A quarta-feira amanheceu cinza em Santa Rosa.
Lá fora, a chuva fina começara a cair ainda de madrugada, molhando a terra batida da clareira. O barraco abandonado que servia de entrjada para o bunker rangia com o vento, as telhas soltas batendo uma na outra num ritmo irregular.
Dentro do bunker subterrâneo, o silêncio era profundo — apenas o zumbido baixo do gerador e a respiração de duas pessoas no quarto do fundo. A iluminação vinha de dutos de ar e pequenas escotilhas gradeadas no teto, por onde a luz cinzenta da manhã entrava sem força.
Mike estava de costas para a parede, um braço sob a nuca, o outro envolvendo Maria. Vestia apenas um samba-canção — shorts de dormir — e sem camisa. O peito subia e descia no ritmo lento de quem ainda não quer acordar.
Maria estava encostada no ombro dele. A camisola rosa curta — não vulgar, mas curta — subiu um pouco na coxa durante a noite. O cabelo loiro espalhado no travesseiro. A mão dela pousada no peito dele, onde o coração batia devagar.
O rádio da sala estava desligado. O bunker parecia suspenso no tempo.
Foi o barulho do motor que quebrou tudo.
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Lá fora, na estrada de terra que levava à clareira, o Opala de Apolo subia devagar, os pneus estalando no cascalho molhado. Dentro, Beatriz no banco do carona, Sérgio e Jonathan atrás, Marcos no meio dos dois, a mão direita ainda enfaixada.
— Por que tão devagar? — perguntou Marcos.
— Porque o chão está molhado — respondeu Apolo. — E porque não tenho pressa.
O carro parou na clareira, perto do barraco abandonado. Todos desceram. A chuva fina molhava os cabelos e os ombros.
Apolo foi na frente. Entrou no barraco — o piso de madeira rangendo sob os pés, o cheiro de mofo e terra úmida. No fundo, a porta de ferro maciça. Ele se agachou, girou o primeiro cursor — um daqueles mecanismos antigos, de cofre, que exigiam força e jeito. Girou o segundo. Foi no terceiro quando parou.
Na parte de baixo dos cursores, um pequeno visor quadrado — geralmente apagado, inativo há anos — estava aceso. Azul.
Apolo franziu a testa.
— O que é isso? — perguntou Beatriz, ao lado dele, enxugando o cabelo com a mão.
— Leitor biométrico — respondeu Apolo, surpreso. — Maria ativou a segurança.
— Segurança?
— Porta trancada de verdade. Só entra quem está no sistema.
Ele tentou o código mesmo assim. Os cursores giraram, mas a porta não cedeu.
— Travada — disse Sérgio, atrás, encolhendo os ombros contra o frio.
— Maria! — Apolo bateu na porta com a palma da mão. O som ecoou no espaço confinado do barraco. — Maria, abre!
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Dentro do bunker, no quarto do fundo, Mike acordou como sempre acordava — de um segundo para o outro, o corpo inteiro em alerta.
Os olhos abriram. A mão direita já foi para a cabeceira, onde a pistola ficava todas as noites. Os dedos encontraram o metal frio.
O movimento brusco sacudiu a cama. Maria acordou com o solavanco, os olhos ainda pesados.
— O que foi? — a voz dela saiu grossa, arrastada. — O que que tá acontecendo?
— Alguém parou na clareira — respondeu Mike, já sentando na borda da cama, a pistola no colo.
Maria piscou duas vezes, o cérebro ligando aos poucos.
— É o Apolo.
— Não sei se é o Apolo — Mike já estava de pé, o corpo tenso, o olhar fixo na porta do quarto. — Mas é bom eu ficar atento.
Maria se sentou, puxando o lençol até o peito por instinto.
— Eu ativei o leitor biométrico ontem à noite — disse ela, a voz ainda rouca. — Depois que todo mundo foi embora. Por segurança. Se for o Apolo, ele não consegue entrar. Mas...
— Mas?
— Mas ele sabe o código. Se a porta não abrir, ele vai saber que algo está diferente.
Mike não respondeu. Levantou-se, a pistola na mão, e foi até a porta do quarto. Abriu devagar, enfiou a cabeça no corredor.
Do outro lado da porta principal, ouvia vozes abafadas vindas do barraco lá em cima. Apolo, Beatriz e os garotos.
— Mike! Maria! — a voz de Apolo ecoava pelo duto de ventilação. — Tá todo mundo aqui fora! Abre essa porta!
Mike suspirou. Baixou a pistola.
— É ele.
— Falei — disse Maria, com um meio sorriso.
— Veste alguma coisa — respondeu Mike, sem olhar para trás. — Eu vou abrir.
Ele já estava saindo do quarto quando Maria pulou da cama.
— Espera! — sussurrou ela, desesperada. — Mike! Espera!
Mike parou. Virou o rosto.
Ela apontou para si mesma — a camisola rosa curta, o cabelo bagunçado, o lençol caído.
— Eu não tô vestida!
Mike olhou. Demorou um segundo a mais que o necessário.
— É curta — disse ele, com uma naturalidade que só ele conseguia.
— Mike!
— Tá bom. — Ele recuou até o quarto. — Mas rápido. Eles vão arrombar a porta.
Maria vestiu a primeira coisa que viu pela frente — a camiseta preta dele, que estava jogada no chão, e uma calça jeans que pegou na mala. Passou a mão pelo cabelo, tentando domesticar o que não tinha jeito.
— Pronto — disse ela, ofegante. — Vai.
Os dois saíram do quarto e percorreram o corredor lado a lado até a base da rampa que subia para a porta de ferro.
Foi quando Apolo conseguiu.
O leitor biométrico apitou. A porta de ferro rangeu. Os cursores giraram no sentido inverso — e a porta se abriu com um baque surdo.
Apolo estava no batente, no fundo do barraco, a luz cinzenta da chuva atrás dele. Beatriz ao lado. Sérgio, Jonathan e Marcos logo depois, todos com os cabelos molhados, os ombros encolhidos.
E todos viram.
Mike e Maria saindo do corredor, no topo da rampa. Ele de samba-canção — o shorts de dormir — sem camisa, a pistola ainda na mão, o cabelo desgrenhado. Ela com a camiseta preta dele — larga, desbotada, bordas desfiadas — e a calça jeans vestida às pressas.
O silêncio durou dois segundos eternos.
Ninguém piscou.
Apolo tentou falar. A voz saiu presa, os lábios se mexendo sem coordenar.
— B-b-bom... bom... — ele pigarreou, tentou de novo, a voz saindo mais alta do que pretendia. — BOM DIA!
Ninguém respondeu.
Apolo passou por Mike e Maria como se não estivessem ali — ou como se estivesse fingindo tão desesperadamente que não estavam que o corpo decidiu agir antes do cérebro. Ele desceu a rampa em disparada, passou pelo corredor e sumiu na direção da cozinha, os passos acelerados ecoando no concreto.
— Vamos, pessoal! — gritou ele, já do outro lado da parede. — Entra! Entra todo mundo! Fecha essa porta que está entrando chuva!
Os garotos entraram — duros, os movimentos retos, como robôs programados para esquecer o que tinham acabado de ver. Beatriz foi a última, mas antes de descer a rampa, olhou para Mike e Maria com um sorriso de canto.
— Vocês dois... — disse ela, balançando a cabeça. Depois desceu.
Mike fechou a porta de ferro. Girou os cursores. O bunker voltou a ficar isolado do mundo lá de cima.
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Na cozinha, o caos silencioso já estava armado.
Sérgio sentou primeiro. Os olhos arregalados, ele olhou para Mike, para Maria, para a camiseta preta, para o fato de os dois terem saído do mesmo quarto — e em vez de dizer qualquer coisa, pegou o pão que estava na sacola e enfiou uma mordida tão grande na primeira fatia que a boca ficou completamente cheia. Não mastigou. Ficou parado, as bochechas estufadas, como um hamster em estado de choque.
Jonathan ficou pálido. Os olhos foram de Mike para Maria, da camiseta para o quarto, e voltaram para o chão. Ele baixou a cabeça e passou a estudar os próprios tênis com uma atenção que nunca havia dedicado a calçado algum.
Beatriz tentou disfarçar. Tirou uma lixa de unhas do bolso — Deus sabia por que ela carregava uma lixa de unhas num bunker — e começou a lixar a unha do dedo anelar com uma intensidade cirúrgica. Os olhos dela, no entanto, estavam fixos em algum ponto lá no fundo, bem acima da cabeça de todo mundo.
Marcos foi o último a processar.
Olhou para Mike. Olhou para Maria. Olhou para o corredor que levava ao quarto. Olhou de novo para a camiseta preta que ela vestia — uma camiseta que ele já tinha visto antes, no corpo de Mike.
O cérebro de quinze anos fez o cálculo.
— Pessoal... — disse ele, com a voz mais alta que o necessário. — Vocês tão sem máquina de lavar?
Ninguém riu.
A vergonha coletiva foi tão densa que dava para cortar com faca.
O rosto de Maria ficou vermelho — da gola da camiseta preta até a raiz do cabelo. Abriu a boca, fechou, abriu de novo. Nenhum som saiu.
Mike — o homem que já tinha enfrentado criaturas de outra dimensão sem piscar — desviou o olhar. Por um segundo. Só um segundo. Mas foi o suficiente.
Jonathan finalmente ergueu a cabeça. Olhou para Marcos com uma expressão que, se pudesse matar só com o olhar, o irmão mais novo já teria sido enterrado.
— Cala a boca, moleque — disse Jonathan, em voz baixa e mortal.
Marcos encolheu os ombros.
— Foi mal. Foi mal.
Apolo estava na pia, de costas para a mesa, despejando café na garrafa térmica com uma concentração que sugeria que aquela era a tarefa mais importante da vida dele. Não se virou. Não disse nada. Só continuou despejando — mesmo depois que a garrafa transbordou.
Beatriz pegou um pano e enxugou sem comentar.
Mike olhou para Maria.
— Volta — sussurrou ele.
— O quê?
— Volta pro quarto. Pega uma roupa sua. Essa camiseta... — ele fez uma pausa — ...é muito óbvia.
Maria olhou para a própria roupa. A camiseta preta com a caveira desbotada. A que Mike vestia quando chegou de moto. A que ele usava nas noites de insônia.
— Ah, não... — murmurou ela.
— Volta.
Ela voltou pelo corredor. A porta do quarto fechou.
Mike ficou na cozinha sozinho com os outros. Respirou fundo uma vez, duas. Passou a mão pelo cabelo. Guardou a pistola na cintura.
Sentou na ponta da mesa.
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Quando Maria saiu do quarto — desta vez com uma blusa azul dela, calça cargo, o cabelo preso — a cozinha já estava em clima de velório sem defunto.
Apolo continuava na pia, mas agora de frente para a mesa, os braços cruzados. Beatriz ao lado, a lixa guardada. Sérgio finalmente engoliu o pão. Jonathan mantinha os olhos na mesa. Marcos, felizmente, estava com a boca ocupada com um gole de café — não se sabia de onde tinha tirado aquela xícara.
Mike levantou. Foi até Maria. Puxou a cadeira ao lado dele para ela sentar. Ela sentou.
O silêncio durou mais do que o suportável.
Foi Mike quem quebrou.
— Nós — começou ele, e parou. Olhou para Maria. Ela assentiu. — Nós estamos juntos.
Palavra solta no ar. Simples. Direta. Do jeito que ele fazia tudo.
Beatriz pousou o pano.
Apolo descruzou os braços.
Sérgio prendeu a respiração.
Jonathan ergueu os olhos.
Marcos abriu a boca — e Jonathan o interrompeu antes que saísse qualquer coisa:
— Não fala nada.
Marcos fechou a boca.
Mike continuou:
— Essa situação toda... onde eu perdi tudo. Ela perdeu tudo. — Ele olhou para Maria, depois para os outros. — Gerou entre a gente um senso de unidade. E isso foi evoluindo. De forma natural.
— Um senso de unidade — repetiu Marcos, em voz baixa, testando a palavra.
— Marcos — Jonathan avisou.
— Tô quieto. Tô quieto.
Maria se inclinou na cadeira.
— A gente não planejou esconder de vocês — disse ela, a voz saindo mais firme do que o rosto, que ainda estava corado. — Só... não sabia como dizer.
Apolo finalmente se afastou da pia. Foi até Mike. Estendeu a mão.
— Parabéns — disse ele.
Mike apertou. O aperto demorou um segundo a mais que o normal.
— Obrigado.
Beatriz foi até Maria. Pegou na mão dela.
— Eu estou feliz por vocês — disse Beatriz, e a voz dela tremia um pouco, mas não de nervoso. — Depois de tudo que vocês perderam... vocês merecem.
Maria apertou a mão de volta. Não disse nada. Não precisava.
Sérgio se levantou, foi até Mike, e deu um tapinha no ombro dele — o gesto meio desengonçado de quem não sabe muito bem como demonstrar afeto mas quer tentar.
— É isso aí, tio — disse Sérgio. — Felicidades.
Jonathan foi até Maria. Não falou nada. Só deu um abraço rápido — o suficiente.
Marcos ficou na cadeira. Olhou para todos.
— Posso falar agora?
— Depende — disse Jonathan.
— É sério.
Jonathan assentiu.
Marcos se levantou. Foi até Mike e Maria. Estendeu a mão direita — a enfaixada — e disse, com uma seriedade que surpreendeu todo mundo:
— Bem-vindo à família, tio Mike.
Mike olhou para a mão enfaixada. Depois para o rosto sério de Marcos.
Apertou.
— Obrigado, moleque.
O clima mudou. O ar, antes pesado de vergonha e constrangimento, agora estava mais leve. Não completamente — ainda havia o eco do que tinham visto, o rubor nas bochechas de Maria, a forma como Mike ainda não conseguia olhar Apolo nos olhos por mais de dois segundos. Mas estava melhor.
Apolo se serviu de café de verdade — desta vez numa xícara, não na garrafa térmica.
Beatriz guardou o pano de vez.
Foi então que Apolo bateu a xícara na mesa.
— Bom — disse ele, mudando o tom. — Agora que isso foi resolvido... tem uma outra coisa.
Todos olharam.
— Ontem, quando cheguei em casa com o Sérgio e a Beatriz, passei pela sala. Meu pai estava vendo o jornal nacional. — Ele fez uma pausa. — O presidente vai anunciar alguma coisa hoje. Sobre o calendário escolar. Mudança nas férias.
— Mudança como? — perguntou Sérgio.
— Não sei. O jornal disse que a medida seria votada na madrugada. Se foi aprovada, o presidente vai anunciar ao vivo. Hoje.
— Que horas? — perguntou Mike.
— Nove e meia.
Mike olhou para o relógio na parede. Nove e vinte.
— Liga a TV.
Jonathan pegou o controle. A tela da televisão — pendurada na parede da sala de operações — acendeu.
O logo da RS News apareceu. A âncora — uma mulher de cabelos escuros, blusa azul, expressão contida — já estava no ar, mas o tom dela mudou quando uma nova informação entrou no teleprompter.
— Notícia de última hora — disse ela, com a voz grave. — A polícia confirma uma invasão noturna na Escola Estadual de Educação Básica Santa Rosa, na região metropolitana de Porto Alegre. A direção da escola ainda não se pronunciou oficialmente, mas fontes ligadas à Secretaria de Educação informam que o local foi violado durante a madrugada.
Jonathan ficou com o controle na mão, sem desligar.
— Como assim violado? — perguntou Marcos.
A âncora continuou:
— Como a escola não possui câmeras de segurança em todos os acessos, a polícia ainda não tem pistas concretas sobre os invasores. O caso mais grave, no entanto, é o de um funcionário da limpeza que fazia o fechamento do prédio. Ele foi encontrado caído no pátio dos fundos, com ferimentos graves. Foi socorrido e encaminhado ao Hospital Regional de Santa Rosa, onde permanece internado na UTI. A suspeita inicial é de ataque por animal de grande porte — uma onça, possivelmente.
Marcos ficou pálido.
— Onça? — sussurrou ele.
— Não é onça — disse Mike, a voz seca.
— Você não sabe disso — respondeu Apolo.
— Sei. — Mike virou para ele. — Porque onça não invade escola no meio da cidade.
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