com cuidado.
Um bracelete. Metal escuro, desgastado, com símbolos gravados. Não parecia militar. Parecia antigo. Tecnológico de um jeito que não encaixava no resto do uniforme.
Mike guardou o bracelete no bolso da jaqueta. Depois se abaixou, puxou o homem pelos braços e começou a arrastá-lo em direção ao barraco.
---
A porta de ferro rangeu ao abrir.
Mike arrastou o homem rampa abaixo, os pés arrastando em cada degrau. Dentro do bunker, a luz fraca da sala de operações iluminava o corredor.
Ele foi até o fundo, onde tinham guardado as cordas — das antigas expedições do clube de ufologia. Amarrou os pulsos do homem atrás das costas. Amarrou os tornozelos na cadeira de madeira que ele puxou do canto.
Quando terminou de amarrar as mãos, viu.
No braço direito do homem, um segundo bracelete. Idêntico ao que ele tinha guardado no bolso. Estava preso ao pulso, mas tinha uma trava lateral — pequena, quase invisível.
Mike apertou.
O bracelete se soltou com um clique. Uma fumaça fina, quase imperceptível, subiu dele. Caiu no chão com um som metálico.
Mike nem pegou. Virou e foi para o corredor.
---
Apolo dormia com a porta aberta. Mike entrou sem bater, tocou no ombro dele com força.
— Apolo. Acorda.
Apolo acordou com um sobressalto, o corpo todo tenso. Abriu a boca para falar, mas Mike tapou com a mão.
— Não grita. Tem um homem amarrado na cadeira lá embaixo.
Os olhos de Apolo se arregalaram.
— Sai da cama. E acorda a Beatriz. Devagar. Sem barulho.
Mike saiu. Apolo balançou Beatriz até ela abrir os olhos. Sussurrou qualquer coisa — ela sentou na hora, o rosto pálido mesmo no escuro.
Saíram os dois, apressados, seguindo Mike.
Chegaram na sala de operações.
O homem na cadeira. Uniforme sujo, o rosto pálido, a cabeça caída para o lado. A corda apertada nos pulsos e tornozelos.
Apolo parou, recuou um passo.
— Mike... o que você fez? Você trouxe ele pra dentro do bunker? E se for um inimigo? Um espião? E se—
— Não é — Mike cortou, seco. — Ele caiu de uma fenda. Na minha frente. Abriu o ar e ele caiu. Tava tentando apertar isso aqui na mão.
Mostrou o bracelete que tinha guardado no bolso.
Apolo olhou para o bracelete. Depois para o homem.
Foi quando o homem acordou.
Ele tossiu, uma tosse seca, rouca. Os olhos se abriram — primeiro confusos, depois assustados. Sentiu as cordas nos pulsos, tentou se mexer. Não conseguiu.
Então começou a gritar em russo.
Palavras truncadas, desesperadas. Não dava para entender. Mas o tom era claro: raiva. Medo. Desorientação.
— Ele vai acordar a Maria — disse Beatriz, já se virando.
— Não — Mike segurou o braço dela. — Não todos de uma vez. Espera.
Mas já era tarde.
O grito do homem atravessou o corredor.
---
Maria acordou com um sobressalto.
Por um segundo, não sabia onde estava. O corpo ainda pesado do calmante, a mente confusa. O grito — um homem gritando — vinha lá da sala de operações.
Ela sentou na cama, o coração acelerado. Vestiu a blusa azul do pai com as mãos trêmulas e correu descalça pelo corredor.
Chegou na sala de operações e parou.
O homem amarrado na cadeira. Uniforme que ela conhecia de livros de história. Soviético. Mike com a pistola na cintura, a expressão fechada. Apolo e Beatriz encolhidos perto da bancada.
— O que está acontecendo? — perguntou ela.
Mike respondeu sem tirar os olhos do homem.
— Ele caiu de uma fenda. Na clareira. Tô tentando entender o que ele quer.
O homem gritou de novo. Em russo. Maria ouviu as palavras — e não entendia nada.
— "Me soltem agora!"
Mike não deu bola. Apolo estava tenso demais para processar qualquer coisa. Beatriz só olhava.
Mike tirou o bracelete do bolso e questionou:
— Ele o que é isso?
— Ele não tá olhando — disse Beatriz.
— É, ele não quer cooperar — Mike afirmou.
O homem desviou o olhar. Virou o rosto para o lado, como se não quisesse ver.
Mike foi até ele. Pegou o homem pelos cabelos, com força, e virou a cabeça dele de volta para o bracelete.
— O que é isso? — Mike falou devagar, como se o homem pudesse entender. — O que é isso? Fala logo?
O homem fechou os olhos. Depois abriu. Olhou para todos. A boca se moveu — saiu um som baixo, derrotado.
— "Я не умею говорить на вашем языке..."
(Não sei falar a sua língua...)
Maria se lembrou dos tradutores usados em reuniões com americanos quando era cientista do governo. Foi até a bancada. Pegou o notebook. Ajustou uma configuração que ela não usava há meses — o tradutor de voz em tempo real.
Aproximou o notebook do homem.
— Fala de novo — disse.
O homem olhou para aquilo como se fosse algo de outro mundo, de outro tempo. Depois para ela. Hesitou.
— "Я не умею говорить на вашем языке..."
O aplicativo processou por um segundo. Depois, a voz mecânica traduziu:
"Não sei falar a sua língua."
Os olhos do homem se arregalaram. Como se visse um fantasma.
— "Откуда у тебя это? Какой сейчас год?"
Traduziu:
"De onde você tirou isso? Que ano é este?"
Mike apertou o colarinho do homem, puxando o rosto dele para perto.
— Você responde primeiro. O que você estava fazendo ali?
O homem não respondeu. Só olhou. Mike apertou mais.
O homem tentou falar, mas o ar não veio. Mike soltou um pouco.
O homem pigarreou. Depois falou, devagar, olhando para o notebook que Maria havia deixado na bancada lá dentro — o aplicativo de tradução em tempo real ainda estava aberto.
— "Я... я не помню. Я пытался выбраться. Выбраться из этого ада."
Traduziu:
"Eu... eu não me lembro. Eu estava tentando sair. Sair daquele inferno."
— Que inferno? — perguntou Apolo, que havia descido atrás de Mike sem que ele percebesse.
O homem olhou para ele. Demorou.
— "Вы не понимаете. Там... там нет времени. Нет пространства. Только тьма. И голоса."
Traduziu:
"Vocês não entendem. Lá... não há tempo. Não há espaço. Só escuridão. E vozes."
Mike franziu a testa. A pistola ainda apontada, mas o dedo fora do gatilho.
— Quem é você?
O homem respirou fundo.
— "Я капитан Советского Союза. Меня отправили на миссию в 1980 году."
Traduziu:
"Eu sou capitão da União Soviética. Fui enviado em uma missão no ano de 1980."
Silêncio.
Apolo olhou para Mike. Mike não desviou os olhos do homem.
— Que missão?
O homem hesitou.
— "Меня и моего напарника отправили на сверхмерном самолете. Нам сказали, что мы вернемся во времени. Но мы не вернулись. Мы попали в... империю времени."
Traduziu:
"Eu e meu parceiro fomos enviados em um avião ultradimensional. Disseram que voltaríamos no tempo. Mas não voltamos. Fomos parar no... império do tempo."
— Império do tempo? — Beatriz repetiu, a voz saindo num fio.
O homem assentiu.
— "Нас отправили перехватить амулет временных грифонов."
Traduziu:
"Fomos enviados para interceptar um amuleto de grifos temporais."
Ele olhou para a mão de Mike. A mão que segurava o bracelete.
— "Этот, что у вас в руке... был моего напарника. А другой — на моем запястье."
Mike olhou para o bracelete. Depois para o pulso do homem. O segundo bracelete ainda estava lá.
— Já não está mais no seu pulso — disse Mike, a voz seca.
O homem olhou para o próprio pulso. Viu o bracelete. Sua expressão caiu. Derrota.
— "Это всё, что я знаю. Всё, что могу объяснить. Всё остальное было бы безумием."
Traduziu:
"É tudo que eu sei. Tudo que posso explicar. Todo o resto seria loucura."
Apolo deu um passo à frente.
— E o que você viu lá? O que fez você voltar para o nosso ano? Nós estamos muito além de quando você foi enviado.
O homem franziu a testa. Olhou para Apolo como se não tivesse entendido.
— "Какой сейчас год?"
Beatriz respondeu, a voz baixa:
— Muito distante de quando você foi enviado.
O homem ficou em silêncio.
Foi então que Mike explodiu.
— CHEGA! — ele gritou, a voz ecoando no bunker. — Não deem informação pra ele! Vocês tão tratando esse cara como se fosse uma vítima? Ele é um soldado inimigo! Ladrão! Enviado pelos russos pra infiltrar, pra coletar informação, pra—
— Mike! — Maria apareceu no corredor. Ela tinha acordado com os gritos. A blusa azul do pai, o cabelo bagunçado, os olhos ainda pesados de sono. Mas a mente já estava ligada.
Ela olhou para o homem na cadeira. Para o uniforme. Para os braceletes.
Depois foi até ele.
Abaixou-se. Ficou na altura dos olhos dele. Os olhos dela encontraram os dele — os olhos azuis do capitão, cansados, mas ainda firmes.
— Tudo o que você disse é verdade? — perguntou ela, devagar.
O homem sustentou o olhar.
— "Клянусь своей семьей. Если она у меня еще есть."
Traduziu:
"Eu juro pela minha família. Se é que ainda tenho uma."
A voz dele tremeu no final.
— "Я бы очень хотел с ними поговорить. Но думаю, теперь я часть какого-то... понимания смерти. Должно быть, меня уже сочли мертвым. Вернуться сейчас было бы безумием."
Traduziu:
"Eu gostaria muito de poder falar com eles. Mas acho que agora faço parte de um... entendimento de morte. Com certeza já fui dado como morto. Voltar agora seria loucura."
Ele fechou os olhos por um segundo. Abriu de novo.
— "Мой напарник... он потерян. Я не знаю, что случилось. Один из хранителей коснулся воздуха, и он превратился во что-то ужасное. Он застрял в капсуле. Не в этой dimensão, но и не в другой. Он пленник. Я пытался помочь, но не смог. И я чувствую, что этот браслет... я не должен был его брать."
Traduziu:
"Meu companheiro... ele está perdido. Eu não sei o que aconteceu. Um dos guardiões tocou o ar e o transformou em algo horrível. Ele está preso numa cápsula. Não nesta dimensão, mas também não na outra. Ele é um prisioneiro dimensional. Eu tentei ajudar, mas não consegui. E eu sinto que esse bracelete... eu não deveria ter pego."
A voz dele desmoronou.
— "Я видел много вещей. Вещей, которые не могу рассказать. Нет возможности объяснить. Но теперь всё было напрасно. Я мертв."
Traduziu:
"Eu vi muitas coisas. Coisas que não posso contar. Não há como explicar. Mas agora tudo foi em vão. Eu morri."
Mike avançou. Pegou o homem pelo colarinho, puxou com força.
— PARA DE TAGARELAR! PARA COM ESSES DRAMAS INTERNOS! VOCÊ VEIO AQUI POR UM MOTIVO, E EU VOU DESC—
Ele parou.
O homem estava com lágrimas nos olhos.
A língua dele se moveu. Foi para o canto da boca. Atingiu um dente. Apertou.
Mike sentiu. Recuou. Mas já era tarde.
O ar do bunker mudou.
Uma luz começou a emanar do corpo do capitão. Primeiro os olhos — feixes de luz branca, pura, que saíram das órbitas e iluminaram o rosto de Mike. Depois a boca. Depois todo o corpo.
— AFASTEM! — Mike gritou, recuando.
Todos deram passos para trás. Beatriz agarrou o braço de Apolo. Maria encostou na bancada.
O homem na cadeira brilhou.
O brilho ficou mais forte. A pele começou a se desfazer — não como carne se rasgando, mas como partículas finas, poeira cósmica, se desprendendo do corpo dele.
Ele não gritou. Não fez nenhum som.
Apenas olhou para eles — para Mike, para Maria, para Apolo, para Beatriz — com os olhos que já não eram mais olhos, só luz.
Depois ele se foi.
A poeira cósmica brilhou por um segundo no ar, girou em torno do lugar onde ele estivera, e se apagou.
A cadeira ficou vazia.
As cordas caíram no chão.
O bracelete que estava no pulso do homem — o segundo — se desintegrou junto com ele. Virou poeira. Sumiu.
Sobrou apenas o bracelete que Mike havia tirado da mão do capitão antes de amarrá-lo. O único.
Mike olhou para a própria mão. O bracelete estava ali. Ele apertou os dedos em volta.
Guardou no bolso.
O silêncio voltou. A frequência 963 zumbia baixo.
Apolo passou a mão no rosto. Olhou para a cadeira vazia. Para o chão onde o homem estivera.
— Eu vou... vou subir — disse ele, a voz rouca. — Tomar um ar. Esfriar a cabeça.
Mike assentiu.
Beatriz olhou para Apolo. Depois para Mike. Depois para Maria.
— Eu vou com ele.
Subiram a rampa. A porta de ferro rangeu ao abrir e fechar.
Mike e Maria ficaram.
Ela olhou para ele. Ele olhou para ela.
— O que a gente faz agora? — perguntou ela.
Mike olhou para o bolso onde guardara o bracelete.
— A gente descobre o que esse negócio faz.
Lá fora, a madrugada dava lugar ao amanhecer.
E as câmeras continuavam gravando.
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