domingo, 2 de agosto de 2026

Capítulo 11: O Dia D e o Silêncio da mídia.






Capítulo 11: O Dia D e o silêncio da mídia


07:40 da manhã. 

Apolo tá encostado na parede fria do corredor. Olho vermelho de quem não dormiu. Ninguém dormiu. O bunker cheira a suor velho e metal quente. 

Ele pensa. A qualquer segundo aquela coisa pode voltar. Ou outra pior. Lá fora tem a CIA farejando Maria e Mike. Aqui dentro teve a Sentinela medindo tudo. Nenhum lugar é seguro. 

Na sala, Mike quebra o silêncio. Voz baixa, mas tensa.  
— Maria. Tô preocupado.  

Ela ergue o rosto. Olheiras fundas.  
— Com o quê especificamente, Mike? A lista é grande.  

— Com defesa. — Ele aponta pro teto. — O que a gente tem aqui não segura outra visita. A Sentinela entrou e saiu. Se vier algo maior…  

Apolo entra na sala, mancando. O braço ainda dói.  
— Na primeira captura a gente usou aquela pseudo-gaiola. — Ele olha pra Maria. — Efeito magnético. Dava pra fazer isso em escala maior? Cobrir o perímetro?

Maria leva a mão ao rosto. Fecha os olhos dois segundos.  
— Apolo… isso levaria tempo. Material, energia, cálculo de campo. Semanas. Talvez meses. E a gente tem dias.

Apolo ouve. Vira pra Mike.  
— Munição. Você ainda tem? Quanto?  

Antes de Mike abrir a boca, Beatriz corta da cozinha.  
— É lógico que agora tudo é perigoso. — Ela entra na sala com uma caneca vazia. — Comprar munição, sair na rua, respirar. Tá claro pra mim.  

Ela para no meio da sala. Olha pra cada um.  
— Eu não volto mais pro serviço. Se essa vacina for imposta, eu não vou aplicar. Não quero fazer parte daquilo.  

Ninguém discute. Todos consentem com a cabeça. Só isso. O silêncio volta a dominar o bunker. Pesado. Úmido.

Até que começa.

Batidas. Várias. Desesperadas. Gritos abafados pela porta de aço.  

— Abre! Pelo amor de Deus, abre!  

O cenário de terror voltou em dois segundos. Maria já tá de pé. Apolo pega a barra de ferro.  

Mike vai até a porta com a pistola numa mão e a lanterna na outra.  
— Afasta. — Ele rosna. Destrava. Abre.

Marcos, Jonathan e Sérgio caem pra dentro. Sérgio bate a porta atrás de si e gira a tranca. Os três tão ofegantes, sujos de terra.

Mike aponta a arma pro chão, mas não guarda.  
— Vocês tão loucos? Querem morrer? A gente precisa ser rápido aqui. Vocês explicam o que aconteceu e voltam pra casa. Agora.  

— Não, tio, espera — Marcos tá com a câmera do Sérgio na mão. — Você tem que ver isso.  

Antes que Mike comece o sermão, Sérgio já tá ligando a máquina. A tela acende. Fotos. Vídeos curtos.  

— Vizinhança inteira. — Jonathan fala rápido, atropelando as palavras. — Perto de casa. Perto daqui.  

Vídeo 1: Seu Antônio mostrando o curral vazio. “Onze vacas, Mike. Onze. Sumiram de noite.”  
Vídeo 2: Dona Lúcia chorando no galinheiro. Só pena no chão.  
Vídeo 3: O chiqueiro dos Borges. Silêncio. Nada.

Sérgio engole seco. Passa pro último vídeo.  
— Esse foi no fundo da casa do Marcos. A gente gravou pela fresta da janela.  

O vídeo treme. Escuro. Só o contorno do pasto. Então algo se move. Uma sombra de cócoras, grande demais pra ser gente. Tá curvada sobre o corpo de um boi. Não dá pra ver direito. Só o movimento. A cabeça baixa, depois ergue. Baixa de novo.  

O áudio capta Jonathan sussurrando: “Tá… bebendo?”.  

Marcos pausa o vídeo.  
— A gente sentiu. De madrugada. O chão tremia. — Ele bate o pé no chão do bunker, devagar. — Assim. A cada passo que aquilo dava. Um tremor. Breve. Mas o beliche vibrava.

O bunker fica mudo. Mike que ia dar bronca fecha a boca. A arma pesa na mão dele.

Sérgio quebra o silêncio.  
— O bunker é o único lugar seguro agora.  

Apolo balança a cabeça, devagar. Negando. Não pra ele, pro mundo.

Sérgio vê o gesto. Vê o braço do irmão enfaixado, roxo até o pulso. Os olhos dele arregalam.  
— Apolo… o que foi que aconteceu com você?  

Maria puxa o ar. Senta. E conta. Tudo. A Sentinela. As garras. O teto. O 963. A fuga. A TV. A vacina. Não poupa detalhe.

Quando ela termina, os três garotos não têm chão. Marcos afunda no sofá. Jonathan passa a mão no cabelo, repetindo “não, não, não” baixo.  

Marcos levanta a cabeça. Os olhos cheios de água.  
— E os nossos pais… — A voz quebra. — Com essa vacina… minha mãe já disse que vai levar minha vó e meu vô. Falou que é a esperança deles viverem mais tempo.  

Ele olha pra todos.  
— Minha mãe tá enganada.  

O caos que era de monstro e tiro agora vira outra coisa. Virou drama. Virou casa. Virou família. O ar ficou mais pesado que antes.

Walk toc. Walk toc.

O rádio. Aquele da viagem interdimensional. Em cima da bancada. Começa a chiar.

Não era um chiado comum. Era fino. Com um sonzinho agudo por baixo, quase um apito. 

Todos congelam. 

A voz sai baixa, entrecortada, mas conhecida.  
— Garotos. Garotos, vocês estão bem, garotos?  

Jonathan reconhece primeiro.  
— Vô?  

A voz volta, sussurrada.  
— Garotos, preciso de ajuda. Fui atacado nessa madrugada. Algo que eu não consigo compreender o que foi… atacou.  

Um estalo seco corta a transmissão. Um som estranho, como um raio estalando perto demais. 

E o grito. O grito do avô dele ao fundo. Longo. Rasgado.  

Depois a conexão morre.  

Fica apenas o som de chiado, pronto.  

O ambiente fica transtornado porque os garotos são segurados por Mike que não permite a saída deles do bunker.  

Então eles começam a gritar, chorar e é uma comoção total. Maria, Apolo, Beatriz tentam acalentar os garotos.  

Sérgio fica desesperado.  
— E agora? O que será que aconteceu?  

Ele tem um lapso. Olha pro lado, vê a TV desligada. Levanta num pulo e liga.

A primeira coisa que aparece é a RS News. O repórter tá na frente de uma fila gigantesca. Gente com roupa de hospital, cadeirante, idosos.  

— A missão midiática foi um sucesso — o repórter sorri. — E agora vamos expor as imagens e os vídeos que foram feitos na tal dimensão que é chamada de Dimensão Zero. Mas que agora está sendo chamada de Dimensão da Esperança.  

Cortam pra imagens. Céu azul demais. Grama verde demais. Prédios limpos, sem uma mancha. Gente andando, sorrindo. Tudo parece computadorizado, digitalizado. Num lugar maravilhoso que é totalmente semelhante à dimensão comum. Como se fosse apenas uma extensão material. Como se fosse mesmo um novo ambiente igual ao ambiente que já existia anteriormente. Na Terra, no jeito comum das coisas.  

Mike olha para a noticia e cospe as palavras:  
— Isso é uma farsa.  

Enquanto isso os garotos soluçam e choram preocupados com o seu avô e pensando sobre seus pais.  

Então todos se voltam para a TV por conta daquilo que começa a ser falado.  

— Temos uma notícia de que a vacinação ela teve que ser paralisada momentaneamente em todo o Brasil. — O repórter muda o tom, fica sério. — E a situação é a seguinte: tivemos um excesso volumoso de pedidos de socorro por alguns fatos rurais que vêm acontecendo. Possivelmente problemas internos e conflitos entre moradores. Talvez seja desinformação. Mas a polícia pediu que temporariamente não houvesse o início da vacinação para que eles pudessem corrigir essas situações locais. Porém, é uma situação que vem recorrente em todo o Brasil. Mas não de coisas iguais. Se tratam de coisas diferentes, mas que o presidente estava ciente, os governadores e todos estavam de comum acordo de que poderiam aguardar. Até mesmo porque eles estariam visualizando como seria o início da vacinação que ocorreu na madrugada do dia anterior lá nos Estados Unidos.  

Cortam para imagens dos americanos se vacinando. Fila organizada. Gente de jaleco aplicando. Pessoas recebendo a injeção no braço e saindo andando, como se nada tivesse acontecido. Sorrindo. Acenando.  

Todos olham com um olhar de muito, muito desespero.  

Beatriz puxa o ar.  
— Dos males esse era o pior. Porque eles ganharam tempo.  

Ela vira pra Marcos, tenta tocar o ombro dele.  
— A sua vó ainda não vai ser vacinada. E nós iremos descobrir uma forma de ir até a casa do seu avô. Fique calmo. Talvez não tenha acontecido nada com ele. Só uma queda de energia.  

Enquanto ela dizia isso, Sérgio estava com semblante de ódio. Os olhos vermelhos, mas não de choro. De raiva. Ele olhava pra Mike. Furioso.  

— Deixa ele sair daqui. — A voz dele sai trincada. — Precisamos ir até lá. O que aconteceu essa madrugada foi com vocês e não foi com a gente.  

Mike dá um passo pra frente. Mão aberta, mas firme. Olha pra Marcos e Jonathan.  
— Ninguém vai sair. Vocês ouviram o que o avô de vocês falou? Vocês ouviram o grito? Lá fora tem coisa caçando.  

— E aqui dentro a gente fica esperando morrer? — Sérgio empurra a mão de Mike. — É o vô deles! O vô deles, Mike!  

Apolo se mete no meio, tenta segurar o braço do irmão.  
— Sérgio, calma. A gente vai pensar em algo.  

— Pensar? — Sérgio puxa o braço. — Vocês tão pensando desde ontem! E o vô deles tá lá sozinho! E se tiver morrido por nossa causa? Por causa dessa merda de bunker?  

Mike mantém a voz baixa, mas dura. Olha pra Jonathan.  
— Se você abrir aquela porta, você morre. E aí quem ajuda o vô deles, cara… Hem?  

— Melhor morrer tentando do que ficar aqui escutando chiado de rádio! — Sérgio tá transtornado, cuspindo as palavras. — Vocês não entendem! O vô não é meu, mas é deles!  

Apolo segura os dois ombros do irmão, força ele a olhar.  
— Sérgio. Olha pra mim. Olha pro meu braço. Foi ontem. Quase que eu não volto. Você quer isso pra eles?  

Sérgio encara o roxo no braço de Apolo. Respira fundo. 
Não acalma. 
Mas para de gritar.  

Maria se levanta. Vai até a bancada. Bate a mão na mesa.  
— Chega. — Todo mundo olha. — Gritar não tira ele de lá. E morrer na porta também não.  

Silêncio. 
Só os soluços do Jonathan ao fundo.

Maria aponta pra Apolo.  
— A gaiola magnética. Você lembrou dela.  

Apolo assente.  
— Falei. Mas você disse que levava semanas.

— Levava. Pra cobrir o bunker. 

— Maria olha pra cada um. — Mas a gente não vai cobrir o bunker. A gente vai cobrir a gente.  

Beatriz entende.  
— Um domo. Móvel. De equipe.  

— Com perímetro de cinco metros. — Maria completa. — Cabe todo mundo. E a gente anda com ele.  

Mike franze a testa.  
— E como a gente faz isso em horas?  

Sérgio limpa o rosto com a manga. O ódio não foi embora. Virou outra coisa. Foco.  
— A gente agiliza. — A voz dele tá fria agora. 

— Corrida contra o tempo. Protótipo. Testa por simulação primeiro.  

Todos concordam. Sem votação. Sem dúvida. Corrida contra o tempo.  

Maria vai até o armário de aço. Chaveia. Tira três cadernos grossos, capa de couro gasta.  
— Do meu pai. — Joga na mesa. 

— Ele mexeu com campo unificado antes de sumir. 

Tem cálculo aqui.  

Sérgio puxa um caderno antes de Maria. Abre. 


Os olhos dele correm pelas fórmulas.  
— Capacitor de fluxo… inversão de fase… — Ele murmura. — Isso aqui tá pré-escrito. Ele já pensou num campo portátil.  

Apolo olha pro irmão. Nunca viu ele assim. O Sérgio que montava drone com sucata sumiu. Agora tem um crânio em mecatrônica no máximo, cuspindo termo técnico, folheando página com dedo sujo de terra.  

— Preciso do gerador, das bobinas do estoque, e dos cabos de cobre. — Sérgio não pede. Ordena. — Jonathan, busca. Marcos, me ajuda com a bancada.  

Maria puxa o outro caderno.  
— Página 47. Ele fala de colapso de borda. Se o campo não fechar em 360, vaza.  

— Então a gente fecha. — Sérgio já tá rabiscando no verso de uma conta de luz. — Dois anéis concêntricos, defasados em 90 graus. Gera uma bolha, não um muro.  

Uma hora depois. Primeira simulação. Usam o notebook velho da Maria. Modelam no software de física.  

O resultado pisca na tela: FALHA.  

Sérgio bate na mesa.  
— Parede magnética. Só isso que a gente fez. — Ele aponta pro gráfico. — Funciona como escudo frontal. 

Cobre 120 graus. Atrás fica pelado. Não é suficiente. Se a coisa vier por trás, acabou.  

Mike olha a simulação.  
— Então volta pros livros.  

Sérgio não responde. Já tá com o caderno do pai da Maria aberto de novo. O ódio no rosto dele virou combustível. Cada linha que ele lê, ele rosna uma ideia. Cada erro da simulação, ele risca e reescreve.  

— Aqui. — Ele marca com a unha. — ‘Coerência de fase por harmônicos não-lineares’. Ele não terminou. Mas a gente termina.  

Maria senta do lado dele. Pela primeira vez, ela não lidera. Ela assiste.  
— Fala. O que você precisa?  

Sérgio não tira o olho do papel.  
— Tempo. E que ninguém me chame pra chorar. — Ele olha pra ela, rápido. — Eu tiro o vô deles de lá. Mas eu preciso que vocês calem a boca e me deixem pensar.  

O bunker ficou em silêncio. Só o barulho de lápis no papel. E o chiado do rádio, ainda ligado.  

A corrida começou.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...