domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 30: Fé x Física — O Debate Infindável.

Capítulo 30: Fé x Física — O Debate Infindável.
O som que ainda está por vir.


O bunker ficou em silêncio depois da fala de Mike.

Ninguém discordou. Ninguém concordou. As palavras dele ficaram no ar, pesadas, como a chuva que caía lá fora batendo nas escotilhas gradeadas.

Foi Beatriz quem puxou o fio de volta. Ela ainda segurava a mão de Marcos, examinando o ferimento.

— Isso não é normal — disse ela, a voz baixa.

Todos olharam.

Ela soltou o curativo com cuidado. A gaze caiu. O ferimento — o corte que tinha sido aberto, ralado, sangrento — estava quase completamente fechado. Apenas uma linha rosa na palma da mão, como uma cicatriz de semanas, não de um dia.

— Isso foi ontem — continuou Beatriz. — Era pra estar inflamado. Dolorido. Suturando. Isso aí parece que faz duas semanas.

Marcos olhou para a própria mão. Abriu e fechou os dedos.

— Não dói nada — disse ele, honestamente surpreso.

Jonathan olhou para a mão do irmão. Depois para Beatriz. Depois para o teto de concreto, as escotilhas lá em cima.

— O que é normal? — perguntou ele, com uma calma que não combinava com o caos ao redor. — Depois de tudo que a gente viu... depois da fenda, das criaturas, da frequência, do que o Josué fez ontem... alguém aqui ainda sabe o que é normal?

O silêncio que se seguiu foi pesado. Não o silêncio de quem não tem resposta — o silêncio de quem percebe que a pergunta não tem mais sentido.

Foi Mike quem quebrou de novo.

— Eu sei. — A voz saiu baixa, diferente. Ele não olhou para ninguém. Ficou com os olhos fixos na xícara vazia à sua frente. — Quando eu era moleque, eu sabia o que era normal.

Todos se viraram para ele.

Mike nunca falava de si mesmo. Nunca.

— Eu fui criado num orfanato — continuou ele, no mesmo tom. — Depois fui adotado por um casal de batistas. Gente boa. Me deram teto, comida, uma cama. E me deram Deus.

Maria ficou imóvel.

— Eram batistas fervorosos — disse Mike, com uma ponta de nostalgia ou amargura — ou as duas coisas. — Toda semana na igreja. Oração antes das refeições. Bíblia na mesa de cabeceira. Aquele negócio de "confia no Senhor" pra tudo.

— O que aconteceu? — perguntou Sérgio, em voz baixa.

Mike demorou a responder.

— A vida aconteceu. — Ele ergueu os olhos. — Eu entrei pro exército. Vi coisas que nenhum sermão preparou. Perdi gente. Matei gente. E fui me afastando. Primeiro da igreja. Depois da oração. Depois da ideia de que alguém lá em cima estava escutando.

Foi nesse momento que ouviram.

TOC TOC TOC.

Três batidas secas na porta de ferro lá em cima. O som ecoou pelo duto de ventilação, abafado mas inconfundível.

Todos se entreolharam. Mike levantou da cadeira, a mão indo para a cintura por instinto. Apolo fez um gesto para ele esperar.

— Quem é? — gritou Apolo, subindo a rampa.

— Sou eu. Josué.

Apolo girou os cursores. A porta rangeu ao abrir.

Josué entrou.

Estava molhado. O cabelo escuro colado na testa, a mochila nas costas encharcada, a bermuda grudada nas pernas. Respirava fundo, como quem pedalou rápido para não se molhar mais do que já estava.

— Começou a chover mais forte lá fora — disse ele, descendo a rampa. — Não dava nem pra ver a estrada direito.

— Tá vendo? — Marcos apontou para o teto. — Eu falei que o céu tava estranho.

Josué deixou a mochila no chão, perto da parede. Olhou para o grupo reunido na cozinha. Percebeu o clima estranho — o rosto de Maria ainda levemente corado, a postura tensa de Mike, os garotos com os olhos baixos, Beatriz com a lixa ainda na mão.

— O que foi que eu perdi? — perguntou ele.

Ninguém respondeu de imediato. Foi Mike quem falou, retomando o fio da meada como se a porta nunca tivesse sido aberta.

— Agora eu não sei — disse ele, completando a frase que havia sido interrompida. — Eu queria ter a certeza que você tem, Josué. Mas não tenho. Só sei que... tem coisa acontecendo que não é só bala e frequência.

Apolo, que já vinha se segurando desde o início da conversa, não suportou.

— Ah, pelo amor de Deus — disse ele, a voz carregada de exasperação. — Tudo tem que ter um viés espiritual agora? A mão do moleque cicatrizou porque o corpo dele é jovem e saudável. A tal da "cura" que vocês estão chamando tem explicação biológica. E essa história de "frequência de Deus"... isso não é ciência. Isso é wishful thinking com verniz de laboratório.

Josué, que até então estava em silêncio, secando o cabelo com a barra da camiseta, ergueu a cabeça. A água escorria pelo pescoço, mas os olhos estavam secos e firmes.

— O senhor acha que tudo tem explicação, professor?

— Tudo tem explicação — respondeu Apolo, firme. — Pode ser que a gente não tenha descoberto ainda. Mas existe. Seja física, biologia, química. Não tem mágica. Não tem milagre.

— E a fenda? — Josué não recuou. — A criatura que eu vi sumir ontem? O senhor viu?

Apolo franziu o rosto.

— Fenômenos dimensionais são diferentes. Isso é ciência de ponta. Teoria das cordas, branas, buracos de minhoca. Não é... — ele gesticulou em direção a Josué — ...esse negócio de fé e oração que você trouxe.

— O senhor sabe qual era a frequência que a gente usou ontem? — perguntou Sérgio, se metendo na conversa.

Apolo o olhou.

— 963 Hertz. A chamada "frequência de Deus".

— Pois é. — Sérgio cruzou os braços. — E por que ela funcionou? Por que a UV-C funcionou? A gente não entende completamente, mas funcionou. Por que não pode ser os dois?

Apolo abriu a boca.

— Porque—

— Porque o senhor não quer, professor — completou Josué, com calma. — O senhor quer uma explicação que caiba no seu caixa de ferramentas. Mas e se a caixa de ferramentas for maior do que o senhor pensa?

O silêncio ficou tenso. A chuva lá fora batia nas escotilhas do bunker, um tamborilar constante que agora fazia parte da conversa.

Apolo olhou para Josué com uma expressão que oscilava entre a irritação e um raro brilho de admiração relutante. Ele não gostava de ser desafiado. E gostava menos ainda de não ter uma resposta imediata.

Foi Beatriz quem quebrou o gelo.

— E se a gente parar de tentar ganhar a discussão e começar a tentar entender o que tá acontecendo? — disse ela, com a praticidade de quem está acostumada a resolver problemas em vez de ganhar debates. — Josué, você veio de bike na chuva até aqui. Não foi por acaso. O que você tem pra dizer?

Josué se aproximou da mesa. Abriu a mochila. Tirou um caderno pequeno — capa de couro puída, páginas amareladas, o cheiro de tempo e uso.

— Meu caderno de decretos — disse ele, pousando sobre a mesa com cuidado. — Meu pastor me orientou há uns dois anos. Toda manhã eu escrevo orações. Decretos. Coisas que eu creio que vão acontecer. E leio em voz alta. Todo dia. Reforço.

— Reforço — repetiu Maria, o cérebro científico ligando. — Como um treino. Repetição. Condicionamento.

— Se o senhor quiser ver assim — disse Josué. — Eu vejo como fé praticada.

— E funcionou? — perguntou Marcos.

Josué olhou para a própria mão. Depois para a cicatriz na mão de Marcos.

— Funcionou.

— E o que seu pastor falou? — perguntou Jonathan.

— Ele disse que eu preciso ir além — respondeu Josué. — Que o que aconteceu ontem foi um sinal. E que... — ele hesitou — ...que talvez eu precise estar em outro lugar.

— Outro lugar como? — perguntou Apolo, já com o tom defensivo de volta.

Josué respirou fundo.

— Meus pais receberam uma ligação do Canadá. — A voz saiu mais baixa, como se ele mesmo ainda estivesse processando. — Uns pastores de lá pediram ajuda. Missão. E meus pais... aceitaram. Vamos nos mudar. Eu vou junto.

O bunker caiu em silêncio absoluto. A chuva lá fora batia nas escotilhas com mais força — ou era impressão.

Jonathan foi o primeiro a reagir.

— Você vai... sair do país?

— Pelo visto.

— Quando? — perguntou Marcos, com a voz trêmula.

— Não sei ainda. Mas logo. Talvez nas próximas semanas.

Apolo ficou branco. Acabara de debater com o garoto, de questionar cada uma das suas convicções — e agora descobria que ele ia embora. Que não haveria tempo para mais debates, para mais perguntas, para entender o que diabos estava acontecendo.

Ele não disse nada. Só pegou a xícara e foi até a pia. Virou as costas para todos.

Mike observou a cena em silêncio. Depois olhou para Maria.

Maria estava com o caderno de Josué nas mãos. Folheava devagar, os olhos percorrendo as páginas com uma atenção científica — mas havia algo além da ciência no jeito que ela tocava o papel.

— Essa frequência 963... — disse ela, pensando em voz alta. — A gente já sabe que estabiliza a estrutura molecular das criaturas. O que acontecer se a gente mantiver ela no ar? Continuamente?

— Uma barreira — disse Sérgio. — Como a armadilha magnética, mas... constante.

— Exatamente.

Apolo se virou da pia. Ainda estava irritado, mas a curiosidade científica falou mais alto.

— Você quer instalar caixas de som no bunker? Com a frequência rodando em loop?

— Quero — disse Maria. — Se a teoria do Josué estiver certa — ou mesmo se não estiver, se for só física — a frequência 963 desestabiliza as criaturas. Não vai impedir uma invasão, mas pode atrasar. Dar tempo.

— E se for os dois? — perguntou Josué. — Ciência e fé trabalhando juntas?

Maria olhou para ele.

— Aí a gente tem uma solução que não viria de nenhum dos dois lados sozinhos.

Apolo não respondeu. Mas não disse não.

Uma hora depois, as caixas de som estavam instaladas.

Não eram grandes — duas caixas portáteis, dessas de apresentação escolar, que Apolo tinha guardadas no fundo do armário há anos. Conectadas a um tablet velho, configuradas para tocar o arquivo de áudio de 963 Hertz em loop contínuo.

O som era baixo. Quase inaudível. Mas estava ali — uma vibração constante no fundo de tudo, como um zumbido que se sentia mais do que se ouvia.

Josué ficou parado no centro da sala, os olhos fechados, sentindo.

— É como uma oração sem palavras — disse ele, baixinho.

Apolo ouviu. Não comentou.

O relógio na parede marcava vinte para as oito.

— Vinte pras oito — disse Apolo. — É melhor levar vocês de volta.

— E amanhã a gente volta pra escola — disse Sérgio, com amargura.

— A gente — confirmou Apolo.

As despedidas foram rápidas. Josué foi o último a sair. Parou na rampa, olhou para o bunker, para as caixas de som, para Mike e Maria.

— Obrigado — disse ele. — Por ouvirem.

— Vai com Deus, moleque — disse Mike.

Josué subiu a rampa. Apolo girou os cursores. A porta de ferro se fechou com um baque surdo.

O som do Opala ligou lá em cima, no barraco, e se afastou pela estrada de terra molhada.

O bunker ficou vazio.

Mike e Maria ficaram.

O zumbido baixo da frequência 963 preenchia o ar.

Ela foi até o mapa na parede da sala de operações. Pegou um alfinete vermelho. Colocou em Alagoas.

— Mais um ponto — disse ela. — E não vai ser o último.

Mike foi até a parede oposta, onde ficava uma das escotilhas gradeadas. Olhou para o duto de ar, para a luz cinzenta que entrava lá de cima.

— Amanhã a rotina normal — disse ele, sem se virar. — Escola. Aula. Café. Como se nada tivesse acontecido.

— Como se — disse Maria.

Ele se virou.

Os olhos se encontraram.

O zumbido da frequência estava ali. Constante. Como uma respiração invisível.

— Isso não vai parar — disse Mike. — Até que a fenda seja fechada. Ou até que ela nos engula a todos.

Ninguém respondeu.

O zumbido continuou.

E todos pareciam ouvir, no fundo, o som do que ainda estava por vir.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...