Capítulo 22: O Laboratório Esquecido
O fim das Memorias
Mike ficou de pé no centro do bunker e esperou.
Não precisou pedir silêncio. O tom do corpo bastava — aquela imobilidade específica que não era repouso, era preparação. Os quatro garotos pararam o que estavam fazendo. Apolo virou de frente. Maria levantou os olhos do computador.
— Antes de qualquer coisa. — Ele olhou para os celulares espalhados pela mesa como se olhasse para uma ameaça que ainda não havia se apresentado completamente. — A criatura estava conectada. Mente coletiva — o que ela captou dentro do campo, eles captaram junto. Não sabemos o quanto conseguiram ver antes de ela sumir, mas agora que a janela dela fechou, eles vão tentar abrir outra.
Ele apontou para os celulares.
— Nenhum aparelho ativo. Nenhum. A partir de agora, comunicação só pelos WalkToks, nas frequências que o Sérgio já calibrou. Celular ligado é sinal. E sinal eles sabem rastrear melhor do que a gente imagina.
Marcos olhou para o próprio celular. Olhou para Mike. Não disse nada, mas a expressão disse tudo.
— Por quanto tempo? — perguntou Jonathan.
— Até eu dizer o contrário.
Ninguém discutiu. Era o tipo de instrução que tinha lógica demais pra ter contra-argumento.
Mike virou para os quatro.
— Vocês ficam. — Disse do jeito que sempre dizia — sem espaço entre a frase e o fim da conversa. — Quando a gente chegar com o material do laboratório, preciso que esse espaço esteja pronto pra receber. Bancada central limpa, prateleiras livres no fundo, gerador na capacidade máxima. Qualquer equipamento que precisar de energia constante vai precisar de linha dedicada.
Sérgio já estava olhando para o espaço com os olhos de quem calcula antes de concordar.
— Dá pra fazer.
— Então faz.
Apolo pegou as chaves do furgão da bancada. Maria já estava de pé, o computador fechado embaixo do braço — o único pertence que havia carregado desde o início de tudo.
Mike foi o último a sair.
Na entrada, Marcos o parou com um olhar — não com palavras, só com a expressão de quem quer ir junto e sabe que não vai poder.
Mike não disse nada. Só fechou a porta do bunker atrás de si.
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O furgão pegou na segunda tentativa, tossindo uma vez antes de estabilizar. Apolo assumiu o volante. Mike no banco do passageiro. Maria no banco de trás, o computador no colo, os olhos na janela.
A estrada para o interior saía de Santa Rosa em linha reta por alguns quilômetros antes de começar a curvar entre lavouras e mata baixa. Quarenta minutos, Maria havia dito. Na prática, eram quarenta minutos de asfalto que ia ficando cada vez mais silencioso, cada vez mais distante do que qualquer um deles conhecia como rotina.
O furgão seguiu sem que ninguém sentisse necessidade de preencher o silêncio.
Foi Apolo quem falou, por volta do décimo minuto, sem tirar os olhos da estrada.
— Você foi lá depois que ele morreu?
Maria demorou um segundo.
— Não.
Apolo não perguntou mais nada.
O furgão continuou. A paisagem abriu numa planície larga, o céu pesado de nuvens baixas que não chegavam a chuva mas prometiam pressão.
Mike ficou olhando para a estrada até o fim.
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A propriedade apareceu depois de uma curva fechada — uma porteira de madeira velha, o caminho de terra batida que subia levemente até a casa. Térrea, paredes de alvenaria que já haviam visto décadas, varanda coberta com telha colonial. Ao redor, campo aberto com árvores esparsas, e nos fundos o que parecia um galpão mas não era.
Apolo parou o furgão na frente da porteira.
Os três ficaram parados por um momento.
Maria desceu sem falar. Abriu a porteira — o trinco estava enferrujado mas cedia, como se ainda soubesse a mão dela. Apolo avançou o furgão pelo caminho. Ela fechou a porteira atrás, caminhou até a varanda e parou na frente da porta principal.
A chave estava onde sempre esteve — sob a terceira pedra do lado esquerdo da soleira, onde o pai havia colocado uma vez porque perdia as chaves toda semana e nunca havia tirado de lá depois.
Ela abriu a porta.
O cheiro entrou antes da luz. Madeira, poeira assentada, e alguma coisa que não tinha nome — o cheiro específico de uma casa que não foi habitada faz tempo mas que ainda carrega as pessoas que viveram nela.
Maria ficou parada no batente por um segundo.
Depois entrou.
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Mike foi direto para os fundos. Apolo ficou na entrada por um instante, olhando para o interior da casa — os móveis cobertos por lençóis, os quadros ainda na parede, a xícara na prateleira da cozinha que alguém havia lavado e guardado e nunca mais usou.
Seguiu Maria.
Ela estava no corredor, em frente a uma porta fechada. Não era o quarto dela — era o escritório do pai. Ficou alguns segundos com a mão na maçaneta sem abrir.
Apolo parou atrás dela. Não disse nada. Só ficou.
Ela abriu.
O escritório era pequeno. Uma mesa, duas estantes, papéis organizados com a precisão de quem acreditava que ordem era uma forma de respeito pelo próprio trabalho. Na parede, um mapa do Rio Grande do Sul com marcações que Maria claramente conhecia — havia crescido olhando para aquele mapa. Sobre a mesa, um caderno fechado com uma fita marcando a última página escrita.
Maria foi até a mesa. Abriu o caderno no marcador.
A letra do pai era pequena, inclinada para a direita. Ela leu em silêncio por alguns segundos. Apolo não viu a expressão — só viu os ombros, e a forma como eles desceram levemente, como se um peso antigo tivesse sido posto no chão por um segundo antes de ser recolhido.
Ela fechou o caderno e o colocou embaixo do braço junto com o computador.
— Preciso de dez minutos no meu quarto — disse ela. — Depois a gente desce pro laboratório.
— Toma o tempo que precisar — disse Apolo.
Ela já estava andando pelo corredor.
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O quarto de Maria era o menor da casa — ela havia escolhido o menor quando criança porque tinha a melhor janela, com vista para a parte de trás da propriedade onde o campo encontrava a mata. A janela estava fechada. Ela abriu. A brisa entrou com cheiro de terra úmida.
Ficou parada por um segundo olhando o campo. Depois foi para o guarda-roupa.
Havia roupas que não usava faz anos junto com as que havia deixado na última vez que esteve ali. Separou o que era útil com rapidez — calças, camisetas, uma jaqueta que não havia levado porque havia saído de casa sem planejar ficar fora mais de um dia. Tudo em menos de cinco minutos, dobrado numa mochila que tirou da prateleira de cima.
Antes de fechar a mochila, pausou.
Foi até a mesinha de cabeceira. Abriu a gaveta. Dentro, entre uma caneta sem tampa e um bloco de notas velho, havia uma fotografia — ela e o pai, ela com uns doze anos, os dois na entrada do laboratório com expressões sérias porque o pai não sorria em foto mas havia deixado ela segurar a câmera com o timer automático e ficara sério por força do hábito. Ela segurava um caderno pequeno. Ele tinha a mão no ombro dela do jeito desajeitado de quem não sabia muito bem como demonstrar mas tentava.
Ela pegou a fotografia. Acariciou a borda com o polegar, devagar. Olhou fixo para os dois na imagem — o pai sério, ela com o caderno na mão — e deixou o ar pesar por três segundos. Depois pousou a foto de volta na gaveta, aberta, virada pra cima.
Fechou o guarda-roupa e saiu.
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A entrada do laboratório ficava nos fundos da casa, atrás do galpão — uma estrutura de concreto embutida no terreno que de fora parecia parte da fundação. Mike já havia encontrado a tampa de acesso quando Maria chegou. Estava de cócoras examinando o mecanismo de travamento com a atenção de quem avalia sem mexer até entender.
— Código ou chave? — perguntou ele.
— Código. — Maria digitou a sequência no painel embutido na lateral. — Era a data de nascimento da minha mãe. Ele nunca foi bom com senhas.
A tampa hidráulica se abriu com um rangido lento. Luzes automáticas acenderam em sequência pelo corredor de concreto que descia em leve inclinação — não bruscas como luz de emergência, mas as luzes de trabalho que o Dr. Eduardo havia instalado porque preferia trabalhar à noite e precisava de algo que não cansasse os olhos.
Os três desceram.
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O laboratório estava parado no tempo.
Não havia sinais de invasão, de vandalismo, de deterioração além do que o tempo faz por conta própria. As bancadas de aço estavam no lugar. Os equipamentos cobertos por panos de algodão, como alguém que arruma a própria casa antes de viajar sem saber que não vai voltar. Nos armários ao longo da parede, caixas numeradas com a letra pequena e inclinada do pai.
Maria ficou imóvel na entrada por três segundos.
Depois virou para os dois.
— Caixas numeradas de um a doze, parede direita — esses são os protocolos. — A voz saiu com a objetividade de sempre, mas havia algo abaixo dela que Mike reconheceu e não nomeou. — As caixas cinzas na bancada central são os equipamentos de análise. Os cadernos são quatro, estão no armário de chave preta no fundo. Precisamos de tudo.
— Quanto tempo temos? — perguntou Mike.
— Não sei. Mas não muito.
Não precisou de mais.
Mike foi para a parede direita. Apolo para a bancada central. Maria foi para o armário de chave preta.
O trabalho começou em silêncio — o tipo de silêncio de pessoas que não precisam coordenar em voz alta porque cada uma sabe o que está fazendo. As caixas foram sendo empilhadas perto da entrada. Os equipamentos embalados com o pano de algodão que os cobria, porque era o que tinham e era suficiente.
Maria encontrou os quatro cadernos exatamente onde havia dito. Segurou a pilha com os dois braços e ficou assim por um segundo — quatro cadernos que o pai havia preenchido ao longo de anos, cada um numerado na lombada com uma letra além do número, um sistema de indexação que só ele entendia completamente e que ela havia aprendido a decifrar ao longo de anos de conversas que não eram conversas, eram aulas que o pai não chamava de aulas.
Colocou os cadernos na mochila com cuidado.
Voltou para ajudar com o resto.
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Levaram quarenta minutos para esvaziar o laboratório.
Não tudo — havia equipamentos fixados nas bancadas que precisariam de ferramentas que não tinham, e havia o sistema de monitoramento integrado nas paredes que não sairia sem obra. Mas o que era portátil, o que era essencial, o que o Dr. Eduardo havia construído com as mãos e documentado em papel — isso saiu.
O furgão ficou pesado. Mike e Apolo fizeram três viagens cada pelo corredor de concreto. Maria ficou em cima organizando o carregamento na caçamba com a lógica de quem cresceu naquele laboratório e sabia o que era frágil e o que aguentava pressão.
Quando a última caixa foi colocada e a caçamba fechada, os três ficaram parados por um momento na frente do furgão.
O sol havia descido um pouco mais no céu. A propriedade estava quieta. O campo ao redor sem movimento, os pássaros que haviam voltado depois da chegada deles agora chamando de algum lugar na mata.
Maria foi até o banco de trás. Abriu a mochila e tirou o tablet — diferente do computador, menor, com uma capa preta simples que claramente não era de uso cotidiano.
Entrou no furgão.
Apolo entrou. Mike entrou.
O furgão saiu pelo caminho de terra em direção à porteira.
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— A gente conseguiu — disse Apolo, quando saíram na estrada. A voz tinha o peso específico de quem precisava dizer em voz alta para acreditar completamente. — Está tudo aqui. Os cadernos, os protocolos, os equipamentos. A gente tem base pra trabalhar de verdade agora.
Mike olhou pela janela do passageiro sem responder.
— Os garotos vão ter organizado o espaço — continuou Apolo. — Com o que a gente trouxe mais o que já está no bunker, dá pra montar um laboratório funcional. Não igual ao do Eduardo, mas funcional.
— Funcional é suficiente — disse Mike.
Maria estava no banco de trás com o tablet no colo. Os dois não haviam percebido que ela não havia dito nada desde que saíram da propriedade.
— Eles não vão achar nada lá — disse Apolo. — Mesmo que cheguem, não tem mais nada que interesse. A gente tirou tudo que importava.
— Quase tudo — disse Maria, sem levantar os olhos do tablet.
Apolo a olhou pelo retrovisor.
Maria estava digitando alguma coisa. Devagar, com a atenção de quem confirma antes de executar.
— Maria. — A voz de Apolo saiu com uma interrogação que não chegou a se formar em pergunta.
Ela apertou o botão.
O tablet emitiu um som — único, limpo, como uma confirmação de sistema. Depois uma voz sintética, calma como voz de sistema sempre é:
Sequência de contenção iniciada. Autodestruição em uma hora. Por favor, evacue o perímetro.
O furgão seguiu pela estrada.
Ninguém falou.
Apolo olhou para o retrovisor. Maria estava com os olhos na janela agora, o tablet com a tela ainda acesa no colo, a contagem descendo em números que ela não estava olhando.
Mike ficou olhando para a estrada à frente.
— Vamos — disse ela, em voz baixa. Como se respondesse uma pergunta que ninguém havia feito.
O furgão acelerou levemente.
O silêncio que se instalou era diferente de todos os anteriores. Não era o silêncio de quem não tem o que dizer. Era o silêncio de quem entende o que acabou de acontecer e respeita o peso disso sem precisar nomeá-lo.
Voltaram para Santa Rosa sem que ninguém dissesse mais uma palavra.
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O furgão parou na clareira quarenta minutos depois.
Os garotos já estavam na entrada — Marcos na frente, Jonathan logo atrás, Sérgio ao lado com o comunicador na mão, Josué um passo atrás como sempre. A clareira havia sido reorganizada: o caminho até a rampa estava limpo, e pela expressão de Sérgio era evidente que havia passado a última hora e meia coordenando os outros com a eficiência de quem nasceu para isso.
— Como foi? — perguntou Sérgio.
— Depois — disse Mike.
A descarga começou sem mais palavras.
Caixa por caixa, equipamento por equipamento, os quatro cadernos na mochila de Maria que ela mesma carregou sem deixar ninguém tocar. Os garotos integraram o ritmo sem precisar de instrução — Marcos e Jonathan na caçamba passando as caixas, Josué e Sérgio recebendo e levando para dentro, Apolo e Mike fazendo o trajeto mais pesado.
O bunker foi se enchendo.
A bancada central estava limpa como Mike havia pedido. As prateleiras do fundo, vazias. O gerador no limite. Sérgio havia pensado nos detalhes que ninguém havia pedido — fita numerada nas prateleiras, espaço delimitado no chão para as caixas maiores, a extensão de tomadas já posicionada onde os equipamentos precisariam de energia.
Mike olhou para o espaço reorganizado por um segundo.
Não disse nada. Mas o silêncio era o tipo que em Mike equivalia a aprovação.
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Quando a última caixa entrou e a caçamba fechou, o trabalho havia durado quinze minutos.
Os garotos foram ficando mais quietos à medida que o espaço tomava forma — havia algo na seriedade do que estavam construindo que chegava até eles sem que ninguém precisasse explicar.
Apolo saiu do bunker depois que tudo entrou. Veio com duas long necks na mão e encontrou Mike parado do lado de fora, encostado no furgão. Estendeu uma para ele.
Mike pegou sem comentar.
Os dois ficaram assim por alguns minutos — encostados no furgão, as long necks na mão, olhando para nada específico. O céu havia fechado de vez, as nuvens baixas.
— Ela não disse uma palavra no caminho de volta — disse Apolo, sem tom de acusação. Só de quem estava pensando em voz alta.
— Eu sei.
— Você sabe o que aquilo custou pra ela.
Mike tomou um gole. Ficou em silêncio por um momento.
— Sei.
Apolo olhou para a entrada do bunker. Dentro, pelas vozes abafadas que chegavam, Maria estava orientando os garotos sobre onde cada equipamento deveria ser posicionado — a voz técnica de volta, a objetividade de sempre, como se o laboratório pudesse ser reorganizado aqui e isso fosse suficiente.
— Ela nunca tinha voltado ao laboratório — disse Apolo. — Desde que o pai morreu. A casa ela ainda vinha, mas o laboratório do Eduardo — que um dia foi do avô dela também — nunca mais tinha sido aberto. Hoje foi a primeira vez.
Mike não respondeu.
Apolo olhou para ele de canto.
— Fala alguma coisa pra ela quando tiver oportunidade.
— Já falei o suficiente.
— Mike.
— Apolo. — A voz saiu no tom de quem encerra um assunto antes que ele comece. — O laboratório está aqui. Ela está bem. É o que importa agora.
Apolo abriu a boca. Fechou. Tomou a long neck.
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Maria saiu alguns minutos depois.
Ficou na entrada do bunker por um instante, olhando para os dois encostados no furgão. Depois desceu a rampa e veio até eles com os braços levemente cruzados sobre uma jaqueta de lã grossa — velha, grande demais nos ombros, claramente não era dela mas ela havia vestido assim mesmo.
— Está tudo organizado lá dentro — disse ela. — Os garotos fizeram bem. O Sérgio numerou as prateleiras.
— Eu vi — disse Mike.
Ela ficou parada por um momento.
— Quando a gente tiver descansado, precisamos começar pelos cadernos. Tem coisa que meu pai nunca digitalizou. Se Larkin ou quem quer que esteja com ele tiver acesso a registros anteriores, eles vão saber que existem. A gente precisa estar na frente.
— Amanhã — disse Mike.
— Pode ser que amanhã já seja tarde — rebateu ela, mais seca.
— Pode ser. Mas hoje não vai ser. Você não dormiu, eu não dormi, o Apolo dormiu numa cadeira. Amanhã.
Maria ergueu o queixo.
— Você age como se descanso fosse luxo.
— Profissional descansado erra menos — disse Mike. — Cansado não é trabalhar mais. É estragar o que já foi feito.
— Eu sei disso — ela cortou. — Não precisa falar comigo como se eu fosse recruta.
— Então para de agir como se fosse — respondeu ele, no mesmo tom.
O silêncio ficou mais pesado.
— Não precisa ser assim — disse ela, a voz mais baixa mas firme.
— Assim como?
— Assim. — Ela apontou para ele com a mão aberta. — Nesse tom. Como se tudo fosse ordem. Eu estou falando sobre o trabalho, Mike. Não estou te questionando.
— E eu estou respondendo sobre o trabalho — disse ele. — Amanhã. Ponto final.
Ela o encarou.
— Você está sendo grosso porque está com medo de admitir que a gente está atrasado. E está sendo grosso comigo porque é mais fácil do que admitir que tudo isso começou por minha causa.
Mike não desviou o olhar.
— Começou por sua causa — disse ele, direto. — Seu pai, seu laboratório, sua herança. A gente está aqui limpando o que sobrou.
As palavras bateram. Maria não respondeu de imediato. Os olhos marejaram — não chorou, mas a água subiu o suficiente para brilhar na luz baixa. Ela respirou fundo uma vez, como quem segura.
Ficou olhando para ele. Depois olhou para Apolo, em silêncio. Virou de novo para Mike.
Deu dois passos, tirou a long neck da mão dele sem pedir licença, e se afastou.
Foi até a porta do bunker e parou. De costas para os dois.
Foi então que o som chegou.
Distante — abafado, muito longe, mas inconfundível. Um estrondo baixo e pesado que durou menos de dois segundos.
Apolo e Mike viraram a cabeça na direção do som, instintivamente.
Quando voltaram os olhos para ela, Maria não tinha se virado. Continuava parada, de costas.
Levantou a long neck. Virou gole por gole, sem pressa, até esvaziar. Jogou a garrafa para trás sem olhar, a garrafa bateu no chão e rolou.
Entrou no bunker.
Ela entrou no bunker e passou direto pelos garotos sem dar boa noite.
Jonathan percebeu primeiro. Levantou os olhos dos cabos que organizava, viu a expressão dela — não triste, não brava, só fechada — e continuou finalizando as arrumações em silêncio. Marcos abriu a boca para falar, olhou para o Jonathan e desistiu. Sérgio apenas assentiu de leve quando ela passou, como quem entende que tem hora que não se pergunta.
Ela seguiu até o fundo, onde as prateleiras novas ainda estavam sendo montadas. Parou por um segundo olhando para os quatro cadernos empilhados na bancada, a mão pousou na capa do de cima por um instante e saiu.
Ouviram ao fundo a batida de uma porta. Seca. O som estalado de metal contra metal.
Ninguém se meteu.
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Lá fora, o silêncio entre Apolo e Mike durou mais do que o confortável.
Foi Apolo quem quebrou.
— A culpa não é cem por cento dela — disse ele, sem tirar os olhos do horizonte escuro.
Mike não respondeu.
Apolo virou de frente para ele.
— Você está agindo como se ela tivesse planejado tudo isso. Ela não planejou, Mike. Ela foi enganada.
— Enganada — repetiu Mike, no tom neutro de sempre.
— Enganada — confirmou Apolo, e agora a voz subiu um tom. — Ela acreditava de verdade que dali ia sair algo bom. Que ia tirar tecnologia que ia colocar o Brasil lado a lado com os Estados Unidos. Ela tinha o sonho idiota e bonito de ver o país dela fazendo história. Era ambição, sim. Mas era ambição limpa.
Mike ficou olhando para ele.
Apolo deu um passo à frente e colocou o dedo no peito dele.
— Se não fossem pessoas como você — disse ele — que sabotaram ela, que transformaram anos de estudo em motivo pra chacota, que pegaram a credibilidade de uma mulher que só queria entregar algo pro país dela e pisaram em cima... não haveria esse descaso. Não haveria essa pressão toda em cima dela.
Mike abriu a boca. Fechou. Poderia ter respondido na mesma moeda — era o que ele sempre fazia. Mas não fez. Ficou parado, os olhos fixos no chão por um segundo mais longo que o normal.
Apolo baixou a mão.
— Você escutou? — perguntou, mais baixo agora. — Aquilo ali... — ele fez um gesto vago na direção de onde o estrondo tinha vindo — ...é o passado dela explodindo. É ela abrindo mão de tudo pra entrar de cabeça na única coisa que hoje é a salvação da gente. A gente não tem noção do que vai acontecer daqui pra frente, Mike.
Mike abaixou a cabeça. Pela primeira vez naquela noite, os ombros desceram.
— Está ok — disse ele. — Eu entendi.
Apolo o estudou por um momento. Depois virou a long neck que ainda tinha na mão e tomou o último gole.
— Bom — disse ele. — Hoje eu não durmo aqui no bunker. Preciso da minha cama. Preciso do calor da minha namorada. Vou levar os garotos pra casa. E hoje... — ele olhou para a porta do bunker — ...você vai encarar o clima que você criou.
Mike assentiu uma vez.
— Ok.
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Apolo entrou no bunker. Mike veio logo atrás, os olhos procurando sem chamar — procurando onde ela estava, sem falar nada.
— Bora, garotada — disse Apolo, batendo palmas uma vez. — Vamos embora. O carro já tá ligado.
Mike olhou para ele por cima do ombro.
— O furgão deixa pra entregar amanhã no final da tarde. Tem umas coisas pra resolver amanhã.
Apolo balançou a cabeça que sim.
Jonathan, que estava enrolando o último cabo, levantou a cabeça.
— Meu pai não vai usar ele nesse final de semana não.
Mike virou para ele.
— Amanhã, antes do final da tarde, ele vai estar pronto pra ser devolvido.
— Ok — disse Jonathan.
Marcos passou por Mike a caminho da rampa e parou.
— Boa noite, tio Mike.
Mike olhou para ele. Um sorriso de canto — pequeno, quase imperceptível — apareceu. Passou a mão na cabeça do garoto, bagunçando o cabelo de propósito.
— Boa noite, Marcos.
Josué veio logo atrás, quieto como sempre.
— Boa noite, tio Mike. Boa noite pra todo mundo.
— Boa noite, Josué.
Apolo já estava na porta, com a mão na maçaneta. Olhou para dentro do bunker uma última vez.
— Talvez amanhã eu apareça aqui mais tarde do que o comum — disse ele. — Preciso resolver umas coisas com a Bia.
Mike estava encostado na bancada, os braços cruzados.
— Eu também tenho umas coisas pra resolver amanhã. Eu e o furgão. Mas com responsabilidade.
Apolo balançou a cabeça e abriu um sorriso curto.
— Boa noite, meu irmão.
— Boa noite.
A porta fechou.
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O bunker ficou em silêncio.
Mike ficou parado por alguns segundos olhando para a porta fechada. Depois foi até o banheiro no fundo.
Entrou, ligou o chuveiro e ficou parado debaixo da água quente sem se mexer. Não pensou nela. Não pensou em nada específico. Só deixou a água correr enquanto a cabeça processava o que tinha acontecido lá fora — a discussão, o dedo no peito, o estrondo distante, a long neck gole por gole.
Quando desligou o chuveiro, se enxugou ainda pensativo. Vestiu uma camiseta limpa, foi até a cozinha, abriu a geladeira e contou quantas long necks ainda tinham.
Fechou a geladeira. Na volta, parou no meio do salão e olhou para o laboratório montado — tudo organizado, as prateleiras numeradas pelo Sérgio, os quatro cadernos empilhados na central, os equipamentos do Dr. Eduardo cobertos e prontos.
Ficou olhando por um momento.
Depois virou e entrou para o quarto.
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