O bunker estava em silêncio. Apenas o zumbido da frequência 963 preenchia o ar — baixo, constante, como uma respiração invisível. Os monitores das câmeras recém-instaladas mostravam a clareira vazia, a estrada de terra deserta, as árvores imóveis sob o sol da tarde.
Maria estava na bancada há horas.
Os cadernos do avô estavam abertos à sua frente — o de couro ornamentado com as iniciais A.C. (Antônio Cohen) e os outros, mais simples, que pertenceram ao pai, Dr. Eduardo H. Costa. Ela folheava devagar, comparando anotações, tentando ligar pontos que não se conectavam.
Mike e Apolo estavam sentados perto do rádio antigo — o que Apolo havia ligado na Atlântida FM, onde a música tocava baixo e os locutores falavam sobre o tempo, sobre trânsito, sobre política. Nada sobre fendas. Nada sobre criaturas. Nada sobre a entrevista de Larkin.
— Eles estão abafando — disse Mike, a voz baixa. — A mídia tradicional não vai tocar no assunto. Só os canais de notícia que eles controlam.
— E a Atlântida FM? — perguntou Apolo.
— É música e notícia local. Não interessa pra eles. Por isso ainda está no ar.
Apolo olhou para os monitores.
— Esse bunker não é mais um refúgio. É uma prisão.
Mike não respondeu. Mas não discordou.
— Preciso de munição — disse ele, mudando de assunto. — Como eu vou conseguir agora?
— Tá marcado. Eu também tô.
— Pois é.
Apolo ficou em silêncio por um segundo. Depois lembrou.
— Lá na garagem... na sala da bagunça... tem duas caixas que nunca foram abertas.
— De quem?
— Do tio-avô. Militar. A família não leva ele a sério. Vive no apocalipse, sabe? A gente chama ele de maluco.
Mike olhou para ele.
— E agora?
Apolo engoliu seco. O cinismo morreu na garganta.
— É. Agora é apocalipse.
Levantaram.
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Beatriz já estava na garagem velha quando eles chegaram.
Ela tinha descido antes, sozinha, para espairecer. A tensão do hospital ainda doía. O rosto do boiadeiro ainda aparecia quando ela fechava os olhos.
Ela mexia em caixas menores — algumas escritas com "Kit de Primeiros Socorros", outras sem identificação. Organizava o que podia ser útil. Gaze, esparadrapo, álcool. Encontrou um medidor de frequência cardíaca antigo, desses de dedo. Não sabia se funcionava, mas guardou.
— Como vocês tinham tudo isso? — perguntou, sem olhar para trás.
Apolo respondeu:
— O pessoal do clube deixou. Quando descobriram que a CIA estava envolvida, quando eu tropecei no vespeiro... eles simplesmente sumiram. Bloquearam. Nunca mais atenderam o rádio.
— Tudo ficou para trás — completou Mike.
Beatriz não perguntou mais.
Eles foram até o fundo da garagem.
Duas caixas de madeira. Grandes. Fechadas com travas de ferro enferrujadas. Em uma delas, uma inscrição a tinta preta: "Material Bélico — Uso Exclusivo em Caso de Invasão."
Mike olhou para Apolo.
— Quando seu tio-avô enviou isso?
— Quando soube que eu tava construindo o bunker. Meu pai contou pra ele. Só que meus pais nunca falaram do que realmente se tratava — só que era um refúgio. Ele mandou as caixas. Eu nunca abri.
Mike pegou um pé de cabra encostado na parede.
Abriram a primeira.
Dentro, palha seca — não serragem. E sob a palha, um rifle. Ao lado, caixas de munição. Pistolas. Carregadores. Armamento suficiente para uma invasão.
— Tesouro — murmurou Beatriz.
— Quase ouro — concordou Mike.
Abriram a segunda caixa.
Dentro, um rádio antigo — desses de frequência, com botões de metal e uma antena retrátil quebrada. Faltavam alguns botões. Estava empoeirado, enferrujado.
Ao lado, jornais velhos. Notícias antigas. E uma parafernália de bips — pequenos dispositivos eletrônicos, cada um com um número gravado.
— O que é isso? — perguntou Mike.
Apolo pegou um dos bips.
— Meu tio-avô mandou um desses pra cada um da família. No dia do aniversário. Com uma carta: "Se precisar de qualquer coisa, aperte este botão."
— Você já apertou?
— Nunca. A fama dele é... complicada.
Mike não disse nada. Mas guardou um dos bips no bolso.
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A cena mudou.
Maria ainda estava na bancada.
As páginas em russo estavam à sua frente. Ela as separou das demais, organizando por data — ou pelo que parecia ser data. O desenho do avião chamava atenção: pequeno, porte para uma ou duas pessoas. Escritas em cirílico contornavam a aeronave.
Ela reconheceu algumas palavras. Russo básico. Mas o suficiente para saber que aquilo não era anotação científica. Era um plano. Um projeto.
Embaixo, muitas linhas riscadas. E no meio dos rabiscos, uma sigla repetida várias vezes:
D4?
D4??
D4!!!
A última página estava rasgada. Faltava um pedaço. Maria passou o dedo sobre a borda irregular, tentando imaginar o que estava escrito ali.
Ela olhou para as palavras riscadas. O tamanho delas. A proporção. Todas tinham o mesmo comprimento aproximado. Como se a mesma palavra tivesse sido escrita e apagada muitas vezes.
"Phromet", pensou. Estavam riscando a palavra "Phrome...".
Mas o que isso significava?
E por que o avô dela — um cientista brasileiro, filho de judeus, que nunca demonstrou qualquer conexão com a Rússia — tinha páginas inteiras em russo?
Maria fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, focou na sigla.
D4.
Ela repetiu mentalmente. D4. D4. D4.
Foi então que aconteceu.
O bunker sumiu.
A escuridão veio. Não a escuridão de quando se apaga a luz — outra coisa. Mais densa. Mais pesada. Como se o ar tivesse virado sólido.
Ela tentou se mexer. Não conseguiu.
Uma sombra. Grande. Enorme. Com um formato que seus olhos não conseguiam traduzir — algo anormal, algo que não pertencia a nenhuma categoria que ela conhecia.
E então o sussurro.
Baixo. Distorcido. Vindo de todos os lados ao mesmo tempo.
"...Chronos..."
Apenas isso. Uma palavra. Um sopro.
Ela tentou gritar. Não saiu som.
A sombra se moveu. Ou não se moveu — era difícil saber. O tempo parecia estar errado ali.
"...Chronos..."
De novo. Mais próximo.
Maria tentou recuar. Não havia chão.
E então — o transe acabou.
Ela voltou para o bunker com um baque seco. Estava caída no chão, ao lado da bancada. O corpo inteiro tremia. A blusa estava grudada na pele, encharcada de suor.
— MARIA! — Mike já estava ao lado dela, segurando-a pelos ombros. — Maria, olha pra mim.
Ela tentou falar. A voz saiu trêmula, quebrada.
— Eu... eu vi...
Beatriz correu da cozinha com um copo d'água. Apolo veio atrás, pálido. Ajudaram Mike a colocá-la no sofá.
Maria bebeu. A mão tremia tanto que Beatriz precisou segurar o copo.
— O que foi? — perguntou Mike. — O que você viu?
Ela respirou fundo.
— As páginas... do meu avô. Têm coisas em russo. Um avião. Anotações. E uma sigla... D4.
— D4? — repetiu Apolo.
— Eu fiquei olhando pra ela. Pensando. E aí... eu fui arrebatada.
— Arrebatada como? — perguntou Beatriz.
— Eu não sei. Eu só... eu não estava mais aqui. Eu vi uma sombra. Uma sombra enorme, com um formato... errado. E ouvi uma voz. Sussurrando.
— O que a voz disse? — perguntou Mike.
Maria franziu a testa.
— Eu... não lembro direito. Era baixo. Distorcido. Fez sentido na hora, mas agora... sumiu.
Ela mentiu. Não sabia por quê. Mas a palavra Chronos ficou guardada em algum lugar da mente dela — como se não fosse para ser dita em voz alta ainda.
Mike a observou por um segundo. Não acreditou completamente. Mas não insistiu.
— E a sigla? — perguntou Apolo. — D4. O que significa?
Maria levantou os olhos.
— Quarta dimensão.
O silêncio caiu pesado. Os monitores mostravam a clareira vazia. A frequência 963 zumbia baixo.
Apolo olhou para Mike. Mike olhou para Maria. Beatriz prendeu a respiração.
— Quarta dimensão — repetiu Apolo, devagar. — Isso é... tempo.
— É tempo — confirmou Maria.
Ninguém falou.
Beatriz foi até a bancada, onde havia deixado os kits médicos. Remexeu nas caixas pequenas até encontrar o que procurava — um frasco de comprimidos. Ela leu o rótulo, sacudiu um comprimido na mão.
— Toma. É calmante.
Maria obedeceu. Engoliu seco.
— Chega por hoje — disse Beatriz, com a voz firme de quem dá uma ordem. — Foi revelação demais. Vamos dormir.
Ninguém discutiu.
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Foram para os quartos.
Maria deitou ao lado de Mike. O corpo ainda tremia levemente, o suor frio demorando a secar. Ele a puxou para perto, os braços envoltos nela.
O sono veio rápido. O calmante ajudou. A exaustão também.
Dentro de alguns minutos, Maria respirava devagar, perdida no escuro.
Mike ficou acordado.
Os olhos abertos no teto do bunker. A frequência 963 zumbindo. A respiração de Maria no peito dele.
Ele não conseguia dormir.
E lá fora, na clareira, as câmeras continuavam gravando.
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