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sábado, 15 de agosto de 2026

Capítulo 14: Na escuta, na escuta?

 


Capítulo 14: Na escuta, na escuta?


Pouco tempo depois da saída da equipe de busca. 20:53.


O bunker tá em silêncio. Não é paz. É peso.


Maria tá cabisbaixa, sentada no sofá da sala. Olho no chão. Mãos entrelaçadas, apertando até os dedos ficarem brancos.


Beatriz se achega. Senta na beirada do sofá. 


Não fala nada de cara. Só fica ali.


“Maria?”, Beatriz chama baixo.


Maria não levanta a cabeça. “É tudo culpa minha.”


“Que que cê tá falando?”


“Eu fui conivente, Beatriz.” A voz dela quebra. “Eu sabia dos riscos. Eu entendi o que tava vindo. E mesmo assim deixei acontecer. Deixei todo mundo entrar nisso. O Sérgio, o Mike... até os meninos.” O choro vem de uma vez. Engasgado, doído. “Parece que tudo isso... é culpa só minha.”


Beatriz puxa ela pro abraço. Acaricia o cabelo. “Não fala assim. Ninguém sabia de nada. Nem você.”


Maria chora no ombro dela. “Mas eu devia saber. Eu sou a cientista. 


Era pra eu ter previsto.”


Beatriz espera o choro diminuir. Respira fundo. Muda o tom. “Tô preocupada com o Apolo.”


Maria se afasta um pouco, enxuga o rosto. “Por quê?”


“Ele é impulsivo demais, Maria. Cê viu como ele ficou quando o Mike mandou ele ficar. Se der alguma merda lá fora, ele vai querer sair correndo. E com esses cadernos na mão...”


Maria abaixa a cabeça. Fica em silêncio uns segundos. Depois solta: “Eu também amo alguém impulsivo.”


Beatriz arregala o olho. “Quem?”


Maria respira fundo. “Em toda minha vida, eu tive uma prioridade: ciência. Ser como meu pai, como meu avô. Carregar o legado. Poucas vezes eu senti que... gostei de alguém de verdade. Eu achei que tinha conhecido o amor. Lark Andersen.” Maria balança a cabeça. “A gente estudou junto quando criança. Formamos juntos. Ele conhecia minha família por minha causa. Mas a gente nunca evoluiu. O amor dele, o meu... a ambição tava toda voltada pra ciência. A gente escolheu o laboratório.”


Maria olha pro chão de novo e diz: “Eu não sei lidar com o que eu sinto porque a pessoa que eu nunca pensei que ia amar vive pra lá e pra cá limpando arma, resmungando, tomando cerveja e fumando cigarro. Totalmente diferente de uma pessoa como o Lark, que era intelectual. Mas o Lark vendeu sua alma, enquanto o Mike quase perdeu a sua vida por mim.” Ela engole seco e disse: “Eu amo o Mike. Ele é o impulsivo que eu amo.”


Beatriz fica boquiaberta por dois segundos. Depois ri, sem humor, pra quebrar o peso. “Cê descobriu essa face do Apolo agora. Eu descobri a do General faz tempo.”


As duas dão um meio sorriso. Triste, mas verdadeiro.


Aí ouvem.


Um choro. Abafado. Vindo da cozinha do bunker.


Elas se levantam na hora. Vão até lá.


Marcos tá no chão. Posição fetal, encostado na parede da pia. Chorando compulsivo, ombro tremendo.


Beatriz e Maria se abaixam. Cada uma pega numa mão do garoto.


“Vem, Marquinhos”, Beatriz chama baixo. “Vamos até o sofá.”


Ele balança a cabeça, negando. A voz sai entre soluços: “Não consigo... acreditar em Deus. Deus deixou isso acontecer com meu vô. Deixou todas essas tragédias. Não é possível que exista um Deus bom. Igual o Pastor de Josué falou na célula na casa de Josué.”


Beatriz abraça ele. “Marcos, não é tempo de ficar tentando achar culpados numa situação como essa. É muito difícil pensar, se quer. Então julgar algo... se acalma.”


Maria fica quieta um segundo. A Maria cética. A cientista sem coração. Ela se abaixa na altura do Marcos. Olha no olho dele.


“Marcos, não é porque Deus tenha permitido tudo isso que essa seja a vontade Dele. Talvez Ele esteja aguardando o tempo certo. Depois de tudo que eu vi, não existe possibilidade lógica de não existir alguém por trás de todas essas coisas. Maior do que as coisas que vieram acontecer.”


Ela puxa o garoto e abraça. “Fica calmo.”


Marcos respira fundo no ombro dela. O choro diminui. O corpo relaxa.


Após o abraço, eles se afastam devagar.


Aí tudo dá errado.


As lâmpadas começam a piscar. Frenético. O alarme de movimentação externa dispara. Um som agudo, cortando o bunker.


Maria, Beatriz e Marcos se jogam contra a parede. Se abaixam. Esperam o pior.


Apolo sai do laboratório correndo. Na mão, um protótipo novo. Um holofote de 2.000W com lâmpadas UVC acopladas. Junto, duas caixas de som relativamente altas, ligadas num gravador. A frequência 963Hz começa a ecoar, grave, preenchendo o bunker.


Ele se posiciona na frente delas. O holofote e o som formam um escudo.


As lâmpadas param de piscar. Tudo volta ao normal. Silêncio.


Aí ouvem.


Passos. Firmes. Em cima do bunker. Pesados, mas não humanos. 


Apolo sussurra: “Silêncio.”


Pou. Pou. Pou.


Os passos continuam. Depois um grunhido. Grave, abafado. Do lado de fora.


O som dos passos some. Rápido. Velocidade absurda.


Breve silêncio.


Aí vem outro som. De longe. Um cervo sendo atacado. Um berro agudo, cortado no meio.


Todos ficam apavorados. Paralisados.


O som some. Silêncio absurdo de novo.


Eles começam a se levantar devagar.


Apolo diz: “Eu preciso fazer uma ronda.” Ele já tá com as duas pistolas na mão. Entrega o protótipo ligado pra Beatriz. “Fica com isso.”


Ele some pelos corredores do bunker. O resto fica intenso. Respirando baixo.


Depois de algum tempo, Apolo volta. “A barra tá limpa.”


No momento em que ele diz isso, o rádio do laboratório chia.


Maria trava. Estado de choque e alerta. “Mike.”


Ela levanta e sai correndo pro laboratório improvisado. Todos atrás.


Ela roda o botão de frequência. Nada. Volta pra posição anterior. Chiado de novo.


E do chiado, a voz de Sérgio sai. Baixa. Urgente. Desesperada:


“Na escuta. Na escuta.”


Maria responde com a voz desesperada: “Tá tudo bem?”


Sérgio responde: “Tenho notícias. Nós acabamos não nos comunicando quando chegamos. Nos desculpe pela falta de notícias. Então, exatamente como o pai do Jonathan e do Marcos disse, tá a casa do avô deles. Uma destruição absurda. Portas arrancadas, animais mortos, um cheiro horrível de sangue podre e cadáveres que estão espalhados por todo o terreno. Porém, eu tenho novidades. Coletei algumas amostras dessa gosma que ele havia dito e posso afirmar: é algo que não pertence a essa dimensão. Claramente.” A voz de Sérgio saía falando em movimento. “Porém...”, ele continuou. “Nos encontramos aqui uma porta que leva para um subsolo da casa do avô de Jonathan. Que se lembrou de uma porta chamada de casa de pólvora, que na verdade é uma entrada para um subsolo. Estamos descendo. Preciso desligar o rádio.”


Maria responde desesperada: “Sérgio! Sérgio! Não desligue! Fale conosco! Eu preciso de informações! Como vai que tá e já.”


O rádio corta. Não sai mais som do buzzer. 0.0.


Maria se levanta rapidamente, de forma nervosa. “O que diabos esses homens têm que eles não conseguem finalizar uma conversa?”


Marcos corta a cena, puxando a blusa de Maria. “Você pode me deixar fazer algumas pesquisas do seu notebook?”


Maria olha pra Marcos. Ele estava visualmente diferente. O semblante estava diferente. Ela assente e leva o garoto até o seu notebook. Rapidamente, ele começa as suas pesquisas.


Enquanto isso, Maria volta os olhos para Apolo, que estava abraçando Beatriz. E ela aperta os próprios braços e fica com um olhar perdido. Enquanto sussurra: “Mike, onde você está?”


A cena muda.


Mike à frente, com a sua calibre doze na mão.


Atrás dele, Jonathan que estava perdido em olhares. Pois nunca tinha visto aquela parte da casa do seu avô.


E Sérgio, colocando o rádio no cinto.


Ao término dessa escada eles dão direto de frente com um corredor. Nesse corredor as luzes de segurança estão totalmente apagadas. Não há som. E eles seguem apenas com as luzes da lanterna UVC ligadas e apontadas em direção à frente. Enquanto Sérgio segura o protótipo dentro da sua mochila, que estava posicionada de frente ao seu corpo e não nas suas costas. O dedo estava trêmulo em cima do botão, enquanto o protótipo estava em ponto de funcionamento. Só o que se ouve nesse corredor é apenas respiração pesada. O corredor estava limpo. Não tinha sinais da entrada de ninguém.


Mike olha para Sérgio e pergunta: “Cê fechou a porta na hora que a gente entrou?”


Sérgio disse: “Sim. Bati a porta.”


Então eles se deparam no final do corredor com uma bifurcação. O corredor era estreito, porém tinha um percurso grande. E ao chegar nessa bifurcação, eles se perguntam: “E agora? Qual lado?”


Sérgio disse: “Vamos pela direita.” Enquanto Jonathan fica perdido entre qual lado gostaria de ir. Mike diz: “Vamos, Jonathan. Para de ficar olhando em volta. Precisamos encontrar algum vestígio.”


Jonathan volta para a realidade. Seus olhos enchem de água e ele fala baixinho: “Vô.”


Eles ouvem um barulho vindo da direita. Como se fossem cabos de vassoura caindo. Mike levanta sua arma e disse: “Fiquem atrás de mim.” E segue.


Esse corredor era um corredor menor. Logo eles chegam com uma porta comum. E quando eles abrem essa porta, eles se deparam com o avô dos garotos. Ferido gravemente no pescoço e braço esquerdo. Mas com uma arma diferente nas mãos. Muito fraco e perdendo sangue, mesmo com um torniquete no braço.


Mike disse: “Senhor Artur? Senhor Artur, é você? Responda-me.” E o senhor vira o rosto para ele e balança a cabeça.


Então eles saem correndo em direção ao Senhor Artur. Mike rapidamente aperta o ferimento e pede para que Sérgio prepare para usar o Domo de defesa. Mike, sem evitar, coloca Senhor Jankolski nas costas. Todos se preparam para sair dali o quanto antes. Eles marcham em velocidade acelerada até a porta. Enquanto Artur balbucia palavras e diz: “Vocês não têm noção do que está à solta.”


Mike disse: “Senhor Artur, poupe suas palavras. Primeiro vamos chegar à nossa base e lá o senhor vai ficar melhor e vai poder nos explicar com muito mais detalhes.” Artur concorda com a cabeça e com o seu olhar e desmaia nas costas de Mike.


Enquanto isso, Jonathan enxuga as lágrimas e segue a princípio. Juntamente a Sérgio, que continua trêmulo, porém agora aguardando sair do subsolo. Aonde ele começa a perceber que Artur estava utilizando no subsolo de sua casa, no bunker dele, a mesma frequência que Marcos havia dito quando começaram a pesquisar formas de defesa. A frequência 963.


Eles saem até a escada. E ao subir a escada, Sérgio pega o cartão, passa na frente deles e passa. E diz: “Acesso negado.” Então eles ficam olhando um para os outros. “E agora?” E Mike diz: “Sr. Artur, acorde. Como saímos daqui?”


Enquanto isso, Sérgio nem olha para Mike. Ele vê os três botões posicionados ao lado da porta. O primeiro botão ele aperta 9 vezes. O segundo botão ele aperta 6 vezes. E o terceiro botão ele aperta 3 vezes. A porta abre instantaneamente. E eles saem em direção ao carro.


Chegando do lado de fora do rancho, eles notam que a casa dos Mackenzie estava totalmente sem energia. As janelas apagadas, nenhum sinal de luz. O breu engolia a estrutura inteira, como se a casa tivesse sido arrancada da existência. Nem a lâmpada da varanda piscava. Só escuridão. Rapidamente eles ajeitam Senhor Artur. Sentam Jonathan de um lado, Sérgio do outro, segurando a toalha que estancava o sangramento.


Mike dá partida no carro, que liga instantaneamente. Ele acelera. Enquanto isso ele disse: “Sérgio, já aperta esse botão.” E quando o Sérgio aperta o botão, o Domo toma completamente o carro. Assustando a eles, porque Mike pensava que o Domo de segurança não comportaria totalmente o carro. Porém ele se adaptou ao tamanho do carro.


Artur olha para a mão de Sérgio e disse: “Você é o garoto estranho que anda com Marcos e com o Jonathan. Eu prometo que nunca mais te chamo de estranho.”


“Na verdade, você não é tão estranho pra mim. Você me lembra alguém... Eu só não consigo lembrar o nome, mas...” E Sérgio disse: “Eu sou da família do Alcides.”


Então Artur, com a voz fraca, disse: “General Alcides? Eu não acredito...” Porém Jonathan corta a conversa e diz: “Vô, apenas respira. Você está fraco. Precisa repousar. Vamos chegar. Por favor, só aguente.”


Mike estava tenso, segurando o volante, pensando que o Domo estava sendo testado pela primeira vez agora. Eles nem perceberam se a bateria estava subindo ou descendo, se mantendo. Eles só queriam chegar na base.


Porém, enquanto eles estavam na estrada acelerando, passa e vem um carro preto. Uma SUV que estava vindo na direção oposta com vidros filmados. O carro passa em alta velocidade ao lado da SUV enquanto ela freia brutamente e começa a fazer o contorno para vir atrás do carro deles. Então Mike engata a quarta e acelera no máximo. Pede para que se segurem e começa uma perseguição.


Mike toma um outro caminho e sobe para o lado das Colinas. Enquanto a SUV começa a seguir. Mike faz o contorno pelo caminho das Colinas, ganhando muito espaço de distância da SUV, e entra em um túnel que dá próximo ao lago. Enquanto a SUV passa direto, mas percebe que eles não estão à frente e volta para trás pelo túnel. Mas Mike dá a volta e acelera o máximo que pode na reta, voltando para a estrada e entrando para o lado das lanchonetes.


E ele começa a perceber que no caminho muitas casas estão desligadas. Enquanto isso, ele estava olhando para os lados. Ele atropela algo.


Um corpo totalmente negro, cor de pixe.

Fica caído na estrada. Não era gente. Bateu no Domo e caiu. Mike dentro de si disse: “Teste concluído com sucesso. Domo funciona.” E continua acelerando sentido à clareira, aonde fica a entrada escondida do bunker.


Logo ele entra, dessa vez com o carro, para dentro do compartimento de segurança do Bunker, que foi acionado com sucesso. Logo a entrada se fecha. E eles ouvem, do lado de dentro da parte de segurança do Bunker, os carros passando em alta velocidade por ali. O que significa que eles não estão 100% seguros.


Então os garotos descem, tirando o Senhor Artur, carregando ele nos seus ombros até a escada que dá acesso à porta interna do Bunker. 


E Sérgio dá o rádio para Mike, que chama: “Apolo, na escuta. Abra a porta rápido.”


Apolo estava sentado no sofá ao lado de Beatriz, passando a mão na cabeça de Marcos que havia se deitado em seu colo e dormindo. Ele deixa a cabeça do garoto no colo de Beatriz e sai correndo. Porém Maria chega primeiro.


Maria pega o comunicador e responde: “Mike, onde você está?” Ele disse: “Maria, abre essa porta!” E Apolo, vendo que ela já tinha atendido, corre para a porta e faz a combinação e abre a porta.


O que eles veem: Mike sujo de sangue, com rádio na mão, a 12 pendurada junto ao seu pescoço por uma bandoleira, e os garotos carregando Artur Jankolski em seus braços.


Com o barulho de Mike entrando, Marcos desperta quando Beatriz se levanta a pedido de Apolo. Corre Beatriz. Então Marcos se assusta e corre junto. E quando ele vê o seu avô na situação que estava, Marcos se ajoelha e disse: “Muito obrigado, meu Deus. A partir de hoje eu sou todo seu!!!”

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Capítulo 13: O Reconhecimento




 Capítulo 13: O Reconhecimento


O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.


Eles estão prontos.


Mike não abre a porta. Ele trava de novo.

"Testa."


Sérgio olha pro medidor na bateria que tá dentro da mochila dele. "Noventa e nove."


"Deixa ligado", Mike fala. "Dez minutos."


Eles ficam dentro. Sete pessoas apertadas. O campo faz o som ficar abafado. O relógio da parede anda.


Sérgio não tira o olho do número. 99... 98... 97.

"Caindo", ele avisa.


Maria marca no caderno. "Normal."


Jonathan esfrega a testa. "Tô zonzo."


Marcos respira fundo. "Peso no peito."


Apolo apoia a mão na bobina. Suando.


Sérgio pisca. Olha de novo.

"Noventa e oito."


Mike franze a testa. "Subiu?"


"Noventa e nove... cem." Sérgio bate com o dedo no medidor. "Cem por cento."


Ele desliga o domo. O campo cai. Todo mundo solta o ar de uma vez.


Mike sai primeiro. "Vocês sentiram?"


"Tontura", Jonathan fala.


"Parece que corri", Apolo completa.


Sérgio encosta a mão na bateria da mochila. Tá fria. Ele abre o caderno do pai da Maria e escreve rápido.

"Campo estável. Bateria caiu pra 97 e voltou pra 100 sozinha. Consumo elétrico zero. A gente pagou a conta."


Maria olha. "Pagou como?"


"Energia vital", Sérgio responde. "Pouco. Mas tirou da gente e jogou na bateria. Ele se alimenta da gente pra se manter."


Mike guarda a informação sem discutir. Ele já tá pensando na rua.

"Então a gente não leva o domo ligado. Leva desligado, na mochila. Só liga se for pra não morrer."


Apolo levanta. "A gente vai agora."


Mike aponta pra ele com o queixo.

"Você não."


O bunker silencia.


"Você fica", Mike continua. "Eu vou. Sérgio vai. Jonathan vai."


Apolo: "Por quê eu fico?"


"Porque eu sou defesa", Mike fala. "Se tiver tiro, eu seguro. Sérgio é inteligência, ele sabe o que coletar e o que não tocar. E o Jonathan é reconhecimento. É a única planta baixa viva daquela casa."


Marcos levanta a cabeça. "Meu vô..."


"Pode tá vivo", Mike corta, mas sem prometer. "Teu avô sumiu, não acharam corpo. Velho da roça não morre fácil. Se esconde. Todo veterano tem um canto."


Apolo olha pro irmão. "E eu?"


Mike põe a mão no ombro dele. Firme.

"Porque alguém tem que segurar o bunker se der merda. Porque teu irmão vai precisar de alguém lúcido no rádio. E porque corre no sangue de vocês."


"Sangue do quê?"


"Do Alcides", Mike responde. "Teu tio avô. Militar e cientista. O cara que todo mundo chamou de doido e que mandou o bip certo na hora certa. Ele não era covarde. Era preparado. Você é igual seu tio-avô, só tá com medo de admitir."


Apolo respira. Olha pra Maria. Ela assente.


"Você fica e lê", Sérgio fala, e entrega os três cadernos pra ele. Dois do pai da Maria, cheios de grafite, e um velho de capa de couro do avô da Maria. "A gente leva o domo e traz a amostra. Você acha a defesa."


Apolo segura os cadernos. "Vinte e cinquenta. Se vocês não voltarem em duas horas, eu mantenho o rádio aberto e o bunker trancado."


"Vinte e cinquenta", Mike confirma. Olha o relógio. 20:47.


Maria entrega o rádio curto pra Sérgio. "Canal três. Só emergência."


Beatriz entrega três potes de vidro. "Pra gosma."


Marcos entrega a chave do Chevrolet. "Tanque cheio."


20:50. Eles saem.


A noite tá fechada. Sem lua. O Chevrolet amarelo acende o farol baixo e desce a serra. Mike dirige. Sérgio no banco do passageiro com a mochila do domo desligado nas costas. Jonathan atrás, com a espingarda no colo.


Mike quebra o silêncio primeiro.

"Fala do sítio, Jonathan. Quantas entradas tem?"


Jonathan se inclina pra frente.

"Duas. Portão da frente pela estrada de chão, e uma trilha por trás que sai no rio. A casa é grande, não é casinha. Chácara boa. Meu vô tinha galpão, paiol, e a casa principal com dois andares."


Sérgio vira meio de lado. "Energia?"


"Tinha luz que nunca caía", Jonathan responde. "Mesmo quando Pomerode ficava no escuro, lá ficava aceso. Ele falava que era 'nobreak de hospital'."


Mike assente. "Velho precavido."


"Tem mais", Jonathan continua, a voz mais baixa. "Nos fundos, atrás da cozinha, tem uma porta de aço. Pintada da cor da parede. Ele chamava de sala da pólvora. Dizia que se a gente entrasse, explodia tudo. Nunca deixou nem eu nem o Marcos chegar perto."


"Não é pólvora", Mike fala. "É o canto dele."


"Ele tinha câmera também", Jonathan lembra. "Eu via as luzinhas vermelhas de noite, mas nunca achava onde tava. Ele ria e falava 'quem procura acha problema'."


Mike dá um meio sorriso sem humor. "Então teu vô tava esperando isso faz tempo."


Jonathan engole seco. "Acho que sim."


Vinte e cinco minutos. Eles param a duzentos metros. Mike apaga o farol. Apaga tudo. Vão a pé.


O cheiro bate primeiro. Mesmo de longe. Sangue velho, víscera, bicho morto no sol. Só que é noite. Tá frio. E fede igual.


Mike levanta a mão. Param.


A casa do avô tá do jeito que o Seu Carlos descreveu no rádio. Porta da frente arrancada das dobradiças. Três riscos paralelos na madeira, fundos, de cima a baixo. Sangue preto espirrado na parede da varanda. No chão do terreiro, os bezerros. Abertos no meio. Não cortados. Rasgados. Ocos por dentro, secos, como se tivessem sugado a carne e deixado o couro.


As galinhas em volta, mesma coisa. Penas intactas, dentro vazio.


E o rastro. Grosso como um braço. Preto. Não brilha na lanterna. Sai da cozinha, atravessa a sala e some no boeiro atrás do galinheiro.


Jonathan morde o lábio até sangrar. "Vô..."


"Depois", Mike sussurra. "Primeiro prova."


Sérgio já tá de luva. Ajoelha do lado do bezerro. Tira foto com o celular sem flash. Coleta com cotonete o sangue preto da borda do corte. Guarda no tubinho. Raspa a matéria do chão, coloca no pote de vidro. Fecha.


"Temperatura ambiente", ele fala. "Não coagula. Não cheira a ferro. Cheira a ozônio."


Ele anda até a parede. Pega uma cápsula no chão. Não é de bala. É menor. Redonda, achatada, cor de chumbo fosco. Tem um sulco no meio.

"Olha isso", ele chama Mike.


Mike pega. "Não é 9mm. Não é 12. Não é nada nosso."


"Parece pastilha", Sérgio fala. "De arma de pressão. Ou de outra coisa."


Jonathan aponta pro canto da sala. Cápsulas de 12 espalhadas. Pólvora no chão. "Ele atirou."


"Muito", Mike confirma. "E não adiantou."


Sérgio guarda a pastilha estranha no segundo pote. "Batalha. Arma convencional contra campo."


Jonathan já tá indo pros fundos. Para na frente da porta de aço, pintada da mesma cor da parede. Intacta. Sem risco. Sem sangue. Do lado, um aviso escrito à mão pelo avô: PERIGO PÓLVORA NÃO ENTRAR.


"É essa", Jonathan sussurra. "A sala da pólvora." 


Ele encosta o ouvido. "Tá zumbindo."


Sérgio chega perto. "É igual. Não é igual ao domo, mas é parecido. Frequência baixa."


Mike olha pra cima. Aponta a lanterna. Três câmeras pequenas, escondidas nos cantos do batente. Lentes pretas. Mortas.

"Sem energia", ele fala.


Um som estoura longe. Vem da direção da estrada de baixo. Um grunhido fino, gutural, que não é de gente. Depois um tiro. Seco. Depois outro.


Mike apaga a lanterna na hora. Os três se agacham atrás da porta da frente.


Na estrada, na frente da casa dos McKenzie, aquela família alemã de Pomerode que fazia linguiça pra festa, uma luz de lanterna balança. Um vulto passa correndo. Rápido demais pra ser humano. Atravessa o facho de luz e some no mato.


Sérgio tira a mochila das costas. Abre. O protótipo do domo tá lá, com a bateria acoplada. Ele segura firme, dedo no botão, mas não liga.


Eles respiram pesado.


Lá dentro da casa, atrás da porta de aço, algo cai no chão. De propósito. Metal batendo em metal.


Mike levanta a espingarda. Sérgio se levanta devagar, encostado na parede. Ele passa a mão na porta. Tem três botões embutidos, quase invisíveis na pintura. Uma trilha de dedo marcada na poeira.


Ele aperta. Um, três, dois. Nada. Dois, dois, um. Nada.


Jonathan sussurra. "O cartão."


"O quê?"


"Meu vô não usava código", Jonathan fala rápido. "Ele tinha um cartão. Magnético. Guardava nos vasos da entrada. Ele trocava de vaso todo dia pra ninguém achar."


Jonathan levanta e corre até o aparador da entrada. Três vasos de barro. Ele vira o primeiro. Nada. O segundo. Nada. O terceiro tá caído, quebrado. No meio dos cacos, um cartão branco, todo sujo de sangue seco.


Jonathan pega. Volta correndo. Passa no leitor do lado da porta.


Click.


A porta de aço desliza pra dentro, sem barulho. Atrás não tem pólvora. Tem escada de metal descendo. Luz de emergência vermelha piscando fraca. Cheiro de óleo e fio quente.


E o zumbido. Persistente. Uma frequência grave que faz o peito vibrar.


Sérgio olha pra Mike. Mike olha pra Jonathan.


O rádio na cintura de Sérgio tá desligado. Eles não falaram com o bunker desde que saíram.


Lá de baixo, o zumbido muda de tom. Como se tivesse ouvido a porta abrir.


Jonathan segura o cartão com força. "Vô?"


Ninguém responde.


Mike destrava a espingarda mesmo sabendo que não serve. Sérgio liga a bateria do domo na mochila. A luz azul acende fraca, só em modo espera.


Os três se entreolham.


Sérgio sussurra. "Vamos."


E descem.

Capítulo 12: O Bip da Herança




 Capítulo 12: O Bip da Herança


Batidas na porta. Não as de antes. Secas. Ritmo de quem manda.


Mike já tá com a arma em punho.  

— Quem é?  


— Abre, Apolo. É seu pai.  


O bunker congela. Sérgio larga o lápis. Apolo olha pra porta como se tivesse ouvido um fantasma.  


Mike destrava. A porta abre.  


Seu Carlos e Dona Lúcia. Pai e mãe de Apolo e Sérgio. Roupa de estrada, cara de quem dirigiu a noite inteira. Atrás deles, o jipe parado com farol aceso.


Dona Lúcia entra primeiro. Olha pro braço de Apolo, pro rosto de Sérgio, pra Maria, pros garotos. O olho dela enche.  

— Meu Deus… vocês tão vivos.


Seu Carlos fecha a porta. Não cumprimenta. Vai direto no Apolo.  

— Arruma suas coisas. Você e seu irmão. A gente tá indo embora. Agora.


Apolo recua um passo.  

— Indo pra onde, pai?


— Amazônia. — Seu Carlos fala baixo, como se a palavra pesasse. — Fortaleza do seu tio-avô. O Alcides.  


Sérgio ri. Um riso seco, sem humor.  

— O Alcides? O doido do pager?  


Dona Lúcia corta.  

— Não fala assim do seu tio-avô, Sérgio.  


— Por que não? — Sérgio levanta, e o ódio que tava no papel agora tá no corpo todo. — A vida inteira a gente ouviu que ele era desertor. Que surtou na guerra e sumiu no mato. Que mandava bip pra chamar atenção.  


Seu Carlos puxa um aparelho preto, antigo, do bolso. Um pager. A tela verde acesa: SAIAM. AGORA. 47.9° -65.3°  

— Chegou ontem de madrugada. Junto com a notícia da vacina. Junto com o sumiço do gado do Seu Antônio. — Ele olha pra Apolo. — Seu tio-avô passou 40 anos chamando a gente de cego. Ontem a gente enxergou.


Apolo balança a cabeça.  

— A gente não vai, pai.  


— Vai sim. — Seu Carlos dá um passo. — Vocês dois. Já.  


Sérgio se mete na frente do irmão.  

— Não. — A palavra sai trincada. — A gente não abandona ninguém.  


Seu Carlos segura o braço do filho. Forte.  

— Você me escuta, moleque. Eu deixei você brincar de cientista. De mecatrônica. De herói. Acabou. Lá fora tem coisa matando. Seu tio-avô tem concreto de três metros, gerador subterrâneo, comida pra dois anos. Aqui vocês têm o quê? Ódio?  


Sérgio arranca o braço.  

— Aqui eu tenho gente que sangrou por mim! — Ele aponta pra Maria, pro Apolo, pro Mike. — O vô deles tá desaparecido! A gente tá a uma equação de botar um domo magnético pra funcionar e ir buscar! E você quer que eu corra pro mato?  


O silêncio é épico. Pai e filho se encaram. Igual a igual. Só que um tem 50 anos de medo guardado e o outro tem 20 anos de raiva destilada.


Dona Lúcia chora baixo.  

— Carlos… olha pra eles.  


Seu Carlos olha. Pro filho com olheira. Pro caderno cheio de cálculo. Pra Maria com a mão suja de grafite. Pros garotos no canto, tremendo.  

— Vocês… sabem de alguma coisa há dias. — Não é pergunta. — E não falaram.  


Apolo sustenta o olhar do pai.  

— A gente não ia arrastar vocês pra isso.  


Seu Carlos fecha os olhos. Um segundo. Quando abre, tá derrotado. E orgulhoso.  

— Então tá. — Ele solta o ar. — A gente vai. Eu e sua mãe. Sozinhos.  


Marcos levanta do nada. Vai até a bancada. Pega o rádio. O da viagem interdimensional. Aquele que chiou com a voz do avô.  

— Tio Carlos. — Ele entrega. — Leva isso.  


Seu Carlos franze a testa.  

— Pra quê?  


— É um protótipo. — Marcos olha pra Jonathan, que assente. — Meu vô deixou pra gente. Se conecta com a Buzzer 0.0. — Ele engole seco. — Vai até a casa dele. Na casa do meu vô. Lá vocês vão ter o que precisam pra crer.  


Marcos respira fundo, olha direto no olho do Seu Carlos.  

— E conversa com meus pais. Convence eles a irem com vocês até lá. Na casa do meu avô. Eles precisam ver pra acreditar. E pra seguirem com vocês. Com o senhor e com a tia Lúcia.  


Dona Lúcia pega o rádio com as duas mãos. Olha pros meninos. Olha pra Maria. Pra Sérgio.  

— Vocês… tão lutando de verdade. Não é de hoje. É há dias.  


Ela beija a testa de Apolo. Depois a de Sérgio.  

— Termina isso. — Ela aponta pros cadernos. — E depois vai buscar a gente.  


Seu Carlos segura a porta. Olha pro Sérgio uma última vez.  

— Não morre, filho.  


— Não vou. — Sérgio responde. — Eu já morri ontem. Hoje eu só volto.  


Eles saem. O jipe arranca. O barulho do motor some na estrada.


O bunker fica em silêncio por dez segundos.  


Aí Sérgio vira pra bancada.  

— Simulação. De novo.  


Maria senta do lado dele. Sem mandar. Sem liderar. Lado a lado.  

— Base reta. — Ela fala. — Oval em cima. Esquece a bolha perfeita. A gente precisa de chão.  


Sérgio já tá alterando os parâmetros.  

— Dois anéis concêntricos ainda. Mas o de baixo com campo estático. Âncora. O de cima oscila. Domo.  


Jonathan e Marcos puxam as cadeiras. Apolo segura o caderno do pai da Maria aberto na página que Sérgio marcou. Beatriz traz café. Mike fica na porta, vigiando.  


Três horas depois.  


A tela pisca: SIMULAÇÃO ESTÁVEL.  


Não é oval. É um domo. Base reta de 2 metros quadrados. Altura cravada em 2 metros. Cabe os sete, apertado, mas cabe.  


— Pode colapsar se a carga cair abaixo de 40%. — Sérgio lê o relatório. — Mas já dá pra rodar o teste físico.  


Maria levanta. Pega os cabos. Olha pra Sérgio.  

— Você terminou. — A voz dela falha. — O que meu pai tentou antes de morrer… você terminou.    


Sérgio não responde. Só assente. O ódio no rosto dele baixou. Virou outra coisa. Dever.


Eles montam o protótipo. Dois metros quadrados. Dois metros de altura. Condensa tudo ali. Fios, bobinas, o gerador no centro.  


Walk toc. Walk toc.  


O rádio. O outro. Que ficou no bunker. Chia.  


Voz baixa. Cansada.  

— Apolo… aqui é seu pai.  


Todos congelam.  


— A gente tá na casa do avô dos garotos. — A voz de Seu Carlos sai falha. — A casa tá toda revirada. Tem sangue… por toda parte. E uma matéria escura, tipo um rastro. Grosso. Vai na direção do boeiro.  


Jonathan morde a mão pra não gritar.  


— Seu avô não tá aqui. — Seu Carlos continua. — Mas… todas as criações dele. Os bezerros. As galinhas. Tão rasgados ao meio. Secos. Como se alguma coisa tivesse sugado tudo.  


Dona Lúcia chora ao fundo.  


— O Matteo e a Helena (pais dos Garotos) -  estão com a gente. — Seu Carlos respira fundo. — A gente vai pro bunker do seu tio-avô. Amazônia. Agora. Assim que amanhecer.  


O rádio chia. Depois morre.  


Maria desliga o gerador do protótipo. Olha pra cada um.  

— A gente tem um domo. Dois metros por dois. — Ela aponta pra porta. — E a gente tem um alvo.  


Sérgio pega a barra de ferro.  

— Então testa.  


Mike destrava a porta.  


O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.  


Eles estão prontos.

domingo, 2 de agosto de 2026

Capítulo 11: O Dia D e o Silêncio da mídia.






Capítulo 11: O Dia D e o silêncio da mídia


07:40 da manhã. 

Apolo tá encostado na parede fria do corredor. Olho vermelho de quem não dormiu. Ninguém dormiu. O bunker cheira a suor velho e metal quente. 

Ele pensa. A qualquer segundo aquela coisa pode voltar. Ou outra pior. Lá fora tem a CIA farejando Maria e Mike. Aqui dentro teve a Sentinela medindo tudo. Nenhum lugar é seguro. 

Na sala, Mike quebra o silêncio. Voz baixa, mas tensa.  
— Maria. Tô preocupado.  

Ela ergue o rosto. Olheiras fundas.  
— Com o quê especificamente, Mike? A lista é grande.  

— Com defesa. — Ele aponta pro teto. — O que a gente tem aqui não segura outra visita. A Sentinela entrou e saiu. Se vier algo maior…  

Apolo entra na sala, mancando. O braço ainda dói.  
— Na primeira captura a gente usou aquela pseudo-gaiola. — Ele olha pra Maria. — Efeito magnético. Dava pra fazer isso em escala maior? Cobrir o perímetro?

Maria leva a mão ao rosto. Fecha os olhos dois segundos.  
— Apolo… isso levaria tempo. Material, energia, cálculo de campo. Semanas. Talvez meses. E a gente tem dias.

Apolo ouve. Vira pra Mike.  
— Munição. Você ainda tem? Quanto?  

Antes de Mike abrir a boca, Beatriz corta da cozinha.  
— É lógico que agora tudo é perigoso. — Ela entra na sala com uma caneca vazia. — Comprar munição, sair na rua, respirar. Tá claro pra mim.  

Ela para no meio da sala. Olha pra cada um.  
— Eu não volto mais pro serviço. Se essa vacina for imposta, eu não vou aplicar. Não quero fazer parte daquilo.  

Ninguém discute. Todos consentem com a cabeça. Só isso. O silêncio volta a dominar o bunker. Pesado. Úmido.

Até que começa.

Batidas. Várias. Desesperadas. Gritos abafados pela porta de aço.  

— Abre! Pelo amor de Deus, abre!  

O cenário de terror voltou em dois segundos. Maria já tá de pé. Apolo pega a barra de ferro.  

Mike vai até a porta com a pistola numa mão e a lanterna na outra.  
— Afasta. — Ele rosna. Destrava. Abre.

Marcos, Jonathan e Sérgio caem pra dentro. Sérgio bate a porta atrás de si e gira a tranca. Os três tão ofegantes, sujos de terra.

Mike aponta a arma pro chão, mas não guarda.  
— Vocês tão loucos? Querem morrer? A gente precisa ser rápido aqui. Vocês explicam o que aconteceu e voltam pra casa. Agora.  

— Não, tio, espera — Marcos tá com a câmera do Sérgio na mão. — Você tem que ver isso.  

Antes que Mike comece o sermão, Sérgio já tá ligando a máquina. A tela acende. Fotos. Vídeos curtos.  

— Vizinhança inteira. — Jonathan fala rápido, atropelando as palavras. — Perto de casa. Perto daqui.  

Vídeo 1: Seu Antônio mostrando o curral vazio. “Onze vacas, Mike. Onze. Sumiram de noite.”  
Vídeo 2: Dona Lúcia chorando no galinheiro. Só pena no chão.  
Vídeo 3: O chiqueiro dos Borges. Silêncio. Nada.

Sérgio engole seco. Passa pro último vídeo.  
— Esse foi no fundo da casa do Marcos. A gente gravou pela fresta da janela.  

O vídeo treme. Escuro. Só o contorno do pasto. Então algo se move. Uma sombra de cócoras, grande demais pra ser gente. Tá curvada sobre o corpo de um boi. Não dá pra ver direito. Só o movimento. A cabeça baixa, depois ergue. Baixa de novo.  

O áudio capta Jonathan sussurrando: “Tá… bebendo?”.  

Marcos pausa o vídeo.  
— A gente sentiu. De madrugada. O chão tremia. — Ele bate o pé no chão do bunker, devagar. — Assim. A cada passo que aquilo dava. Um tremor. Breve. Mas o beliche vibrava.

O bunker fica mudo. Mike que ia dar bronca fecha a boca. A arma pesa na mão dele.

Sérgio quebra o silêncio.  
— O bunker é o único lugar seguro agora.  

Apolo balança a cabeça, devagar. Negando. Não pra ele, pro mundo.

Sérgio vê o gesto. Vê o braço do irmão enfaixado, roxo até o pulso. Os olhos dele arregalam.  
— Apolo… o que foi que aconteceu com você?  

Maria puxa o ar. Senta. E conta. Tudo. A Sentinela. As garras. O teto. O 963. A fuga. A TV. A vacina. Não poupa detalhe.

Quando ela termina, os três garotos não têm chão. Marcos afunda no sofá. Jonathan passa a mão no cabelo, repetindo “não, não, não” baixo.  

Marcos levanta a cabeça. Os olhos cheios de água.  
— E os nossos pais… — A voz quebra. — Com essa vacina… minha mãe já disse que vai levar minha vó e meu vô. Falou que é a esperança deles viverem mais tempo.  

Ele olha pra todos.  
— Minha mãe tá enganada.  

O caos que era de monstro e tiro agora vira outra coisa. Virou drama. Virou casa. Virou família. O ar ficou mais pesado que antes.

Walk toc. Walk toc.

O rádio. Aquele da viagem interdimensional. Em cima da bancada. Começa a chiar.

Não era um chiado comum. Era fino. Com um sonzinho agudo por baixo, quase um apito. 

Todos congelam. 

A voz sai baixa, entrecortada, mas conhecida.  
— Garotos. Garotos, vocês estão bem, garotos?  

Jonathan reconhece primeiro.  
— Vô?  

A voz volta, sussurrada.  
— Garotos, preciso de ajuda. Fui atacado nessa madrugada. Algo que eu não consigo compreender o que foi… atacou.  

Um estalo seco corta a transmissão. Um som estranho, como um raio estalando perto demais. 

E o grito. O grito do avô dele ao fundo. Longo. Rasgado.  

Depois a conexão morre.  

Fica apenas o som de chiado, pronto.  

O ambiente fica transtornado porque os garotos são segurados por Mike que não permite a saída deles do bunker.  

Então eles começam a gritar, chorar e é uma comoção total. Maria, Apolo, Beatriz tentam acalentar os garotos.  

Sérgio fica desesperado.  
— E agora? O que será que aconteceu?  

Ele tem um lapso. Olha pro lado, vê a TV desligada. Levanta num pulo e liga.

A primeira coisa que aparece é a RS News. O repórter tá na frente de uma fila gigantesca. Gente com roupa de hospital, cadeirante, idosos.  

— A missão midiática foi um sucesso — o repórter sorri. — E agora vamos expor as imagens e os vídeos que foram feitos na tal dimensão que é chamada de Dimensão Zero. Mas que agora está sendo chamada de Dimensão da Esperança.  

Cortam pra imagens. Céu azul demais. Grama verde demais. Prédios limpos, sem uma mancha. Gente andando, sorrindo. Tudo parece computadorizado, digitalizado. Num lugar maravilhoso que é totalmente semelhante à dimensão comum. Como se fosse apenas uma extensão material. Como se fosse mesmo um novo ambiente igual ao ambiente que já existia anteriormente. Na Terra, no jeito comum das coisas.  

Mike olha para a noticia e cospe as palavras:  
— Isso é uma farsa.  

Enquanto isso os garotos soluçam e choram preocupados com o seu avô e pensando sobre seus pais.  

Então todos se voltam para a TV por conta daquilo que começa a ser falado.  

— Temos uma notícia de que a vacinação ela teve que ser paralisada momentaneamente em todo o Brasil. — O repórter muda o tom, fica sério. — E a situação é a seguinte: tivemos um excesso volumoso de pedidos de socorro por alguns fatos rurais que vêm acontecendo. Possivelmente problemas internos e conflitos entre moradores. Talvez seja desinformação. Mas a polícia pediu que temporariamente não houvesse o início da vacinação para que eles pudessem corrigir essas situações locais. Porém, é uma situação que vem recorrente em todo o Brasil. Mas não de coisas iguais. Se tratam de coisas diferentes, mas que o presidente estava ciente, os governadores e todos estavam de comum acordo de que poderiam aguardar. Até mesmo porque eles estariam visualizando como seria o início da vacinação que ocorreu na madrugada do dia anterior lá nos Estados Unidos.  

Cortam para imagens dos americanos se vacinando. Fila organizada. Gente de jaleco aplicando. Pessoas recebendo a injeção no braço e saindo andando, como se nada tivesse acontecido. Sorrindo. Acenando.  

Todos olham com um olhar de muito, muito desespero.  

Beatriz puxa o ar.  
— Dos males esse era o pior. Porque eles ganharam tempo.  

Ela vira pra Marcos, tenta tocar o ombro dele.  
— A sua vó ainda não vai ser vacinada. E nós iremos descobrir uma forma de ir até a casa do seu avô. Fique calmo. Talvez não tenha acontecido nada com ele. Só uma queda de energia.  

Enquanto ela dizia isso, Sérgio estava com semblante de ódio. Os olhos vermelhos, mas não de choro. De raiva. Ele olhava pra Mike. Furioso.  

— Deixa ele sair daqui. — A voz dele sai trincada. — Precisamos ir até lá. O que aconteceu essa madrugada foi com vocês e não foi com a gente.  

Mike dá um passo pra frente. Mão aberta, mas firme. Olha pra Marcos e Jonathan.  
— Ninguém vai sair. Vocês ouviram o que o avô de vocês falou? Vocês ouviram o grito? Lá fora tem coisa caçando.  

— E aqui dentro a gente fica esperando morrer? — Sérgio empurra a mão de Mike. — É o vô deles! O vô deles, Mike!  

Apolo se mete no meio, tenta segurar o braço do irmão.  
— Sérgio, calma. A gente vai pensar em algo.  

— Pensar? — Sérgio puxa o braço. — Vocês tão pensando desde ontem! E o vô deles tá lá sozinho! E se tiver morrido por nossa causa? Por causa dessa merda de bunker?  

Mike mantém a voz baixa, mas dura. Olha pra Jonathan.  
— Se você abrir aquela porta, você morre. E aí quem ajuda o vô deles, cara… Hem?  

— Melhor morrer tentando do que ficar aqui escutando chiado de rádio! — Sérgio tá transtornado, cuspindo as palavras. — Vocês não entendem! O vô não é meu, mas é deles!  

Apolo segura os dois ombros do irmão, força ele a olhar.  
— Sérgio. Olha pra mim. Olha pro meu braço. Foi ontem. Quase que eu não volto. Você quer isso pra eles?  

Sérgio encara o roxo no braço de Apolo. Respira fundo. 
Não acalma. 
Mas para de gritar.  

Maria se levanta. Vai até a bancada. Bate a mão na mesa.  
— Chega. — Todo mundo olha. — Gritar não tira ele de lá. E morrer na porta também não.  

Silêncio. 
Só os soluços do Jonathan ao fundo.

Maria aponta pra Apolo.  
— A gaiola magnética. Você lembrou dela.  

Apolo assente.  
— Falei. Mas você disse que levava semanas.

— Levava. Pra cobrir o bunker. 

— Maria olha pra cada um. — Mas a gente não vai cobrir o bunker. A gente vai cobrir a gente.  

Beatriz entende.  
— Um domo. Móvel. De equipe.  

— Com perímetro de cinco metros. — Maria completa. — Cabe todo mundo. E a gente anda com ele.  

Mike franze a testa.  
— E como a gente faz isso em horas?  

Sérgio limpa o rosto com a manga. O ódio não foi embora. Virou outra coisa. Foco.  
— A gente agiliza. — A voz dele tá fria agora. 

— Corrida contra o tempo. Protótipo. Testa por simulação primeiro.  

Todos concordam. Sem votação. Sem dúvida. Corrida contra o tempo.  

Maria vai até o armário de aço. Chaveia. Tira três cadernos grossos, capa de couro gasta.  
— Do meu pai. — Joga na mesa. 

— Ele mexeu com campo unificado antes de sumir. 

Tem cálculo aqui.  

Sérgio puxa um caderno antes de Maria. Abre. 


Os olhos dele correm pelas fórmulas.  
— Capacitor de fluxo… inversão de fase… — Ele murmura. — Isso aqui tá pré-escrito. Ele já pensou num campo portátil.  

Apolo olha pro irmão. Nunca viu ele assim. O Sérgio que montava drone com sucata sumiu. Agora tem um crânio em mecatrônica no máximo, cuspindo termo técnico, folheando página com dedo sujo de terra.  

— Preciso do gerador, das bobinas do estoque, e dos cabos de cobre. — Sérgio não pede. Ordena. — Jonathan, busca. Marcos, me ajuda com a bancada.  

Maria puxa o outro caderno.  
— Página 47. Ele fala de colapso de borda. Se o campo não fechar em 360, vaza.  

— Então a gente fecha. — Sérgio já tá rabiscando no verso de uma conta de luz. — Dois anéis concêntricos, defasados em 90 graus. Gera uma bolha, não um muro.  

Uma hora depois. Primeira simulação. Usam o notebook velho da Maria. Modelam no software de física.  

O resultado pisca na tela: FALHA.  

Sérgio bate na mesa.  
— Parede magnética. Só isso que a gente fez. — Ele aponta pro gráfico. — Funciona como escudo frontal. 

Cobre 120 graus. Atrás fica pelado. Não é suficiente. Se a coisa vier por trás, acabou.  

Mike olha a simulação.  
— Então volta pros livros.  

Sérgio não responde. Já tá com o caderno do pai da Maria aberto de novo. O ódio no rosto dele virou combustível. Cada linha que ele lê, ele rosna uma ideia. Cada erro da simulação, ele risca e reescreve.  

— Aqui. — Ele marca com a unha. — ‘Coerência de fase por harmônicos não-lineares’. Ele não terminou. Mas a gente termina.  

Maria senta do lado dele. Pela primeira vez, ela não lidera. Ela assiste.  
— Fala. O que você precisa?  

Sérgio não tira o olho do papel.  
— Tempo. E que ninguém me chame pra chorar. — Ele olha pra ela, rápido. — Eu tiro o vô deles de lá. Mas eu preciso que vocês calem a boca e me deixem pensar.  

O bunker ficou em silêncio. Só o barulho de lápis no papel. E o chiado do rádio, ainda ligado.  

A corrida começou.

sábado, 1 de agosto de 2026

Capítulo 10: Amanhecer com cor de trevas.




Capítulo 10: Amanhecer com cor de trevas.


O ar no bunker estava pesado, quente, impregnado daquele cheiro úmido que o Sentinela deixou na parede. Eram quase 4h da manhã. Ninguém tinha conseguido deitar de novo.

Na pequena área médica improvisada, Beatriz estava ajoelhada ao lado de Apolo, limpando as escoriações do braço dele com gaze e soro. Ele tinha arranhões longos, nada profundos — o pior tinha sido o impacto quando caiu em cima da mesa. Que queda.

— Você tem sorte — disse Beatriz, voz baixa, concentrada. — Se a mesa fosse de ferro maciço, você tinha quebrado costela.

Apolo fez uma careta e riu curto, sem humor.

— Sorte é a última palavra que eu usaria agora.

Maria estava encostada no batente da porta, braços cruzados, olhando o ponto da parede onde a fenda se fechou.

— Ele não veio pra matar — disse Maria, mais pra si mesma. — Veio pra mapear. Sentiu a frequência, sentiu a gente.

Beatriz ergueu os olhos.

— E agora? A gente só fica esperando o próximo Sentinela?

— Agora a gente sela isso — respondeu Apolo, apertando o curativo. — Mas preciso entender: se a D2.9 manda Sentinelas toda vez que a gente usa o bracelete, quantas vezes a gente pode fechar a porta antes que ela quebre de vez?

Silêncio. Ninguém tinha resposta.

Do outro lado do corredor, Mike fazia a ronda. Lanterna UV-C na mão esquerda, pistola na direita, luz roxa varrendo cada canto, cada rachadura no concreto. Ele checava o piso, o teto, as junções das placas metálicas — procurando qualquer brilho residual, qualquer vestígio da gosma.

Então regressando parou na sala e bufou dizendo tudo limpo.

Então eles olharam para a tv que havia ficado ligada e prestando atenção na imagem do presidente em uma reprise falando sobre a Dimensão 0.
Beatriz correu e pegando o controle aumentou o volume..


— Povo amado deste país… esta é a cura para o câncer, o HIV e a paraplegia.

Em seguida o ministro da saúde
Larkin Andersen completou:

— A vacina foi testada e comprovou propriedades autoimunes de até 10 anos.

A plateia aplaudiu em estúdio. 
O presidente voltou ao microfone:
Enquanto tudo era traduzido pelo Elliot Gilliard em inglês.

— As vacinações estarão abertas durante toda a semana. 
Partir de amanhã.

E nos Estados Unidos as aplicações já começaram ontem.

Mike desligou o som, mas deixou a imagem ligada.

Voltou até onde os três estavam e falou, seco:

— Eles tão vendendo isso como salvação. E o pior é que tá funcionando. 

A cidade inteira vai estar no laboratório pela manhã.

Apolo balançou a cabeça.

— Não é bem assim. 
Só quem tem HIV, tumor ou tá paraplégico.

Beatriz, ainda com a gaze na mão:

— E se algum dos nossos aparecer nessa fila?

Maria engoliu seco.

— Se alguém que a gente ama tomar isso… a gente pode perder essa pessoa pra sempre.

Apolo olhou para a parede selada, depois para o Mike.

— Então a gente não pode só selar a porta. 
A gente precisa decidir o que vai fazer com a “cura”.

Mike assentiu, a luz UV-C ainda acesa na mão.

— E rápido. 
Porque se o Sentinela foi só o primeiro, amanhã eles podem mandar algo que não fuja quando a gente tocar 963.

O calor continuava, o zumbido baixo da TV repetindo “cura, cura, cura”, e os quatro sabiam que o dia que estava nascendo não traria alívio.
 — só mais escolhas impossíveis.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Capítulo 9: A Fenda Gosmenta e as leis da matéria. (A visita da sonda Sentinela.)

 







 

Capítulo 9: A Fenda Gosmenta e as leis da matéria.

(A visita da sonda Sentinela.)


Eram 03:15 da madrugada quando o primeiro alarme disparou, cortando o silêncio pesado do bunker.


Só restavam os quatro adultos: Mike e Maria, Apolo e Beatriz. Os garotos haviam sido levados para casa horas antes.


Todos acordaram sobressaltados. Maria sentou na cama primeiro, olhos arregalados.


— Mike… ouviu isso?


Mike já estava de pé, pegando a pistola debaixo do travesseiro.


— Levanta. Rápido.


Um ruído úmido, como carne sendo rasgada devagar, veio da sala principal. Quando os quatro chegaram correndo ao corredor, a visão os paralisou.


Uma criatura humanóide de quase dois metros de altura havia rasgado um túnel dimensional diretamente dentro do bunker. Pele cor de cadáver, meio amarronzada, com textura oleosa e irregular, cabeça alongada. Seus olhos grandes, vermelhos sanguíneos e brilhantes, sem pupila, pareciam perfurar a escuridão. A boca entreaberta revelava fileiras de dentes afiados, irregulares e amarelados, como lâminas tortas.


Assim que a criatura se manifestou completamente, ela emitiu um som aterrador — um grunhido grave e distorcido que fez o ar tremer, como se a própria realidade vibrasse. Os alarmes do bunker dispararam imediatamente.


— O que e isso??? — murmurou Apolo, empurrando Beatriz para trás.


Mike não hesitou.


— Atira!


Os tiros ecoaram altos. A criatura recuou, mas logo inclinou a cabeça. Mike abaixou um pouco a pistola.


— Olha a postura dela. Não veio pra matar agora. Veio observar.


Maria, já no console do laboratório, completou:


— A assinatura dimensional é parecida com a da Fortaleza. É a mesma instabilidade que Kairos avisou que poderia acontecer se o bracelete fosse usado de forma errada. Essa criatura foi lançada nos tecidos dimensionais… pra encontrar cortes, traços, qualquer coisa que tivesse ficado aberta.


Mike assentiu.


— Exato. Ela veio só pra observar. Pra descobrir o que tinha do outro lado dos rasgos que a gente deixou.


Mal terminou de falar e a criatura soltou outro grunhido gutural, muito mais alto. Seus olhos vermelhos brilharam com fúria. Ela cravou as garras na parede e, num movimento impossível, subiu no teto, andando de cabeça para baixo com as garras raspando o concreto.


— Ela tá vindo! — gritou Beatriz.


Mike esvaziou o pente inteiro. Apolo atirou também. As balas ricocheteavam, mas a criatura não parava. Maria correu desesperada para o painel principal do laboratório.


A criatura soltou um rugido gutural ensurdecedor e saltou do teto diretamente sobre Apolo, derrubando-o no chão. Seus dentes afiados estavam a centímetros do pescoço dele, as garras erguidas para rasgar.


— Apolo! — berrou Beatriz.


No exato instante em que as garras desceram, Maria ativou a defesa de Hertz.


— Frequência 963! Agora!


Um pulso sonoro invisível, agudo e penetrante, encheu o bunker. A criatura congelou no ar. Seu corpo começou a tremer violentamente, desfigurando-se. A forma humanóide derreteu como fumaça preta, virando uma massa disforme e sombria que se contorcia. Ela soltou um último guincho agonizante e, engatinhando rápido como um quadrúpede deformado, arrastou-se de volta para o buraco gosmento na parede.


O buraco pulsou uma última vez e se fechou automaticamente, como se a realidade tecesse a si mesma novamente. Não sobrou nenhum rastro — nem marca, nem líquido, nem fenda.


Silêncio absoluto.


Apolo ainda estava no chão, ofegante, com Beatriz ajoelhada ao lado dele. Mike mantinha a pistola apontada para o lugar onde a criatura desaparecera. Maria encostou na parede do laboratório, mãos tremendo.


— Que merda era aquela! — sussurrou Apolo, sentando-se devagar. — Aquilo quase me matou.


Beatriz, voz embargada:


— Eu achei que você ia morrer… Meu Deus, aqueles dentes…


Maria respirou fundo, ainda processando.


— Na dimensão 3 as leis são mais rígidas. As coisas tendem a regredir, a voltar ao equilíbrio. Aquela frequência 963… ela reforçou a lei natural daqui. A criatura tinha poder de desfigurar a realidade pelo caos, mas não consegue quebrar as leis concretas quando a brecha que permitiu ela entrar é fechada. Por isso ela regrediu pra fumaça e fugiu.


Mike guardou a pistola devagar, mas seu rosto estava sério.


— Isso não muda o principal. Agora não estamos mais seguros. Se essas coisas são parte de uma consciência coletiva, como o Larkin insinuou na entrevista sobre a D2.9… então o bunker já é conhecido. Eles sabem exatamente onde estamos. E podem mandar mais.


Maria olhou para o grupo, exausta.


— A brecha que a gente deixou com o bracelete… virou uma porta. E eles estão do outro lado, esperando.


Apolo se levantou com ajuda de Beatriz, ainda sentindo o corpo tremer.


— Então o que a gente faz agora?


Mike olhou para o lugar vazio na parede e respondeu baixo:


— A gente reforça tudo. Porque isso foi só o primeiro.


O medo havia tomado conta do bunker de vez. O suposto último refúgio seguro agora parecia apenas uma caixa frágil, exposta aos olhos de algo muito maior.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Capítulo 7: Mensagem Urgente de L-Zara.



Capítulo 7: A Mensagem urgente de L-Zara.


Kairós olhou para Apolo e Mike.

— Peguem esta pulseira, ela interpreta a intenção, mas só usem em casos extremos.

com ela vocês não rasgam o tecido tempo, mas sim transportam a matéria; Porem são apenas três usos.

— Antes de retornarmos, preciso que entendam uma coisa. 


A Dimensão Quatro não é a única. Existem muitas outras.

 Mas nós perdemos a conexão com a maioria delas há algun tempo. 

Por isso não consigo encontrar meu irmão. 

Se ele estiver fora desta dimensão, sua presença simplesmente não aparece aqui.


Mike inclinou a cabeça, curioso.  

— Seu irmão se chama Cronos, né? Se você já faz tudo isso como guardião interino… imagina o que alguém como ele poderia fazer sendo o guardião legitimo.


Kairós respondeu com um leve aceno, a voz carregada de peso.  

— Se Chronos estivesse aqui, nós combateríamos isso antes que ocorresse.


Mike franziu a testa, absorvendo a resposta.


Nesse momento, um Seródio — um dos seres encapuzados de vermelho, feitos de luz suave se aproximou flutuando em silêncio. 

Parou diante de Kairós e falou na língua da quarta dimensão, aquela mesma que vibrava como um acorde impossível de traduzir completamente:

«𒀭𒈪𒀀𒇉𒀾 𒇻𒍪𒀀𒊏»


Kairós escutou com atenção e traduziu para os dois, mantendo a voz baixa.  

— Ele diz que recebeu uma mensagem de L-Zara. 

Ela é uma guardiã. 

Está pedindo que eu vá até ela o quanto antes.


Apolo e Mike ficaram em silêncio, apenas observando a conversa entre Kairós e o Seródio. 

— Então Kairós confirmou o que ele foi informado, L-Zara disse que precisa da minha presença imediatamente.

Apolo disse L o Que?

Kairos com voz apressada disse vamos não ha tempo.

O Seródio fez uma reverência leve e afastou-se, desaparecendo entre as membranas luminosas do templo.

Kairós virou-se para Apolo e Mike.  

— É hora.


O Triângulo Dourado se expandiu completamente, brilhando com intensidade dourada. 

Apolo e Mike colocaram as mãos no ombro de Kairós mais uma vez.


O portal os sugou.


> > > ° < < <


A sensação foi diferente desta vez — mais rápida, como uma queda controlada através de camadas de luz. 

Quando o mundo se estabilizou, eles estavam de volta ao bunker, no mesmo lugar de onde haviam partido.


O ar tinha cheiro de café e pizza de mussarela.

As luzes piscaram levemente com a chegada.


Maria foi a primeira a correr na direção deles, seguida por Beatriz. Marcos e Sérgio vieram logo atrás, e Jonathan ficou um pouco mais atrás, ainda segurando o comunicador.

— Vocês voltaram! — Maria quase gritou, abraçando Mike com força.

Beatriz abraçou Apolo, os olhos marejados.  

— Graças a Deus… Nos ouvimos até que um chiado tomou conta de tudo.

Marcos deu um tapa no ombro de Apolo, tentando disfarçar o alívio com um sorriso.  

— Cara, nunca mais some assim.


Então do Radio veio a voz:

— Obrigado por cumprir sua palavra espero que agora meu grande amigo tenha a paz que com certeza desejou..

Disse Artur Jankolski.


Káiros respondeu enquanto a frequência estava conectada:

— Ele ira ter..


Apolo vendo a resposta de Káiros decidiu perguntar antes da despedida...

— Kairós… quem é L-Zara?


Kairós olhou para ele por um instante, enquanto o grupo começava a abraçar Mike e ele com perguntas e abraços.


— Ela é o que talvez nos ajude em um eventual problema dimensional.

Então o triângulo Dourado se fechou completamente e ele sumiu.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Capítulo 5: A Dimensão do Tempo.


Capítulo 5: A Dimensão do Tempo.
“O Templo do tempo Seródio”


O Triângulo Dourado os engoliu.

Por um instante não houve som, nem luz, nem chão. 
Apolo e Mike sentiram o corpo inteiro dissolver-se em pura frequência, como se cada átomo fosse afinado numa nota que a Dimensão Três nunca conseguira tocar. 

O tempo não parou — ele se abriu. 
Eles viram linhas de luz dourada entrelaçando passado, presente e futuro como fios de uma teia viva. 
O deslocamento era científico na precisão: cada célula do corpo respondia a uma ordem matemática que o espaço tridimensional não comportava. 
Não era dor, era expansão.

Quando a sensação se estabilizou, eles estavam flutuando.
Não havia chão sólido, não havia sol, nem lua, nem céu como conhecíamos. 

O “ar” ao redor era uma cortina de cores que não existiam na Terra — um violeta que queimava sem calor, um verde que cantava, um ouro que respirava. 

A aurora boreal parecia uma criança tímida perto daquilo. 
Tudo era iluminado por si mesmo, como se a própria luz obedecesse a uma ordem superior.

Mike piscou, a voz rouca de espanto:  
— Apolo… olha isso. Não tem horizonte. Não tem fim. É como se… como se o espaço estivesse vivo.

Apolo, olhos arregalados, estendeu a mão e viu os próprios dedos deixarem rastros de cor que demoravam a desaparecer.  
— Eu sinto… eu sinto que se eu pensar numa direção, o lugar responde. 

É física, Mike. Mas uma física que obedece ao pensamento.

Kairós flutuava à frente deles, sereno.  
— Bem-vindos ao Reino do Tempo Seródio.
 Aqui a lei não é imposta, ela é lembrada.

Eles começaram a mover-se, não andando, mas sendo conduzidos pelo pensamento coletivo de Kairós. 

O movimento era suave, como voar em sonho, mas com a nitidez de realidade absoluta. 
Ao longe surgiu o contorno de um reino: torres altas feitas de um material que parecia cristal líquido e nuvem ao mesmo tempo, impossível de definir. Nuvens prateadas giravam ao redor do castelo como guardiãs vivas.

Kairós ergueu a palma da mão e pronunciou uma única palavra em uma língua que não pertencia a nenhum ouvido humano:

«𒀭𒈪𒀀𒇉𒀾»

O som vibrou dentro do peito deles como um acorde que o corpo inteiro reconheceu, mas a mente não conseguia traduzir. Os glifos pairaram no ar por um segundo, brilhando, antes de se dissolverem em luz.

Uma porta colossal de luz se abriu diante deles.

Lá dentro, o Templo Seródio pulsava. Seres encapuzados de vermelho profundo moviam-se em silêncio absoluto. 

Os capuzes cobriam todo o corpo; não havia rosto visível, apenas uma luminosidade suave onde a face deveria estar como se a luz fosse a própria identidade.
Eles flutuavam entre colunas, manipulando esferas de energia, tecendo fios de tempo que brilhavam como teias de aranha douradas. O trabalho era preciso, quase cirúrgico.

Apolo parou, voz baixa:  
— Kairós… quem são eles?

Kairós continuou andando, com voz calma disse:

— São os Serôdios. Guardiões da quarta dimensão. 
Não são anjos e nem demônios. 
São consciências que escolheram servir à Ordem Primordial. 

Eles mantêm o equilíbrio entre as linhas temporais para que o Criador possa escrever a história sem rasurá-la, na verdade vindo do criador creio que isso seria impossível..

Mike engoliu em seco.  
— Então… Deus é real? O céu é real? Essas forças celestiais??

Kairós virou-se para eles, olhando sereno mas firme.  
— Aos escolhidos será manifestado todas as coisas. 
No tempo certo. 
Não antes. 
Perguntar não é errado. 
Forçar a resposta antes da hora é… perigoso.

Mike sentiu um flash repentino. 
O sonho, as sombras, ele no centro de um círculo, incapaz de se levantar; Uma voz sussurrando “escolhido” enquanto mãos escuras o prendiam.
A dor na cabeça veio como um martelo.
Ele cambaleou no ar.

No bunker, o rádio crepitou forte. 
Jonathan tinha conectado a transmissão diretamente ao avô dos garotos, que acompanhava tudo de longe, em silêncio absoluto.

Maria apertou o aparelho contra o peito.  
— Mike? Apolo? Vocês estão bem? O sinal está estranho…

Beatriz, ao lado dela, segurava a mão de Maria. 
No bunker só estavam elas, Marcos, Sérgio e Jonathan. O avô ouvia tudo pelo rádio, mas não estava presente fisicamente.

Mike respondeu, voz tensa mas controlada:  
— Estou… aqui. 

Só senti uma dor de cabeça forte por um segundo. 
Passou. 
Estamos bem.

Informe de Campo: tudo aqui e Celestial.
Não tem como mensurar a aparência deste lugar neste momento estamos Flut..u…(chiado intenso)

Voando sobre um mar de brilho fora do contexto de tudo que vimos…

(Chiado….)

Sem palavras pra explicar tudo aqui é mais que poderiam entender..
Existem cores que eu mesmo nunca ousei pensar que poderiam existir tudo aqui é tão assustador quando e lindo..

Estamos indo em direção a um castelo com umas torres e no entorno tem nuvens que são como guardas..

(Chiado forte conexão cortada…….)

Maria olhou para Beatriz, olhos marejados, apertando com mais força a mão da amiga.  

Sinal retornou de fato Não tem como negar a beleza desta criação..
O Criador Existe e parece que caprichou aqui.

— Beatriz… isso é maior do que a gente imaginava. 
Um mundo criado por um Criador. 

Eu… eu sempre acreditei em Deus, mas agora… é como se Ele estivesse me mostrando. 
Eu não sei nem como falar isso direito.

Beatriz apertou a mão dela de volta.  
— Eu sei. 
Eu sinto a mesma coisa. 
A gente rezava achando que era só esperança. 
Mas agora … 

“Parece que a esperança ganhou forma. 
Vamos confiar. 
Eles vão voltar.”

De volta ao Templo, Kairós adentrou um portão cor de Âmbar como uma peça de ferro maciço em altas temperaturas.

Conduziu-os por um corredor que descia em espiral — não de degraus, mas de luz que se curvava para baixo.  

— O avô de Marcos e Jonathan pediu que Yuri fosse liberto!

Ele está preso entre dimensões desde o acidente.
— Chegamos.

No centro de uma câmara circular flutuava um cubo perfeito de energia negra e dourada. 

Dentro dele, suspenso, o corpo de Yuri — ainda fardado como soldado russo, rosto jovem, como no dia da prisão. Mas os olhos estavam abertos, vazios.

Kairós ergueu a mão direita, fez um movimento circular lento. 

Com a ponta do dedo tocou o cubo. 
Com a outra mão levando o pingente ate a boca.
Fez um som como de chiado.

O cubo se desfez como fumaça.

O corpo de Yuri envelheceu instantaneamente — rugas, cabelos grisalhos, marcas do tempo real que ele nunca viveu. 


A alma retornou. 

Em algum lugar na Rússia, em um hospital, monitores apitaram. 
A família, prestes a desligar as máquinas, viu o homem abrir os olhos. 

Ele viveria mais alguns anos. 
Apenas para se despedir. 
Mas não se lembraria de nada.
Nem do exército, nem do portal, nem da dimensão. 
A memória foi apagada como preço da libertação.

Apolo murmurou:  
— Ele não vai lembrar… de nada?

Kairós balançou a cabeça.  
— É o acordo. 
A alma volta limpa. 
A dor fica aqui.

Mike, ainda com a cabeça latejando, insistiu:  
— Kairós… aqueles seres… são demônios? 

O Demiurgo…

Kairós ergueu a mão, interrompendo.  
— Não há tempo para explicar tudo agora. 
Vocês precisam ver o Demiurgo com os próprios olhos.

Ele os levou até uma estrutura que parecia uma máquina feita de luz pura — um anel giratório de cristais que pulsavam dentro de uma esfera.  
— A Máquina do Tempo na Consciência. Vocês terão visões do que eu vi. Entendimentos instantâneos.

Eles entraram.

As imagens vieram como relâmpagos: o Projeto Prometheus havia sido apenas uma mentira bonita. 
Os humanos pensavam que controlavam os seres. 

Na verdade, os seres controlavam os humanos.
Agora o projeto verdadeiro tinha nome: Projeto ÉREBUS.

Quando a visão terminou, Apolo e Mike estavam de joelhos, ofegantes, mas com a mente clara como nunca.

Kairós estendeu as mãos para ajudá-los a se levantar.  

— Agora vocês estão prontos para ver mais da Dimensão Quatro. 
O que viram foi só o começo. 
O império trevoso está exposto. 
E a verdadeira guerra… mal começou.

Mike olhou para Apolo ainda sem fôlego.
Apolo olhou para Kairós.  

E disse:

— Vamos em frente.

O Templo Seródio pulsou e eles foram levados por kairós..

Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...