domingo, 14 de junho de 2026

Capítulos 37: A última despedida

Capítulos 37: A última despedida.

A madrugada no bunker era um silêncio que doía.

Mike estava sentado na cadeira em frente aos monitores. Uma latinha de cerveja na mão — a terceira, talvez a quarta. Ele já tinha perdido a conta. A tela mostrava a clareira vazia, a estrada de terra deserta, as árvores imóveis sob o luar. Nenhum movimento. Nenhum carro preto. Nenhuma luz suspeita.

A cidade continuava "limpa".

E isso o deixava mais tenso do que qualquer barulho.

A frequência 963 zumbia baixo, como sempre. Como uma respiração que nunca parava. Mike tomou mais um gole. A cerveja estava morna. Ele não ligava.

Os olhos dele estavam vermelhos, pesados. Mas o sono não vinha. Não essa noite.

No monitor do canto superior direito, a câmera que apontava para a estrada principal continuava mostrando o mesmo que as outras: nada.

— Merda — murmurou, sozinho.

Lá dentro, Maria dormia. Ele tinha saído da cama devagar, sem acordá-la. Deixou o braço dela pousado no travesseiro vazio.

Não queria que ela visse ele assim. Acordado. Roendo ansiedade.

O relógio na parede marcava 4h47 quando Mike levantou.

Foi até a cozinha. Abriu a geladeira. Pegou outra cerveja. Abriu. Tomou metade de uma vez só.

Depois voltou para os monitores.

Sentou.
Esperou.

5h23.

No banco de trás, no fundo do bunker, Apolo dormia com a porta do quarto aberta — sempre aberta, desde o dia em que o capitão soviético apareceu. Beatriz estava ao lado dele, respirando devagar.

Apolo acordou com o peso de uma noite mal dormida.

Olhou para o lado. Beatriz ainda dormia. Ele não a acordou.

Levantou-se, vestiu a calça jeans, a camiseta do Bon Jovi. Passou a mão no cabelo vermelho, bagunçado.

Foi até a sala de operações.

Parou.

Mike estava lá. Na cadeira. Os olhos fixos nos monitores. Uma cerveja na mão. Cinco latinhas amassadas ao lado da cadeira.

— Você não dormiu — disse Apolo. Não era pergunta.

— Dormi — Mike respondeu, a voz seca. — Uma hora. Talvez.

— Mentiroso.

Mike não respondeu. Virou a latinha e tomou o resto de um gole só.

Apolo sentou no braço do sofá, cruzou os braços.

— A cidade continua limpa?

— Limpa. — Mike apontou para os monitores com o queixo. — Ninguém. Nenhum carro. Nenhuma viatura. Nada desde ontem.

— Isso é bom ou ruim?

— Não sei. E é isso que me mata.

Apolo ficou em silêncio por um segundo. Depois:

— Que horas a gente sai?

— Sete. Aeroporto de Santa Rosa é perto. Quinze minutos. A gente chega antes do check-in do Josué.

— Você vai assim?

— O que quer dizer?

— Quer dizer que você tá com olheira até o pescoço, general.

Mike quase sorriu. Quase.

— Vou tomar um café. Me preparo e vou.

Apolo assentiu.

— Eu vou acordar a Beatriz. E tomar um banho. Volto já.

— Apolo.

O professor parou.

— Obrigado por vir.

Apolo não respondeu. Só acenou com a cabeça e foi.

6h40.

Mike estava pronto.

Boné preto, aba reta. Óculos escuros — um dos pares que ele tinha achado numa caixa velha do bunker. Jaqueta de brim preta, dessas de mecânico, que não era a jeans dele. Camiseta escura por baixo. Calça cargo preta. Botas.

Ele se olhou no pequeno pedaço de espelho que tinham pendurado perto da porta de ferro.

Outro homem. Ninguém olharia duas vezes.

Apolo apareceu no corredor. Tomou um susto.

— Caramba. Até eu quase não te reconheci.

Mike olhou para ele.

— Você vai assim? De Bon Jovi?

Apolo olhou para a própria camiseta.

— É. Acho que vou trocar.

Voltou. Cinco minutos depois reapareceu de camiseta preta lisa, calça jeans escura, tênis preto. O cabelo vermelho amarrado num coque baixo — tentativa de disfarce, mesmo que pequeno.

— Melhorou — disse Mike.

— Tamo junto.

Maria apareceu no corredor. A blusa azul do pai. O cabelo ainda bagunçado do sono que Mike não deixou ela completar. Ela olhou para os dois.

— Vocês parecem dois assassinos.

— É o objetivo — Mike respondeu.

Ela foi até ele. Parou na frente. Ajeitou a gola da jaqueta preta. Depois puxou o boné um pouco mais para baixo.

— Assim.

Mike segurou a mão dela. Apertou.

— A gente volta antes do almoço.

— Volta.

— Volto.

Ela não respondeu. Apenas encostou a testa na dele. Ficaram assim por alguns segundos.

Beatriz saiu do quarto, uma caneca de café na mão. Viu a cena. Não disse nada. Só olhou para Apolo.

— Se cuida.

— Sei me cuidar.

— Eu sei. Mas se cuida mesmo assim.

Apolo beijou a testa dela.

— É uma despedida, não um velório.

Beatriz sorriu. Um sorriso triste.

— Vai logo. Antes que eu mude de ideia e tranque a porta.

6h55.

O Fusca branco estava estacionado na clareira, coberto por galhos que eles mesmos colocaram na noite anterior para camuflar.

Mike e Apolo subiram a rampa. Abriram a porta de ferro com cuidado. A luz da manhã já clareava o céu — um cinza claro, sem nuvens.

Mike olhou para os lados. Ninguém. Nada.

— Vamos.

Entraram no Fusca. Apolo na direção. Mike no passageiro, o olho nos retrovisores.

O motor pegou de primeira.

Desceram a estrada de terra, viraram na asfaltada vazia, seguiram em direção ao aeroporto.

7h20.

O Aeroporto Municipal Luís Alberto Lehr (SRA) era pequeno, do tamanho de quem não quer chamar atenção.

As obras do novo terminal estavam avançadas — tapumes, placas de desvio, uma grua parada. O estacionamento reduzido estava quase vazio. Um táxi. Duas caminhonetes. Nenhum carro preto.

Apolo estacionou o Fusca num canto afastado, perto de um contêiner que servia de escritório provisório.

— Ficamos aqui?

— Ficamos. Desce devagar.

Os dois saíram do carro. Mike manteve os óculos escuros, o boné abaixado. Apolo prendeu o cabelo melhor, colocou um óculos de sol barato que ele tinha no porta-luvas.

Entraram no saguão provisório — uma estrutura metálica com ar-condicionado portátil e cadeiras de plástico.

Cheirava a café requentado e piso molhado.

Josué já estava lá.

O garoto sentado numa cadeira de plástico, mochila no colo, as mãos em cima. Ao lado dele, o pai — Elias Araújo — de terno gasto nos cotovelos, mala simples. A mãe — Ruth — lenço azul-marinho amarrado no cabelo.

Josué levantou quando viu Mike e Apolo.

— Vocês vieram.

— Claro que viemos — Apolo respondeu.

Josué correu. Abraçou Apolo primeiro. Forte. Depois Mike.

— Tio Mike — ele disse, a voz grossa de quem estava segurando choro.

— Garoto — Mike respondeu, dando dois tapinhas nas costas dele. — Se cuida lá no gelo.

— Vou sentir falta de vocês.

— Nós também — Apolo falou.

Elias se aproximou, a mão estendida.

Apolo apertou.

— Apolo Mendes. Sou professor. Vim me despedir do Josué.

— Elias Araújo. Esta é Ruth. Obrigado por acompanhar nosso menino.

— Pastores? — Apolo perguntou, observando os dois.

— Igreja Batista em Winnipeg — Ruth respondeu, ajustando o lenço. — Voltamos às pressas. Tem relatos que viraram rotina: portais que abrem por minutos, fecham sozinhos. O que sai… não é vento. São sombras que se arrastam. A congregação tá assustada.

— Portais onde? Com que frequência? — Apolo perguntou, educado mas firme.

Foi quando Daniel Lopes se aproximou.

Homem de paletó discreto, pasta de couro, olhos que escutavam antes de pousar em alguém. Conhecido de Elias e Ruth. Mentor de Josué.

— Posso entrar na conversa? Daniel Lopes. Aprendo muito com o Elias e a Ruth, e acompanho o Josué desde pequeno.

— Você é o pastor que ele tanto cita? — Apolo ergueu a sobrancelha.

Daniel sorriu, sotaque carioca leve.

— Sim, sou eu o cara por trás dos versículos que o garoto aprendeu. Ele é uma benção.

Apolo assentiu devagar. Mike ficou atrás, observando, os olhos atrás do óculos escuro varrendo o saguão.

Daniel virou para Apolo, a voz simples, direta.

— O Josué me contou sobre o que aconteceu. Sobre a criatura. Sobre o que ele fez. E me perguntou por que as coisas desse mundo pesam tanto. Eu lembrei a ele o aviso: neste mundo vocês terão aflição. Não facilidades. Quem anda na vibe do sistema tem facilidades… mas não paz.

Apolo franziu a testa. O ceticismo rachou ali, na frente de todo mundo.

— Principados, potestades… — Daniel continuou. — Não é boss de jogo, professor. A Bíblia chama assim forças que mandam em regiões inteiras, tipo governos invisíveis. Não é aqui. É numa dimensão diferente da nossa, as tais regiões celestiais. O Josué me contou que, quando repreendeu o ser das sombras, ele explodiu. Isso bate: quando alguém confronta essas forças no nome certo, elas não aguentam ficar.

Apolo não respondeu na hora. Ficou processando.

— O senhor realmente acredita nisso?

Daniel sorriu de novo.

— Eu não acredito, professor. Eu sei.

Apolo abriu a boca para falar. Fechou. Depois:

— Pode me dar um cartão?

Daniel tirou um da pasta. Entregou.

— Qualquer coisa, me chama. Josué se lembra de vocês nas orações dele.

Apolo guardou o cartão no bolso da calça. Ainda atônito. Ainda processando tudo o que tinha ouvido. Aquele homem de paletó discreto falava de dimensões espirituais como quem fala do tempo. E fazia sentido. Fazia maldito sentido.

Daniel olhou para o relógio de pulso.

— Vou pegar meu voo. Uruguai. Tem uma igreja lá pedindo ajuda. Coisas estranhas acontecendo — portais, sombras, igual aqui. Igual no Canadá. Tá se espalhando.

Ele tirou um chapéu discreto da pasta. Colocou na cabeça. Ajeitou.

— Fiquem com Deus. E não desistam.

Apertou a mão de Apolo. Depois a de Mike. Abraçou Josué. Abraçou Elias e Ruth.

Virou e foi em direção a outro portão de embarque.

O anúncio ecoou: voo para Montevidéu. Daniel sumiu no corredor.

Apolo ainda estava parado, olhando para o cartão na mão.

— Ele vai para o Uruguai — disse Mike, baixo.

— Pois é — Apolo respondeu, a voz distante. — E o Josué vai para o Canadá. O negócio tá se espalhando.

O anúncio chamou o voo de Josué e da família: conexão para Winnipeg.

Josué se despediu de Mike e Apolo com um abraço demorado.

— Não esquece de mim, tio Mike.

— Como é que eu vou esquecer de um garoto que faz criatura explodir?

Josué riu. Foi seco, mas riu.

Abraçou Apolo.

— Professor, obrigado por não me tratar igual criança.

— Você nunca agiu igual criança, Josué.

O garoto se virou. Pegou a mochila. Foi com os pais em direção ao portão de embarque — uma porta simples que levava à pista.

Virou uma última vez. Acenou.

Mike acenou de volta.

Apolo só assentiu com a cabeça.

Josué sumiu.

9h15.

O Fusca voltou pela estrada vazia.

Apolo dirigia devagar. Mike olhava o retrovisor. Nada.

Apolo estava quieto demais.

— O que foi? — Mike perguntou.

— Eu achava que sabia de tudo. Sobre física. Sobre o mundo. Sobre como as coisas funcionam.

— E agora?

— Agora um pastor de paletó me explicou dimensões espirituais em cinco minutos e fez mais sentido do que qualquer livro que eu li nos últimos dez anos.

Mike não respondeu.

Apolo apertou o volante.

— Talvez a gente tenha subestimado onde o Josué se segurou todo esse tempo.

Mike continuou em silêncio. Mas pensou a mesma coisa.

9h35.

Chegaram no bunker.

A porta de ferro abriu. Mike entrou na frente, Apolo atrás.

Maria estava na bancada. Beatriz na cozinha, preparando café.

— Como foi? — Maria perguntou, os olhos fixos em Mike.

— Foi pesado. Mas revelador.

Ela foi até ele. Parou na frente. Olhou para o boné, para os óculos escuros.

— Esse visual... até que combina.

— Não acostuma.

Ela sorriu. Mike tirou os óculos. Guardou no bolso.

Beatriz saiu da cozinha com duas canecas. Entregou uma para Apolo. Olhou para ele.

— Tá pronto?

Apolo estava distante. Olhando para o nada.

— Apolo? — Beatriz chamou de novo.

Ele piscou. Voltou.

— Tô. Só pensando.

— No quê?

— Em como a gente é pequeno.

Beatriz não perguntou mais. Beijou a boca dele. Rápido. Um selo. Depois se afastou.

— Vai tomar banho. Você tá com cheiro de aeroporto.

Apolo riu. Foi.

10h00.

Mike estava sentado na cadeira da bancada, a jaqueta preta pendurada no encosto. Maria ao lado, os olhos nos monitores.

— Tá incomodado com alguma coisa?

— A cidade continua limpa — ele respondeu. — Isso não é normal.

— Você já falou isso.

— E vou falar de novo até descobrir o que tá acontecendo.

Maria virou a cadeira para ele.

— Então vai descobrir.

— Como?

— Vai até lá. Dá uma volta. Vê com os seus olhos.

Mike franziu a testa.

— Você tá falando pra eu sair do bunker? De dia?

— Tô falando pra você tirar a prova. Pega a moto. Vai até a rua das lanchonetes. Compra uma cerveja. Olha em volta. Volta.

Mike pensou por um segundo.

— Se eu sumir, você...

— Eu sei o que fazer.

Ele se levantou. Pegou a jaqueta.

— Quinze minutos.

— Vinte. Se passar disso, eu vou atrás.

Mike pegou a chave da moto. Vestiu a jaqueta de couro — a de verdade, não a de brim. Guardou a pistola na cintura, escondida pela jaqueta. Boné preto. Óculos escuros.

Subiu a rampa.

A moto pegou de primeira.

10h15.

Mike estacionou a moto na rua das lanchonetes.

O movimento era normal. Gente indo e vindo. Um caminhão de entrega. Duas senhoras saindo da padaria. Nenhum carro preto. Nenhuma viatura.

Ele entrou na mercearia.

Pegou seis latas de cerveja. Pagou em dinheiro. O caixa nem olhou na cara dele.

Saiu.

Olhou para os dois lados.

Nada.

Absolutamente nada.

A cidade continuava limpa. Tranquila. Normal. Como se nunca tivesse acontecido nada.

E isso era mais assustador do que qualquer coisa.

Mike voltou para a moto. Guardou as latinhas na mochila de couro presa no banco. Ligou o motor. Voltou para o bunker.

O caminho de volta foi silencioso. Nenhum carro passou por ele.

10h30.

Mike entrou no bunker. Largou as cervejas na mesa da cozinha.

— E aí? — Maria perguntou, sem tirar os olhos dos monitores.

— Tudo normal. — Ele sentou. — E isso é o problema.

— Nenhum sinal?

— Nenhum. É como se tivessem desistido.

— Não desistiram.

— Eu sei.

Ele pegou uma cerveja. Abriu. Tomou um gole. O silêncio do bunker pesou.

O dia passou devagar.

Mike revisou as armas. Apolo leu. Beatriz organizou os kits médicos. Maria ficou na bancada o tempo todo, os olhos grudados no bracelete, nos cadernos do avô, nas anotações em russo.

A frequência 963 zumbia baixo, constante, como uma respiração invisível.

Ninguém saiu. Ninguém entrou.

Os garotos não apareceram — Sérgio mandou uma mensagem no rádio dizendo que estavam bem, que a cidade continuava quieta, que ficariam em casa.

Mike respondeu com um "ok" seco.

18h00.

O sol começou a se pôr lá fora. Dentro do bunker, as luzes fluorescentes mantinham tudo no mesmo cinza de sempre.

Maria não saiu da bancada.

— Você tá há horas nisso — Mike disse, encostado na parede.

— Eu quase entendi.

— Quase?

— Tô perto.

Ele não insistiu. Deixou ela trabalhar.

19h30.

— Consegui.

A voz de Maria ecoou no bunker. Mike largou a revista que estava folheando. Apolo saiu do quarto. Beatriz apareceu no corredor.

— Conseguiu o quê? — Apolo perguntou.

Maria se levantou da cadeira. Os olhos brilhando.

— O bracelete. Eu entendi como ele funciona.

Ela apontou para as anotações espalhadas na bancada.

— Não é GPS. Não é coordenada. É intenção.

Mike franziu a testa.

— Intenção?

— O bracelete lê a sua mente. Ele capta ondas cerebrais. Quando você coloca ele no pulso e expande o pensamento — foca em um lugar, em uma intenção — ele te leva para lá.

— Como assim "expande o pensamento"? — Beatriz perguntou.

— Você precisa esvaziar a cabeça. Focar só no destino. Sem medo. Sem dúvida. A intenção pura.

— E se tiver dúvida? — Apolo perguntou.

Maria hesitou.

— Aí ele te leva para qualquer lugar. Ou para lugar nenhum. Ou rasga o tecido sem querer.

O silêncio pesou.

Mike olhou para o bracelete.

— Então a gente precisa testar.

— É arriscado — Maria disse.

— Tudo é arriscado. A gente não tem escolha.

Apolo deu um passo à frente.

— Eu vou.

— Não — Mike cortou. — Eu vou. Eu já usei ele uma vez. Quase morri, mas usei.

— Exatamente — Apolo insistiu. — Você quase morreu. Deixa eu—

— Não.

A voz de Mike foi seca. Final.

Apolo cruzou os braços, mas não insistiu.

20h00.

Mike estava no centro do laboratório.

O bracelete ajustado no pulso esquerdo. A luz azul pulsava fraca, como um coração lento.

Maria ao lado, os olhos no monitor.

— O que você vai fazer? — ela perguntou.

— Vou tentar ir para a clareira.

— É perto. A intenção precisa ser forte.

— Eu sei.

— Sem medo. Sem dúvida.

— Eu sei, Maria.

Ela calou. Apertou o braço dele.

Mike fechou os olhos.

Respirou fundo.

Expandiu a mente.

Clareira. Onde a gente entrou. O barraco. A porta de ferro. Clareira...

O bracelete começou a brilhar.

Não fraco como antes — forte. Uma luz azul-cobalto que preencheu o laboratório.

Apolo recuou um passo. Beatriz segurou a mão dele.

O ar mudou. Ficou pesado. A frequência 963 pareceu aumentar de volume — não um zumbido, um som.

Diante de Mike, o espaço se abriu.

Não foi uma fenda. Não foi um rasgo.

Foi um círculo. Um contorno brilhante, com raios de luz que pulsavam como eletricidade. O centro do círculo era uma escuridão azulada, profunda, que parecia respirar.

Mike abriu os olhos.

— Funcionou — ele sussurrou.

O círculo brilhou mais forte.

E Mike foi puxado.

Não teve tempo de gritar. Seu corpo inteiro foi sugado para dentro do portal em uma fração de segundo.

Ele sumiu.

O círculo se fechou.

O laboratório ficou em silêncio.

— MIKE! — Maria gritou.

Mas ele já não estava ali.

Mike caiu sentado.

Atrás de um pilar.

De frente para um mendigo que estava começando a comer uma coxinha em cima de um jornal.

— Nem diabão não vou dividir meu rango não, viu?!

O mendigo olhou para Mike com cara de desconfiança. Segurou a coxinha contra o peito.

Mike piscou.

Olhou para o mendigo. Olhou para a coxinha. Olhou para o pilar. Para o céu cinza. Para o cheiro de chimarrão no ar.

Ele estava em Porto Alegre. Na calçada do lado de fora da Usina do Gasômetro.

Então Mike voltando os olhos para o Mendigo que estava sentado no chão e segurando a coxinha com força ele não parecia surpreso por um homem cair diante dos olhos dele de dentro de uma fenda.

Parecia que o mendigo estava mais preocupado com a ideia de dividir sua própria coxinha..

Então disse Mike:
— Sai pra lá, coisa ruim! Eu nem queria mesmo.

Mike se levantou, revirando os olhos. Passou a mão na jaqueta. Olhou em volta. Ruas movimentadas. Carros passando. Gente caminhando apressada. O Guaíba ao fundo.

Olhou para o bracelete no braço.

A luz azul ainda pulsava.

— Merda — ele murmurou.

Virou-se para o mendigo, que ainda o encarava, a coxinha protegida contra o peito.

— Fica tranquilo. Não vou roubar seu rango.

— Hum — o mendigo grunhiu. — Tá cheio de doido hoje.

Mike balançou a cabeça com um ar de que que eu tô fazendo Aqui.....

Então, olhou para o mar de pessoas.

Este povo não imagina o que está acontecendo simultaneamente à vida fútil deles.

Fechou os olhos.

E repetia em voz baixa 
Bunker. A bancada. A Maria o banker...

Expandiu a mente.

O bracelete vibrou.

O círculo brilhou acima dele.

E Mike sumiu.

20h15.

O teto do laboratório se abriu em um círculo brilhante.

Mike caiu de bruços no meio da sala, rolando no chão.

— Aaaí está Doeu! mas deu certo pelo menos!

Maria Apolo e Beatriz que estavam congelados no mesmo lugar!!
Correram para levantar Mike.

— Onde você estava? — Maria perguntou, a voz trêmula.

— Porto Alegre. Do lado do Gasômetro.

— COMO ASSIM?

— O bracelete funcionou. Mas me jogou longe.

— Você não focou na clareira?

— Foquei. ACHO que foquei.

Mike se levantou, passou a mão na jaqueta suja de pó de calçada.

— Acho que esse negócio ainda não tá 100%.

Ele contou. O mendigo. A coxinha. A briga.

— "Nem diabão não vou dividir meu rango não, viu?!" — Mike imitou a voz do mendigo.

Todos sem exceção cariram né uma gargalhada que parecia sem fim..

— O pobre cara só queria comer a coxinha em paz — Apolo disse.

Até Mike sorriu.

Maria foi até ele. Parou na frente.

— Você tá bem?

— Tô. Só com fome. Aquele mendigo não dividiu o lanche.

Ela riu. Depois segurou o rosto dele com as duas mãos.

Beijou ele na boca.

Devagar. Não era cena de novela. Era verdade.

Mike colocou a mão na nuca dela. Ficaram assim por alguns segundos.

Beatriz desviou o olhar, sem graça. Apolo pigarreou.

— Tá bom, pessoal. Depois vocês se pegam.

Maria se afastou. Sorriu.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...