domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 25 — Sem Volta

Capítulo 25: Sem Volta

Mike se moveu.

Empurrou o corpo da parede com um movimento seco, foi até o centro da sala e olhou para Apolo.

— Preciso dar um fim no jipe.

Apolo ergueu a cabeça.

— Vou com você.

— Não. — Mike foi direto. — Eu vou sozinho.

Apolo franziu a testa.

— Por quê?

Mike o encarou. Não respondeu.

Apolo conhecia aquele olhar. Suspirou.

— Tá bom. Não vou perguntar de novo. — Fez uma breve pausa, e um meio sorriso apareceu. — Sim, senhor, General...

Mike não riu. Mas os olhos, por uma fração de segundo, ficaram menos duros.

Apolo virou para os garotos.

— As bikes estão aí fora?

— Na parede — disse Jonathan.

— A gente coloca — completou Sérgio, já se levantando.

Ele e Jonathan foram até a parede, pegaram as próprias bicicletas e começaram a levar para fora, subindo a rampa com o cuidado de quem não queria fazer barulho. Marcos olhou para os dois, depois para Mike.

— Quer que eu leve a minha também?

— Fica — disse Mike. — Só precisamos de duas.

Marcos assentiu.

Mike pegou a jaqueta.

— A gente se encontra na estrada velha, antes da ribanceira.

— Maria — disse Apolo, com um tom mais leve. — A gente volta logo.

Ela não respondeu. Mas não desviou o olhar de Mike.

Ele ficou com ela por um segundo.

— Volto logo.

Virou e subiu a rampa.

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Lá fora, os garotos já tinham colocado as duas bikes na caçamba do furgão — uma encaixada na outra, as rodas viradas para o lado certo. Jonathan deu uma última ajustada enquanto Sérgio prendia com o elástico.

— Pronto — disse Sérgio.

Apolo já estava no banco do motorista.

— Boa. Desçam.

Os dois desceram da caçamba e fecharam a porta. O furgão ligou e saiu devagar pela estrada de terra, os faróis apagados.

Mike já estava no jipe — o mesmo estacionado atrás do bunker desde a fuga de Porto Alegre, coberto de barro, a identificação militar ainda visível na porta, os pneus marcando o chão de terra batida.

Ligou o motor. O ronco grave preencheu a clareira.

Manteve distância do furgão, os olhos fixos na estrada.

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Chegaram na curva larga que dava para o vale em menos de quinze minutos.

Apolo parou o furgão no acostamento, os piscas desligados. Desceu, foi até a beirada — a ribanceira descia íngreme por uns trinta metros até o fundo seco, onde só pedra e mato rasteiro.

O jipe parou ao lado.

Mike desceu. Os dois se olharam por um segundo.

— É aqui — disse Mike.

— É fundo — disse Apolo. Não era hesitação. Era constatação.

Mike não respondeu. Foi até a porta do jipe e abriu. Pegou o isqueiro do bolso da jaqueta — o mesmo com que tinha acendido o cigarro mais cedo. Acendeu. Aplicou a chama na ponta do estofado do banco do motorista.

O fogo demorou um pouco para pegar — primeiro uma chama pequena, depois o plástico começou a deformar, o cheiro de queimado subiu no ar.

Mike fechou a porta. Empurrou o jipe com o ombro — o veículo começou a deslizar devagar no barro. Depois ganhou velocidade.

A ribanceira engoliu o carro em poucos segundos — a lataria batendo nas pedras, o vidro traseiro estourando no primeiro impacto. Quando chegou ao fundo, o tanque pegou fogo. Uma labareda alta subiu rápido, iluminando a mata ao redor por um instante antes de se estabilizar num incêndio baixo e constante.

Mike já estava correndo para o furgão. Entrou no banco do passageiro. Bateu a porta.

— Vai.

Apolo engatou a primeira e acelerou.

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O furgão percorreu a estrada de terra por mais uns vinte minutos até chegar no asfalto. A casa do pai de Jonathan ficava no começo do bairro, a garagem aberta, as luzes da cozinha acesas.

Apolo encostou o furgão na calçada.

— Fica aí — disse ele, para Mike. — Eu resolvo.

Desceu. Foi até a porta da garagem. Bateu — uma batida curta, sem pressa.

O pai de Jonathan apareceu depois de alguns segundos, seu nome é Matteo Jean Jankolski.
uma xícara de café na mão. Um senhor de meia-idade, cabelo grisalho, o mesmo olhar atento que o filho tinha quando estava processando alguma coisa.

— Apolo? Trouxe o furgão de volta?

— Trouxe, seu Jankolski. — Apolo sorriu com a serenidade específica de professor. — Limpo, abastecido, como prometido.

O pai olhou para o carro estacionado na garagem. Depois para Apolo.

— E o material?

— Guardado. Deu tudo certo. — Apolo inclinou a cabeça. — A escola agradece. O professor que ia buscar acabou não precisando, mas a gente conseguiu trazer tudo.

O pai de Jonathan acenou com a cabeça.

— Que bom. Vocês precisando é só falar, o carro tá à disposição.

— Obrigado. — Apolo já ia se virar, mas parou. — Ah, quase esqueci. As bicicletas dos garotos estão dentro. Deixa eu pegar.

Foi até a traseira do furgão, abriu a porta e tirou as duas bikes — a de Sérgio e a de Jonathan, apoiadas uma na outra. Apoiou as duas no chão.

O Sr. Matteo olhou para as bikes.

— Vocês vão voltar de bicicleta?

— Vamos — disse Apolo, natural. — É perto. A gente tá dando uma passeada.

— E os garotos? Eles voltam com vocês?

Apolo sentiu a pergunta e respondeu rápido, sem titubear.

— Volto sim. Deixo eles antes das dez. Pode ficar tranquilo.

Então ele assentiu, satisfeito.

— Tá certo. Bom domingo pra vocês.

— Pro senhor também.

Apolo pegou a própria bike e a de Sérgio. Mike já tinha descido do furgão e pegou a de Jonathan. Os dois começaram a pedalar rua abaixo.

O pai de Jonathan nem viu Mike direito — só uma figura de jaqueta jeans e óculos escuros, sumindo na esquina.

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No fim da rua, Apolo virou a cabeça.

— Vamos pelo caminho das lanchonetes.

— É mais longo — disse Mike.

— É mais seguro. Não passa perto daquele lugar.

Mike não discutiu. Os dois seguiram pela rua asfaltada, as bicicletas rangendo baixo, o céu já escurecendo no fim da tarde. O movimento das lanchonetes era tranquilo — algumas famílias, casais, gente tomando café e comendo pastel. Ninguém olhou duas vezes para dois homens de bike.

Apolo pediu um cigarro. Mike deu.

Ficaram em silêncio a maior parte do caminho. Não precisavam de palavras.

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Enquanto isso, no bunker, a noite começava a cair lá fora — mesmo que dentro não desse para ver.

Beatriz estava sentada na mesa da cozinha com Maria. As duas tinham passado a última hora conversando — primeiro sobre coisas práticas, depois sobre coisas que nenhuma das duas ia chamar de pesadas mas que pesavam assim mesmo.

— Ele é sempre assim? — Beatriz perguntou.

— Quem?

— O Mike. — Beatriz tomou um gole de café. — Chega, resolve, sai. Não pede opinião. Não espera resposta.

Maria ficou com a xícara na mão por um momento.

— É — disse, por fim. — É sempre assim.

— E você aguenta?

Maria olhou para o fundo da xícara.

— Tô aprendendo.

Beatriz não perguntou mais nada. Mas o sorriso que deu era o tipo que sabe mais do que fala.

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O barulho das bikes na rampa anunciou a chegada antes de a porta se abrir.

Mike e Apolo desceram — suados, com as bainhas das calças sujas de barro seco. Mike foi direto para a bancada, pegou um copo d'água, bebeu de uma vez.

Apolo jogou o corpo no sofá.

— Devolvido — disse ele. — Limpo, abastecido. Nem perguntou nada.

— Nem ia — disse Mike.

— O pai do Jonathan mandou um abraço.

— Mentiroso.

— Tá bom, não mandou. Mas ficou feliz com o carro.

Os garotos riram. O clima pesado da TV tinha dado lugar a alguma outra coisa — não alívio, não exatamente. Mas um passo à frente.

Mike pousou o copo. Olhou para Maria. Ela olhou de volta. Os dois se mediram por um segundo — não era o mesmo olhar de antes do abraço, nem o mesmo de depois. Era um lugar intermediário, novo, que nenhum dos dois sabia nomear ainda.

Mike desviou primeiro.

— Agora não tem mais volta — disse ele, para ninguém em específico. — O jipe foi. O furgão voltou. O que a gente tem é o que está aqui.

Apolo olhou para o relógio.

— Sete e meia. Preciso levar eles de volta.

— As bikes estão aqui — disse Jonathan.

— Eu sei. — Apolo se levantou. — Beatriz, você vem?

Ela já estava de pé.

— Vou.

As despedidas foram rápidas — um "até amanhã" dos garotos, um "boa noite" da Beatriz, um aceno de cabeça do Mike que valia por despedida.

Quando a porta se fechou atrás deles, o som do Opala ligou lá fora e se afastou pela estrada de terra.

O bunker ficou em silêncio.

Mike e Maria — sozinhos.

Ele encostado na bancada. Ela sentada na cadeira da cozinha, a xícara fria na mão.

Nenhum dos dois se mexeu por alguns segundos.

— Foi bem — disse Maria, por fim.

— O quê?

— O que você fez. Com o jipe. Com o furgão. Com tudo.

Mike não respondeu imediatamente.

— Não foi bem. Foi necessário. — Ele pausou. — São coisas diferentes.

Maria ficou com ele por um momento.

— Eu sei.

O silêncio que se seguiu não era vazio. Era ocupado — do tipo que não precisa ser preenchido com palavra porque as coisas já estão ditas, só não nomeadas ainda.

Mike foi até a cafeteira. Encheu a xícara dela. Encheu a dele.

Pousou a dela na frente dela com a mão — o mesmo gesto da manhã, o mesmo cuidado.

Maria segurou a xícara com as duas mãos. Olhou para o fundo do café.

— Obrigada — disse ela. Não pelo café.

Mike sentou na cadeira ao lado. Não disse nada.

Mas ficou.

E às vezes era o único lugar onde as coisas precisavam começar.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...