domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 35 - O Viajante inesperado.

Capítulo 35: O Viajante inesperado.
Bracelete temporal.

A madrugada no bunker era um silêncio denso.

Mike não dormia. O corpo na cama, os braços ainda envoltos em Maria, mas os olhos abertos no teto escuro. A frequência 963 zumbia baixo — sempre lá, sempre presente. A respiração dela era lenta, profunda. O calmante que Beatriz dera continuava fazendo efeito.

Ele esperou mais alguns minutos. Depois, com cuidado, deslizou os braços de leve, levantou-se.

Maria nem se mexeu.

Mike vestiu a calça cargo, a camiseta preta. A jaqueta jeans ficou pendurada na cadeira — ele pegou no caminho. A pistola estava na bancada, ao lado das caixas de munição que trouxeram da garagem.

Ele passou pela cozinha. Parou.

Os monitores.

No canto inferior direito — a câmera que apontava para a entrada da estrada de terra — uma luz. Não forte, não constante. Pequenos clarões, como lanternas cortando a mata.

Mike se aproximou. Ajustou o brilho da tela.

Luzes. Pelo menos duas. Movendo-se devagar entre as árvores, na direção da clareira.

Ele não hesitou.

Pegou a pistola, verificou o carregador, engatilhou. Calçou as botas. Subiu a rampa em silêncio, abriu a porta de ferro com cuidado, girou os cursores sem fazer barulho.

Lá fora, o ar frio da madrugada bateu no rosto dele.

A mata estava escura. As árvores recortavam o céu estrelado. Nenhuma luz. Nenhum som.

Mike desceu a rampa de terra que levava à clareira, a pistola apontada à frente. Caminhou devagar, os passos abafados no chão úmido. Chegou no meio da clareira.

Nada.

Ele olhou para a direita, para a esquerda. Para o alto das árvores.

Nada.

Foi então que o ar mudou.

Não era vento. Era outra coisa — uma pressão invisível, como se o oxigênio tivesse ficado mais pesado. Mike sentiu os pelos do braço eriçarem.

Três metros à sua frente, o espaço se abriu.

Não foi uma fenda como as que ele tinha visto antes — não foi um rasgão violento, não houve estrondo. Foi uma abertura silenciosa, como se o mundo tivesse sido costurado errado e alguém estivesse puxando a linha.

Uma luz azul-pálida emanou do centro.

E um homem caiu.

Ele simplesmente caiu do meio do ar, como se tivesse sido expulso de dentro da luz. Caiu de joelhos na terra, ofegante, os braços se apoiando no chão para não cair de vez.


Mike apontou a pistola.

— Não se mexe.

O homem ergueu a cabeça. Usava um uniforme — Mike reconheceu na hora. Não era nenhuma farda que ele conhecia dos manuais, mas a cor, o corte, os distintivos. Soviético. União Soviética.

O homem olhou para Mike. Seus olhos estavam arregalados, confusos. Ele tentou falar — saiu um som gutural, depois palavras em russo.

Mike não entendeu nada. Mas entendeu o suficiente pelo tom: era um pedido. Ou uma súplica.

O homem tentou se levantar. A mão direita dele se fechou em punho — Mike viu que ele segurava alguma coisa. Algo pequeno, preso entre os dedos. Um botão. Um gatilho. Algum dispositivo.

Mike não pensou duas vezes.

Avançou, derrubou o homem no chão com um golpe de ombro, a pistola pressionada contra o pescoço dele. O homem tentou gritar, mas o ar não saiu. A mão dele ainda tentava alcançar o dispositivo — Mike apertou o pulso do homem contra a terra, forçando os dedos a abrirem.

— O que você quer apertar? — Mike rosnou, a voz baixa e perigosa.

O homem não respondeu. Ou não entendeu. Continuou lutando, mas o cansaço era maior. Os olhos dele começaram a revirar.

Mike apertou mais um pouco.

O homem desmaiou.

---

Mike ficou parado por um segundo, ofegante. A fenda havia fechado — a luz azul sumiu, o ar voltou ao normal.

Ele se levantou. Olhou para o homem caído no chão.

Uniforme soviético. Botas. Distintivos que ele não reconhecia. E na mão direita — ainda fechada, mesmo desmaiado — alguma coisa.

Mike abriu os dedos do homem com cuidado.

Um bracelete. Metal escuro, desgastado, com símbolos gravados. Não parecia militar. Parecia antigo. Tecnológico de um jeito que não encaixava no resto do uniforme.

Mike guardou o bracelete no bolso da jaqueta. Depois se abaixou, puxou o homem pelos braços e começou a arrastá-lo em direção ao barraco.

---

A porta de ferro rangeu ao abrir.

Mike arrastou o homem rampa abaixo, os pés arrastando em cada degrau. Dentro do bunker, a luz fraca da sala de operações iluminava o corredor.

Ele foi até o fundo, onde tinham guardado as cordas — das antigas expedições do clube de ufologia. Amarrou os pulsos do homem atrás das costas. Amarrou os tornozelos na cadeira de madeira que ele puxou do canto.

Quando terminou de amarrar as mãos, viu.

No braço direito do homem, um segundo bracelete. Idêntico ao que ele tinha guardado no bolso. Estava preso ao pulso, mas tinha uma trava lateral — pequena, quase invisível.

Mike apertou.

O bracelete se soltou com um clique. Uma fumaça fina, quase imperceptível, subiu dele. Caiu no chão com um som metálico.

Mike nem pegou. Virou e foi para o corredor.

---

Apolo dormia com a porta aberta. Mike entrou sem bater, tocou no ombro dele com força.

— Apolo. Acorda.

Apolo acordou com um sobressalto, o corpo todo tenso. Abriu a boca para falar, mas Mike tapou com a mão.

— Não grita. Tem um homem amarrado na cadeira lá embaixo.

Os olhos de Apolo se arregalaram.

— Sai da cama. E acorda a Beatriz. Devagar. Sem barulho.

Mike saiu. Apolo balançou Beatriz até ela abrir os olhos. Sussurrou qualquer coisa — ela sentou na hora, o rosto pálido mesmo no escuro.

Saíram os dois, apressados, seguindo Mike.

Chegaram na sala de operações.

O homem na cadeira. Uniforme sujo, o rosto pálido, a cabeça caída para o lado. A corda apertada nos pulsos e tornozelos.

Apolo parou, recuou um passo.

— Mike... o que você fez? Você trouxe ele pra dentro do bunker? E se for um inimigo? Um espião? E se—

— Não é — Mike cortou, seco. — Ele caiu de uma fenda. Na minha frente. Abriu o ar e ele caiu. Tava tentando apertar isso aqui na mão.

Mostrou o bracelete que tinha guardado no bolso.

Apolo olhou para o bracelete. Depois para o homem.

Foi quando o homem acordou.

Ele tossiu, uma tosse seca, rouca. Os olhos se abriram — primeiro confusos, depois assustados. Sentiu as cordas nos pulsos, tentou se mexer. Não conseguiu.

Então começou a gritar em russo.

Palavras truncadas, desesperadas. Não dava para entender. Mas o tom era claro: raiva. Medo. Desorientação.
— Ele vai acordar a Maria — disse Beatriz, já se virando.

— Não — Mike segurou o braço dela. — Não todos de uma vez. Espera.

Mas já era tarde.

O grito do homem atravessou o corredor.

---

Maria acordou com um sobressalto.

Por um segundo, não sabia onde estava. O corpo ainda pesado do calmante, a mente confusa. O grito — um homem gritando — vinha lá da sala de operações.

Ela sentou na cama, o coração acelerado. Vestiu a blusa azul do pai com as mãos trêmulas e correu descalça pelo corredor.

Chegou na sala de operações e parou.

O homem amarrado na cadeira. Uniforme que ela conhecia de livros de história. Soviético. Mike com a pistola na cintura, a expressão fechada. Apolo e Beatriz encolhidos perto da bancada.

— O que está acontecendo? — perguntou ela.

Mike respondeu sem tirar os olhos do homem.
— Ele caiu de uma fenda. Na clareira. Tô tentando entender o que ele quer.

O homem gritou de novo. Em russo. Maria ouviu as palavras — e não entendia nada.

— "Me soltem agora!"

Mike não deu bola. Apolo estava tenso demais para processar qualquer coisa. Beatriz só olhava.

Mike tirou o bracelete do bolso e questionou:

— Ele o que é isso?

— Ele não tá olhando — disse Beatriz.

— É, ele não quer cooperar — Mike afirmou.

O homem desviou o olhar. Virou o rosto para o lado, como se não quisesse ver.

Mike foi até ele. Pegou o homem pelos cabelos, com força, e virou a cabeça dele de volta para o bracelete.

— O que é isso? — Mike falou devagar, como se o homem pudesse entender. — O que é isso? Fala logo?

O homem fechou os olhos. Depois abriu. Olhou para todos. A boca se moveu — saiu um som baixo, derrotado.

— "Я не умею говорить на вашем языке..."

(Não sei falar a sua língua...)

Maria se lembrou dos tradutores usados em reuniões com americanos quando era cientista do governo. Foi até a bancada. Pegou o notebook. Ajustou uma configuração que ela não usava há meses — o tradutor de voz em tempo real.

Aproximou o notebook do homem.

— Fala de novo — disse.

O homem olhou para aquilo como se fosse algo de outro mundo, de outro tempo. Depois para ela. Hesitou.

— "Я не умею говорить на вашем языке..."

O aplicativo processou por um segundo. Depois, a voz mecânica traduziu:

"Não sei falar a sua língua."

Os olhos do homem se arregalaram. Como se visse um fantasma.

— "Откуда у тебя это? Какой сейчас год?"

Traduziu:

"De onde você tirou isso? Que ano é este?"

Mike apertou o colarinho do homem, puxando o rosto dele para perto.

— Você responde primeiro. O que você estava fazendo ali?

O homem não respondeu. Só olhou. Mike apertou mais.

O homem tentou falar, mas o ar não veio. Mike soltou um pouco.

O homem pigarreou. Depois falou, devagar, olhando para o notebook que Maria havia deixado na bancada lá dentro — o aplicativo de tradução em tempo real ainda estava aberto.

— "Я... я не помню. Я пытался выбраться. Выбраться из этого ада."

Traduziu:

"Eu... eu não me lembro. Eu estava tentando sair. Sair daquele inferno."

— Que inferno? — perguntou Apolo, que havia descido atrás de Mike sem que ele percebesse.

O homem olhou para ele. Demorou.

— "Вы не понимаете. Там... там нет времени. Нет пространства. Только тьма. И голоса."

Traduziu:

"Vocês não entendem. Lá... não há tempo. Não há espaço. Só escuridão. E vozes."

Mike franziu a testa. A pistola ainda apontada, mas o dedo fora do gatilho.

— Quem é você?

O homem respirou fundo.

— "Я капитан Советского Союза. Меня отправили на миссию в 1980 году."

Traduziu:

"Eu sou capitão da União Soviética. Fui enviado em uma missão no ano de 1980."

Silêncio.

Apolo olhou para Mike. Mike não desviou os olhos do homem.

— Que missão?

O homem hesitou.

— "Меня и моего напарника отправили на сверхмерном самолете. Нам сказали, что мы вернемся во времени. Но мы не вернулись. Мы попали в... империю времени."

Traduziu:

"Eu e meu parceiro fomos enviados em um avião ultradimensional. Disseram que voltaríamos no tempo. Mas não voltamos. Fomos parar no... império do tempo."

— Império do tempo? — Beatriz repetiu, a voz saindo num fio.

O homem assentiu.

— "Нас отправили перехватить амулет временных грифонов."

Traduziu:

"Fomos enviados para interceptar um amuleto de grifos temporais."

Ele olhou para a mão de Mike. A mão que segurava o bracelete.

— "Этот, что у вас в руке... был моего напарника. А другой — на моем запястье."

Mike olhou para o bracelete. Depois para o pulso do homem. O segundo bracelete ainda estava lá.

— Já não está mais no seu pulso — disse Mike, a voz seca.

O homem olhou para o próprio pulso. Viu o bracelete. Sua expressão caiu. Derrota.

— "Это всё, что я знаю. Всё, что могу объяснить. Всё остальное было бы безумием."

Traduziu:

"É tudo que eu sei. Tudo que posso explicar. Todo o resto seria loucura."

Apolo deu um passo à frente.

— E o que você viu lá? O que fez você voltar para o nosso ano? Nós estamos muito além de quando você foi enviado.

O homem franziu a testa. Olhou para Apolo como se não tivesse entendido.

— "Какой сейчас год?"

Beatriz respondeu, a voz baixa:

— Muito distante de quando você foi enviado.

O homem ficou em silêncio.

Foi então que Mike explodiu.

— CHEGA! — ele gritou, a voz ecoando no bunker. — Não deem informação pra ele! Vocês tão tratando esse cara como se fosse uma vítima? Ele é um soldado inimigo! Ladrão! Enviado pelos russos pra infiltrar, pra coletar informação, pra—

— Mike! — Maria apareceu no corredor. Ela tinha acordado com os gritos. A blusa azul do pai, o cabelo bagunçado, os olhos ainda pesados de sono. Mas a mente já estava ligada.

Ela olhou para o homem na cadeira. Para o uniforme. Para os braceletes.

Depois foi até ele.

Abaixou-se. Ficou na altura dos olhos dele. Os olhos dela encontraram os dele — os olhos azuis do capitão, cansados, mas ainda firmes.

— Tudo o que você disse é verdade? — perguntou ela, devagar.

O homem sustentou o olhar.

— "Клянусь своей семьей. Если она у меня еще есть."

Traduziu:

"Eu juro pela minha família. Se é que ainda tenho uma."

A voz dele tremeu no final.

— "Я бы очень хотел с ними поговорить. Но думаю, теперь я часть какого-то... понимания смерти. Должно быть, меня уже сочли мертвым. Вернуться сейчас было бы безумием."

Traduziu:

"Eu gostaria muito de poder falar com eles. Mas acho que agora faço parte de um... entendimento de morte. Com certeza já fui dado como morto. Voltar agora seria loucura."

Ele fechou os olhos por um segundo. Abriu de novo.

— "Мой напарник... он потерян. Я не знаю, что случилось. Один из хранителей коснулся воздуха, и он превратился во что-то ужасное. Он застрял в капсуле. Не в этой dimensão, но и не в другой. Он пленник. Я пытался помочь, но не смог. И я чувствую, что этот браслет... я не должен был его брать."

Traduziu:

"Meu companheiro... ele está perdido. Eu não sei o que aconteceu. Um dos guardiões tocou o ar e o transformou em algo horrível. Ele está preso numa cápsula. Não nesta dimensão, mas também não na outra. Ele é um prisioneiro dimensional. Eu tentei ajudar, mas não consegui. E eu sinto que esse bracelete... eu não deveria ter pego."

A voz dele desmoronou.

— "Я видел много вещей. Вещей, которые не могу рассказать. Нет возможности объяснить. Но теперь всё было напрасно. Я мертв."

Traduziu:

"Eu vi muitas coisas. Coisas que não posso contar. Não há como explicar. Mas agora tudo foi em vão. Eu morri."

Mike avançou. Pegou o homem pelo colarinho, puxou com força.

— PARA DE TAGARELAR! PARA COM ESSES DRAMAS INTERNOS! VOCÊ VEIO AQUI POR UM MOTIVO, E EU VOU DESC—

Ele parou.

O homem estava com lágrimas nos olhos.

A língua dele se moveu. Foi para o canto da boca. Atingiu um dente. Apertou.

Mike sentiu. Recuou. Mas já era tarde.

O ar do bunker mudou.

Uma luz começou a emanar do corpo do capitão. Primeiro os olhos — feixes de luz branca, pura, que saíram das órbitas e iluminaram o rosto de Mike. Depois a boca. Depois todo o corpo.

— AFASTEM! — Mike gritou, recuando.

Todos deram passos para trás. Beatriz agarrou o braço de Apolo. Maria encostou na bancada.

O homem na cadeira brilhou.

O brilho ficou mais forte. A pele começou a se desfazer — não como carne se rasgando, mas como partículas finas, poeira cósmica, se desprendendo do corpo dele.

Ele não gritou. Não fez nenhum som.

Apenas olhou para eles — para Mike, para Maria, para Apolo, para Beatriz — com os olhos que já não eram mais olhos, só luz.

Depois ele se foi.

A poeira cósmica brilhou por um segundo no ar, girou em torno do lugar onde ele estivera, e se apagou.

A cadeira ficou vazia.

As cordas caíram no chão.

O bracelete que estava no pulso do homem — o segundo — se desintegrou junto com ele. Virou poeira. Sumiu.

Sobrou apenas o bracelete que Mike havia tirado da mão do capitão antes de amarrá-lo. O único.

Mike olhou para a própria mão. O bracelete estava ali. Ele apertou os dedos em volta.

Guardou no bolso.

O silêncio voltou. A frequência 963 zumbia baixo.

Apolo passou a mão no rosto. Olhou para a cadeira vazia. Para o chão onde o homem estivera.

— Eu vou... vou subir — disse ele, a voz rouca. — Tomar um ar. Esfriar a cabeça.

Mike assentiu.

Beatriz olhou para Apolo. Depois para Mike. Depois para Maria.

— Eu vou com ele.

Subiram a rampa. A porta de ferro rangeu ao abrir e fechar.

Mike e Maria ficaram.

Ela olhou para ele. Ele olhou para ela.

— O que a gente faz agora? — perguntou ela.

Mike olhou para o bolso onde guardara o bracelete.

— A gente descobre o que esse negócio faz.

Lá fora, a madrugada dava lugar ao amanhecer.

E as câmeras continuavam gravando.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...