Capítulo 1: O Convite do Interventor
Arco 3: Projeto Érebus
O silêncio no bunker pesava como uma mão sobre o peito de cada um. O portal triangular dourado atrás de Kairós pulsava devagar, como um coração de luz, projetando sombras que se alongavam pelas paredes de concreto. Ninguém se mexia. Maria segurava a respiração. Beatriz tinha as mãos frias. Os garotos, encolhidos no canto, pareciam estátuas.
Mike foi o primeiro a falar. Não se moveu, mas a voz saiu baixa e cortante.
— Guardião... interino? — Ele pesou cada palavra. — O que aconteceu com o titular do cargo?
Kairós ficou em silêncio por um instante. Seus olhos percorreram o ambiente com calma, como quem está acostumado a esperar antes de responder. Por um breve momento, seu olhar pousou no chão — numa marca circular e escura, como se algo tivesse sido apagado da existência. Um vazio perfeito.
Então ele desviou os olhos. Olhou para Apolo. Diretamente nos olhos dele. O rosto de Apolo ainda estava pálido do choque da batalha, das visões, de tudo o que tinham visto na fortaleza. Kairós sustentou o olhar por alguns segundos, como se lesse algo ali que ninguém mais conseguia ver.
Depois, com uma voz baixa e cansada, respondeu:
— Meu irmão, Chronos... desapareceu.
A frase caiu no bunker como uma âncora. Maria levou a mão à boca. Mas ali, no fundo do peito, algo se mexeu. Uma vibração fina, como uma corda esticada que alguém acabara de tocar. Ela já tinha ouvido aquele nome antes. Não em voz alta, não num livro. Mas em algum lugar dentro dela — numa noite silenciosa, num transe que ela nunca soube explicar. A palavra chegou antes de ele dizer. Mas ela não contou a ninguém. Não agora. Não ainda.
Apolo piscou, como se tivesse levado um soco.
— E por que você acha que nós temos algo a ver com isso? — Maria perguntou, dando um passo à frente. A desconfiança era evidente em seus olhos.
Kairós inclinou a cabeça.
— Porque vocês são os primeiros, em muito tempo, que conseguiram fazer barulho o suficiente para que eu os ouvisse. — Ele apontou com o queixo para o bracelete no pulso de Mike. — Este dispositivo. Ele não viaja pelo tempo. Ele rasga o tecido dele. Cada salto de vocês deixa uma cicatriz na realidade. E quando vocês abriram caminho por entre as dimensões como uma faca quente... eu ouvi.
Ele deu alguns passos lentos pela sala. Suas botas gastas quase não faziam som no concreto. Parou perto da mesa principal, e seus olhos encontraram novamente a marca escura no chão.
— Foi um desses gritos que me trouxe até a memória deste lugar. A memória de um roubo. — Sua voz mudou de tom, ficou mais grave. — Vocês conheceram um homem. Um russo. Desesperado. Assustado. Vocês o viram como uma vítima. E ele era. Mas ele também era um ladrão.
Kairós tocou a superfície da mesa com um dedo. O ar vibrou. Um holograma dourado surgiu, mostrando imagens fluidas como pinturas vivas: um templo colossal feito de engrenagens e luz, figuras encapuzadas em movimento, um pedestal onde glifos brilhantes flutuavam em dança lenta.
— O Templo do Tempo Serôdio. — A voz dele se tornou mais suave. — Na minha dimensão. É um lugar de equilíbrio, onde as memórias do que foi e os ecos do que pode ser são guardados. — A imagem focou nos glifos. — Estas não são apenas chaves para viagens. São atalhos fundamentais para as leis da física. Cada um é um "dízimo" pago pela realidade para se manter coesa.
A cena mudou. Dois homens invadindo o templo. Um deles arrancou os glifos do pedestal com as mãos nuas. O holograma tremeu.
— Ele não sabia o que estava roubando. A KGB ameaçou a família dele, e ele obedeceu. Ele e seu parceiro. — A imagem mostrou a fuga para um portal instável. — Na tentativa de voltar, a realidade exigiu seu pagamento. O parceiro dele foi... fundido. Parte dele ficou aqui, parte ficou lá. Ivan escapou com os glifos, mas trouxe o caos consigo.
Kairós desfez o holograma com um gesto.
— Estou aqui por dois motivos. — Ele ergueu os dedos. — Recuperar o que foi roubado. E entender o que vocês viram lá dentro.
Apolo estremeceu ao ouvir a referência à fortaleza.
— Você viu também? — perguntou, a voz falhando.
— Não preciso ver. — Kairós baixou a mão. — Eu sinto. O que vocês viram — seres que mudam de forma, sombras que se vestem de carne — são habitantes da Dimensão Dois. A prisão que foi criada para eles.
— E agora a prisão está com os portões abertos — Mike disse, a mandíbula tensa.
— Pior. — A voz de Kairós ficou ainda mais grave. — Eles estão sendo convidados a entrar. Aqueles seres são peões de uma vontade maior. Uma consciência que busca reescrever a criação à sua própria imagem. Nós o chamamos de Demiurgo.
Maria franziu a testa.
— Demiurgo?
— Um arquiteto que não construiu a casa, mas acha que pode reformá-la melhor. — Kairós a encarou. — O projeto da CIA é um ritual para dar a ele um ponto de entrada neste plano. E com Chronos fora do caminho, não há mais um sistema imunológico para combatê-lo.
Beatriz falou pela primeira vez.
— Você disse que é o guardião interino. Por que não pode impedi-lo?
Kairós olhou para ela com respeito.
— Porque eu sou Kairós. — Sua voz pareceu ecoar. — Eu governo os momentos, as oportunidades. Meu irmão governava a linearidade — o rio do tempo. Eu posso abrir uma porta no meio de uma tempestade, mas não posso impedi-la.
Ele se virou para Mike e Apolo.
— Vocês entraram naquela fortaleza como um meteoro. Deixaram rastros. Fizeram barulho. Mas não entenderam o que enfrentavam. — Ele estendeu a mão sobre o bracelete de Mike, e os glifos brilharam em resposta. — Vocês têm as chaves, mas não sabem lê-las. Para enfrentar o Demiurgo, precisam entender as regras que ele está quebrando.
O tom de Kairós mudou.
— Mike. Apolo. — Ele os chamou pelo nome. — Venham comigo para a Dimensão Quatro. Venham ao Templo do Tempo Serôdio. Deixem-me mostrar o que vocês realmente carregam no pulso. Ensiná-los a usar essas chaves com precisão — não como quem arromba uma porta, mas como quem a destranca.
— Não! — Maria exclamou, entrando na frente. — Eles acabaram de voltar. Você não pode levá-los para outro universo!
— Ele é nossa única chance, Maria. — Apolo falou, e sua voz tinha uma nova qualidade. — Nós vimos o que está lá fora. A física que eu conheço não se aplica mais. Precisamos de um novo manual.
Mike olhou para Kairós.
— O que garante que podemos voltar?
Kairós sustentou o olhar dele.
— Eu sou a garantia. — Não havia arrogância em sua voz, apenas certeza. — Meus caminhos são estáveis. Vocês irão. Voltarão. Isso é um fato.
Mike respirou fundo. Olhou para sua equipe. Viu a determinação em Apolo, o medo em Maria, a confiança em Beatriz. Os garotos atrás, apertados uns contra os outros.
— Tudo bem. — A voz saiu firme. — Nós vamos
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