Capítulo 9: A Fenda Gosmenta e as leis da matéria.
(A visita da sonda Sentinela.)
Eram 03:15 da madrugada quando o primeiro alarme disparou, cortando o silêncio pesado do bunker.
Só restavam os quatro adultos: Mike e Maria, Apolo e Beatriz. Os garotos haviam sido levados para casa horas antes.
Todos acordaram sobressaltados. Maria sentou na cama primeiro, olhos arregalados.
— Mike… ouviu isso?
Mike já estava de pé, pegando a pistola debaixo do travesseiro.
— Levanta. Rápido.
Um ruído úmido, como carne sendo rasgada devagar, veio da sala principal. Quando os quatro chegaram correndo ao corredor, a visão os paralisou.
Uma criatura humanóide de quase dois metros de altura havia rasgado um túnel dimensional diretamente dentro do bunker. Pele cor de cadáver, meio amarronzada, com textura oleosa e irregular, cabeça alongada. Seus olhos grandes, vermelhos sanguíneos e brilhantes, sem pupila, pareciam perfurar a escuridão. A boca entreaberta revelava fileiras de dentes afiados, irregulares e amarelados, como lâminas tortas.
Assim que a criatura se manifestou completamente, ela emitiu um som aterrador — um grunhido grave e distorcido que fez o ar tremer, como se a própria realidade vibrasse. Os alarmes do bunker dispararam imediatamente.
— O que e isso??? — murmurou Apolo, empurrando Beatriz para trás.
Mike não hesitou.
— Atira!
Os tiros ecoaram altos. A criatura recuou, mas logo inclinou a cabeça. Mike abaixou um pouco a pistola.
— Olha a postura dela. Não veio pra matar agora. Veio observar.
Maria, já no console do laboratório, completou:
— A assinatura dimensional é parecida com a da Fortaleza. É a mesma instabilidade que Kairos avisou que poderia acontecer se o bracelete fosse usado de forma errada. Essa criatura foi lançada nos tecidos dimensionais… pra encontrar cortes, traços, qualquer coisa que tivesse ficado aberta.
Mike assentiu.
— Exato. Ela veio só pra observar. Pra descobrir o que tinha do outro lado dos rasgos que a gente deixou.
Mal terminou de falar e a criatura soltou outro grunhido gutural, muito mais alto. Seus olhos vermelhos brilharam com fúria. Ela cravou as garras na parede e, num movimento impossível, subiu no teto, andando de cabeça para baixo com as garras raspando o concreto.
— Ela tá vindo! — gritou Beatriz.
Mike esvaziou o pente inteiro. Apolo atirou também. As balas ricocheteavam, mas a criatura não parava. Maria correu desesperada para o painel principal do laboratório.
A criatura soltou um rugido gutural ensurdecedor e saltou do teto diretamente sobre Apolo, derrubando-o no chão. Seus dentes afiados estavam a centímetros do pescoço dele, as garras erguidas para rasgar.
— Apolo! — berrou Beatriz.
No exato instante em que as garras desceram, Maria ativou a defesa de Hertz.
— Frequência 963! Agora!
Um pulso sonoro invisível, agudo e penetrante, encheu o bunker. A criatura congelou no ar. Seu corpo começou a tremer violentamente, desfigurando-se. A forma humanóide derreteu como fumaça preta, virando uma massa disforme e sombria que se contorcia. Ela soltou um último guincho agonizante e, engatinhando rápido como um quadrúpede deformado, arrastou-se de volta para o buraco gosmento na parede.
O buraco pulsou uma última vez e se fechou automaticamente, como se a realidade tecesse a si mesma novamente. Não sobrou nenhum rastro — nem marca, nem líquido, nem fenda.
Silêncio absoluto.
Apolo ainda estava no chão, ofegante, com Beatriz ajoelhada ao lado dele. Mike mantinha a pistola apontada para o lugar onde a criatura desaparecera. Maria encostou na parede do laboratório, mãos tremendo.
— Que merda era aquela! — sussurrou Apolo, sentando-se devagar. — Aquilo quase me matou.
Beatriz, voz embargada:
— Eu achei que você ia morrer… Meu Deus, aqueles dentes…
Maria respirou fundo, ainda processando.
— Na dimensão 3 as leis são mais rígidas. As coisas tendem a regredir, a voltar ao equilíbrio. Aquela frequência 963… ela reforçou a lei natural daqui. A criatura tinha poder de desfigurar a realidade pelo caos, mas não consegue quebrar as leis concretas quando a brecha que permitiu ela entrar é fechada. Por isso ela regrediu pra fumaça e fugiu.
Mike guardou a pistola devagar, mas seu rosto estava sério.
— Isso não muda o principal. Agora não estamos mais seguros. Se essas coisas são parte de uma consciência coletiva, como o Larkin insinuou na entrevista sobre a D2.9… então o bunker já é conhecido. Eles sabem exatamente onde estamos. E podem mandar mais.
Maria olhou para o grupo, exausta.
— A brecha que a gente deixou com o bracelete… virou uma porta. E eles estão do outro lado, esperando.
Apolo se levantou com ajuda de Beatriz, ainda sentindo o corpo tremer.
— Então o que a gente faz agora?
Mike olhou para o lugar vazio na parede e respondeu baixo:
— A gente reforça tudo. Porque isso foi só o primeiro.
O medo havia tomado conta do bunker de vez. O suposto último refúgio seguro agora parecia apenas uma caixa frágil, exposta aos olhos de algo muito maior.

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