domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 28 — Férias, Fliperama e o Inesperado

Capítulo 28: Férias, Fliperama e o Inesperado

A terça-feira amanheceu mais calma do que todos esperavam.

O sol já estava alto quando a luz entrou pelas escotilhas do bunker — não aquela clarão agressivo de meio-dia, mas a luz suave de quem ainda está começando. O som dos pássaros lá fora parecia querer apagar os fantasmas da noite anterior.

Dentro, a atmosfera já era diferente.

Beatriz estava sentada à mesa da sala de operações, ouvindo com atenção cada palavra que Apolo dizia. Mike e Maria mostravam mapas e documentos sobre os fenômenos que haviam ocorrido — as anotações do Dr. Eduardo, os gráficos de frequência, os registros das criaturas.

— Então vocês estão dizendo que essas criaturas… não são de outro planeta, mas de outra dimensão? — perguntou Beatriz, ainda um pouco incrédula, mas já deixando de lado as dúvidas que tinha trazido no dia anterior.

— É o que os dados indicam — explicou Maria, apontando para um gráfico na tela. — Meu avô Dr. Antônio Cohen Costa já estudou isso anos atrás. As aberturas dimensionais podem atrair seres que não cabem nas leis físicas do nosso mundo, assim como meu pai também..

Mike deu um gole de café.

— E não é só isso. Já tivemos problemas com essas criaturas antes. Na última vez, precisamos usar toda a tecnologia que tínhamos — improvisando até o máximo — só para conter uma delas.

Beatriz olhou para a bancada onde a lanterna UV-C e a arma de frequência estavam guardadas. Depois voltou para Mike.

— E vocês acham que vão aparecer mais?

— Não é questão de achar — disse ele. — É questão de tempo.

---

Enquanto os adultos discutiam estratégias no bunker, os garotos se preparavam na entrada.

Jonathan, Sérgio, Marcos e Josué estavam arrumando as mochilas — água, dinheiro para o fliperama, os capacetes pendurados no guidão das bicicletas. O sol lá fora já convidava para o dia.

— Vocês vão mesmo? — perguntou Apolo, aparecendo na rampa.

— Claro — disse Sérgio, dando um sorriso. — Férias, irmão. Quinze dias. A gente não vai perder o primeiro dia dentro do bunker.

— A gente volta antes de escurecer — completou Jonathan. — Prometo.

Apolo olhou para Marcos. A mão direita do garoto ainda estava enfaixada — o curativo que Beatriz tinha feito na noite anterior. O sangue já não atravessava mais a gaze.

— Essa mão está boa? — perguntou Apolo.

— Está — respondeu Marcos, abrindo e fechando os dedos. — Só ralou. Nem dói mais.

— Cuidado com ela. Não tira o curativo.

— Não vou.

Apolo se virou. Mike tinha subido a rampa e estava parado na entrada, os braços cruzados, os óculos escuros enfiados no rosto.

— Mantenham-se pela estrada principal — disse ele. — Nada de atalho pela mata. Nada de entrar em lugar abandonado. Vão, se divertem, e voltam.

— Sim, senhor — responderam os quatro em coro.

Mike quase sorriu. Quase.

As bikes saíram da clareira em fila — Sérgio na frente, Jonathan logo atrás, Marcos no meio, Josué fechando. O sol brilhava forte, o vento batia nos rostos, e o som das rodas no asfalto era o único ruído por alguns minutos.

— Vocês estão animados para as férias? — perguntou Josué, pedalando ao lado de Marcos.

— Para o fliperama, sim — respondeu Marcos. — Para as férias, também. Quinze dias sem aula, sem prova, sem nada.

— Eu vou ajudar na igreja — disse Josué. — Tem um acampamento no final do mês. Vou começar a organizar essa semana.

Jonathan olhou para ele de lado.

— Você sempre faz tudo na igreja, né?

— Não é tudo. Só o que posso.

O grupo pedalou em silêncio por mais alguns minutos. A estrada estava vazia — as árvores dos dois lados, o céu azul, o cheiro de terra molhada do dia anterior ainda no ar.

Foi Marcos quem viu primeiro.

Uma sombra. Rápida. Movendo-se entre as árvores, paralela à estrada.

— Vocês viram aquilo? — perguntou ele, a voz saindo mais baixa que o normal.

— Vi — disse Jonathan.

Sérgio apertou o passo. Os outros acompanharam.

A sombra acelerou.

— Pedala! — gritou Sérgio.

Os quatro dispararam pela estrada, as bikes rangendo sob o esforço, o vento agora cortando os rostos com mais força. Mas a sombra era mais rápida.

Ela saiu da mata em um salto.

A criatura aterrissou no meio da estrada, a menos de quinze metros deles. Pequena — não mais que um metro e quarenta. Pele escamada refletindo a luz do sol. Olhos vermelhos fixos. As garras abertas.

A mesma da noite anterior.

Os garotos travaram as rodas. As bikes pararam com um guincho agudo.

— Meu Deus... — sussurrou Marcos.

A criatura avançou.

Foi quando Josué desceu da bike.

Não correu. Não gritou. Não recuou.

Ficou de pé entre os amigos e a criatura.

— Josué, o que você está fazendo? — gritou Jonathan.

Ele não respondeu.

Ergueu a mão direita. Os dedos abertos. O pulso firme.

A criatura parou.

— EU TE REPREENDO EM NOME DE JESUS!

A voz de Josué ecoou pela estrada — não era grito, não era desespero. Era autoridade. O tipo de autoridade que não se ensina, se carrega.

Uma luz branca intensa envolveu a criatura.

Ela abriu a boca — aquele som que não era dor, mas outra coisa — e começou a se desfazer. A pele escamada se transformou em fumaça escura. Os olhos vermelhos se apagaram. O corpo inteiro se dissipou no ar como se nunca tivesse existido.

O silêncio voltou.

Nenhum pássaro. Nenhum vento. Nenhum som de bike.

Os quatro ficaram imóveis.

Josué abaixou a mão devagar. Olhou para os próprios dedos como se não os reconhecesse.

— Josué... — Sérgio foi o primeiro a falar, a voz saindo num fio. — O que foi aquilo?

— Eu... — ele hesitou. — Eu não sei.

— Você matou ela — disse Marcos, os olhos arregalados. — Com uma palavra. Só com uma palavra.

— Não foi uma palavra. Foi... fé.

Jonathan desceu da bike. As pernas estavam trêmulas, mas ele se manteve de pé.

— A gente precisa voltar. Agora.

Ninguém discordou.

---

O bunker estava mais cheio do que nunca quando eles chegaram.

Beatriz ainda estava na mesa da sala de operações, o rosto pálido diante dos gráficos que Maria mostrava. Apolo olhava para um mapa, traçando rotas de fuga. Mike estava na bancada, revisando a arma de frequência.

Os garotos entraram como um vendaval.

Sérgio foi o primeiro a falar, ofegante, as mãos ainda agarradas ao guidão da bike.

— A criatura voltou.

Todos se viraram.

— O quê? — Mike largou a arma na bancada. — Onde?

— Na estrada. Indo para o fliperama. Ela saiu da mata, pulou na nossa frente...

Jonathan continuou:

— A mesma da noite passada. A mesma. A gente viu os olhos vermelhos.

— Alguém se machucou? — perguntou Beatriz, já indo para o kit de primeiros socorros.

— Não — disse Marcos. — O Josué...

Todos olharam para Josué.

Ele estava encostado na parede, a mochila ainda nas costas, o capacete na mão. A expressão era de quem tinha visto algo que não sabia explicar — e não sabia se queria explicar.

— Josué — disse Maria, com uma calma que escondia alguma outra coisa. — O que você fez?

Ele levantou a cabeça.

— Eu não fiz nada. Foi... Deus.

Beatriz pousou o kit de primeiros socorros na mesa.

— Deus?

— Eu gritei "Eu te repreendo em nome de Jesus" — continuou Josué, a voz ganhando corpo enquanto falava. — E ela explodiu. Não sobrou nada.

O silêncio que se seguiu foi pesado — não o silêncio de quem não tem o que dizer, mas o silêncio de quem está processando o impossível.

Mike olhou para Apolo. Apolo olhou para Maria. Maria olhou para Beatriz.

A enfermeira, a cética, a prática, a direta — não tinha palavras. Pela primeira vez desde que chegara ao bunker, Beatriz não sabia o que dizer.

Foi Mike que quebrou.

— Você está me dizendo que um adolescente com uma frase fez o que a gente não conseguiu fazer com tecnologia de ponta?

— Eu não estou dizendo nada — respondeu Josué, com uma calma serena. — Eu só estou contando o que aconteceu.

Mike se virou para a bancada. Pegou a arma de frequência. Olhou para ela. Pousou de volta. 

— A gente passou dias construindo equipamento. Lanterna UV-C, armadilha magnética, arma de frequência. Tudo isso... — ele apontou para a bancada — e um garoto resolveu com uma frase.

— Não foi a frase — disse Josué. — Foi o nome.

Apolo se aproximou.

— O nome de quem?

— De Jesus.

O bunker ficou em silêncio.

Maria sentou-se devagar, passando a mão pela testa. Tudo o que ela havia estudado — os cadernos do pai, os gráficos do avô, as teorias sobre dimensões e fenômenos — parecia ficar pequeno diante daquilo.

Apolo olhou para Beatriz. Ela estava com os olhos bem abertos, finalmente compreendendo que o perigo era muito maior do que qualquer teoria que pudesse explicar.

Mike foi até o centro da sala e falou:

— Será que tudo isso é mais do que científico? — disse ele, sem se virar. — Será que há algo mais por trás dessas criaturas? Algo que a gente não consegue medir com frequência nem UV-C?

Ninguém respondeu.

Josué se afastou da parede.

— Eu vou para casa — disse ele, com a voz cansada, mas firme. — Preciso pensar. Preciso conversar com meu pastor.

Apolo foi até a rampa com ele.

— Você quer que alguém vá junto?

— Não. — Josué colocou o capacete. — Preciso ir sozinho.

Ele subiu a rampa. A bike saiu da clareira. O som das rodas se afastou pela estrada de terra.

Dentro do bunker, ninguém falou.

Foi quando Jonathan ligou o rádio.

Não precisava. A TV estava desligada. Ninguém tinha pedido. Mas ele ligou — talvez para preencher o vazio, talvez para ouvir uma voz humana que não fosse a dos próprios pensamentos.

A música começou baixa.

"Carry on my wayward son..."

A voz do radialista entrou por cima dos acordes:

— Atlântida FM... uma música para quem precisa de respostas que ainda não chegou...

Mike olhou para a bancada. Para a arma de frequência. Para a lanterna UV-C.

Maria olhou para ele. Ele não olhou de volta.

O rádio continuou tocando. A música encheu o bunker, a sala de operações, os corredores, os quartos vazios.

Ninguém desligou.

A dúvida pairou no ar, mais pesada do que qualquer resposta que eles tivessem encontrado até agora.

E o capítulo se fechou — não com um ponto final, mas com um ponto de interrogação.

E a música soando : 

Carry on, my wayward son

There'll be peace when you are done

Lay your weary head to rest

Don't you cry no more..

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...