domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 24 — Notícias e Surpresas

Capítulo 24: Notícias e Surpresas

O bunker ficou quieto depois que o furgão saiu.

Maria ficou parada por um momento na cozinha, a xícara de café ainda na mão, o som do motor desaparecendo pela estrada de terra. Depois pousou a xícara, foi até a bancada e abriu o primeiro caderno do pai.

Trabalhar era o único jeito que ela conhecia de não pensar.

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Sérgio chegou primeiro, como sempre — pontual com a eficiência de quem considera atraso uma forma de desrespeito. Jonathan veio logo atrás, a bike encostada na parede da entrada. Josué foi o último, quieto como sempre, como alguém que já está dentro antes de entrar.

Os três desceram a rampa e encontraram Maria na sala de operações, cercada pelos cadernos e pelos equipamentos que haviam passado a manhã sendo instalados.

— Apolo não está? — perguntou Sérgio.

— Ainda não. — Ela não levantou os olhos. — Vão chegando. Tem coisa pra fazer.

Não precisou de mais. Os três jogaram as mochilas no canto e foram.

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A manhã passou no ritmo específico de quando há trabalho concreto pra fazer e ninguém precisa negociar o que é de cada um. Sérgio assumiu a organização dos cabos com a mesma lógica com que havia numerado as prateleiras na noite anterior. Jonathan montava os racks seguindo as instruções de Maria sem precisar perguntar mais de uma vez. Josué ficava nos cantos, aparecia quando era necessário, desaparecia quando não era — a presença mais útil que silenciosa.

Maria trabalhava ao centro de tudo. Os cadernos do pai abertos na bancada ao lado, os olhos entre a tela e as páginas, construindo a ligação entre o que o Dr. Eduardo havia documentado e o que os equipamentos agora podiam processar.

Marcos chegou uns vinte minutos depois, a bike suja de lama até o quadro, o fôlego curto de quem pedalou rápido e parou de repente.

— Pensei que vocês iam avisar — disse ele, descendo a rampa. — Jonathan me mandou mensagem assim que acordei. Não deu tempo nem de tomar café direito.

— Tem café ali — disse Maria, apontando com a cabeça.

Marcos olhou para a garrafa térmica. Depois para a bancada. Depois para os cabos que o irmão já havia organizado com uma precisão quase cirúrgica.

— Tá bonito isso aqui — disse ele, pegando a caneca.

— Tá — concordou Sérgio, sem levantar os olhos.

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Foi Sérgio quem ouviu o Opala primeiro.

— Apolo.

A porta se abriu e Apolo desceu a rampa com a energia de domingo de manhã que havia perdido o memo de que tinha que ser tranquilo. Olhou em volta, avaliou o espaço com aprovação silenciosa.

— Ficou bom.

— Ficou — confirmou Sérgio.

Apolo foi até a bancada, pegou o café que havia sobrado na cafeteira, tomou sem reclamar da temperatura e ficou parado por um segundo antes de falar.

— Preciso contar uma coisa.

O tom era o suficiente para todo mundo parar.

Maria levantou os olhos dos cadernos. Sérgio cruzou os braços. Jonathan e Josué esperaram.

— Ontem à noite, quando cheguei em casa, a Beatriz estava esperando. — Ele pousou a xícara. — Ela sabia que tinha alguma coisa errada. Você não  conhece a Beatriz — ela não para enquanto não entende. Acabei contando tudo.

O silêncio durou dois segundos.

— Tudo? — disse Maria.

— Tudo.

Ela ficou olhando para ele por um momento. Depois fechou o caderno.

— Apolo. — A voz saiu sem raiva, mas com o peso de quem entende o tamanho do que foi dito. — Você sabe o que isso significa. Se eles chegarem até ela—

— Eu sei. — Ele não desviou. — Mas ela já estava chegando nas perguntas certas sozinha. Era questão de tempo. E prefiro ela dentro sabendo do que fora imaginando coisa pior.

Uma pausa.

— Ela quer conhecer vocês. Vou buscar ela ao meio-dia.

Ninguém respondeu de imediato.

Sérgio olhou para Jonathan. Jonathan olhou para Josué. Josué ficou olhando para a parede com aquela calma de quem processa diferente.

— Traz ela — disse Maria, por fim. — Mas deixa claro que aqui dentro as regras são as mesmas pra todo mundo.

— Ela é enfermeira — disse Apolo, com o tom de quem oferece isso como informação útil. — Prática, direta, não entra em pânico fácil.

— Melhor ainda. — Maria reabriu o caderno.

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Apolo saiu no Opala pouco antes do meio-dia.

O bunker voltou ao ritmo de antes — o zumbido dos equipamentos, os passos entre a bancada e as prateleiras, o som das páginas sendo viradas.

Jonathan havia ligado o rádio modificado no volume baixo, mais por hábito do que por necessidade. Sérgio organizava os cabos por frequência e comprimento com a concentração de quem transforma ordem em conforto.

Foi então que ouviram o motor.

Não era o Opala.

Era o furgão — mais pesado do que havia saído pela manhã.

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Lá fora, o movimento da chegada fez todo mundo sair do bunker.

Sérgio foi o primeiro, depois Jonathan, depois Josué. Marcos veio atrás, ainda secando as mãos no pano da bancada. Maria saiu por último — sem pressa, como quem não quer que ninguém perceba que saiu.

O que viu fez ela parar no meio da rampa.

O furgão estava estacionado ao lado do Opala. Apolo já tinha descido, gargalhando, os braços abertos. Mas não era ele que ela estava olhando.

Era o homem do lado do furgão.

A camiseta preta com a caveira no centro, desbotada nas bordas por lavagens que não contavam. A calça cargo preta de motoqueiro. As botas de couro. Os óculos escuros enfiados no rosto como se sempre tivessem estado ali. A postura — não menos vigilante, mas diferente. Mais solta. Mais ele.

Mike estava de costas para ela, falando com Apolo. Depois se virou.

E viu Maria.

Ela sentiu o estômago girar — aquele negócio físico, involuntário, que não se controla. Não era a primeira vez que via ele. Mas era a primeira vez que via esse ele. O que tinha estado escondido embaixo da farda o tempo todo.

Mike levantou a mão. Pegou o óculos escuro pela haste. Baixou devagar — o movimento lento, deliberado, como quem quer ter certeza de que está vendo a mesma coisa.

Os olhos deles se encontraram.

O tempo não parou. Mas ficou mais lento.

— Maria?

Beatriz estava ao lado dela, com a mão estendida, esperando.

— Oi... — Maria piscou, voltando. — Oi, desculpa. Beatriz?

— Beatriz. — Ela sorriu, mas os olhos foram rápidos — de Maria para Mike, de Mike para Maria, e de volta. — Apolo falou muito de você.

— Falou bem, espero.

— Sempre.

Maria apertou a mão dela sem soltar o olhar de Mike. Ele já tinha recolocado o óculos, mas não tinha desviado.

Não precisava.

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Apolo desceu do Opala no meio daquela troca. Viu Mike. Parou.

Por um segundo ficou só olhando — e então saiu uma gargalhada que não era de surpresa, era de reconhecimento.

— Essa aí é a cara do Mitchel Ferrer que eu conheci na faculdade! — Ele abriu os braços como se apresentasse alguém pra uma plateia invisível. — Não te via assim desde que você entrou pro serviço!

Mike tirou o cigarro da boca com dois dedos.

— Menos conversa. Me ajuda a tirar as malas do furgão.

Beatriz havia descido do Opala no meio da gargalhada do namorado. Ficou parada com os braços levemente cruzados, olhando para a cena com a expressão de quem chegou preparada para o inesperado e ainda assim está processando mais do que esperava.

— Beatriz — disse Apolo, acenando na direção dela. — Esse é o Mike. Mitchel Ferrer, pra ser exato. General que trocou a farda pela caveira.

— Ex-general — disse Mike, sem nenhum drama. — E você não foi convidado pra fazer apresentação.

Beatriz o olhou por um segundo. Depois descruzou os braços.

— Beatriz Oliveira. Namorada do homem que claramente não sabe guardar segredo.

Mike olhou pra ela. Depois pra Apolo.

— Pelo menos ela é direta.

— Eu avisei — disse Apolo, satisfeito.

Os dois abriram a traseira do furgão. As malas saíram primeiro. E então a Harley apareceu — preta e prata, ocupando espaço com a presença específica de coisa que não precisa se anunciar.

Apolo assobiou.

— Quando você vai me deixar pilotar essa?

— Nunca.

— Nunca é muito tempo.

— Pra você não é.

Jonathan e Sérgio haviam saído do bunker e pararam na entrada quando viram a moto. Jonathan ficou olhando com os olhos ligeiramente maiores que o normal. Sérgio ficou ao lado com a expressão de quem está catalogando informação nova.

— Garotos — disse Mike, sem tirar os óculos. — O furgão precisa de limpeza. O pai do Jonathan não vai querer o carro de volta nesse estado.

Os dois se entreolharam.

— Sim, senhor — disse Jonathan, com uma seriedade que durou exatamente até Mike virar as costas, momento em que se inclinou para Sérgio e disse em voz baixa: — O Marcos vai pirar.

Sérgio concordou com um único aceno, já indo buscar água e panos.

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Maria estava na bancada quando Beatriz desceu a rampa.

As duas se olharam por um segundo — a avaliação rápida e mútua que acontece entre pessoas que já ouviram falar uma da outra antes de se ver.

— Maria — disse Beatriz.

— Beatriz. — Maria estendeu a mão. — Apolo falou bem de você.

— Apolo fala bem de todo mundo. — Ela apertou a mão com firmeza. — Mas ouvi o suficiente pra saber que você é a razão pela qual ele não dormiu direito faz semanas.

Maria abriu levemente a boca.

— Não de um jeito ruim — completou Beatriz, com uma rapidez que sugeria que havia aprendido a especificar. — Ele te respeita muito. Isso é raro nele.

Maria ficou com ela por um segundo. Depois inclinou a cabeça em direção à cozinha.

— Café?

— Precisava de café desde ontem.

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Lá dentro, o bunker voltou a pulsar.

Sérgio já estava de volta aos cabos. Jonathan ajudava Marcos a posicionar os racks. Josué aparecia e desaparecia nos cantos.

Mike estava na bancada do fundo, separando ferramentas com a concentração de quem prefere trabalhar a conversar. Mas Maria sentia os olhos dele — mesmo quando não estava olhando.

Beatriz também percebeu.

— Você está bem? — perguntou, baixo, enquanto cortava os sanduíches na cozinha.

— Estou — respondeu Maria, rápido demais.

Beatriz não insistiu. Mas o silêncio dela era o tipo que escuta.

Maria cortou mais dois pães antes de falar.

— Ele é... diferente.

— Diferente como?

— Diferente de como eu imaginei.

Beatriz a olhou de lado.

— E como você imaginou?

Maria ficou em silêncio por um segundo.

— Não sei mais.

Beatriz não perguntou mais nada. Mas o sorriso que deu era o tipo que sabe mais do que fala.

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A tarde foi tomando forma com aquela lentidão específica de domingo que acontece mesmo dentro de um bunker. Os equipamentos foram sendo posicionados e testados. Beatriz e Maria trabalhavam na cozinha com a naturalidade de quem descobriu que tem ritmo parecido sem ter combinado. Apolo e Mike movimentavam os racks mais pesados sem precisar de coordenação verbal. Jonathan e Sérgio voltaram com o furgão limpo.

Marcos estava na bancada auxiliando o irmão, ainda impressionado com a transformação do general. De vez em quando olhava de canto para Mike, como quem espera que a qualquer momento ele vá voltar a ser o militar sério de sempre — mas Mike continuava ali, de jaqueta jeans e camiseta de caveira, carregando equipamento como se tivesse feito isso a vida inteira.

O trabalho andava rápido.

Maria estava na bancada central, ajustando as conexões dos equipamentos que haviam trazido do laboratório do pai. Beatriz levava os cabos conforme ela pedia — uma sintonia silenciosa que já funcionava sem precisar combinar.

Foi quando Maria levantou a cabeça e os olhos foram direto para Mike.

Ele estava do outro lado da sala, braços cruzados, observando os garotos organizarem as prateleiras. Não fazia nada. Só estava ali. E mesmo assim ocupava o espaço de um jeito que não dava para ignorar.

— Você gosta dele.

Beatriz falou baixo. Não era acusação. Era constatação.

Maria demorou um segundo para responder.

— Não sei.

— Sabe, sim. — Beatriz ajeitou um fio na bancada. — Só não quer dizer em voz alta.

Maria ficou em silêncio.

— Ainda.

Beatriz deixou a frase no ar. Depois pegou outro cabo e foi para o outro lado da sala, deixando Maria com os próprios pensamentos.

Mike, do outro lado, sentiu o olhar dela. Virou a cabeça devagar.

Os olhos se encontraram de novo.

Dessa vez, nenhum dos dois desviou primeiro.

O silêncio entre eles durou mais do que o necessário para uma troca de olhos comum. Mike não sorriu. Não acenou. Apenas ficou com ela — um segundo, dois, três.

Depois voltou a observar os garotos, como se nada tivesse acontecido.

Maria respirou fundo e retomou o trabalho.

Mas havia um calor no peito que não tinha explicação técnica.

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Mike olhou para o espaço quando tudo estava no lugar — os cadernos do Dr. Eduardo organizados por série, os equipamentos conectados, as prateleiras numeradas pelo Sérgio na noite anterior. Ficou assim por um segundo.

Não disse nada. Mas Maria, que estava na entrada da cozinha com a xícara na mão, viu.

Apolo também viu. E não disse nada, o que era mais raro do que qualquer comentário que pudesse ter feito.

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Foi Sérgio quem ligou a TV no canto da sala.

— Pra ver se tem alguma coisa sobre ontem — disse ele, sem cerimônia.

Os primeiros minutos foram notícias sem relação. Depois o apresentador mudou de expressão — aquela mudança específica que acontece quando o que vem a seguir é diferente do roteiro.

— Em destaque nesta tarde — disse ele, com a voz de quem está lendo com cuidado. — Polícia e forças militares confirmam a destruição total do antigo laboratório de pesquisas que pertencia à família Costa — um local desativado há anos na região metropolitana de Porto Alegre. O que inicialmente parecia acidente começa a ganhar contornos mais complexos com o desaparecimento da cientista quântica Maria Eduarda Costa, filha do último proprietário do local. Fontes ligadas à investigação informam que a cientista está desaparecida há dias, em meio a eventos registrados no sul do país que atraíram atenção de autoridades federais. As autoridades buscam testemunhas e não descartam envolvimento de grupos organizados ou atividades de pesquisa não autorizadas.

A câmera mostrou imagens aéreas do terreno destruído — helicópteros em círculos, viaturas enfileiradas, a terra ainda escura onde o laboratório havia sido.

O bunker ficou em silêncio.

Maria estava parada na entrada da cozinha com a xícara na mão, olhando para a própria imagem aérea na tela. Beatriz ficou ao lado dela sem dizer nada.

Mike ficou de pé, de costas para a TV. Depois virou.

— Apagaram o rastro deles e jogaram em cima da gente. — A voz saiu seca, sem surpresa. — Era o plano desde o início.

— Meu nome está na TV — disse Maria.

— Está. — Ele ficou com ela por um momento. — O que muda é onde eles acham que você está. E não é aqui.

Ninguém respondeu. O peso do que tinham acabado de ver ainda estava fresco, a consternação tomando conta da sala em camadas — primeiro o choque, depois o entendimento, depois o silêncio pesado de quem sabe que não há nada a fazer a não ser continuar.

Foi Marcos quem quebrou primeiro, a voz mais baixa que o normal.

— E agora?

— Agora a gente trabalha — disse Maria, voltando para a bancada. Mas havia algo na voz dela que não estava completamente ali.

O clima ficou pesado, a energia que antes era de propósito agora dava lugar a uma tensão difusa. Ninguém sabia direito o que dizer. Mike estava de braços cruzados, encostado na parede, os olhos fixos em algum ponto distante. Apolo passou a mão no rosto, cansado. Os garotos trocavam olhares.

Beatriz foi quem moveu primeiro.

— Vou preparar mais café — disse ela, num tom que não era fuga, era cuidado. Pousou a mão no ombro de Maria por um segundo e foi para a cozinha.

O silêncio continuou, mas agora com uma textura diferente — menos paralisado, mais respirável.

E foi nesse silêncio que Mike se moveu.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...