domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 33 — O Preço de Ser Procurado

Capítulo 33: O Preço de Ser Procurado

O bunker amanheceu cinza.

Não pela falta de luz — o sol lá fora estava alto, e a claridade entrava pelas escotilhas gradeadas. O cinza estava nos rostos. Nas olheiras. No jeito como cada um se movia, devagar, como se o corpo pesasse mais do que deveria.

Mike já estava de pé quando os outros acordaram. Não dormiu bem — ninguém dormiu. Passou a noite ouvindo o zumbido da frequência 963 e pensando nos carros pretos, nos homens de terno, no boiadeiro que Beatriz viu morrer.

Maria saiu do quarto com a blusa azul do pai e o cabelo preso de qualquer jeito. Beatriz veio atrás, o rosto ainda pálido, as marcas do horror da véspera ainda frescas. Apolo estava na cozinha quando elas chegaram, a xícara de café já na mão, os olhos fixos em algum ponto distante.

— Alguém dormiu? — perguntou Beatriz, com uma voz que já sabia a resposta.

— Não — respondeu Apolo.

— Também não — disse Maria.

Mike entrou na cozinha, pegou a cafeteira, encheu uma xícara e sentou. Ninguém falou por alguns segundos. O silêncio não era vazio — era ocupado. Cheio de coisas que nenhum deles sabia como dizer em voz alta.

— Eu não paro de pensar naquele homem — Beatriz quebrou o silêncio, a voz baixa. — No hospital. O jeito que ele olhou pra mim. Ele sabia que ia morrer.

— Ele sabia — confirmou Apolo. — E sabia o que estava vindo atrás dele.

— Cão dos infernos — disse Mike, repetindo as palavras do boiadeiro. — Não era só um bicho. Era outra coisa.

Maria tomou um gole de café. A xícara tremeu levemente na mão.

— A gente já lidou com isso antes. No túnel. Na captura.

— Mas agora eles estão se organizando — disse Mike. — Não são mais criaturas isoladas aparecendo do nada. Eles têm jaleco, têm hospital, têm documento.

— E têm a mídia — completou Apolo. — Isso é o que mais me assusta. O controle da narrativa.

Mike pousou a xícara.

— Mais cedo ou mais tarde, a gente vai aparecer na televisão como foragido. É o padrão. Primeiro te isolam. Depois te queimam. Depois te caçam.

— Você acha que vão fazer isso? — perguntou Beatriz.

— Se já não fizeram — respondeu Mike.

O silêncio voltou. Mais pesado agora.

Apolo olhou para o relógio na parede.

— Eu vou buscar os garotos.

— Não — Mike foi rápido. — Seu carro é muito visível. Opala preto, vidro fumê. Eles já viram você na escola, na lanchonete. Tão de olho.

— E aí? Vou deixar eles lá?

— A gente se comunica por rádio. Eles ficam em casa por enquanto. Até a poeira baixar.

Apolo não gostou. Mas sabia que Mike tinha razão.

Foi quando ouviram.

O rádio na sala de operações chiou. Um som baixo, depois uma voz — clara, firme, jovem.

— Apolo? Apolo, é o Jonathan. Vocês estão aí? Por favor, diz que sim.

Apolo saiu da cozinha correndo. Os outros atrás.

Ele pegou o rádio, ajustou a frequência.

— Estamos. O que foi?

— Liga a TV. Agora. Qualquer canal de notícia.

— O que está acontecendo?

— É sobre vocês. Sobre a Maria. Sobre o tio Mike. Tá passando em tudo quanto é lugar.

Apolo ligou a TV. A RS News estava no ar. O âncora — um homem de meia-idade, terno azul, expressão grave — falava com a voz medida de quem anuncia algo que já sabia há tempo.

— ...e agora, as informações que chegam da nossa equipe de investigação apontam para um desdobramento inesperado neste caso que tem mobilizado as autoridades gaúchas e federais. A cientista quântica Maria Eduarda Costa, filha e neta de pesquisadores renomados, é oficialmente considerada foragida pela Polícia Federal.

A tela mostrou uma foto de Maria. Não a Maria do bunker, de cabelo preso e blusa azul. Era uma foto de arquivo — jaleco branco, crachá no peito, olhar sério de quem posava para documento oficial.

— A cientista é acusada de sabotagem no projeto de abertura da Fenda Dimensional em Porto Alegre, que resultou na morte de soldados brasileiros e na fuga de documentos classificados como de segurança nacional. De acordo com as investigações, Maria Eduarda teria agido em conluio com um militar desertor.

A foto mudou. Mike apareceu na tela. Farda. Boina. O olhar duro de General de uma estrela. O nome na legenda: General Mitchel Ferrer.

— O General Mitchel Ferrer, que na data dos eventos estava destacado para a segurança do projeto, teria raptado a cientista ainda desacordada após um confronto com forças de segurança no laboratório de Porto Alegre. Testemunhas oculares afirmam que o militar disparou contra agentes da CIA e fugiu com a pesquisadora em um veículo oficial.

Maria prendeu a respiração.

— As investigações também relacionam o General Ferrer à destruição de sua própria chácara na região de Caxias do Sul, incendiada há poucos dias, e ao desaparecimento de um jipe militar encontrado carbonizado numa ribanceira próximo a Santa Rosa. O chassi do veículo corresponde ao utilizado pelo militar na noite da fuga. Não foram encontrados vestígios humanos no local.

Apolo murmurou:

— Eles tão montando um queijo.

— Um queijo enorme — disse Mike, a voz gelada.

A tela cortou para uma entrevista. Larkin Andersen. O rosto sério, o terno escuro, a gravata perfeitamente ajustada. O brilho nos olhos que Maria conhecia bem — não o brilho da verdade, o brilho de quem está no controle.

— Maria Eduarda — disse ele, inclinando levemente a cabeça, como se falasse diretamente com a câmera —, eu sei que você está vendo isso. Eu sei que você está ouvindo. E quero que você saiba: ninguém está bravo com você. O que aconteceu foi um acidente. Uma tragédia. Você não tem culpa de ter sido manipulada por esse militar que a raptou.

Beatriz olhou para Mike. Mike não desviou os olhos da tela.

— Seu trabalho é importante. O que você construiu vai mudar o mundo. E você merece estar aqui, fazendo parte disso, colhendo os frutos do que plantou. Ninguém quer te prender. Ninguém quer te machucar. Só queremos te ouvir, te proteger, e terminar o que você começou.

Uma pausa.

— Apareça. Dê um sinal. Estamos de prontidão para enviar equipes de salvamento para qualquer lugar. Só precisamos saber que você está bem.

Larkin inclinou a cabeça novamente. O sorriso que veio em seguida não era amigável. Era venenoso.

— Quanto ao General Ferrer... Mitchel... — o nome saiu com desprezo. — Ele vai responder por cada um dos seus atos. Não apenas pelo rapto. Não apenas pela sabotagem. Mas por cada mentira, cada covardia, e por ter colocado em risco a maior descoberta da história da humanidade. Ele não tem desculpa. Ele não tem salvação. Ele é um homem morto.

O silêncio no bunker era absoluto.

Larkin continuou, a voz mais baixa, mais íntima.

— Maria, eu fui sincero com você. Sempre fui. Sabe disso. Você confiou em mim uma vez, e eu não decepcionei. Confie de novo. Volte. Antes que seja tarde demais.

A entrevista terminou. A tela voltou para o âncora, que parecia desconfortável.

— Bom... vamos agora às informações sobre o tempo para os próximos dias. E também uma nota sobre a oferta de um banco europeu para financiar projetos de devolução de recursos...

Apolo desligou a TV.

O bunker ficou em silêncio.

Maria estava imóvel, os olhos fixos no lugar onde a tela estivera.

— Ele disse que você confiou nele — Mike quebrou o silêncio. A voz não era acusadora. Era investigativa. — O que ele quis dizer com isso?

Maria demorou a responder.

— A gente trabalhou junto. No começo. Antes da sabotagem. Ele era... convincente. Sabia o que dizer. Sabia como me fazer sentir que o que eu estava fazendo importava.

— E você confiou?

— Sim. — A palavra saiu baixa, quase inaudível. — E foi um erro. Um erro que eu nunca mais vou repetir.

Mike ficou com ela por um momento. Depois assentiu.

— Todo mundo tem um desses na vida.

Beatriz ainda estava pálida, as mãos enroladas na xícara de café.

— E agora? Eles sabem que a gente existe. Sabem os nomes. Sabem os rostos. Em breve vão saber onde a gente está.

— Por isso — disse Mike — a gente precisa saber primeiro.

Foi até a bancada. Olhou para Apolo.

— A garagem velha. A caixa com as câmeras e o DVR. Ainda está lá?

Apolo lembrou na hora. A caixa empoeirada, os cabos emaranhados, as câmeras pequenas de segurança residencial.

— Nunca chegamos a montar. Tem que ver se funciona ainda.

— A gente monta hoje.

Apolo olhou para a rampa que levava à porta de ferro. Lá fora, a clareira. A mata. A estrada de terra onde os carros pretos poderiam aparecer a qualquer momento.

— Vamos.

Subiram.

A garagem velha estava como sempre — escura, empoeirada, cheirando a óleo e ferrugem. A caixa estava no fundo, atrás de uma prateleira de livros antigos sobre fenômenos extraterrestres.

Mike abriu. Tirou o DVR — pesado, antigo, mas com cara de ainda funcionar. As câmeras eram pequenas, com cabos longos e emaranhados.

— Sérgio e Jonathan vão saber o que fazer com isso — disse Apolo.

— Então a gente chama eles.

— Pelo rádio?

— Pelo rádio. Eles ficam em casa. A gente busca ninguém por enquanto.

Voltaram para o bunker. Mike ligou o DVR numa tomada. O aparelho acendeu. A tela ficou azul. Depois preta. Depois — um sinal.

— Funciona — disse Apolo, surpreso.

— Funciona — confirmou Mike.

Começaram a instalar. Não foi rápido. As câmeras foram posicionadas nas árvores ao redor da clareira, nos ângulos que davam visão da estrada de terra e do barraco. Os cabos foram enterrados às pressas, cobertos de folhas e terra. O DVR ficou na sala de operações, com os monitores apontados para a bancada.

Quando tudo ficou pronto, eles se reuniram em volta dos monitores.

A imagem mostrava a clareira vazia. O barraco. A estrada de terra. As árvores ao fundo.

— Nada — disse Beatriz.

— Por enquanto — respondeu Mike.

Foi quando Maria viu.

Na tela do canto inferior direito — na câmera que apontava para a entrada da estrada — uma sombra. Não um animal. Não uma pessoa. Algo escuro, meio translúcido, que se movia devagar entre as árvores.

— Olhem — ela apontou.

Todos olharam.

A sombra parou. Ficou imóvel por alguns segundos. Depois se afastou, sumindo na mata.

— A frequência — disse Maria. — Está mantendo eles à distância. Mas não está impedindo de se aproximar.

— Pelo menos agora a gente vê eles chegando — disse Mike. — Antes não dava.

Apolo desviou os olhos dos monitores.

— E os garotos?

— Fica por hoje — respondeu Mike. — Amanhã a gente vê.

O silêncio voltou. A frequência 963 zumbia baixo. Os monitores mostravam a clareira vazia. A sombra não apareceu de novo.

Maria foi até a bancada.

Os cadernos do avô estavam ali, empilhados, como ela havia deixado na noite anterior. Ela pegou o que estava embaixo — o mais velho, a capa de couro puída, as páginas amareladas.

Sentou. Começou a folhear.

Não era a primeira vez. Já tinha lido aquele caderno antes, anos atrás, quando o avô ainda estava vivo. Mas agora ela procurava outra coisa. Algo que não tinha prestado atenção na primeira vez.

As páginas passavam. Anotações sobre energia negativa, matéria exótica, a teoria das cordas.

E então ela encontrou.

No meio do caderno, uma página diferente. A letra não era a mesma — era mais antiga, mais trêmula. Do avô já idoso, talvez nos últimos meses de vida. A tinta desbotada. Algumas palavras riscadas.

E no centro da página, uma palavra sublinhada três vezes.

Protocolo Vértice.

Maria leu em silêncio. A mão começou a tremer — não de medo, de antecipação.

— Mike — chamou, a voz saindo num fio.

Mike foi até ela.

— O que foi?

— Meu avô sabia.

— Sabia o quê?

— Tudo. A fenda. As criaturas. A conspiração. Ele deixou... ele deixou uma chave.

Ela ergueu os olhos.

— A gente precisa encontrar o resto desses documentos. Se ainda existem.

Mike olhou para ela. Depois para os monitores. Depois para a porta de ferro lá no alto.

— A gente encontra.

A frequência 963 zumbia. O bunker escuro. Lá fora, a noite começava a cair.

E dentro do bunker, pela primeira vez em dias, havia uma centelha de esperança — frágil, pequena, mas real.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...