domingo, 7 de junho de 2026

Capítulo 19: Preparativos para o Primeiro.

 
                                        Capítulo 19: Preparativos para o Primeiro.
Contato Direto.

Mike acordou antes do sol. Não era hábito, era formação. O corpo dele não sabia dormir até tarde, independente do que tivesse acontecido na véspera.

Ficou alguns segundos deitado, olhando para o teto baixo do bunker, organizando o que era real e o que poderia ter sido sonho. Não era sonho. Os tiros atravessando aquela coisa sem deixar marca. As fendas pulsando no ar como feridas abertas na realidade. Tudo muito real.

Levantou.

Dobrou o cobertor, arrumou o espaço com a precisão automática de quem fez isso em acampamentos, quartéis e lugares piores do que um bunker no interior do Rio Grande do Sul. Foi até o banheiro, abriu o chuveiro e ficou embaixo da água fria por mais tempo do que precisava — não por conforto, mas porque era o único momento em que o cérebro podia processar sem precisar agir.

Quando saiu, foi até a cadeira onde havia deixado as roupas do Apolo na noite anterior. A farda estava dobrada sobre o encosto, mas ele não a vestiu. Pegou a calça cargo escura e a camiseta cinza que Apolo havia separado.

A calça serviu. A camiseta não.

Não era culpa do Apolo — os dois tinham a mesma altura, o mesmo quadro. O problema era que Mike carregava no tronco uns quinze anos de treinamento que Apolo havia trocado por uma sala de aula. O tecido esticou nos ombros, fechou no peito, e ele puxou a gola uma vez antes de desistir de ajustar.

Seguiu para a cozinha improvisada no canto do bunker. Estava sozinho. O único som era o zumbido baixo do gerador e o ruído da cafeteira esquentando.

Estava enchendo a segunda xícara quando ouviu passos.

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Maria entrou com o cabelo ainda úmido, preso de qualquer jeito, e o computador embaixo do braço. Não disse nada. Foi direto para a mesa, abriu o computador, e colocou uma xícara vazia ao lado — com a naturalidade de quem não está pedindo, só indicando.

Mike olhou para a xícara. Olhou para ela.

Ela já estava digitando.

Ele pegou a cafeteira e encheu a xícara dela sem comentar. Depois foi sentar do outro lado da mesa, as mãos em volta da própria xícara, os olhos percorrendo o bunker com o instinto de quem avalia ambiente mesmo sem precisar.

Alguns minutos se passaram em silêncio.

— Obrigada — disse ela, sem tirar os olhos da tela.

Ele assentiu.

Maria voltou para o computador. Mas não digitou nada por um momento.

— As roupas do Apolo ficaram... — ela começou, e então parou, como se tivesse decidido não terminar a frase.

Mike olhou para ela.

— Ficaram o quê?

— Nada. — Ela levantou o café até os lábios, e havia algo no canto da boca dela que não era exatamente um sorriso, mas chegava perto.

Mike olhou para a camiseta esticada no próprio peito, depois voltou para ela.

— Fala.

— É que ficou um pouco... — ela virou levemente a tela do computador, fingindo ajustar o ângulo. — Pequena.

— Apolo é mais magro.

— Não é magro, é normal.

— Eu também sou normal.

Dessa vez ela não escondeu. Riu — rápido, baixo, o tipo de riso que escapa antes da pessoa decidir se vai deixar sair. Ela cobriu com a xícara imediatamente.

Mike ficou olhando para ela por um segundo. Depois tomou o café.

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A manhã foi passando com aquela lentidão específica de quando duas pessoas dividem um espaço fechado e ainda estão aprendendo os limites uma da outra.

Maria trabalhava. Mike revirava prateleiras, catalogava o que havia disponível, anotava em papel — não confiava em dispositivo nenhum dentro daquelas paredes desde que soubera da CIA.

Em algum momento ela falou sem tirar os olhos da tela:

— Você sempre foi militar?

— Sempre.

— Desde quando?

— Dezoito anos.

Ela processou isso.

— Então você nunca teve um plano B.

— Não precisei.

— Isso não te assusta?

Mike pousou o que tinha na mão e olhou para ela.

— O que deveria me assustar nisso?

— Depender de uma coisa só. — Ela ainda não havia olhado para ele. — Se um dia essa coisa desaparecer, você não tem mais nada pra se segurar.

O silêncio durou mais do que o habitual.

— E você? — disse ele. — Herdou um laboratório, construiu uma carreira em cima dele, e agora ele tá nas mãos de quem quer te ver presa ou morta. Qual dos dois tá mais exposto?

Maria parou de digitar.

Ficou assim por alguns segundos. Depois retomou, mais devagar.

— Ponto — disse ela, baixinho.

Mike voltou para as prateleiras. Mas o silêncio que ficou era diferente do anterior — menos estranho. Mais habitado.

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Perto do meio-dia, Maria fechou o computador pela primeira vez desde de manhã.

— Preciso comer alguma coisa.

Mike já estava na geladeira. Tinha pouco — pão de forma, queijo fatiado, duas latinhas de refrigerante que provavelmente eram do Apolo. Ele montou dois sanduíches sem perguntar preferências e colocou um na frente dela.

Ela olhou para o prato.

— Você faz isso sempre? Agir antes de perguntar?

— É mais rápido.

— E se eu não comesse queijo?

— Você come.

Ela abriu a boca, fechou. Pegou o sanduíche.

— Tá bom.

Comeram em silêncio. Lá fora — se é que existia um lá fora dentro do bunker — o dia seguia sem que eles soubessem direito como estava o tempo, que horas eram de verdade, se o mundo além daquelas paredes ainda funcionava da forma que sempre funcionou.

Mike ficou olhando para o nada por um instante.

— Você acredita que tem solução pra isso? — perguntou ele. Não havia dúvida genuína na voz. Era o tipo de pergunta que um general faz quando quer calibrar quem está do seu lado.

Maria terminou de mastigar antes de responder.

— Acredito que tem. Mas não tenho certeza se a gente vai encontrar a tempo.

— Essa diferença importa?

— Pra mim importa. — Ela o olhou de frente pela primeira vez naquela manhã, sem desviar. — Eu prefiro trabalhar com o que é real do que com o que eu gostaria que fosse verdade.

Mike ficou com ela por um momento — o olhar que avalia, que mede.

— Eu também — disse ele.

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Foi por volta do meio da tarde que o comunicador na mesa vibrou.

A voz de Apolo chegou pelo aparelho antes mesmo de Mike atender.

— Buscando o pessoal agora. Chego em uns trinta minutos.

Mike apertou o botão.

— Entendido.

Pousou o aparelho e olhou para Maria, que já havia reaberto o computador.

— Vai ficar mais cheio aqui.

— Eu sei. — Ela não levantou os olhos. — Já me preparei pra isso.

Havia algo na forma como ela disse — simples, direta, sem drama — que Mike arquivou em algum lugar que ele não estava pronto para examinar ainda.

Levantou, ajeitou a camiseta apertada uma última vez, e foi preparar o espaço para o que estava por vir.

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Apolo parou o carro na clareira pouco depois das três da tarde. Os três garotos desceram antes mesmo do motor apagar — Sérgio na frente, Jonathan logo atrás, Marcos por último, com a mochila nas costas e o olhar de quem dormiu mal e não ia admitir isso pra ninguém.

— Como foi? — Apolo perguntou, andando ao lado deles em direção à entrada.

— A aula — respondeu Marcos — ou a noite?

— As duas.

— A aula foi normal. A noite foi péssima.

Apolo abriu a entrada do bunker. O mecanismo se moveu, a rampa desceu, e os quatro entraram.

Dentro, Mike estava de pé ao lado da bancada. Maria no computador. As ferramentas já organizadas. O ambiente havia mudado desde a madrugada — havia um propósito tomando forma no espaço, visível mesmo antes de qualquer explicação.

Sérgio olhou em volta, depois para Apolo.

— O que a gente vai fazer?

Foi Maria quem respondeu, sem tirar os olhos da tela:

— Vamos confirmar o que eu suspeito. E depois vamos construir algo que funcione contra elas.

— O UV-C? — disse Sérgio.

Maria parou de digitar. Olhou para ele com uma atenção diferente.

— Como você sabe disso?

— Física quântica. — Ele jogou a mochila no chão e puxou uma cadeira. — Apolo é meu irmão. Eu ouço mais do que ele acha.

Apolo passou a mão no rosto, entre o orgulho e o exaspero.

Mike observou a cena do canto. Não disse nada. Mas havia algo nos olhos dele que, por uma fração de segundo, parecia menos fechado do que de manhã.

— Então — disse Maria, voltando para a tela com um meio sorriso. — Vamos trabalhar.

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E foi o que aconteceu.

O bunker mudou de tom em questão de minutos. Apolo foi direto para a bancada, onde já havia separado desde cedo uma lâmpada de néon antiga, um transformador e um emaranhado de fios que, nas mãos certas, poderia se tornar algo útil. Nas mãos do Apolo — que havia passado anos ensinando física antes de qualquer coisa — eram as mãos certas.

— Posso montar um emissor UV com isso aqui — disse ele, já conectando os primeiros fios com uma concentração que deixava claro que havia passado parte da noite pensando nisso. — Vai levar algumas horas pra testar. Mas funciona.

Maria havia reaberto o computador com uma determinação diferente da manhã — mais focada, mais rápida. Os dedos se moviam com urgência.

— Vou tentar acessar o sistema do laboratório de novo. Se eu conseguir puxar mais dados sobre as criaturas, a gente para de trabalhar no escuro.

Mike ficou de pé no centro do bunker por um momento, avaliando o espaço, as pessoas, os recursos. Depois foi para as prateleiras e começou a separar o que havia — lanternas, fios reserva, baterias, uma caixa de ferramentas que Apolo guardava com o cuidado de quem sabe que um dia vai precisar.

Foi Marcos quem quebrou o ritmo.

Ele havia puxado uma mochila do canto e estava enchendo com gaze, água e uma lanterna, com a eficiência de quem havia decidido isso antes mesmo de chegar.

— A gente vai junto — disse ele. Não era pergunta.

— Não vão — respondeu Mike, sem parar o que estava fazendo.

— A gente pode ajudar. — Marcos cruzou os braços, a voz firme pra alguém de quinze anos. — Se piorar, a gente recua pro bunker.

Jonathan assentiu ao lado dele. Sérgio ficou quieto, mas o silêncio dele era o tipo que concorda.

Mike largou o que tinha na mão e se virou para os três com uma calma que era mais pesada do que qualquer tom elevado.

— Vocês já ajudaram. Vocês estão ajudando agora. — Ele apontou para as mochilas. — Continuem montando isso. Água, gaze, lanternas, baterias reserva. Se a gente precisar de suporte daqui, vai precisar que alguém saiba onde cada coisa está.

Marcos abriu a boca.

— Mas—

— Marcos. — A voz de Mike não subiu. Ficou exatamente no mesmo tom. E foi exatamente isso que fechou o assunto.

Apolo olhou para o sobrinho — porque era assim que tratava Marcos, mesmo sem o sangue — e deu um leve aceno de cabeça que dizia *deixa pra lá*. Marcos soltou o ar pelo nariz e voltou para a mochila.

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Foi por volta das quatro da tarde que Apolo levantou da bancada, limpou as mãos num pano e disse que ia buscar o restante do carro.

Voltou minutos depois com duas caixas. Uma grande, uma menor.

A grande tinha suprimentos — mais gaze, esparadrapo, fios específicos que ele havia parado numa loja no caminho de volta da escola, duas lanternas UV compactas que encontrou num brechó de equipamentos técnicos e que Deus sabia como estavam ali.

A menor ele colocou sobre a mesa com um certo cuidado casual — o tipo de cuidado que tenta não chamar atenção.

Mike olhou para a caixa. Depois para Apolo.

— O que é isso?

— Mantimento — disse Apolo.

— Que tipo de mantimento?

Apolo abriu a aba da caixa. Dentro, dois fardinhos de cerveja long neck, pequenas, geladas ainda da bolsa térmica que havia colocado no banco de trás do carro.

Mike ficou olhando por um segundo.

— Você passou num mercado.

— Passei num mercado.

— No meio de tudo isso, você passou num mercado e comprou cerveja.

— Comprei mantimento — corrigiu Apolo. — A cerveja foi por conta.

Mike pegou uma das long necks, olhou para ela, e abriu sem mais comentários.

Apolo abriu a dele com o mesmo silêncio satisfeito de quem sabia que havia tomado a decisão certa.

Maria observou os dois, depois voltou para a tela com um meio sorriso que não explicou.

Os garotos trocaram olhares. Marcos estava claramente pesando se valia a pena pedir uma. Decidiu que não valia.

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A tarde afundou no trabalho.

Apolo soldava. Mike organizava. Os garotos montavam e remontavam as mochilas até tudo estar no lugar certo. Maria não saiu do computador.

Foi quando ela parou.

Completamente. Os dedos suspensos sobre o teclado, os olhos fixos na tela.

— Consegui.

Não havia euforia na voz. Havia o peso de quem acabou de ler algo que confirma o pior e o melhor ao mesmo tempo.

— O sistema do laboratório ainda tem registros dos primeiros testes. Dados de composição atmosférica das criaturas, padrões de resposta a estímulos externos. — Ela virou o computador lentamente para que todos pudessem ver. — UV-C não só afeta. Desestabiliza a estrutura delas em nível celular. É muito mais do que eu esperava.

O bunker ficou em silêncio.

Apolo pousou o ferro de solda.

Mike tomou um gole da cerveja devagar, olhando para a tela.

— Quanto tempo pra montar os emissores? — perguntou ele.

— Com o que eu trouxe hoje — disse Apolo, olhando para as peças na bancada — umas três horas. Talvez menos.

Mike assentiu. Pousou a long neck.

— Então vamos terminar isso hoje.

Ninguém discutiu.

Lá fora, a noite começava a fechar. E dentro do bunker, pela primeira vez desde que tudo havia começado, havia algo que se parecia perigosamente com um plano real.

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Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...