Criando Estratégias
O carro entrou na clareira com os faróis apagados. Apolo desligou o motor e os três ficaram parados por alguns segundos, ouvindo o silêncio da mata como se precisassem ter certeza de que estavam sozinhos.
Desceram sem falar. A porta pesada do bunker se fechou atrás deles com um som abafado, definitivo. Apolo girou o trinco e encostou as costas na parede por um instante, olhos fechados.
Mike foi direto para a mesa. Pegou o comunicador e ajustou o canal.
— Sérgio, Marcos, Jonathan. Três na escuta. Confirmem.
Estática. Depois, um por um:
— Sérgio. Positivo.
— Marcos. Positivo.
— Jonathan. Positivo.
— Executamos o plano esta noite.
Silêncio absoluto nos três canais.
Era o tipo de silêncio que dizia mais do que qualquer reação. Ninguém esperava que fosse acontecer naquele momento — nenhum aviso, nenhuma confirmação prévia. Só havia a conversa de que precisava ser feito. E agora estava feito.
Apolo estendeu a mão naturalmente, como quem assume o lugar que é o seu. Mike entregou o comunicador sem resistência — por ora.
— Galera. — A voz de Apolo chegou mais quente, mais próxima. O tom que ele usava quando precisava que alguém de fato ouvisse. — A gente entrou no laboratório. Conseguimos acesso pelo túnel. O que encontramos lá dentro... olha, eu vou ser honesto com vocês porque vocês merecem saber. As fendas se multiplicaram dentro do complexo, tem presença militar pesada no perímetro, e houve um contato direto com algo que não deveria estar na nossa dimensão. Uma criatura. E ela—
Mike tomou o comunicador.
— Isso basta. — A voz saiu seca, sem espaço pra negociação. — O que vocês precisam saber é o seguinte: portas trancadas, luzes acesas, comunicador ligado. Qualquer coisa fora do padrão, qualquer coisa que não pareça certa — acionam imediatamente. Sem avaliar, sem tentar resolver. Entendido?
Uma pausa.
— Entendido. — Sérgio.
— Entendido. — Jonathan.
— ...Entendido. — Marcos.
Mike desligou.
O silêncio que ficou dentro do bunker era diferente do de fora.
Apolo ficou olhando para o comunicador na mão de Mike por um segundo. Depois olhou para ele.
— Eles precisavam saber mais do que isso.
— Não precisavam.
— Mike. — A voz de Apolo não tinha raiva. Tinha peso. — Foram eles que me trouxeram até aqui. Foram eles que viram o laboratório primeiro, que me chamaram, que começaram tudo isso. Eles já estão dentro. Muito antes de você e eu termos pisado naquele túnel.
Mike não respondeu imediatamente.
Olhou para Apolo por um momento — o tipo de olhar que avalia, que mede, que reconhece sem ceder completamente.
— Então a gente garante que é o único buraco em que eles vão estar. — Pousou o comunicador na mesa. — Mais do que isso eles não precisam carregar agora.
Apolo não concordou. Mas não insistiu.
Conhecia Mike de longa data. Sabia quando aquela muralha tinha porta e quando não tinha.
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O bunker estava quieto. Maria havia se sentado com um copo d'água nas mãos, os olhos no chão, o pensamento claramente em outro lugar. Apolo puxou uma cadeira. Mike ficou de pé, apoiado na mesa, os braços cruzados.
Ficou assim por alguns segundos antes de falar.
— Três tiros. Centro de massa. — A voz saiu diferente do habitual — não havia relatório naquele tom, havia algo próximo do desconcerto, o que em Mike era quase impossível de ver. — Os projéteis atravessaram. Não houve sangue. Não houve ferimento. A criatura... reagiu. Mas não foi dor. — Ele pausou, como se ainda estivesse tentando encaixar o que os olhos haviam visto numa categoria que a mente conseguisse processar. — Eu não sei como chamar o que foi. Só sei que não existe nada no que eu já enfrentei que se comporte assim.
O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores. Mais fundo.
— Porque ela não é daqui — disse Maria, sem levantar os olhos. — Nenhuma delas é.
Apolo olhou para ela.
— Você está pensando em algo desde o carro. Pode falar.
Maria levantou a cabeça e pousou o copo.
— A imunidade aos tiros, o cheiro, as microfendas se formando dentro do complexo... tudo aponta pra mesma direção. Elas não chegaram completamente. Estão chegando. O organismo delas ainda está em processo de estabilização — na nossa atmosfera, na nossa física, na nossa realidade. As regras que valem aqui ainda não valem completamente pra elas. E talvez seja exatamente por isso que os projéteis não causaram o que deveriam causar.
— E se isso mudar? — perguntou Apolo. — Se elas terminarem de se estabilizar?
Maria não respondeu de imediato.
— Então as regras mudam junto. — Ela disse com a objetividade de quem prefere a verdade ao conforto. — Por isso precisamos agir antes disso acontecer.
— Como? — disse Mike.
— Luz ultravioleta. UV-C especificamente. — Maria falou devagar, construindo o raciocínio em voz alta enquanto tomava forma. — Nossa atmosfera filtra naturalmente boa parte desse espectro. Se elas vêm de um lugar com composição diferente, com outro tipo de radiação dominante, uma exposição concentrada de UV-C pode ser exatamente o que o organismo delas não consegue processar nesse estágio. Pode desestabilizar a estrutura delas antes que terminem de se fixar aqui.
Silêncio.
Apolo olhou para Mike. Mike olhou para Maria.
— É só teoria — disse ela, antecipando a pergunta. — Mas é o que temos.
— Então é com isso que trabalhamos — disse Mike. — O que você precisa pra montar algo?
— Peças. Tempo. — Ela olhou em volta do bunker com os olhos de quem já estava calculando o espaço. — Aqui dá.
Apolo assentiu devagar.
— Então amanhã começa.
Mike apagou a luz principal, deixando só a secundária acesa. O bunker afundou numa meia-luz alaranjada, e os três ficaram quietos por um momento — cada um carregando o peso do que havia visto, e a clareza incômoda do que ainda estava por vir.
Lá fora, a mata estava em silêncio.
Mas ninguém ali acreditava mais que esse silêncio significava segurança.
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