A madrugada já tinha virado manhã quando Mike sentou na cadeira em frente aos monitores.
O sol ainda não tinha subido de vez — a clareira aparecia nas telas num tom cinza-azulado, as árvores imóveis, a estrada de terra vazia. Em uma das câmeras, no canto superior direito, dava para ver Apolo e Beatriz sentados na varanda podre do barraco. Ela com as mãos enroladas numa caneca, ele com os cotovelos nos joelhos, a cabeça baixa.
Conversavam baixo. O áudio não pegava. Mas dava para ver que não era conversa leve.
Mike desviou os olhos das telas.
Foi até a bancada. O bracelete estava lá, deixado ao lado das chaves de fenda e de um pacote de biscoito velho.
Mike pegou. Pesou na mão.
O metal era escuro, desgastado, mas não enferrujado. Os símbolos gravados não pareciam arranhados — pareciam parte do material.
Ele passou o dedo por cima. Frio. Liso.
— Você vai ficar olhando pra isso ou vai deixar eu estudar?
Mike virou. Maria estava encostada na parede do corredor, os braços cruzados. Estava com o cabelo ainda bagunçado do sono que não completou. Agora melhor vestida. Ainda com a camisa jeans azul.
— É o que sobrou — disse Mike, entregando o bracelete.
— Não sei se você viu — disse Maria — o outro virou pó junto com ele.
Mike balançou a cabeça com olhar atônito.
Maria pegou. Levou até a luz da bancada, virou, examinou.
— Não é militar. Isso aqui é... antigo. Mas a tecnologia é extremamente futurista.
— Como assim?
— O material parece daqui. Metal, liga comum. Mas os símbolos... não são gravação a laser. Não são entalhe. Parece que cresceram junto com o metal.
— Isso faz sentido?
— Nenhum.
Ela sentou na cadeira da bancada, ligou a máquina. A tela acendeu azul, os cabos pendurados. Ela conectou o bracelete num suporte improvisado — dois fios presos com fita isolante, um adaptador que ela mesma soldou semanas atrás.
Mike ficou em pé atrás dela, observando.
A máquina chiou. Depois apitou. Uma luz azul começou a pulsar no bracelete.
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Maria franziu a testa.
— Não está mostrando nada.
— Como assim nada?
— Nenhum dado. Nenhuma leitura. Só essa luz.
Ela girou o bracelete no suporte. Ajustou os parâmetros. A máquina apitou de novo — um som mais grave.
— A frequência 963 está interferindo.
— Interferindo como?
— Não sei. Só sei que esse negócio está produzindo uma energia. Mas a máquina não consegue identificar de que tipo.
Maria tirou os óculos de proteção da testa e colocou nos olhos.
— Desconhecida. Não é elétrica. Não é magnética. Não é térmica. É outra coisa.
Mike se aproximou.
— Outra coisa como?
— Como nada que eu já vi. — Ela desligou o suporte, tirou o bracelete. — Isso aí não veio do futuro. Veio de outro lugar.
— O capitão disse que veio de outra dimensão.
— Pois é. E a máquina está concordando com ele.
Mike pegou o bracelete de volta. Guardou no bolso.
— Chega por enquanto.
Maria não discutiu.
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A porta de ferro rangeu.
Apolo e Beatriz desceram a rampa. Ela com a caneca ainda na mão, ele com os cabelos vermelhos bagunçados pelo vento da mata.
— Vi vocês nos monitores lá fora — disse Mike. — Conversa boa?
— Conversa necessária — respondeu Beatriz, sentando no sofá.
Apolo puxou o banco da bancada e sentou de frente para eles.
— E aí? Descobriu alguma coisa com o bracelete?
— Nada — respondeu Maria. — Só que ele produz uma energia que a máquina não identifica.
— De outra dimensão — disse Apolo.
— Parece que sim.
Mike se levantou. Foi até o sofá. Sentou. Maria sentou ao lado, encostou o ombro no dele. Ele não afastou. A mão dele pousou no joelho dela, sem pressa, como se já pertencesse ali.
Beatriz olhou para os dois. Não disse nada. Mas um sorriso pequeno apareceu no canto da boca.
Apolo também viu. Também não disse nada.
— E agora? — perguntou Beatriz. — O que a gente faz com esse bracelete?
— Por enquanto, nada — respondeu Mike. — A gente guarda e espera.
— Espera o quê?
— Até ele mostrar alguma coisa. Ou até alguém aparecer pra buscar.
Apolo passou a mão no rosto.
— Essa de esperar nunca foi seu forte.
— Pois é. Mas não tenho escolha.
O silêncio durou alguns segundos.
Foi quando o rádio chiou.
O som veio da mesa ao lado dos monitores. Chiou de novo. Depois uma voz.
— Apolo na escuta? É o Jonathan. Vocês estão aí?
Apolo se levantou rápido. Pegou o rádio que estava perto da central de câmeras improvisada. Voltou e sentou no braço do sofá. Beatriz se aproximou.
— Estou na escuta. Estamos bem. E vocês?
— Marcos e eu estamos bem. Quero avisar que Josué vai embora.
— Como assim vai embora?
— Amanhã. De manhã cedo. Os pais dele conseguiram passagem de última hora. Estão adiantando a ida para o Canadá. Amanhã eles vão embora. Ele pediu pra avisar. E pediu o caderno.
— Caderno de decretos — disse Maria, já levantando. — Está na estante.
Ela foi até a estante, puxou o caderno. Capa de couro e páginas amareladas.
— Tá comigo — disse ela, voltando.
Apolo levou o rádio de volta à boca.
— Tá aqui com a gente. Venham com cuidado.
— Ok, pessoal. É nois.
O rádio chiou e ficou em silêncio.
Beatriz foi até Maria, pegou o caderno das mãos dela. Folheou rápido.
— É isso que ele quer?
— É — respondeu Maria.
Apolo passou a mão no rosto.
— Amanhã. O Josué vai embora amanhã.
Ele pensou por um segundo.
— Preciso dar um jeito de ir me despedir deles.
— Que coisas estranhas estariam ocorrendo que pastores poderiam resolver? — murmurou, pensando alto.
Mike tirou o bracelete do bolso. Olhou para ele.
A luz azul tinha sumido. Era só metal escuro agora.
Mas ele sabia que não.
— Vocês entenderam tudo que o Jonathan disse? — perguntou.
— Sim — respondeu Maria.
Beatriz completou:
— O que será que está acontecendo no Canadá?
Todos ficaram pensativos.
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A manhã já estava avançada quando os três apareceram na beirada da mata.
Sérgio vinha na frente, a bike branca com os pneus cheios de barro. Jonathan atrás, a mochila verde nas costas, a corrente rangendo. Marcos fechava o grupo, já pulando da bike antes de parar.
Chegaram, subiram a rampa.
A porta de ferro estava fechada. Sérgio bateu. Três vezes. Depois duas.
Mike abriu. Se cumprimentaram rápido. Mike olhou para ver se não foram seguidos.
Achando que todos já tinham entrado, ele ficou olhando para o começo da estradinha de terra. Pensamento longe. Quando voltou os olhos, se assustou.
— Que isso, garoto. Quer me matar?
Marcos caiu na risada.
— Sem arma?
— Difícil. Não sei se é certo, mas tá tudo tranquilo. Nós vimos pelo caminho mais seguro. A cidade está normal.
— A escola está com a barra limpa. Porém segue fechada.
Mike ouviu, franziu a testa.
— Ok. Estranho. Vamos até a sala.
Quando ele estava pra fechar a porta, Apolo passou por eles e disse:
— Deixa que eu fecho.
Mike assentiu. Desceram.
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Chegando lá, Sérgio já estava olhando para os monitores e para a bancada com a máquina ligada.
Marcos foi até a cozinha beber água.
Mike disse:
— E aí, Pica-Pau? O que achou dessa adaptação?
Sérgio lembrou que o apelido de Apolo era esse. Deu risada.
— Achei que poderia ser melhor aproveitado. Mas vocês que fizeram desta forma. Tá bem.
Mike franziu a testa.
— Tá dizendo que faria melhor?
Sérgio olhou pra ele.
— Talvez.
Na cozinha, Maria e Beatriz estavam fazendo café.
Jonathan perguntou:
— Vocês tão bem?
— Sim — responderam as duas em simultâneo.
Uma olhou pra outra. Riram.
Jonathan também riu. Sentou junto à mesa.
— Foi horrível ficar em casa. Nossos pais não entendem nada. É visível que ninguém tá vendo o que tá acontecendo.
Ele deixou o rosto encostar na mesa fria quando se debruçou após a fala.
Elas ficaram processando.
Mike sentiu o cheiro. Foi até a cozinha.
— Hum. Nada melhor.
Sentou ao lado de Jonathan.
— Sabe de alguma coisa sobre essas coisas que acontecem no Canadá?
— Não sei quase nada. Quem fala mais com ele é Marcos. Eu fiquei tentando estudar de casa. — Ele pausou. — E como foi estes dias aqui presos?
— O mesmo aspecto. Nada diferente, a não ser o que ocorreu esta madrugada.
— Sério? O que houve?
Maria e Beatriz ficaram olhando pra Mike.
Sérgio e Marcos estavam chegando pelo cheiro.
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Apolo pensou um pouco. Aguardou pacientemente o bunker silenciar lá dentro.
Pegou a bike do irmão e disparou pedalando, com um plano em mente.
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Maria já tinha o caderno na mão. Entregou para Sérgio.
Sérgio leu a capa em voz baixa:
— "Caderno de Orações e Decretos Espirituais. Josué Araújo."
Letras organizadas e arredondadas.
— Ele escreveu tudo isso? — perguntou Marcos.
— Ele escreveu — respondeu Beatriz.
— Mas será que isso funciona? Tipo igual o dia da criatura?
Mike respondeu:
— Não tenho ideia. Pra mim isso é tudo confuso.
— A gente acredita que ele acredita. E isso já é mais do que a gente tem — disse Marcos.
Marcos pegou o caderno das mãos de Sérgio. Abriu na primeira página.
— "Declaro que nenhuma arma forjada contra mim prosperará" — leu em voz alta.
Fechou.
— É tipo um escudo?
— É tipo uma arma — disse Beatriz. — Só que de outro jeito.
Sérgio guardou o caderno na mochila.
— Não deveríamos nem estar lendo isso — disse, guardando.
Foi quando Jonathan ia falar "cadê o Apolo?"
Alguém bateu na porta.
A cada batida inesperada, o sentimento de todos mudava.
Mike disse:
— Não é o Apolo. Ele não bate. Ele entra.
Foi até a porta. Todos foram como ratos para a cozinha.
Mike com a mão na pistola foi até a central.
Lá na cozinha, eles ouviram o som da porta bater e uma silhueta chegar pelo corredor.
Josué chegou no bunker.
— Bom dia, pessoal.
— Josué? — Beatriz foi a primeira a falar. — O que você está fazendo aqui?
— Vim me despedir. E buscar meu caderno.
Maria olhou para Sérgio. Sérgio tirou o caderno da mochila. Entregou para Josué.
Josué pegou com as duas mãos.
Jonathan perguntou:
— O que tem de tão especial neste caderno? Pode explicar, já que tá aqui.
Josué largou a mochila no chão. Se juntou a eles na mesa.
O café estava posto. Todos atacaram.
Mike ficou olhando, encostado na porta, braços cruzados, vendo enquanto eles começavam a comer.
E pensou: Apolo?
Ele não estava na porta?
Voltou até a sala.
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Josué abriu o caderno na primeira página. Leu em voz alta:
— "Declaro que sou protegido. Declaro que nenhuma arma forjada contra mim prosperará. Declaro que a verdade vai prevalecer."
— Que viagem é essa? — disse Sérgio.
— É guerra — respondeu Josué, fechando o caderno. — Só que não é contra gente.
— Como assim? — perguntou Marcos.
— Guerra espiritual — disse Beatriz. — Fui de igreja. Já ouvi falar e vivenciei algumas coisas.
O bunker ficou em silêncio.
Josué continuou:
— Isso aqui é um instrumento de autoridade.
Marcos franziu a testa.
— Autoridade como?
— Autoridade espiritual. Igual um oficial tem patente. Igual um juiz tem poder de decisão. Não é porque eu escrevi que acontece. É porque eu decretei no espírito primeiro. O papel só firmou.
— E como você sabe que deu certo? — perguntou Jonathan.
Josué demorou um segundo.
— Porque coisas mudaram. Coisas que eu não podia mudar sozinho. Medo sumiu. Porta fechada abriu. Gente que me perseguia parou. — Ele ergueu o caderno. — Não é mágica. É fé escrita. É declarar o que já é verdade lá em cima e trazer pra cá.
— Isso só funciona pra quem acredita. Não adianta copiar as palavras se o coração não estiver junto.
Josué guardou o caderno na mochila.
Maria perguntou:
— Por que tanta pressa pra ir embora? O Jonathan falou que aconteceu algo no Canadá.
— Meus pais foram chamados pro Canadá. Uma comunidade cristã lá está passando por coisas estranhas. Coisas que ninguém consegue explicar.
— Coisas como aqui? — perguntou Beatriz.
— Coisas parecidas. Não sei explicar especificamente. Só que lá eles não têm ninguém. Pediram ajuda.
— A gente vai.
— Você quer ir? — perguntou Beatriz.
Josué demorou um segundo.
— Quero ficar. Mas não posso.
— Você vai fazer falta. Tão pequeno e já tem tanta sabedoria nas palavras.
— Não é pra sempre. Eu vou voltar.
Mike apareceu na cozinha. Semblante estranho.
— O que vocês e Apolo falavam?
Todos olharam para ele.
— Sobre tudo o que aconteceu e vem acontecendo — disse Maria.
— Josué, o que foi que aconteceu?
Mike não respondeu. Falou:
— Fui lá fora e ele não está no bunker. Puxei as imagens das câmeras. Ele pegou a bicicleta de Sérgio e saiu pedalando.
— Será que está tudo bem?
Todos ficaram se olhando.
Josué repetiu a pergunta:
— O que foi que aconteceu?
Mike explicou a todos. Tudo o que aconteceu com o russo viajante. Deixou todos muito bem inteirados.
— Nossa, que coisa maluca, pessoal — disse Jonathan.
Josué ficou pensativo.
— Se no Canadá for pra resolver coisas assim, meus pais precisam estar preparados.
Ele ia falar mais. Parou.
— Nada não — disse o garoto.
Todos olharam pra ele e seguiram arrumando a mesa de café. Já estava quase na hora do almoço. A conversa tinha se estendido.
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Todos voltaram à rotina.
Maria e Beatriz estavam terminando de arrumar a cozinha.
Os jovens conversavam com Josué. Parecia que estavam aproveitando uns aos outros ao máximo.
Mike olhava as câmeras. Pensando onde foi Apolo.
Foi quando um Fusca branco parou na clareira.
Mike chegou perto da tela para ver. Sem alardes. Apenas observando.
Foi quando ele viu.
O cabelo apareceu. Ele respirou aliviado.
Era Apolo. Com um Fusca. E duas sacolas de compras nas mãos.
— Cheguei! — disse Apolo.
Os jovens ouviram e foram até ele ajudar.
Mike disse, com tom rígido:
— O que você foi fazer? Você não pensa não? Tá um caos. Você já foi perseguido. Esqueceu?
Apolo respondeu:
— Relaxa, general. A cidade tá limpa. Não tenho ideia do que aconteceu. Mas aproveitei pra ir em casa. Falar com meus pais. Eles precisavam que ajudasse eles a guardar umas compras. Então eu fui. Eles me deram tudo que eu trouxe.
Mike ouviu, franziu a testa. Mas como os garotos realmente tinham falado o mesmo, ele assentiu, balançando a cabeça.
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A tarde caiu no bunker.
Mike, Maria, Apolo e Beatriz queriam ligar a TV ou o rádio para entender o que havia de novo ocorrendo. Mas decidiram não.
Mike chamou Apolo.
— Vamos lá amanhã então.
— No aeroporto? — perguntou Apolo.
— Sim. Em Caxias, no aeroporto. Vou disfarçado.
Apolo não pensou muito. Estava entediado de ficar preso.
Se levantou.
— Então está tarde. Vou colocar as bikes no carro. Deixar vocês lá.
Todos foram.
Josué deu abraço em cada um. Agradeceu.
Apolo olhou após ligar o carro.
— Eu volto.
Partiu para o seu destino...
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