sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Capítulo 12: O Bip da Herança




 Capítulo 12: O Bip da Herança


Batidas na porta. Não as de antes. Secas. Ritmo de quem manda.


Mike já tá com a arma em punho.  

— Quem é?  


— Abre, Apolo. É seu pai.  


O bunker congela. Sérgio larga o lápis. Apolo olha pra porta como se tivesse ouvido um fantasma.  


Mike destrava. A porta abre.  


Seu Carlos e Dona Lúcia. Pai e mãe de Apolo e Sérgio. Roupa de estrada, cara de quem dirigiu a noite inteira. Atrás deles, o jipe parado com farol aceso.


Dona Lúcia entra primeiro. Olha pro braço de Apolo, pro rosto de Sérgio, pra Maria, pros garotos. O olho dela enche.  

— Meu Deus… vocês tão vivos.


Seu Carlos fecha a porta. Não cumprimenta. Vai direto no Apolo.  

— Arruma suas coisas. Você e seu irmão. A gente tá indo embora. Agora.


Apolo recua um passo.  

— Indo pra onde, pai?


— Amazônia. — Seu Carlos fala baixo, como se a palavra pesasse. — Fortaleza do seu tio-avô. O Alcides.  


Sérgio ri. Um riso seco, sem humor.  

— O Alcides? O doido do pager?  


Dona Lúcia corta.  

— Não fala assim do seu tio-avô, Sérgio.  


— Por que não? — Sérgio levanta, e o ódio que tava no papel agora tá no corpo todo. — A vida inteira a gente ouviu que ele era desertor. Que surtou na guerra e sumiu no mato. Que mandava bip pra chamar atenção.  


Seu Carlos puxa um aparelho preto, antigo, do bolso. Um pager. A tela verde acesa: SAIAM. AGORA. 47.9° -65.3°  

— Chegou ontem de madrugada. Junto com a notícia da vacina. Junto com o sumiço do gado do Seu Antônio. — Ele olha pra Apolo. — Seu tio-avô passou 40 anos chamando a gente de cego. Ontem a gente enxergou.


Apolo balança a cabeça.  

— A gente não vai, pai.  


— Vai sim. — Seu Carlos dá um passo. — Vocês dois. Já.  


Sérgio se mete na frente do irmão.  

— Não. — A palavra sai trincada. — A gente não abandona ninguém.  


Seu Carlos segura o braço do filho. Forte.  

— Você me escuta, moleque. Eu deixei você brincar de cientista. De mecatrônica. De herói. Acabou. Lá fora tem coisa matando. Seu tio-avô tem concreto de três metros, gerador subterrâneo, comida pra dois anos. Aqui vocês têm o quê? Ódio?  


Sérgio arranca o braço.  

— Aqui eu tenho gente que sangrou por mim! — Ele aponta pra Maria, pro Apolo, pro Mike. — O vô deles tá desaparecido! A gente tá a uma equação de botar um domo magnético pra funcionar e ir buscar! E você quer que eu corra pro mato?  


O silêncio é épico. Pai e filho se encaram. Igual a igual. Só que um tem 50 anos de medo guardado e o outro tem 20 anos de raiva destilada.


Dona Lúcia chora baixo.  

— Carlos… olha pra eles.  


Seu Carlos olha. Pro filho com olheira. Pro caderno cheio de cálculo. Pra Maria com a mão suja de grafite. Pros garotos no canto, tremendo.  

— Vocês… sabem de alguma coisa há dias. — Não é pergunta. — E não falaram.  


Apolo sustenta o olhar do pai.  

— A gente não ia arrastar vocês pra isso.  


Seu Carlos fecha os olhos. Um segundo. Quando abre, tá derrotado. E orgulhoso.  

— Então tá. — Ele solta o ar. — A gente vai. Eu e sua mãe. Sozinhos.  


Marcos levanta do nada. Vai até a bancada. Pega o rádio. O da viagem interdimensional. Aquele que chiou com a voz do avô.  

— Tio Carlos. — Ele entrega. — Leva isso.  


Seu Carlos franze a testa.  

— Pra quê?  


— É um protótipo. — Marcos olha pra Jonathan, que assente. — Meu vô deixou pra gente. Se conecta com a Buzzer 0.0. — Ele engole seco. — Vai até a casa dele. Na casa do meu vô. Lá vocês vão ter o que precisam pra crer.  


Marcos respira fundo, olha direto no olho do Seu Carlos.  

— E conversa com meus pais. Convence eles a irem com vocês até lá. Na casa do meu avô. Eles precisam ver pra acreditar. E pra seguirem com vocês. Com o senhor e com a tia Lúcia.  


Dona Lúcia pega o rádio com as duas mãos. Olha pros meninos. Olha pra Maria. Pra Sérgio.  

— Vocês… tão lutando de verdade. Não é de hoje. É há dias.  


Ela beija a testa de Apolo. Depois a de Sérgio.  

— Termina isso. — Ela aponta pros cadernos. — E depois vai buscar a gente.  


Seu Carlos segura a porta. Olha pro Sérgio uma última vez.  

— Não morre, filho.  


— Não vou. — Sérgio responde. — Eu já morri ontem. Hoje eu só volto.  


Eles saem. O jipe arranca. O barulho do motor some na estrada.


O bunker fica em silêncio por dez segundos.  


Aí Sérgio vira pra bancada.  

— Simulação. De novo.  


Maria senta do lado dele. Sem mandar. Sem liderar. Lado a lado.  

— Base reta. — Ela fala. — Oval em cima. Esquece a bolha perfeita. A gente precisa de chão.  


Sérgio já tá alterando os parâmetros.  

— Dois anéis concêntricos ainda. Mas o de baixo com campo estático. Âncora. O de cima oscila. Domo.  


Jonathan e Marcos puxam as cadeiras. Apolo segura o caderno do pai da Maria aberto na página que Sérgio marcou. Beatriz traz café. Mike fica na porta, vigiando.  


Três horas depois.  


A tela pisca: SIMULAÇÃO ESTÁVEL.  


Não é oval. É um domo. Base reta de 2 metros quadrados. Altura cravada em 2 metros. Cabe os sete, apertado, mas cabe.  


— Pode colapsar se a carga cair abaixo de 40%. — Sérgio lê o relatório. — Mas já dá pra rodar o teste físico.  


Maria levanta. Pega os cabos. Olha pra Sérgio.  

— Você terminou. — A voz dela falha. — O que meu pai tentou antes de morrer… você terminou.    


Sérgio não responde. Só assente. O ódio no rosto dele baixou. Virou outra coisa. Dever.


Eles montam o protótipo. Dois metros quadrados. Dois metros de altura. Condensa tudo ali. Fios, bobinas, o gerador no centro.  


Walk toc. Walk toc.  


O rádio. O outro. Que ficou no bunker. Chia.  


Voz baixa. Cansada.  

— Apolo… aqui é seu pai.  


Todos congelam.  


— A gente tá na casa do avô dos garotos. — A voz de Seu Carlos sai falha. — A casa tá toda revirada. Tem sangue… por toda parte. E uma matéria escura, tipo um rastro. Grosso. Vai na direção do boeiro.  


Jonathan morde a mão pra não gritar.  


— Seu avô não tá aqui. — Seu Carlos continua. — Mas… todas as criações dele. Os bezerros. As galinhas. Tão rasgados ao meio. Secos. Como se alguma coisa tivesse sugado tudo.  


Dona Lúcia chora ao fundo.  


— O Matteo e a Helena (pais dos Garotos) -  estão com a gente. — Seu Carlos respira fundo. — A gente vai pro bunker do seu tio-avô. Amazônia. Agora. Assim que amanhecer.  


O rádio chia. Depois morre.  


Maria desliga o gerador do protótipo. Olha pra cada um.  

— A gente tem um domo. Dois metros por dois. — Ela aponta pra porta. — E a gente tem um alvo.  


Sérgio pega a barra de ferro.  

— Então testa.  


Mike destrava a porta.  


O protótipo zumbe. O domo sobe. Base reta. Oval em cima. Dois metros quadrados de raiva, medo e matemática.  


Eles estão prontos.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...