Capítulo 26: Nada Mais Importa
O Opala sumiu na curva da estrada, o ronco do motor se afogando no silêncio da noite.
Beatriz foi com Apolo. Os garotos foram juntos. O bunker ficou vazio.
Maria ficou parada na entrada da rampa por um momento, olhando para a clareira escura. Depois se virou e desceu. O barulho dos próprios passos ecoou pelas paredes de concreto.
Mike já estava na cozinha.
A cafeteira estava no canto, meio cheia, o café já passando do ponto. Ele encheu a própria xícara até a metade, virou de um gole, fez careta — amargo, frio, não importava. Encheu outra para ela. Pousou na bancada.
Maria sentou na cadeira de sempre. Pegou a xícara. Não bebeu. Ficou com as duas mãos em volta, sentindo o quente que já não era mais tão quente.
— Você vai ficar aí parado? — perguntou ela, sem olhar para ele.
Mike estava encostado na pia, os braços cruzados, os olhos fixos no nada.
— Pensando.
— No quê?
Ele demorou.
— Em como a gente chegou até aqui.
Maria ergueu a xícara, tomou um gole, pousou de volta.
— Eu sei como.
— Como?
— Teimosia. — Ela olhou para ele de lado. — A minha. A do meu pai. A sua.
Mike desviou.
— A sua não é teimosia.
— O que é, então?
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Coragem.
Maria não respondeu. O silêncio ficou pesado — não o peso de quem não tem o que dizer, mas o peso de quem tem muito e não sabe por onde começar.
Foi Mike quem quebrou.
— Eu não tive pai.
A frase saiu seca, direta, do jeito que as coisas saíam nele. Como se estivesse arrancando um curativo de uma ferida que nunca tinha mostrado pra ninguém.
Maria não se mexeu. Não perguntou "o quê?". Só esperou.
— Minha mãe... — ele começou, e parou. — Eu nem conheci. Fui criado por um casal de idosos. Deram o que podiam. O básico. Já era mais do que eu tinha.
— O que aconteceu com eles?
— Morreram. — A voz saiu sem emoção. — Os dois. Em menos de um ano. Fui para um orfanato.
O silêncio que se seguiu tinha uma textura nova. Mais velho. Mais fundo.
— Você nunca contou isso pra ninguém? — perguntou Maria.
— Não.
— Por que está contando agora?
Mike olhou para a xícara vazia na mão dela.
— Porque não tem mais ninguém. — Ele pousou a própria xícara na bancada. — A chácara foi. A farda foi. O nome... — ele fez uma pausa — o nome também.
Maria ficou olhando para ele. Depois olhou para as próprias mãos.
— Meu pai foi assassinado.
Mike não se surpreendeu — já sabia. Mas ouviu.
— Quatro anos atrás. Ninguém foi punido. O inquérito arquivado em três semanas.
— Eu sei.
— Eu passei anos tentando limpar o nome dele. Mostrar que ele não era louco. Que o que ele via era real. — Ela segurou a xícara com mais força. — Sabe o que eu consegui?
Mike não respondeu.
— Nada. Só me queimaram junto. Me chamaram de maluca. Perdi tudo que construí. O laboratório do meu pai... eu mesma destruí.
— Você fez o que precisava fazer.
— E você? — Ela olhou para ele de frente. — O que você fez?
— A mesma coisa.
Os dois ficaram em silêncio.
O bunker parecia menor agora. As paredes de concreto, as prateleiras, os cabos, os equipamentos — tudo ali, mas tudo mais perto. Não era claustrofobia. Era intimidade.
Maria levantou primeiro.
— Vou tomar um banho.
Mike só acenou.
Ela foi até o corredor. Parou na porta do quarto.
— Mike.
— O quê?
— Não vai embora.
Ele olhou para ela.
— Não vou.
Ela entrou. A porta fechou.
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O som do chuveiro veio abafado pelas paredes do bunker. Mike ficou na cozinha, ouvindo. Não era o som — era o silêncio entre os sons.
Esperou alguns minutos. Depois foi para o banheiro da área comum. Abriu o chuveiro. Ficou embaixo da água fria até sentir que o corpo tinha desistido de tremer.
Não era frio.
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Quando saiu, vestiu a camiseta preta e a calça cargo. Não a farda. Não mais.
Foi para a sala.
Maria já estava lá.
Cabelo úmido preso de qualquer jeito. A blusa azul que pegou na casa do pai — larga nos ombros, mas dela. Sentada no sofá, os pés no chão, as mãos cruzadas no colo.
Mike sentou no outro canto. Não colado. Não longe.
— Não liga a TV — disse ela.
— Não ia.
— Saber o que estão falando da gente... não vai mudar nada.
— Eu sei.
O silêncio voltou. Mas era outro. Menos pesado. Mais ocupado.
Foi então que Mike viu.
No canto da sala, em cima de uma estante de madeira velha, um rádio. Não o comunicador — um rádio de verdade. Antena retrátil, botões de plástico amarelado. Estava ali desde o começo. Ninguém nunca tinha ligado.
Ele levantou. Foi até o rádio. Girou o botão de volume. Ajustou a frequência lentamente.
O chiado da estática preencheu a sala.
— O que você está fazendo? — perguntou Maria.
— Uma coisa que eu devia ter feito antes.
Ele girou mais um pouco. A estática sumiu. A voz do radialista entrou suave, daquele jeito de madrugada:
— Você está ouvindo Atlântida FM. A música que não sai do coração. E agora, para quem precisa lembrar que não está sozinho...
A música começou.
Os primeiros acordes preencheram o espaço. Mike voltou para o sofá.
Maria não disse nada. Ficou olhando para o rádio como se visse algo que não via há anos.
A voz do cantor entrou:
"I've been taken by the hand / Got me down on my knees / I've been down on the streets / And there's so many lessons to learn..."
(Fui levado pela mão / Me colocou de joelhos / Passei pelos becos / E há tantas lições para aprender...)
Maria virou o rosto na direção do rádio.
"I've been down on my knees / And I know there's so much more to understand..."
(Estive de joelhos / E sei que há muito mais para entender...)
Mike olhou para ela.
"I want to know what love is / I want you to show me..."
(Eu quero saber o que é o amor / Eu quero que você me mostre...)
Ela olhou de volta.
Não foi um olhar de pergunta. Não foi hesitação. Foi reconhecimento — o tipo que acontece quando duas pessoas que perderam tudo finalmente se dão conta de que ainda têm uma coisa.
"I want to feel what love is / I know you can show me..."
(Eu quero sentir o que é o amor / Eu sei que você pode me mostrar...)
Mike se moveu primeiro. Devagar.
Não invadiu. Não apressou.
A mão foi até o rosto dela. Os dedos tocaram a linha da mandíbula. O polegar passou pela maçã do rosto.
Maria fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, ele estava mais perto.
— Mike...
— Eu sei.
Não era um pedido de desculpa. Era um "eu também sei".
O beijo foi suave. Não era fome. Era fome guardada por tempo demais, que aprendeu a se conter.
A mão dela foi para o braço dele. A dele foi para a nuca dela.
"I want to know what love is / I want you to show me..."
(Eu quero saber o que é o amor / Eu quero que você me mostre...)
Não houve pressa.
O beijo durou o tempo de uma respiração longa, depois mais um pouco. Quando se separaram, Maria estava com os olhos marejados — mas não de tristeza.
— Não chora — disse ele.
— Não vou.
— Tá quase.
— Tá. — Ela sorriu — um sorriso pequeno, torto. — Mas não vou.
Ele encostou a testa na dela. Os dois ficaram assim, a respiração misturada, o rádio ainda tocando.
"I want to feel what love is / I know you can show me..."
(Eu quero sentir o que é o amor / Eu sei que você pode me mostrar...)
Ela puxou ele de volta.
O segundo beijo foi mais fundo. Mais demorado. As mãos começaram a se mover — o braço dela em volta do pescoço dele, a mão dele na cintura dela.
Nenhum dos dois falou. Não precisava.
Eles se levantaram do sofá juntos. As mãos não se soltaram. Os olhos não se desgrudaram.
O corredor estava escuro. O quarto de Maria ficava no fundo.
A porta estava aberta.
E a música continuava.
---
A luz da manhã entrou pela abertura gradeada pequena.
O rádio ainda estava ligado — baixinho, na sala. O radialista falava com a voz de quem cuida da madrugada:
— Atlântida FM... as canções de amor continuam no ar... para quem acordar com o coração mais leve...
Mike estava de costas, o rosto virado para a janela. Maria estava encostada no ombro dele, o cabelo espalhado no travesseiro, os olhos abertos mas o corpo em repouso.
A camiseta preta estava no chão. A blusa azul também.
O cobertor cobria o que precisava ser coberto.
Nenhum dos dois falou.
O som do rádio preenchia o quarto.
Mike virou a cabeça devagar. Olhou para ela.
Ela olhou de volta.
Não era estranho. Não era vergonha. Era o silêncio depois da tempestade — quando o vento para, a água baixa, e o que fica é só o chão firme.
Mike puxou o cobertor até o ombro dela.
Ela encostou a mão no peito dele. O coração batia devagar.
Do lado de fora do bunker, o dia nascia em Santa Rosa. As notícias continuavam na TV. Os carros pretos ainda circulavam. Larkin ainda dava ordens. O mundo ainda estava desabando.
Mas dentro daquele quarto, naquele momento, não havia nada disso.
Só os dois.
E o rádio.
E a certeza de que, depois de perder tudo, ainda restava alguma coisa.
*Nada mais importa.*
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