O bunker amanheceu cinza.
Não pela falta de luz — o sol lá fora estava alto, e a claridade entrava pelas escotilhas gradeadas. O cinza estava nos rostos. Nas olheiras. No jeito como cada um se movia, devagar, como se o corpo pesasse mais do que deveria.
Mike já estava de pé quando os outros acordaram. Não dormiu bem — ninguém dormiu. Passou a noite ouvindo o zumbido da frequência 963 e pensando nos carros pretos, nos homens de terno, no boiadeiro que Beatriz viu morrer.
Maria saiu do quarto com a blusa azul do pai e o cabelo preso de qualquer jeito. Beatriz veio atrás, o rosto ainda pálido, as marcas do horror da véspera ainda frescas. Apolo estava na cozinha quando elas chegaram, a xícara de café já na mão, os olhos fixos em algum ponto distante.
— Alguém dormiu? — perguntou Beatriz, com uma voz que já sabia a resposta.
— Não — respondeu Apolo.
— Também não — disse Maria.
Mike entrou na cozinha, pegou a cafeteira, encheu uma xícara e sentou. Ninguém falou por alguns segundos. O silêncio não era vazio — era ocupado. Cheio de coisas que nenhum deles sabia como dizer em voz alta.
— Eu não paro de pensar naquele homem — Beatriz quebrou o silêncio, a voz baixa. — No hospital. O jeito que ele olhou pra mim. Ele sabia que ia morrer.
— Ele sabia — confirmou Apolo. — E sabia o que estava vindo atrás dele.
— Cão dos infernos — disse Mike, repetindo as palavras do boiadeiro. — Não era só um bicho. Era outra coisa.
Maria tomou um gole de café. A xícara tremeu levemente na mão.
— A gente já lidou com isso antes. No túnel. Na captura.
— Mas agora eles estão se organizando — disse Mike. — Não são mais criaturas isoladas aparecendo do nada. Eles têm jaleco, têm hospital, têm documento.
— E têm a mídia — completou Apolo. — Isso é o que mais me assusta. O controle da narrativa.
Mike pousou a xícara.
— Mais cedo ou mais tarde, a gente vai aparecer na televisão como foragido. É o padrão. Primeiro te isolam. Depois te queimam. Depois te caçam.
— Você acha que vão fazer isso? — perguntou Beatriz.
— Se já não fizeram — respondeu Mike.
O silêncio voltou. Mais pesado agora.
Apolo olhou para o relógio na parede.
— Eu vou buscar os garotos.
— Não — Mike foi rápido. — Seu carro é muito visível. Opala preto, vidro fumê. Eles já viram você na escola, na lanchonete. Tão de olho.
— E aí? Vou deixar eles lá?
— A gente se comunica por rádio. Eles ficam em casa por enquanto. Até a poeira baixar.
Apolo não gostou. Mas sabia que Mike tinha razão.
Foi quando ouviram.
O rádio na sala de operações chiou. Um som baixo, depois uma voz — clara, firme, jovem.
— Apolo? Apolo, é o Jonathan. Vocês estão aí? Por favor, diz que sim.
Apolo saiu da cozinha correndo. Os outros atrás.
Ele pegou o rádio, ajustou a frequência.
— Estamos. O que foi?
— Liga a TV. Agora. Qualquer canal de notícia.
— O que está acontecendo?
— É sobre vocês. Sobre a Maria. Sobre o tio Mike. Tá passando em tudo quanto é lugar.
Apolo ligou a TV. A RS News estava no ar. O âncora — um homem de meia-idade, terno azul, expressão grave — falava com a voz medida de quem anuncia algo que já sabia há tempo.
— ...e agora, as informações que chegam da nossa equipe de investigação apontam para um desdobramento inesperado neste caso que tem mobilizado as autoridades gaúchas e federais. A cientista quântica Maria Eduarda Costa, filha e neta de pesquisadores renomados, é oficialmente considerada foragida pela Polícia Federal.
A tela mostrou uma foto de Maria. Não a Maria do bunker, de cabelo preso e blusa azul. Era uma foto de arquivo — jaleco branco, crachá no peito, olhar sério de quem posava para documento oficial.
— A cientista é acusada de sabotagem no projeto de abertura da Fenda Dimensional em Porto Alegre, que resultou na morte de soldados brasileiros e na fuga de documentos classificados como de segurança nacional. De acordo com as investigações, Maria Eduarda teria agido em conluio com um militar desertor.
A foto mudou. Mike apareceu na tela. Farda. Boina. O olhar duro de General de uma estrela. O nome na legenda: General Mitchel Ferrer.
— O General Mitchel Ferrer, que na data dos eventos estava destacado para a segurança do projeto, teria raptado a cientista ainda desacordada após um confronto com forças de segurança no laboratório de Porto Alegre. Testemunhas oculares afirmam que o militar disparou contra agentes da CIA e fugiu com a pesquisadora em um veículo oficial.
Maria prendeu a respiração.
— As investigações também relacionam o General Ferrer à destruição de sua própria chácara na região de Caxias do Sul, incendiada há poucos dias, e ao desaparecimento de um jipe militar encontrado carbonizado numa ribanceira próximo a Santa Rosa. O chassi do veículo corresponde ao utilizado pelo militar na noite da fuga. Não foram encontrados vestígios humanos no local.
Apolo murmurou:
— Eles tão montando um queijo.
— Um queijo enorme — disse Mike, a voz gelada.
A tela cortou para uma entrevista. Larkin Andersen. O rosto sério, o terno escuro, a gravata perfeitamente ajustada. O brilho nos olhos que Maria conhecia bem — não o brilho da verdade, o brilho de quem está no controle.
— Maria Eduarda — disse ele, inclinando levemente a cabeça, como se falasse diretamente com a câmera —, eu sei que você está vendo isso. Eu sei que você está ouvindo. E quero que você saiba: ninguém está bravo com você. O que aconteceu foi um acidente. Uma tragédia. Você não tem culpa de ter sido manipulada por esse militar que a raptou.
Beatriz olhou para Mike. Mike não desviou os olhos da tela.
— Seu trabalho é importante. O que você construiu vai mudar o mundo. E você merece estar aqui, fazendo parte disso, colhendo os frutos do que plantou. Ninguém quer te prender. Ninguém quer te machucar. Só queremos te ouvir, te proteger, e terminar o que você começou.
Uma pausa.
— Apareça. Dê um sinal. Estamos de prontidão para enviar equipes de salvamento para qualquer lugar. Só precisamos saber que você está bem.
Larkin inclinou a cabeça novamente. O sorriso que veio em seguida não era amigável. Era venenoso.
— Quanto ao General Ferrer... Mitchel... — o nome saiu com desprezo. — Ele vai responder por cada um dos seus atos. Não apenas pelo rapto. Não apenas pela sabotagem. Mas por cada mentira, cada covardia, e por ter colocado em risco a maior descoberta da história da humanidade. Ele não tem desculpa. Ele não tem salvação. Ele é um homem morto.
O silêncio no bunker era absoluto.
Larkin continuou, a voz mais baixa, mais íntima.
— Maria, eu fui sincero com você. Sempre fui. Sabe disso. Você confiou em mim uma vez, e eu não decepcionei. Confie de novo. Volte. Antes que seja tarde demais.
A entrevista terminou. A tela voltou para o âncora, que parecia desconfortável.
— Bom... vamos agora às informações sobre o tempo para os próximos dias. E também uma nota sobre a oferta de um banco europeu para financiar projetos de devolução de recursos...
Apolo desligou a TV.
O bunker ficou em silêncio.
Maria estava imóvel, os olhos fixos no lugar onde a tela estivera.
— Ele disse que você confiou nele — Mike quebrou o silêncio. A voz não era acusadora. Era investigativa. — O que ele quis dizer com isso?
Maria demorou a responder.
— A gente trabalhou junto. No começo. Antes da sabotagem. Ele era... convincente. Sabia o que dizer. Sabia como me fazer sentir que o que eu estava fazendo importava.
— E você confiou?
— Sim. — A palavra saiu baixa, quase inaudível. — E foi um erro. Um erro que eu nunca mais vou repetir.
Mike ficou com ela por um momento. Depois assentiu.
— Todo mundo tem um desses na vida.
Beatriz ainda estava pálida, as mãos enroladas na xícara de café.
— E agora? Eles sabem que a gente existe. Sabem os nomes. Sabem os rostos. Em breve vão saber onde a gente está.
— Por isso — disse Mike — a gente precisa saber primeiro.
Foi até a bancada. Olhou para Apolo.
— A garagem velha. A caixa com as câmeras e o DVR. Ainda está lá?
Apolo lembrou na hora. A caixa empoeirada, os cabos emaranhados, as câmeras pequenas de segurança residencial.
— Nunca chegamos a montar. Tem que ver se funciona ainda.
— A gente monta hoje.
Apolo olhou para a rampa que levava à porta de ferro. Lá fora, a clareira. A mata. A estrada de terra onde os carros pretos poderiam aparecer a qualquer momento.
— Vamos.
Subiram.
A garagem velha estava como sempre — escura, empoeirada, cheirando a óleo e ferrugem. A caixa estava no fundo, atrás de uma prateleira de livros antigos sobre fenômenos extraterrestres.
Mike abriu. Tirou o DVR — pesado, antigo, mas com cara de ainda funcionar. As câmeras eram pequenas, com cabos longos e emaranhados.
— Sérgio e Jonathan vão saber o que fazer com isso — disse Apolo.
— Então a gente chama eles.
— Pelo rádio?
— Pelo rádio. Eles ficam em casa. A gente busca ninguém por enquanto.
Voltaram para o bunker. Mike ligou o DVR numa tomada. O aparelho acendeu. A tela ficou azul. Depois preta. Depois — um sinal.
— Funciona — disse Apolo, surpreso.
— Funciona — confirmou Mike.
Começaram a instalar. Não foi rápido. As câmeras foram posicionadas nas árvores ao redor da clareira, nos ângulos que davam visão da estrada de terra e do barraco. Os cabos foram enterrados às pressas, cobertos de folhas e terra. O DVR ficou na sala de operações, com os monitores apontados para a bancada.
Quando tudo ficou pronto, eles se reuniram em volta dos monitores.
A imagem mostrava a clareira vazia. O barraco. A estrada de terra. As árvores ao fundo.
— Nada — disse Beatriz.
— Por enquanto — respondeu Mike.
Foi quando Maria viu.
Na tela do canto inferior direito — na câmera que apontava para a entrada da estrada — uma sombra. Não um animal. Não uma pessoa. Algo escuro, meio translúcido, que se movia devagar entre as árvores.
— Olhem — ela apontou.
Todos olharam.
A sombra parou. Ficou imóvel por alguns segundos. Depois se afastou, sumindo na mata.
— A frequência — disse Maria. — Está mantendo eles à distância. Mas não está impedindo de se aproximar.
— Pelo menos agora a gente vê eles chegando — disse Mike. — Antes não dava.
Apolo desviou os olhos dos monitores.
— E os garotos?
— Fica por hoje — respondeu Mike. — Amanhã a gente vê.
O silêncio voltou. A frequência 963 zumbia baixo. Os monitores mostravam a clareira vazia. A sombra não apareceu de novo.
Maria foi até a bancada.
Os cadernos do avô estavam ali, empilhados, como ela havia deixado na noite anterior. Ela pegou o que estava embaixo — o mais velho, a capa de couro puída, as páginas amareladas.
Sentou. Começou a folhear.
Não era a primeira vez. Já tinha lido aquele caderno antes, anos atrás, quando o avô ainda estava vivo. Mas agora ela procurava outra coisa. Algo que não tinha prestado atenção na primeira vez.
As páginas passavam. Anotações sobre energia negativa, matéria exótica, a teoria das cordas.
E então ela encontrou.
No meio do caderno, uma página diferente. A letra não era a mesma — era mais antiga, mais trêmula. Do avô já idoso, talvez nos últimos meses de vida. A tinta desbotada. Algumas palavras riscadas.
E no centro da página, uma palavra sublinhada três vezes.
Protocolo Vértice.
Maria leu em silêncio. A mão começou a tremer — não de medo, de antecipação.
— Mike — chamou, a voz saindo num fio.
Mike foi até ela.
— O que foi?
— Meu avô sabia.
— Sabia o quê?
— Tudo. A fenda. As criaturas. A conspiração. Ele deixou... ele deixou uma chave.
Ela ergueu os olhos.
— A gente precisa encontrar o resto desses documentos. Se ainda existem.
Mike olhou para ela. Depois para os monitores. Depois para a porta de ferro lá no alto.
— A gente encontra.
A frequência 963 zumbia. O bunker escuro. Lá fora, a noite começava a cair.
E dentro do bunker, pela primeira vez em dias, havia uma centelha de esperança — frágil, pequena, mas real.
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