Mike acordou às cinco e quarenta da manhã.
Não havia alarme — nunca havia. O corpo tinha relógio próprio, calibrado por anos de formação que não distinguia dia útil de domingo, missão de folga. De um instante para o outro estava acordado, os olhos abertos no teto baixo do bunker, a cabeça já somando o que havia e o que precisava acontecer.
Ficou deitado por exatamente trinta segundos ouvindo o ambiente. Zumbido do gerador. Silêncio nas partes corretas. Nenhum movimento além do seu.
Levantou.
Dobrou o cobertor com a precisão de sempre. Pegou as roupas — as do Apolo, que continuavam sendo as únicas que tinha — e foi ao banheiro sem fazer barulho. Lavou o rosto com água fria, escovou os dentes olhando para o nada, passou a mão pela barba que já havia passado do ponto que considerava aceitável.
Saiu e foi direto para a cozinha.
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A geladeira tinha pouco — tinha sempre pouco — mas havia ovos, o resto do pão de forma de dois dias atrás, queijo e uma maçã solitária que ninguém havia tocado. Mike ficou parado com a geladeira aberta por alguns segundos, avaliando o inventário com o mesmo olhar que usava pra avaliar recursos em campo.
Fechou a geladeira e foi até o armário.
Havia uma lata de café que Apolo guardava no fundo, atrás de tudo, como se esconder fosse proteger. Mike pegou, encheu a cafeteira, ligou no nível mais baixo pra não fazer barulho.
Enquanto o café passava, ele trabalhou devagar.
Limpou a mesa com um pano úmido — coisa que não era hábito, mas havia algo na noite de ontem que pedia um gesto diferente dessa manhã. Abriu o pão de forma, colocou no prato. Cortou o queijo em fatias mais ou menos iguais. Partiu a maçã em oito pedaços com uma precisão que revelava anos de facas em contextos muito mais sérios. Organizou tudo no centro da mesa com uma simetria que não era perfeccionismo — era o único jeito que ele conhecia de fazer as coisas.
A cafeteira apitou.
Encheu duas xícaras. Colocou as duas na mesa, depois voltou com o açucareiro — o pequeno, de vidro, que Maria usava toda manhã com uma colher exata.
Ficou olhando para a mesa por um segundo.
Não era grande coisa. Era pão velho, queijo fatiado e café passado às seis da manhã num bunker no interior do Rio Grande do Sul. Mas estava arrumado. E às vezes arrumado era o máximo que se podia oferecer.
Foi então que ouviu.
Do fundo do corredor — o som inconfundível de um chuveiro sendo ligado.
Mike olhou para a xícara de café ainda vazia na frente dele. Pegou a cafeteira e a encheu de novo, mais até a borda desta vez. Reorganizou o pão no prato dela. Ajustou o açucareiro dois centímetros à esquerda.
Depois sentou, cruzou os braços sobre a mesa e esperou.
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Maria chegou quinze minutos depois.
Cabelo úmido preso de qualquer jeito, calça cargo que era dela, a blusa que havia tirado do armário na casa do pai — simples, azul, que ficava um pouco grande nos ombros mas era dela e isso era suficiente. Os olhos ainda carregavam o cansaço de uma noite que claramente não havia sido boa, e havia algo na linha da boca que Mike reconheceu do dia anterior.
Ela ainda estava bicuda.
Ele não disse nada.
Maria entrou na cozinha, viu a mesa e parou por um segundo — tempo suficiente pra registrar que estava diferente do habitual, mas não tempo suficiente pra comentar. Puxou a cadeira, abriu o notebook pelo reflexo — a sequência automática de quem começa o dia sempre do mesmo jeito.
Mike esperou ela começar a levantar a tela.
Colocou a xícara de café na frente dela com a mão, pausando a abertura do notebook sem forçar. Só o peso da xícara na parte de cima, gentil mas claro.
Ela olhou para a xícara. Depois para ele.
Pegou a xícara.
Mike fechou o notebook com cuidado, pegou o próprio café e sentou na cadeira ao lado — não na de frente, onde ficava normalmente. Ao lado.
Maria tomou o primeiro gole em silêncio. Olhou para a mesa arrumada. Para o queijo. Para a maçã cortada em pedaços iguais.
Não disse nada. Mas algo na linha dos ombros mudou — quase imperceptível — como quando uma tensão decide que ainda não é hora de ir embora, mas recua um passo.
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O silêncio durou mais do que seria desconfortável entre duas pessoas que não se conhecessem. Entre eles tinha um peso diferente — não vazio, ocupado. Cheio de coisas que nenhum dos dois estava acostumado a dizer em voz alta.
Foi Mike quem quebrou.
— Ontem eu fui grosso.
Não havia introdução. Não havia preparação. Saiu como sempre saíam as coisas nele — direto, sem ornamento.
Maria não respondeu de imediato. Tomou mais um gole de café.
— Fui — disse ela.
— Não precisava ter sido daquele jeito.
— Não precisava.
Silêncio.
— Eu sei que aquilo custou — disse Mike, olhando para a xícara na própria mão. — O laboratório. A casa. — Uma pausa. — Eu devia ter reconhecido isso antes de abrir a boca.
Maria ficou olhando para o prato. Depois pegou um pedaço de maçã.
— O que você disse não estava completamente errado — disse ela, devagar. — Começou pelo laboratório do meu pai. Pelas pesquisas dele. Pela herança que eu assumi sem entender completamente o que estava assumindo.
— Isso não justifica o que eu disse do jeito que disse.
Ela o olhou de lado.
— Não justifica. — Concordou. — Mas não é mentira.
Mike ficou com ela por um momento — o olhar que avalia, que mede.
— Me conta sobre ele.
Maria parou o movimento com o pedaço de maçã no ar.
— Sobre o meu pai?
— Sim.
Ela pousou a maçã. Ficou em silêncio por alguns segundos, como quem decide quanto da resposta vai dar.
— Ele era teimoso — disse ela, por fim. — Do tipo que não pede ajuda, que não explica o que está fazendo até ter certeza do resultado. — Ela pausou. — Eu herdei isso.
— Eu percebi.
Ela o olhou com aquele meio sorriso que não chegava a ser sorriso.
— Ele dedicou a vida inteira àquelas pesquisas. Desde antes de mim. Minha mãe dizia que ele amava o laboratório mais do que qualquer outra coisa. Ela não estava muito errada. — Maria olhou para a xícara. — Mas ele me ensinou tudo que eu sei. Cada protocolo, cada método. Eu cresci dentro daquele laboratório. Era o único lugar onde eu entendia completamente o que estava acontecendo ao meu redor.
Mike ouviu sem interromper.
— Quando ele morreu — ela começou, e parou.
Ficou assim por um segundo.
— Quando ele foi morto — corrigiu ela, a voz saindo mais baixa mas mais firme. — Não foi doença. Não foi acidente. Meu pai foi assassinado. E até hoje ninguém foi responsabilizado. O inquérito foi arquivado em três semanas. — Ela o olhou de frente. — Isso não acontece por acidente.
O silêncio que se instalou era de natureza diferente dos anteriores.
Mike ficou imóvel. Não de surpresa — de processamento. A cabeça fazendo o que sempre fazia quando recebia informação nova: conectando, cruzando, buscando padrão.
— Quando? — perguntou ele.
— Quatro anos atrás.
— Antes ou depois de ele fechar o laboratório?
Maria o olhou com atenção diferente — como quem percebe que a pergunta não é aleatória.
— Dois meses depois. Ele havia lacrado tudo, guardado os cadernos, desligado os sistemas. Disse que precisava de tempo. Que estava vendo coisas que não estava pronto para entender.
— Ele te contou o que havia visto?
— Não completamente. — A voz saiu um pouco mais dura. — Ele dizia que me proteger era mais importante do que me explicar. — Ela pausou. — Eu nunca perdoei completamente isso.
Mike assentiu devagar. Não como quem concorda — como quem registra.
Ficou em silêncio por um momento.
— Eu também tive uma perda — disse ele, sem anunciar que ia dizer.
Maria virou levemente a cabeça.
— Uma namorada. Cintia. — O nome saiu sem dificuldade, que era talvez o sinal de que havia sido dito muitas vezes dentro da própria cabeça antes de chegar à voz. — Ela trabalhava pro governo. Assessoria direta da presidência.
— Quanto tempo?
— Três anos. — Mike tomou um gole. — Eu estava prestes a ser promovido. General de uma estrela. Não era o teto — eu queria mais — mas era o próximo degrau. A chácara em Caxias, a estabilidade, a promoção. Era o plano.
Maria ouviu sem interromper.
— Ela apareceu uma noite. Sem aviso. — Ele falou devagar, com a objetividade de quem narra algo que já foi processado muitas vezes mas que ainda tem peso. — Assustada. Disse que havia visto coisas que não devia ter visto. Que estava envolvida em algo grande demais. Que precisava sumir.
— Sumir como?
— Largar tudo. Mudar de cidade. Desaparecer da vida que tinha. — Ele pausou. — Me pediu pra ir junto.
O silêncio durou alguns segundos.
— E você não foi — disse Maria. Não era pergunta.
— Não fui. — A voz saiu sem autocomiseração, só com o peso de quem aprendeu a carregar uma decisão. — Eu tinha a promoção. Tinha a chácara. Falei que a gente podia resolver de outro jeito, que não precisava fugir, que ia passar. — Ele olhou para a xícara. — Ela ficou me olhando por um tempo. Depois começou a chorar. Disse que então estava acabado. Saiu correndo.
— Você foi atrás?
— Fui até a porta. — Mike ficou em silêncio por um segundo. — Ela entrou no carro e foi embora. Eu fiquei parado na entrada da chácara até a poeira assentar.
Maria não disse nada.
— Dois dias depois — ele continuou, a voz no mesmo tom de sempre, que era talvez a coisa mais pesada de todas — encontraram o carro dela na beira de uma estrada. Ela dentro. Motor desligado. Sem marca de acidente. Sem causa identificada no laudo inicial. — Ele ergueu levemente o queixo. — O inquérito foi arquivado em menos de um mês.
O silêncio que se instalou tinha a mesma textura do que Maria havia criado quando falou do pai.
Ela ficou olhando para ele por um momento.
— O mesmo padrão — disse ela, baixinho.
— O mesmo padrão — confirmou Mike.
Nenhum dos dois falou por alguns segundos. A cafeteira emitiu um som leve no canto — o tipo de som que faz quando esfria. Ninguém se mexeu para ligar de novo.
— Toda a rispidez — disse Maria, devagar. — Toda a casca.
Não era pergunta. Era uma conclusão chegando.
Mike olhou para ela.
— Não é desculpa — disse ele.
— Não é. — Ela assentiu. — Mas é explicação.
Ficou com ele por um momento.
— Ontem eu falei que tudo começou por sua causa. — A voz saiu diferente — não mais seca, não mais de campo. Havia algo abaixo dela que Mike claramente não estava acostumado a expor e que estava expondo assim mesmo. — Isso foi ignorante. Estúpido. — Ele pausou. — Você não é o laboratório. Você não é a herança do seu pai. Você é a pessoa que está carregando tudo isso e ainda consegue raciocinar quando eu já teria parado.
Maria ficou imóvel por um segundo.
Os olhos foram — a água subindo devagar, sem aviso, sem drama. Ela piscou uma vez, duas. Não segurou.
Levantou da cadeira.
Mike não teve tempo de recuar. Os braços dela foram ao redor dele — rápido, sem anunciar, com a urgência de quem decide e executa antes de pensar melhor.
Ele ficou parado por um segundo inteiro.
Havia algo no jeito que o corpo dele respondeu — não imobilidade de recusa, imobilidade de surpresa genuína. A do militar treinado para antecipar que simplesmente não havia antecipado aquilo.
Depois completou.
As mãos foram às costas dela, devagar, com o mesmo cuidado com que havia arrumado a mesa mais cedo. O abraço fechou — não com força, com firmeza. O tipo que não aperta mas que sustenta.
Ficaram assim por alguns segundos.
Quando ela se afastou, os olhos estavam vermelhos mas secos. Ela o olhou de frente — ele a olhou de frente — e havia algo naquele espaço entre os dois que nenhum dos dois tinha vocabulário para nomear e que ambos, por razões diferentes, não tentaram.
Maria desviou primeiro. Passou a mão pelo rosto, respirou fundo.
Mike se levantou. Levou a xícara até a pia, deu as costas por um instante enquanto lavava.
— É bom a gente resolver umas coisas — disse ele.
Maria ficou olhando para as costas largas dele — a camiseta do Apolo que continuava esticada nos ombros, ridícula e inevitável.
— Que coisas?
Ele secou as mãos no pano de prato. Pegou as chaves do furgão da bancada.
— Umas coisas que só eu posso resolver.
Ela assentiu — um movimento pequeno, certo. Porque conhecia Mike o suficiente pra saber que quando ele dizia isso, era exatamente isso.
Ele foi para a porta. Parou com a mão na maçaneta.
— O café tem açúcar. — Disse, sem virar. — Coloquei a quantidade que você usa.
Saiu antes que ela respondesse.
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O furgão percorreu a rodovia por meia hora antes de Mike virar para o atalho de terra que levava à chácara em Caxias do Sul. O caminho que havia feito centenas de vezes — saindo pela estrada lateral que cortava entre propriedades rurais e chegava num portão de metal com travamento duplo.
O portão estava fechado. Mas havia marcas de pneu frescas na lama do acostamento.
Alguém havia parado ali.
Mike desceu do furgão com a mão na cintura no seu revólver e abriu o portão com cuidado. Entrou a pé pelos primeiros cinquenta metros, avaliando o caminho. A chácara apareceu depois da curva — a construção de alvenaria, o alpendre, a garagem lateral.
A porta de madeira da entrada estava entreaberta.
Ele não havia deixado entreaberta.
Varredura metódica — cômodo por cômodo, ângulo por ângulo. Sala, cozinha, quartos, banheiro. Nada fora do lugar. Nada mexido de forma óbvia.
Mas Mike conhecia aquela casa de memória.
Foi a luz que denunciou. Duas das lâmpadas de teto refletindo de um jeito ligeiramente errado — um ângulo que não era do vidro, era de outra coisa.
Pegou a escada dobrável do corredor. Subiu. Examinou a base da primeira lâmpada com a lanterna.
Escuta eletrônica. Pequena, preta, fio fino indo para dentro do forro.
A segunda tinha outra.
Mike desceu a escada com o mesmo silêncio com que havia subido. Ficou parado no centro da sala, olhando para as lâmpadas no teto.
Depois foi ao quarto e abriu o armário.
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Trinta minutos para fazer as malas — duas grandes, método de quem sabe o que é essencial e não desperdiça tempo com o resto. Roupas, equipamentos de comunicação, documentos, uma caixa de metal fechada a cadeado que foi direto para o fundo de uma das malas sem pausa.
Na garagem, tirou a lona que cobria a moto.
A Harley Davidson estava como havia deixado — preta e prata, customizada ao longo de anos com modificações que não eram estéticas. Mike passou a mão no guidão, a verificação instintiva de quem checou aquele veículo mais vezes do que conseguia contar.
Voltou para dentro uma última vez.
Abriu a gaveta do quarto até encontrar o que procurava — coisas que havia deixado ali por nunca precisar levar pra campo. A camiseta preta com a caveira no centro, desbotada nas bordas por lavagens que não contou. A jaqueta jeans cinza escuro dobrada no fundo do armário, com os vincos de quem ficou parado tempo demais.
Tirou a camiseta do Apolo sem cerimônia.
Vestiu a camiseta preta vestiu a calça cargo preta de motoqueiro e calçou as botas de couro com o movimento automático de quem fez isso antes de cada saída em sua vida.
Encontrou seus óculos escuros que estavam de baixo da cama.
Pronto este era Mike Ferrer.
Ficou um segundo em frente ao espelho do banheiro.
Não era uniforme. Não era farda. Era o que sobrava quando tirava tudo que havia vestido por obrigação.
Era suficiente.
Pegou o galão de combustível que guardava para o gerador e percorreu os cômodos devagar — sala, cozinha, corredor — derramando com método, fazendo o rastro sair pela porta principal até o portão. A chácara que havia comprado com o primeiro salário de quando subiu de patente. O lugar onde havia planejado coisas que não se realizaram e onde havia parado de planejar.
Parou na entrada. Olhou para o interior uma última vez.
Acendeu um Cigarro e com o mesmo fósforo Jogou.
A chama correu pelo rastro com aquela velocidade que você aprende a calcular depois de ver uma vez. Mike foi para o furgão sem olhar para trás. Ligou o motor, saiu pelo caminho de terra, virou na estrada.
O estrondo chegou pelos retrovisores — baixo, pesado, o tipo que vai longe demais para ser ignorado.
Mike acelerou em direção a Santa Rosa.
Não havia mais nada em Caxias do Sul que fosse dele.
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