domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 34 — D4 — Quarta Dimensão.

Capítulo 34: D4 A Quarta dimensão.

O bunker estava em silêncio. Apenas o zumbido da frequência 963 preenchia o ar — baixo, constante, como uma respiração invisível. Os monitores das câmeras recém-instaladas mostravam a clareira vazia, a estrada de terra deserta, as árvores imóveis sob o sol da tarde.

Maria estava na bancada há horas.

Os cadernos do avô estavam abertos à sua frente — o de couro ornamentado com as iniciais A.C. (Antônio Cohen) e os outros, mais simples, que pertenceram ao pai, Dr. Eduardo H. Costa. Ela folheava devagar, comparando anotações, tentando ligar pontos que não se conectavam.

Mike e Apolo estavam sentados perto do rádio antigo — o que Apolo havia ligado na Atlântida FM, onde a música tocava baixo e os locutores falavam sobre o tempo, sobre trânsito, sobre política. Nada sobre fendas. Nada sobre criaturas. Nada sobre a entrevista de Larkin.

— Eles estão abafando — disse Mike, a voz baixa. — A mídia tradicional não vai tocar no assunto. Só os canais de notícia que eles controlam.

— E a Atlântida FM? — perguntou Apolo.

— É música e notícia local. Não interessa pra eles. Por isso ainda está no ar.

Apolo olhou para os monitores.

— Esse bunker não é mais um refúgio. É uma prisão.

Mike não respondeu. Mas não discordou.

— Preciso de munição — disse ele, mudando de assunto. — Como eu vou conseguir agora?

— Tá marcado. Eu também tô.

— Pois é.

Apolo ficou em silêncio por um segundo. Depois lembrou.

— Lá na garagem... na sala da bagunça... tem duas caixas que nunca foram abertas.

— De quem?

— Do tio-avô. Militar. A família não leva ele a sério. Vive no apocalipse, sabe? A gente chama ele de maluco.

Mike olhou para ele.

— E agora?

Apolo engoliu seco. O cinismo morreu na garganta.

— É. Agora é apocalipse.

Levantaram.

---

Beatriz já estava na garagem velha quando eles chegaram.

Ela tinha descido antes, sozinha, para espairecer. A tensão do hospital ainda doía. O rosto do boiadeiro ainda aparecia quando ela fechava os olhos.

Ela mexia em caixas menores — algumas escritas com "Kit de Primeiros Socorros", outras sem identificação. Organizava o que podia ser útil. Gaze, esparadrapo, álcool. Encontrou um medidor de frequência cardíaca antigo, desses de dedo. Não sabia se funcionava, mas guardou.

— Como vocês tinham tudo isso? — perguntou, sem olhar para trás.

Apolo respondeu:

— O pessoal do clube deixou. Quando descobriram que a CIA estava envolvida, quando eu tropecei no vespeiro... eles simplesmente sumiram. Bloquearam. Nunca mais atenderam o rádio.

— Tudo ficou para trás — completou Mike.

Beatriz não perguntou mais.

Eles foram até o fundo da garagem.

Duas caixas de madeira. Grandes. Fechadas com travas de ferro enferrujadas. Em uma delas, uma inscrição a tinta preta: "Material Bélico — Uso Exclusivo em Caso de Invasão."

Mike olhou para Apolo.

— Quando seu tio-avô enviou isso?

— Quando soube que eu tava construindo o bunker. Meu pai contou pra ele. Só que meus pais nunca falaram do que realmente se tratava — só que era um refúgio. Ele mandou as caixas. Eu nunca abri.

Mike pegou um pé de cabra encostado na parede.

Abriram a primeira.

Dentro, palha seca — não serragem. E sob a palha, um rifle. Ao lado, caixas de munição. Pistolas. Carregadores. Armamento suficiente para uma invasão.

— Tesouro — murmurou Beatriz.

— Quase ouro — concordou Mike.

Abriram a segunda caixa.

Dentro, um rádio antigo — desses de frequência, com botões de metal e uma antena retrátil quebrada. Faltavam alguns botões. Estava empoeirado, enferrujado.

Ao lado, jornais velhos. Notícias antigas. E uma parafernália de bips — pequenos dispositivos eletrônicos, cada um com um número gravado.

— O que é isso? — perguntou Mike.

Apolo pegou um dos bips.

— Meu tio-avô mandou um desses pra cada um da família. No dia do aniversário. Com uma carta: "Se precisar de qualquer coisa, aperte este botão."

— Você já apertou?

— Nunca. A fama dele é... complicada.

Mike não disse nada. Mas guardou um dos bips no bolso.

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A cena mudou.

Maria ainda estava na bancada.

As páginas em russo estavam à sua frente. Ela as separou das demais, organizando por data — ou pelo que parecia ser data. O desenho do avião chamava atenção: pequeno, porte para uma ou duas pessoas. Escritas em cirílico contornavam a aeronave.

Ela reconheceu algumas palavras. Russo básico. Mas o suficiente para saber que aquilo não era anotação científica. Era um plano. Um projeto.

Embaixo, muitas linhas riscadas. E no meio dos rabiscos, uma sigla repetida várias vezes:

D4?

D4??

D4!!!

A última página estava rasgada. Faltava um pedaço. Maria passou o dedo sobre a borda irregular, tentando imaginar o que estava escrito ali.

Ela olhou para as palavras riscadas. O tamanho delas. A proporção. Todas tinham o mesmo comprimento aproximado. Como se a mesma palavra tivesse sido escrita e apagada muitas vezes.

"Phromet", pensou. Estavam riscando a palavra "Phrome...".

Mas o que isso significava?

E por que o avô dela — um cientista brasileiro, filho de judeus, que nunca demonstrou qualquer conexão com a Rússia — tinha páginas inteiras em russo?

Maria fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, focou na sigla.

D4.

Ela repetiu mentalmente. D4. D4. D4.

Foi então que aconteceu.

O bunker sumiu.

A escuridão veio. Não a escuridão de quando se apaga a luz — outra coisa. Mais densa. Mais pesada. Como se o ar tivesse virado sólido.

Ela tentou se mexer. Não conseguiu.

Uma sombra. Grande. Enorme. Com um formato que seus olhos não conseguiam traduzir — algo anormal, algo que não pertencia a nenhuma categoria que ela conhecia.

E então o sussurro.

Baixo. Distorcido. Vindo de todos os lados ao mesmo tempo.

"...Chronos..."

Apenas isso. Uma palavra. Um sopro.

Ela tentou gritar. Não saiu som.

A sombra se moveu. Ou não se moveu — era difícil saber. O tempo parecia estar errado ali.

"...Chronos..."

De novo. Mais próximo.

Maria tentou recuar. Não havia chão.

E então — o transe acabou.

Ela voltou para o bunker com um baque seco. Estava caída no chão, ao lado da bancada. O corpo inteiro tremia. A blusa estava grudada na pele, encharcada de suor.

— MARIA! — Mike já estava ao lado dela, segurando-a pelos ombros. — Maria, olha pra mim.

Ela tentou falar. A voz saiu trêmula, quebrada.

— Eu... eu vi...

Beatriz correu da cozinha com um copo d'água. Apolo veio atrás, pálido. Ajudaram Mike a colocá-la no sofá.

Maria bebeu. A mão tremia tanto que Beatriz precisou segurar o copo.

— O que foi? — perguntou Mike. — O que você viu?

Ela respirou fundo.

— As páginas... do meu avô. Têm coisas em russo. Um avião. Anotações. E uma sigla... D4.

— D4? — repetiu Apolo.

— Eu fiquei olhando pra ela. Pensando. E aí... eu fui arrebatada.

— Arrebatada como? — perguntou Beatriz.

— Eu não sei. Eu só... eu não estava mais aqui. Eu vi uma sombra. Uma sombra enorme, com um formato... errado. E ouvi uma voz. Sussurrando.

— O que a voz disse? — perguntou Mike.

Maria franziu a testa.

— Eu... não lembro direito. Era baixo. Distorcido. Fez sentido na hora, mas agora... sumiu.

Ela mentiu. Não sabia por quê. Mas a palavra Chronos ficou guardada em algum lugar da mente dela — como se não fosse para ser dita em voz alta ainda.

Mike a observou por um segundo. Não acreditou completamente. Mas não insistiu.

— E a sigla? — perguntou Apolo. — D4. O que significa?

Maria levantou os olhos.

— Quarta dimensão.

O silêncio caiu pesado. Os monitores mostravam a clareira vazia. A frequência 963 zumbia baixo.

Apolo olhou para Mike. Mike olhou para Maria. Beatriz prendeu a respiração.

— Quarta dimensão — repetiu Apolo, devagar. — Isso é... tempo.

— É tempo — confirmou Maria.

Ninguém falou.

Beatriz foi até a bancada, onde havia deixado os kits médicos. Remexeu nas caixas pequenas até encontrar o que procurava — um frasco de comprimidos. Ela leu o rótulo, sacudiu um comprimido na mão.

— Toma. É calmante.

Maria obedeceu. Engoliu seco.

— Chega por hoje — disse Beatriz, com a voz firme de quem dá uma ordem. — Foi revelação demais. Vamos dormir.

Ninguém discutiu.

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Foram para os quartos.

Maria deitou ao lado de Mike. O corpo ainda tremia levemente, o suor frio demorando a secar. Ele a puxou para perto, os braços envoltos nela.

O sono veio rápido. O calmante ajudou. A exaustão também.

Dentro de alguns minutos, Maria respirava devagar, perdida no escuro.

Mike ficou acordado.

Os olhos abertos no teto do bunker. A frequência 963 zumbindo. A respiração de Maria no peito dele.

Ele não conseguia dormir.

E lá fora, na clareira, as câmeras continuavam gravando.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...