Mike se moveu.
Empurrou o corpo da parede com um movimento seco, foi até o centro da sala e olhou para Apolo.
— Preciso dar um fim no jipe.
Apolo ergueu a cabeça.
— Vou com você.
— Não. — Mike foi direto. — Eu vou sozinho.
Apolo franziu a testa.
— Por quê?
Mike o encarou. Não respondeu.
Apolo conhecia aquele olhar. Suspirou.
— Tá bom. Não vou perguntar de novo. — Fez uma breve pausa, e um meio sorriso apareceu. — Sim, senhor, General...
Mike não riu. Mas os olhos, por uma fração de segundo, ficaram menos duros.
Apolo virou para os garotos.
— As bikes estão aí fora?
— Na parede — disse Jonathan.
— A gente coloca — completou Sérgio, já se levantando.
Ele e Jonathan foram até a parede, pegaram as próprias bicicletas e começaram a levar para fora, subindo a rampa com o cuidado de quem não queria fazer barulho. Marcos olhou para os dois, depois para Mike.
— Quer que eu leve a minha também?
— Fica — disse Mike. — Só precisamos de duas.
Marcos assentiu.
Mike pegou a jaqueta.
— A gente se encontra na estrada velha, antes da ribanceira.
— Maria — disse Apolo, com um tom mais leve. — A gente volta logo.
Ela não respondeu. Mas não desviou o olhar de Mike.
Ele ficou com ela por um segundo.
— Volto logo.
Virou e subiu a rampa.
---
Lá fora, os garotos já tinham colocado as duas bikes na caçamba do furgão — uma encaixada na outra, as rodas viradas para o lado certo. Jonathan deu uma última ajustada enquanto Sérgio prendia com o elástico.
— Pronto — disse Sérgio.
Apolo já estava no banco do motorista.
— Boa. Desçam.
Os dois desceram da caçamba e fecharam a porta. O furgão ligou e saiu devagar pela estrada de terra, os faróis apagados.
Mike já estava no jipe — o mesmo estacionado atrás do bunker desde a fuga de Porto Alegre, coberto de barro, a identificação militar ainda visível na porta, os pneus marcando o chão de terra batida.
Ligou o motor. O ronco grave preencheu a clareira.
Manteve distância do furgão, os olhos fixos na estrada.
---
Chegaram na curva larga que dava para o vale em menos de quinze minutos.
Apolo parou o furgão no acostamento, os piscas desligados. Desceu, foi até a beirada — a ribanceira descia íngreme por uns trinta metros até o fundo seco, onde só pedra e mato rasteiro.
O jipe parou ao lado.
Mike desceu. Os dois se olharam por um segundo.
— É aqui — disse Mike.
— É fundo — disse Apolo. Não era hesitação. Era constatação.
Mike não respondeu. Foi até a porta do jipe e abriu. Pegou o isqueiro do bolso da jaqueta — o mesmo com que tinha acendido o cigarro mais cedo. Acendeu. Aplicou a chama na ponta do estofado do banco do motorista.
O fogo demorou um pouco para pegar — primeiro uma chama pequena, depois o plástico começou a deformar, o cheiro de queimado subiu no ar.
Mike fechou a porta. Empurrou o jipe com o ombro — o veículo começou a deslizar devagar no barro. Depois ganhou velocidade.
A ribanceira engoliu o carro em poucos segundos — a lataria batendo nas pedras, o vidro traseiro estourando no primeiro impacto. Quando chegou ao fundo, o tanque pegou fogo. Uma labareda alta subiu rápido, iluminando a mata ao redor por um instante antes de se estabilizar num incêndio baixo e constante.
Mike já estava correndo para o furgão. Entrou no banco do passageiro. Bateu a porta.
— Vai.
Apolo engatou a primeira e acelerou.
---
O furgão percorreu a estrada de terra por mais uns vinte minutos até chegar no asfalto. A casa do pai de Jonathan ficava no começo do bairro, a garagem aberta, as luzes da cozinha acesas.
Apolo encostou o furgão na calçada.
— Fica aí — disse ele, para Mike. — Eu resolvo.
Desceu. Foi até a porta da garagem. Bateu — uma batida curta, sem pressa.
O pai de Jonathan apareceu depois de alguns segundos, seu nome é Matteo Jean Jankolski.
uma xícara de café na mão. Um senhor de meia-idade, cabelo grisalho, o mesmo olhar atento que o filho tinha quando estava processando alguma coisa.
— Apolo? Trouxe o furgão de volta?
— Trouxe, seu Jankolski. — Apolo sorriu com a serenidade específica de professor. — Limpo, abastecido, como prometido.
O pai olhou para o carro estacionado na garagem. Depois para Apolo.
— E o material?
— Guardado. Deu tudo certo. — Apolo inclinou a cabeça. — A escola agradece. O professor que ia buscar acabou não precisando, mas a gente conseguiu trazer tudo.
O pai de Jonathan acenou com a cabeça.
— Que bom. Vocês precisando é só falar, o carro tá à disposição.
— Obrigado. — Apolo já ia se virar, mas parou. — Ah, quase esqueci. As bicicletas dos garotos estão dentro. Deixa eu pegar.
Foi até a traseira do furgão, abriu a porta e tirou as duas bikes — a de Sérgio e a de Jonathan, apoiadas uma na outra. Apoiou as duas no chão.
O Sr. Matteo olhou para as bikes.
— Vocês vão voltar de bicicleta?
— Vamos — disse Apolo, natural. — É perto. A gente tá dando uma passeada.
— E os garotos? Eles voltam com vocês?
Apolo sentiu a pergunta e respondeu rápido, sem titubear.
— Volto sim. Deixo eles antes das dez. Pode ficar tranquilo.
Então ele assentiu, satisfeito.
— Tá certo. Bom domingo pra vocês.
— Pro senhor também.
Apolo pegou a própria bike e a de Sérgio. Mike já tinha descido do furgão e pegou a de Jonathan. Os dois começaram a pedalar rua abaixo.
O pai de Jonathan nem viu Mike direito — só uma figura de jaqueta jeans e óculos escuros, sumindo na esquina.
---
No fim da rua, Apolo virou a cabeça.
— Vamos pelo caminho das lanchonetes.
— É mais longo — disse Mike.
— É mais seguro. Não passa perto daquele lugar.
Mike não discutiu. Os dois seguiram pela rua asfaltada, as bicicletas rangendo baixo, o céu já escurecendo no fim da tarde. O movimento das lanchonetes era tranquilo — algumas famílias, casais, gente tomando café e comendo pastel. Ninguém olhou duas vezes para dois homens de bike.
Apolo pediu um cigarro. Mike deu.
Ficaram em silêncio a maior parte do caminho. Não precisavam de palavras.
---
Enquanto isso, no bunker, a noite começava a cair lá fora — mesmo que dentro não desse para ver.
Beatriz estava sentada na mesa da cozinha com Maria. As duas tinham passado a última hora conversando — primeiro sobre coisas práticas, depois sobre coisas que nenhuma das duas ia chamar de pesadas mas que pesavam assim mesmo.
— Ele é sempre assim? — Beatriz perguntou.
— Quem?
— O Mike. — Beatriz tomou um gole de café. — Chega, resolve, sai. Não pede opinião. Não espera resposta.
Maria ficou com a xícara na mão por um momento.
— É — disse, por fim. — É sempre assim.
— E você aguenta?
Maria olhou para o fundo da xícara.
— Tô aprendendo.
Beatriz não perguntou mais nada. Mas o sorriso que deu era o tipo que sabe mais do que fala.
---
O barulho das bikes na rampa anunciou a chegada antes de a porta se abrir.
Mike e Apolo desceram — suados, com as bainhas das calças sujas de barro seco. Mike foi direto para a bancada, pegou um copo d'água, bebeu de uma vez.
Apolo jogou o corpo no sofá.
— Devolvido — disse ele. — Limpo, abastecido. Nem perguntou nada.
— Nem ia — disse Mike.
— O pai do Jonathan mandou um abraço.
— Mentiroso.
— Tá bom, não mandou. Mas ficou feliz com o carro.
Os garotos riram. O clima pesado da TV tinha dado lugar a alguma outra coisa — não alívio, não exatamente. Mas um passo à frente.
Mike pousou o copo. Olhou para Maria. Ela olhou de volta. Os dois se mediram por um segundo — não era o mesmo olhar de antes do abraço, nem o mesmo de depois. Era um lugar intermediário, novo, que nenhum dos dois sabia nomear ainda.
Mike desviou primeiro.
— Agora não tem mais volta — disse ele, para ninguém em específico. — O jipe foi. O furgão voltou. O que a gente tem é o que está aqui.
Apolo olhou para o relógio.
— Sete e meia. Preciso levar eles de volta.
— As bikes estão aqui — disse Jonathan.
— Eu sei. — Apolo se levantou. — Beatriz, você vem?
Ela já estava de pé.
— Vou.
As despedidas foram rápidas — um "até amanhã" dos garotos, um "boa noite" da Beatriz, um aceno de cabeça do Mike que valia por despedida.
Quando a porta se fechou atrás deles, o som do Opala ligou lá fora e se afastou pela estrada de terra.
O bunker ficou em silêncio.
Mike e Maria — sozinhos.
Ele encostado na bancada. Ela sentada na cadeira da cozinha, a xícara fria na mão.
Nenhum dos dois se mexeu por alguns segundos.
— Foi bem — disse Maria, por fim.
— O quê?
— O que você fez. Com o jipe. Com o furgão. Com tudo.
Mike não respondeu imediatamente.
— Não foi bem. Foi necessário. — Ele pausou. — São coisas diferentes.
Maria ficou com ele por um momento.
— Eu sei.
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era ocupado — do tipo que não precisa ser preenchido com palavra porque as coisas já estão ditas, só não nomeadas ainda.
Mike foi até a cafeteira. Encheu a xícara dela. Encheu a dele.
Pousou a dela na frente dela com a mão — o mesmo gesto da manhã, o mesmo cuidado.
Maria segurou a xícara com as duas mãos. Olhou para o fundo do café.
— Obrigada — disse ela. Não pelo café.
Mike sentou na cadeira ao lado. Não disse nada.
Mas ficou.
E às vezes era o único lugar onde as coisas precisavam começar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário