domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 27 — Dia de Novidades!! / Qru.

Capítulo 27: Dia de Novidades!! / Qru.

A luz da manhã entrou pelas escotilhas gradeadas do bunker — não forte, não invasiva. Aquele tom suave que anuncia o dia sem pressa.

Mike já estava acordado há alguns minutos. Não se mexeu. Ficou olhando para o teto, o braço ainda envolvendo Maria, o corpo dela encostado no dele.

Ela respirou fundo uma vez, duas. Depois abriu os olhos.

— Que horas são?

— Cedo.

— Como você sabe?

— Sempre sei.

Ela virou o rosto devagar, olhou para ele. Os olhos castanhos profundos dele já estavam nela.

— Você fica me olhando dormir?

— Não.

— Mentiroso.

Mike não negou. Não confirmou. Só ficou com ela.

O silêncio não era pesado. Era confortável — o tipo que só existe quando duas pessoas já não precisam preencher o vazio com palavras.

Maria se levantou primeiro. Puxou o cobertor até o peito, sentou na cama por um segundo, os cabelos loiros bagunçados caindo sobre os ombros.

— Vou tomar um banho.

— Vou fazer café.

Ela saiu. Mike ficou mais um minuto na cama, ouvindo o som dos passos dela pelo corredor.

Depois levantou. Vestiu a calça cargo. A camiseta preta estava no chão — ele pegou, vestiu, passou a mão pelo cabelo.

Foi para a cozinha.

---

O café estava quase pronto quando Maria apareceu. Cabelo úmido preso de qualquer jeito. A blusa azul do pai. A tatuagem de borboleta no antebraço visível.

Mike encheu a xícara dela. Pousou na bancada.

Ela pegou. Não disse nada. Mas o olhar dela — aquele olhar — disse tudo.

Os dois ficaram na cozinha, cada um com sua xícara, o silêncio ocupado.

Foi o barulho do motor que quebrou.

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Apolo estacionou o Opala na clareira. Beatriz desceu primeiro, foi direto para a traseira do carro. Apolo abriu o porta-malas — as caixas estavam empilhadas até o teto. Mantimentos. Suprimentos. O que dava para carregar.

— Bom dia, pessoal — disse Apolo, descendo a rampa com uma caixa nos braços. — Trouxe reforço.

Maria apareceu na entrada da cozinha. Mike já estava na sala, perto da rampa.

Beatriz entrou com outra caixa, pousou na bancada e olhou para os dois. Foi rápido — um segundo. Mas o suficiente.

— Bom dia — disse ela, com um sorriso que não perguntava mas já sabia.

— Bom dia — respondeu Maria.

Beatriz olhou para Mike. Depois para Maria. Não disse nada. Não precisava.

Apolo entrou com a segunda caixa.

— Pode tirar os cavalos da chuva, não tem mais. O resto tá no carro ainda.

— Por que você fez isso? — perguntou Mike.

— Porque vocês não iam fazer. — Apolo pousou a caixa na mesa. — E porque o estoque do bunker tava mais vazio que minha conta no fim do mês.

Mike foi até o Opala. Pegou as duas últimas caixas. Voltou, pousou na bancada.

— Quanto foi?

— Não interessa.

— Interessa.

Apolo olhou para ele.

— Não vou aceitar dinheiro, Mike.

— Não perguntei se ia aceitar. Perguntei quanto foi.

Os dois se encararam.

Beatriz olhou de lado.

Apolo soltou o ar pelos dentes.

— Mil e quinhentos, com o frete.

Mike tirou a carteira do bolso da calça. Contou. Entregou.

Apolo pegou. Não discutiu. Guardou.

Beatriz sorriu. Maria arqueou uma sobrancelha.

Os dois se olharam de novo.

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A manhã foi passando. Os mantimentos foram guardados. O café foi renovado. A rotina tomou conta do bunker — mas havia algo diferente no ar. Algo que não se via, se sentia.

Apolo percebeu primeiro. Não comentou.

Beatriz percebeu segundo. Também não comentou.

Foi ela quem puxou Maria de canto.

A despensa. Um espaço pequeno, iluminado por uma lâmpada fraca. Longe dos ouvidos dos homens.

— Senta aqui — disse Beatriz, apontando para um banquinho.

— Não tenho tempo para—

— Senta.

Maria sentou.

Beatriz ficou de pé, braços cruzados.

— Vou te contar uma coisa. E você vai me contar outra. Combinado?

Maria demorou um segundo.

— Combinado.

Beatriz respirou fundo.

— Quando a gente saiu daqui ontem... o Apolo me levou naquele restaurante na rua das lanchonetes. Aquele com as luzinhas amarelas.

— Eu conheço.

— A gente já estava lá fazia um tempo. Ele pediu sobremesa, conversou sobre bobagens. Depois... — Beatriz ergueu a mão esquerda. No dedo anelar, uma aliança fina, prata, simples. — Ele pediu.

Maria olhou para a aliança. Depois para Beatriz.

O rosto da enfermeira — que sempre foi prática, direta, sem rodeios — agora estava completamente aberto. Brilhando.

— Beatriz...

— Pois é.

Maria se levantou. Abraçou a amiga. O abraço durou mais que o normal — o tipo de abraço que diz "estou feliz por você" sem precisar de palavras.

Quando se separaram, Beatriz estava com os olhos marejados.

— Não choro — disse ela.

— Não vai.

— Tá quase.

— Tá. — Maria sorriu. — Mas não vai.

As duas riram.

Beatriz enxugou o rosto com as costas da mão.

— E você? Não ia me contar alguma coisa?

Maria olhou para a porta da despensa. Para o corredor. Para a cozinha, onde Mike e Apolo estavam.

— Aconteceu — disse ela, baixo.

Beatriz ergueu uma sobrancelha.

— Aconteceu o quê?

— O que você está pensando.

Beatriz ficou em silêncio por um segundo. Depois sorriu — um sorriso largo, de quem acertou na loteria e está tentando não gritar.

— Me conta. Mas não tudo. Só o que pode.

Maria contou.

Não contou cada detalhe. Contou o essencial. A conversa. O rádio. A música. O quarto. A manhã.

Beatriz ouviu em silêncio. Quando Maria terminou, ela não disse nada.

Apenas segurou a mão da amiga.

— Você merece — disse Beatriz. — Depois de tudo que você perdeu... você merece.

Maria apertou a mão de volta.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer.

As duas saíram da despensa.

---

Na cozinha, Mike e Apolo estavam à mesa. Duas cervejas long neck na bancada. Não geladas — não tinha geladeira boa — mas geladas o suficiente.

Apolo estava nervoso. Mike percebeu.

— Fala logo. Tá parecendo um moleque.

Apolo respirou fundo.

— Eu pedi a Beatriz em casamento.

Mike ficou olhando para ele.

— No restaurante, depois que saímos daqui. Ela aceitou.

O silêncio durou dois segundos.

Mike estendeu a mão.

— Parabéns.

Apolo apertou. Demorou um segundo a mais que o normal.

— Obrigado.

— Ela é boa — disse Mike. — Prática. Direta. Não se assusta fácil. — Ele pausou. — E completa o que você tem de... debilidade.

Apolo olhou para ele de lado.

— Você tá diferente.

— Diferente como?

— Não sei. Mais... aberto.

Mike tomou um gole da cerveja.

— As coisas mudam.

Apolo não perguntou mais nada. Mas olhou para o corredor onde Beatriz e Maria tinham saído. Depois voltou para Mike.

— Ela é boa para você também.

Mike não respondeu. Mas o silêncio dele era o tipo que concordava.

---

A batida na porta do bunker os tirou da conversa.

Apolo foi abrir.

Sérgio, Jonathan e Marcos desceram a rampa — mochilas nas costas, expressões de quem estava de férias e não ia perder um minuto de luz do dia.

— Bom dia — disse Sérgio, olhando em volta. — Tem café?

— Tem — disse Maria, já indo para a cozinha.

Os garotos se espalharam pelo bunker. Marcos foi direto para a bancada, Jonathan ligou o rádio — o mesmo que Mike tinha ligado na noite anterior.

A música começou baixa. Uma canção qualquer, sem importância.

Beatriz e Maria prepararam o almoço. Apolo ajudou a descarregar mais algumas caixas do Opala. Mike ficou na sala, observando.

O rádio ainda tocava.

Mas a voz do radialista, quando entrou, não era a mesma da noite anterior.

— Atlântida FM... e agora, um olhar sobre o dia...

A música parou. A notícia começou.

Mike foi até o rádio. Aumentou o volume.

As mãos de Maria pararam de cortar os legumes.

— Moradores da região de Santa Rosa relatam um incêndio de grandes proporções nas primeiras horas da manhã. Equipes do corpo de bombeiros e da polícia militar estão no local. A suspeita inicial é de incêndio criminoso...

O bunker ficou em silêncio.

— Liga a TV — disse Mike.

Apolo pegou o controle. A tela acendeu.

O apresentador falava sério, o rosto iluminado pela luz do estúdio.

— ...e as investigações agora se concentram em dois pontos: o incêndio registrado hoje em Santa Rosa e a destruição de uma chácara na região de Caxias do Sul, ocorrida há dois dias. Em ambos os casos, as chamas consumiram os imóveis de forma quase total, mas há diferenças significativas...

A imagem cortou para a chácara de Mike. O que restava dela — paredes queimadas, telhado desabado, o portão ainda de pé.

— A propriedade ficava em uma área de residências de militares. O proprietário, o General Mitchel Ferrer, está desaparecido desde os eventos em Porto Alegre...

Mike não se mexeu.

Maria olhou para ele. Ele não olhou de volta.

— ...e agora, imagens ao vivo do incêndio em Santa Rosa...

A tela mostrou a mata. Fumaça subindo ao fundo. Viaturas estacionadas. E, no meio da estrada de terra, parcialmente coberto por lonas, um veículo — preto e prata, as rodas para o alto, a lataria toda queimada.

Um jipe militar.

Mike desligou a TV.

O silêncio foi absoluto.

Foi Marcos quem quebrou primeiro, a voz mais baixa que o normal.

— A gente... pode dar uma volta?

Jonathan olhou para ele.

— Vamos até lá — cochichou Marcos. — É perto.

Os dois se levantaram. Sérgio foi junto.

— Cuidado — disse Apolo.

Eles subiram a rampa. O som das bikes se afastou pela estrada de terra.

---

Chegaram em vinte minutos.

O cheiro de queimado ainda estava forte no ar. A fumaça já tinha baixado, mas a terra ainda estava quente. Viaturas por todo lado. Policiais. Bombeiros. Um perímetro isolado com fita amarela.

Os garotos pararam a uma distância segura. Olharam.

O jipe estava lá — o mesmo que Mike tinha destruído. Todo queimado. As portas abertas. O banco do motorista reduzido a carvão.

— Vamos embora — disse Sérgio, puxando o braço de Jonathan.

Um policial se aproximou.

— Vocês não deviam estar aqui. Vão para casa.

Os três não discutiram. Subiram nas bikes e começaram a voltar.

No caminho, Marcos perdeu o equilíbrio. A roda da frente escorregou no barro. Ele caiu de lado, a mão direita raspando no chão de cascalho.

— Dói? — perguntou Jonathan, ajudando a levantar.

— Não é nada. Só ralou.

O sangue escorria devagar entre os dedos. Marcos limpou na calça. Subiu na bike. Continuaram.

Não viram a sombra.

Não sentiram o cheiro.

Mas algo os seguia pela mata.

---

A porta do bunker estava aberta quando eles chegaram.

Sérgio entrou primeiro. Jonathan atrás. Marcos foi o último.

E foi quando a criatura saltou.

Pequena — não mais que um metro e quarenta. Pele escamada refletindo a luz fraca do bunker. Olhos vermelhos fixos. As garras abertas.

— MARCOS!

O grito de Jonathan fez todo mundo se virar.

Mike já estava em movimento.

A lanterna UV-C estava na bancada, ao lado do rádio. Ele pegou com a mão esquerda. A pistola com a direita.

A criatura estava em cima de Marcos — não atacando, apenas sobre ele. As garras tocavam os ombros do garoto, mas não perfuravam. A boca aberta, os dentes pequenos e afiados, mas sem morder.

— Fica parado — disse Mike.

Marcos não se mexeu.

Mike ligou a lanterna UV-C. A luz branco-azulada cortou o ar.

A criatura gritou — aquele som que não era dor, era aviso. Recuou um passo. Depois outro.

Atravessou o bunker como um clarão e sumiu pela rampa.

Mas no fundo, parada na entrada da clareira, uma silhueta.

Preta como piche. Viscosa. Os contornos tremulando como se o corpo dela não estivesse completamente decidido a existir.

Ela ficou olhando por um segundo.

Depois também sumiu.

Mike desligou a lanterna. Guardou a pistola.

— Alguém se machucou?

— Só o Marcos — disse Sérgio, a voz trêmula. — Ele caiu da bike.

Beatriz já estava com o kit de primeiros socorros. Abriu, pegou a gaze e o álcool. Segurou o braço de Marcos com firmeza — a firmeza de quem já fez isso centenas de vezes em hospital.

— Deixa eu ver. — Ela limpou o ferimento com cuidado. Marcos fechou a cara, mas não gritou. — Não é profundo. Mas sangrou. Vou fazer um curativo pra evitar infecção.

Enrolou a gaze com a precisão de quem aprendeu nos plantões noturnos. Quando terminou, deu um tapinha no ombro dele.

— Pronto. Vai doer por uns dias, mas passa.

Marcos olhou para o curativo. Depois para Beatriz.

— Obrigado.

— Disponha.

Mike olhou para a porta do bunker. Depois para a mata lá fora.

— Ela seguiu o cheiro.

Ninguém respondeu.

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Apolo quebrou o silêncio.

— É melhor levar todo mundo para casa.

Beatriz já estava de pé. Os garotos pegaram as mochilas. Marcos olhou para a mão enfaixada, depois para a porta.

— Vamos — disse Apolo.

As despedidas foram rápidas. Um "até amanhã" que ninguém sabia se ia se cumprir.

O Opala ligou. Os faróis acenderam. O carro sumiu na estrada de terra.

O bunker ficou vazio.

Mike e Maria — sozinhos de novo.

Ele estava encostado na bancada. Ela sentada no sofá.

O rádio ainda tocava baixo. Uma música qualquer, sem importância.

— A gente sabia que não ia durar — disse Maria.

— Eu sei.

— A paz.

— Eu sei.

Ela se levantou. Foi até ele.

— Hoje à noite...

— A gente fica acordado.

— É melhor.

Mike olhou para a porta. Para a rampa.

— Eu fico de guarda.

Maria encostou no ombro dele.

— Eu também.

Os dois ficaram assim — olhando para o vazio, ouvindo o rádio, esperando o próximo golpe.

O bunker estava em silêncio.

Mas o silêncio não era mais paz.

Era tensão..

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...