domingo, 7 de junho de 2026

Capítulo 20: Todos para a Floresta.

            Protocolo Vértice - Conspiração Extradimensional 
                                 Arco - 2 O Despertar do Vazio 


Capítulo 20: Todos para a Floresta

A última solda esfriou perto das nove da noite.

Apolo encostou o ferro na bancada, limpou as mãos no pano e olhou para o emissor UV-C que havia passado horas montando. Funcionava. Testado duas vezes, confirmado nas duas. Ao lado dele, o segundo emissor — idêntico, construído com as peças que havia trazido na caixa grande da tarde.

Mike estava encostado na parede com a long neck quase no fim, observando tudo com aquela expressão que não era aprovação nem reprovação — era avaliação permanente.

Maria fechou o computador pela segunda vez naquele dia e espreguiçou os braços acima da cabeça sem cerimônia.

— Então — disse ela. — Temos os emissores.

— Temos os emissores — confirmou Apolo.

Silêncio satisfeito por alguns segundos.

Foi Marcos quem quebrou.

— Eu tenho uma ideia.

Ninguém respondeu de imediato. O histórico de ideias do Marcos era variado o suficiente pra gerar aquela fração de segundo de hesitação coletiva.

— Pode falar — disse Apolo, com a paciência de quem está acostumado.

Marcos se levantou do chão onde estava sentado e foi até a bancada.

— Frequência. — Ele disse a palavra como se ela resolvesse tudo sozinha. — Se essas criaturas vêm de outra dimensão, elas respondem a estímulos que a gente não consegue ver. Mas frequência... frequência atravessa tudo. É física básica.

— Marcos — disse Sérgio, com o tom de irmão mais velho que sabe quando parar.

— Deixa eu terminar. — Marcos não desacelerou. — Tem faixas de frequência que simulam presença humana. Entre 4 e 8 Hz. Baixíssimas. Se a gente emitir isso, atrai. E tem frequências mais altas que desestabilizam estrutura molecular — especialmente em matéria instável. Como elas.

O silêncio que se seguiu era diferente do anterior.

Jonathan, que havia ficado quieto o tempo todo, olhou para o irmão com algo entre orgulho e alívio — como quem esperava que alguém finalmente dissesse em voz alta o que os dois já discutiam há tempo.

— Todos os nossos projetos de ciências nos últimos dois anos são sobre frequência — disse Jonathan, a voz mais firme que o normal. — Todos.

— Por causa de quem? — perguntou Maria, genuinamente curiosa.

Os dois irmãos trocaram um olhar rápido.

— De uma pessoa — disse Marcos. — Não vem ao caso agora.

Havia algo no tom que fechava aquela porta sem explicação. Ninguém insistiu.

Mike olhou para os dois por um momento. Depois olhou para a long neck vazia na sua mão, colocou ela na bancada e cruzou os braços.

— E você sabe construir isso? — perguntou, direto pra Marcos. — Não teorizar. Construir.

Marcos abriu a boca.

— Eu ajudo — disse Jonathan, antes que o irmão respondesse. — A gente constrói.

Havia algo diferente na voz de Jonathan. Não era a animação do Marcos — era algo mais quieto e mais firme. A chateação de quem está acostumado a não ser levado a sério e decidiu que dessa vez ia provar sem pedir licença.

Mike olhou para ele por um segundo. Não disse nada. Só afastou levemente da bancada pra dar espaço.

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A próxima hora e meia foi barulhenta, concentrada e cheirando a componentes eletrônicos.

Marcos e Jonathan vasculharam as prateleiras do bunker com a determinação de quem sabe o que está procurando — um gravador antigo que Apolo guardava sem razão aparente, um amplificador portátil de som, cabos, um pequeno alto-falante desmontado, uma placa de circuito que havia sobrado da construção dos emissores. Juntaram tudo na mesa e começaram.

Do outro lado da bancada, Apolo e Sérgio trabalhavam na armadilha magnética multipolar — uma estrutura de contenção portátil que Sérgio havia esboçado em papel durante a tarde enquanto fingia prestar atenção em outra coisa. A ideia era simples na teoria: um campo eletromagnético suficientemente concentrado pra imobilizar uma estrutura instável como a das criaturas, compacto o suficiente pra ser carregado até a mata e depois trazido de volta ao bunker como câmara selada.

— Vai segurar? — perguntou Apolo, enquanto ajustava os polos.

— Não sei — respondeu Sérgio, com a honestidade direta de quem prefere não prometer o que não pode garantir. — Mas a lógica está certa.

Mike observava tudo do seu canto. Sem ajudar, sem atrapalhar. Só vendo.

Maria havia reaberto o computador pela terceira vez — desta vez não pra hackear nada, mas pra cruzar os dados que já tinha com a teoria das frequências de Marcos. Quanto mais lia, menos descartava.

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Foi perto das dez e meia que o comunicador chiou.

Não era nenhum deles.

Sérgio foi o primeiro a reagir — ajustou a frequência por instinto, e a voz veio mais clara. Fria. Organizada. Dando instruções a alguém que não respondeu em nenhum momento que eles puderam ouvir.

Era Larkin.

*— Setor confirmado. A expansão está dentro do esperado. Mantenham o perímetro Norte fechado até a nova ordem. Qualquer interferência externa deve ser contida. Não eliminada. Contida.*

Uma pausa.

*— Eles ainda não entendem o que estão vendo. Isso trabalha a nosso favor.*

O comunicador chiou de volta ao silêncio.

Ninguém no bunker falou por alguns segundos.

— "Eles" — repetiu Jonathan, baixinho.

— A gente — disse Marcos, com uma seriedade que não combinava com a forma que ele normalmente falava.

Mike tirou os olhos do comunicador e olhou para Apolo.

Apolo assentiu uma vez, devagar — o gesto de quem compreende sem precisar traduzir.

— Então a janela é agora — disse Mike. — Antes que fechem o perímetro.

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As armas ficaram prontas quarenta minutos depois.

A arma de frequência era feia. Um gravador antigo com o mecanismo interno reconfigurado, conectado ao amplificador portátil por dois cabos coloridos diferentes que Marcos havia identificado com pedaços de fita isolante. O alto-falante ficou preso à estrutura com abraçadeiras. Parecia exatamente o que era — algo construído às pressas por dois adolescentes num bunker.

Mas quando Marcos testou a faixa de 4 Hz, o ar ao redor vibrou de um jeito que todos sentiram antes de ouvir.

Mike ficou olhando para o dispositivo por um momento.

Não disse nada.

A armadilha magnética multipolar era mais sólida — Apolo e Sérgio haviam conseguido montar uma estrutura de metal que fechava em torno de um ponto central, com os polos distribuídos pra criar um campo uniforme quando ativada. Cabia numa mochila grande. Funcionava com bateria de carro portátil que Apolo havia guardado havia anos sem saber por quê.

Maria testou a lanterna UV-C improvisada pela última vez. A luz branco-azulada cortou o ar do bunker e todos desviaram os olhos instintivamente.

— Funciona — disse ela. Não era comemoração. Era confirmação.

Mike olhou para os três dispositivos alinhados na bancada. Depois olhou para os três garotos.

— Vocês não vêm.

Marcos abriu a boca.

— Marcos. — Só o nome. No mesmo tom de sempre.

Marcos fechou a boca.

Jonathan não disse nada. Mas havia algo nos olhos dele — não raiva, não resignação. Era outra coisa. A consciência de que o que os dois haviam construído estava prestes a ir pra campo, e isso era suficiente.

— Ficam nos comunicadores — disse Apolo. — Qualquer coisa que a gente precisar, vocês estão na linha. Entendido?

— Entendido — disse Sérgio.

Os outros dois assentiam.

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Apolo levou os três no carro pelas ruas escuras de Santa Rosa. Pouco antes de meia-noite, parou na frente da casa de Marcos e Jonathan primeiro. Os dois desceram sem muito barulho — a cidade estava quieta, as janelas apagadas.

Marcos parou na calçada e olhou pro carro antes de entrar.

— Não estraguem a arma — disse ele.

Apolo riu baixinho.

— Vai dormir, Marcos.

Na casa do Sérgio — que era a mesma casa do Apolo — o irmão mais novo desceu, já com o comunicador na mão.

— Estarei na escuta — disse ele, com uma voz que tinha mais de vinte anos do que os dezessete que tinha.

Apolo não respondeu. Pousou a mão no ombro dele por um segundo. Depois foi embora.

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O carro parou na beirada da mata quinze minutos depois.

Mike já estava fora antes do motor apagar, a arma de frequência a tiracolo, a armadilha magnética multipolar na mochila nas costas. Apolo saiu logo depois. Maria foi por último, a lanterna UV-C improvisada na mão, os olhos já se ajustando ao escuro entre as árvores.

O comunicador de Apolo chiou suavemente.

— Três na escuta — disse a voz de Sérgio, de casa. Quieta. Pronta.

— Recebido — respondeu Apolo. — Silêncio de rádio a partir de agora. Só se a gente chamar.

— Entendido.

Os três entraram na mata.

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A floresta de Santa Rosa à meia-noite tinha um silêncio que não era ausência de som — era presença de outra coisa. As árvores absorviam o ruído, o chão úmido abafava os passos, e o ar tinha aquele peso que Mike havia sentido pela primeira vez no túnel do laboratório.

Ele caminhou na frente. Maria no centro. Apolo fechando.

Avançaram por uns trezentos metros sem nada. Só o farfalhar das folhas e a respiração de três pessoas que sabiam o que estavam procurando e preferiam não encontrar rápido demais.

Foi Mike quem fez o sinal — punho fechado, parada imediata.

Todos congelaram.

No ar à frente, uma vibração. Não visual. Sensorial. O tipo de coisa que os pelos do braço registram antes dos olhos.

Mike ativou a arma de frequência no nível mais baixo — 4 Hz. O dispositivo feio e improvisado dos dois irmãos vibrou na sua mão, e o ar ao redor respondeu com aquela mesma presença que haviam sentido no teste do bunker.

Apolo ficou à esquerda. Maria ficou—

O portal abriu atrás dela.

Não havia aviso. Não havia som. Uma fenda azul e pulsante se abriu a menos de um metro das costas de Maria, e a criatura começou a emergir dela — baixa, curvada, os olhos vermelhos já fixos.

Mike se moveu antes de qualquer pensamento.

Três passos e ele estava entre Maria e a criatura, a arma de frequência apontada, o corpo como barreira. Maria recuou um passo — não de covardia, mas de ajuste de posição — e levantou a lanterna UV-C com a precisão de quem calculou o ângulo antes de ter medo.

A criatura oscilou.

Mike aumentou para a faixa alta na arma de frequência. O dispositivo gritou num tom que não era exatamente audível mas que se sentia nos dentes, nos olhos, na base da nuca.

A criatura gritou de volta — aquele som que não era dor mas era outra coisa, mais funda, mais antiga.

Apolo ativou a armadilha magnética multipolar e jogou a estrutura à frente, no espaço entre todos eles. Os polos se abriram, o campo se instalou no ar com um zumbido baixo e constante.

— Agora! — disse Mike.

Maria disparou a lanterna UV-C em cheio.

A luz branco-azulada envolveu a criatura. Ela se contorceu, os contornos tremularam, e então — como se algo essencial tivesse cedido — ela colapsou para dentro do campo magnético, imobilizada, os olhos vermelhos piscando de forma irregular.

Apolo fechou a armadilha.

O campo selou.

O silêncio voltou para a floresta.

Os três ficaram parados por alguns segundos, respirando.

Mike olhou para a arma de frequência na sua mão. Para o dispositivo remendado com fita isolante e abraçadeiras que dois irmãos haviam construído num bunker em menos de duas horas.

Não disse nada.

Mas guardou o dispositivo com um cuidado que não havia usado quando pegou.

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De volta ao bunker, colocaram a armadilha magnética multipolar — agora câmara selada — sobre a bancada central. A criatura dentro pulsava de forma irregular, os contornos escurecendo progressivamente.

Apolo acionou o comunicador.

— Missão concluída. Todos bem.

A linha explodiu.

— *Sério?!* — a voz de Marcos veio alta demais pra meia-noite.

— Conseguiram?! — Jonathan, mais contido mas igualmente desperto.

— *Funcionou?* — Sérgio, já mais técnico. — *A armadilha segurou?*

— Segurou — disse Apolo. — A arma de frequência também.

Uma pausa do outro lado.

Depois, a voz de Jonathan — quieta, direta:

— *E funcionou mesmo. Não foi sorte.*

— Não foi sorte — confirmou Apolo.

Mike estava de costas para o comunicador, olhando para a criatura na câmara selada. Mas Apolo o viu levantar levemente o queixo — o gesto mínimo de quem reconhece algo sem estar pronto pra dizer em voz alta.

Era suficiente.

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A celebração foi curta e honesta — o tipo que acontece entre pessoas cansadas que sabem que o trabalho não acabou. Maria abriu uma das long necks que sobraram, tomou um gole e passou pra Apolo. Mike não pegou. Ficou olhando para a câmara selada com a atenção de quem está calculando quanto tempo têm.

— Está se desfazendo — disse Maria, já de volta ao computador, os olhos nos dados que a câmara transmitia. — A estrutura molecular está colapsando. A combinação do UV-C com a frequência alta acelerou o processo. Em poucas horas não vai sobrar nada.

— Então precisamos estabilizar — disse Mike.

— Sim. — Maria ficou em silêncio por um momento. Depois, como quem lembra de algo que estava guardado fundo: — Meu pai tinha um laboratório. Antigo, numa propriedade da família aqui em Santa Rosa. Equipamentos que ele desenvolveu antes de mim, antes de tudo isso. Alguns deles eram voltados especificamente pra preservação de matéria instável. — Ela olhou para a câmara. — Se ainda estiverem lá... talvez a gente consiga segurar ela tempo suficiente pra estudar.

Apolo olhou para Mike.

Mike olhou para a câmara.

— Quanto tempo a gente tem?

Maria analisou os dados por mais alguns segundos. Depois afastou levemente o computador.

— Não sabemos quanto tempo exato. A câmara está segurando, mas a taxa de colapso é irregular. Pode ser horas. Pode ser mais.
Mike ficou olhando para a câmara selada por um momento. Depois virou.

— Então a gente descansa. Amanhã é sábado. Com os garotos aqui e a cabeça no lugar, a gente consegue avançar.

Apolo assentiu devagar, encostando na bancada com o peso de quem já estava operando no limite faz tempo.
— Vamos descansar. — Fez uma pausa curta. — Ou pelo menos tentar.

O bunker ficou em silêncio.
A câmara selada pulsava baixinho no canto — a criatura dentro, imóvel, os contornos ainda tremulando numa frequência que nenhum dos três conseguia ignorar completamente.

Mas era o que tinham. E por essa noite, era suficiente.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...