Mike dirigia com Maria ao seu lado, que mordia o sanduíche devagar, quase sem apetite. De repente, ela largou o pão no colo e começou a se contorcer no banco — gemidos abafados, o corpo se curvando como resposta a uma dor que vinha de dentro sem ter mais nada dentro.
Mike freou o jipe no acostamento, jogando cascalho para o mato.
— Maria! Respira. Olha pra mim. Eu tô aqui.
Segurou os ombros dela com firmeza, a voz firme mas baixa, como quem tenta trazer alguém de volta de um pesadelo acordado. Pegou a garrafa de água do banco traseiro e ajudou ela a beber em pequenos goles.
Aos poucos, o surto foi cedendo. Maria ficou ofegante, suada, os olhos piscando até encontrar o foco.
— Desculpa... — murmurou. — Tô com muito sono. Tô muito cansada.
Mike ajeitou o encosto para ela ficar mais reclinada e ficou alguns segundos olhando para o rosto dela. A imagem ainda estava vívida na sua mente — a sombra desprendendo-se daquele corpo, saindo como fumaça densa, e Maria desabando logo depois. O que ficou nela não era a criatura. Era a marca que ela deixou. E aparentemente, essa marca doía.
*Pra onde ela foi?* Essa pergunta não saía da cabeça dele desde então.
Suspirou. Pegou o celular. Duas e meia da tarde. Acelerou de volta para a estrada.
Na escola, o sinal das aulas tocou pouco antes das seis e meia. Jonathan, Marcos e Sérgio saíram pelos fundos, onde Apolo já esperava com o carro ligado. Josué veio junto, trocando passos rápidos com Marcos.
O celular de Apolo vibrou.
— Acabei de passar a placa de entrada da cidade — disse a voz de Mike. — Chego em uns vinte e cinco minutos. Tudo bem por aí?
— Tudo sim. Tô pegando o pessoal pra receber vocês.
Assim que desligou, Sérgio bateu na mão dele.
— E aí, irmão!
Logo atrás vieram Jonathan e Marcos, esse último com a expressão de quem estava funcionando no limite.
— Cara — resmungou Marcos —, se não tiver comida nesse lugar misterioso, eu vou surtar de verdade.
Os outros riram. Apolo puxou Sérgio levemente pelo braço, baixando a voz.
— O que ele tá fazendo aqui? — disse, com um gesto discreto em direção a Josué.
— Ele tá ciente de tudo — respondeu Sérgio. — Disse que conhece a existência de lugares como aquele que a gente viu. Chama de regiões celestiais.
Apolo ergueu uma sobrancelha.
— Cristão.
Não era uma pergunta. Josué ouviu, e respondeu sem se abalar.
— Sou. Mas pode ficar tranquilo — disse, encarando Apolo de frente. — Eu sei guardar segredo.
— Assim espero — respondeu Apolo, o olhar varrendo os três garotos de uma vez. — Melhor do que certas pessoas aqui.
Ninguém contestou.
— Entrem. Eu explico no caminho.
Antes de ligar o motor, ele os encarou pelo espelho retrovisor.
— Escutem. O que tá acontecendo é sério demais. Vocês vão conhecer duas pessoas agora. Prestem atenção em tudo que elas disserem.
Ligou o carro. Seguiram para o Bunker do Vale Verde.
Por fora, o local parecia um barracão abandonado — madeira velha, mato por todos os lados, quase invisível no meio da mata. Marcos olhou em volta com desconfiança.
— Isso aqui não é mal-assombrado?
Apolo esboçou meio sorriso.
— Só se for mal-assombrado por mim. Esse bunker fica nos terrenos da minha família.
Ele mexeu em um mecanismo escondido entre pedras e vegetação, e um grande pedaço de barranco falso começou a se levantar, revelando uma rampa de acesso descendo para o escuro. Por um momento, ninguém se mexeu.
Desceram.
Por dentro, o contraste era quase surreal. O bunker era amplo, bem iluminado, com salas, beliches, prateleiras de suprimentos e uma sala central com sofás e uma mesa comprida.
— Fiquem à vontade. Vou lá fora esperar as outras duas pessoas.
O jipe parou na clareira pouco depois. Apolo foi ao encontro deles.
Mike desceu primeiro, fardado, e abriu a porta do passageiro com cuidado, ajudando Maria a sair. Ela estava de pé, mas havia algo frágil nela — como alguém que ainda estava aprendendo a habitar o próprio corpo de novo.
— Você deve ser a cientista — disse Apolo, avaliando-a com cuidado.
— Sou Maria — respondeu ela.
Quando entraram na sala central, os garotos pararam de falar. Os olhos de todos foram direto para os dois. Havia algo nos rostos de Mike e Maria que dispensava introdução — o tipo de coisa que se sente antes de compreender.
Apolo quebrou o silêncio.
— Mike. O que aconteceu?
Mike respirou fundo. Começou a falar.
— Eu estava no laboratório principal em Porto Alegre. Fui até lá como eu já havia te dito — para buscar a verdade. Descobri que a CIA está envolvida. Eles querem usar a fenda para seus próprios fins, e agora estão atrás de mim e de Maria.
Ele olhou para ela rapidamente antes de continuar.
— Eu a salvei porque ela foi quem deu início ao teste, e quando tudo desandou, eu estava diante de uma fenda dimensional se formando na parede do laboratório. Um trinco na realidade. Vi ela caindo, a máquina foi sabotada, e eu tirei ela de lá.
Sérgio olhou para Maria.
— E você lembra do que aconteceu?
Ela demorou um momento para responder.
— Nem tudo — disse, com honestidade. — Mas vou tentar.
Respirou fundo e começou.
— O laboratório era meu. Herdei do meu pai, mas estava sendo utilizado com o aval do presidente para desenvolver o projeto. Naquele dia, estávamos prontos para o primeiro teste real. A intenção era abrir a fenda para encontrar novos minerais, novas formas de matéria que pudessem ser usadas para curar doenças. Eu queria encontrar algo do outro lado que servisse para o bem.
Ela parou. Os dedos entrelaçados sobre o colo.
— Larkin estava lá. E havia um. Um homem que não falava com ninguém. Só observava. Larkin o trouxe para "coletar informações." — Ela usou os dedos como aspas, e havia amargura no gesto. — Quando a fenda abriu, eu vi uma sombra. Com formato de pessoa. Não era nada que pertencesse a este mundo. Do outro lado tudo parecia igual ao nosso — mesmas formas, mesma estrutura — mas com cores alteradas. Como um negativo.
— E a sombra? — perguntou Apolo.
— Estava parada na entrada da fenda. Me olhando. — Maria fechou os olhos por um instante. — Eu senti um pressentimento muito forte e pedi para desligar a máquina. Larkin se recusou. Tentei eu mesma redirecionar o feixe de luz, e aí a máquina desligou sozinha. Mas a criatura passou pela fresta antes de fechar.
Silêncio.
— Eu lembro daquilo vindo em minha direção. Depois disso... — ela hesitou — é como se eu tivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Eu via a mata. Via rostos de jovens. Mas não conseguia controlar o que estava acontecendo comigo.
Mike se inclinou levemente para frente.
— Ela saiu — disse ele, com voz quieta. — Eu vi. Antes de a gente sair do laboratório, a sombra se desprendeu dela e... foi embora. — Ele olhou para os outros. — O que sobrou em Maria é a marca. O rastro do que atravessou ela.
O peso daquela afirmação levou alguns segundos para pousar sobre todos na sala.
Foi Josué quem falou primeiro, do seu canto, com a voz de quem está pensando em voz alta.
— Se ela saiu de Maria... ela foi pra algum lugar.
Ninguém respondeu. Mas ninguém precisou.
Apolo pediu água para Maria e Mike foi buscar. Ela bebeu, parecendo um pouco mais estável, antes de continuarem.
Foi Josué quem retomou.
— Eu tenho uma teoria. É meio louca.
— Fala — disse Apolo. — Qualquer coisa é bem-vinda agora.
— Aprendi com o meu pastor sobre uma carta de Paulo aos Efésios. O texto fala em regiões celestiais — planos além do físico, habitados por seres que não são humanos. E diz que nossa luta não é contra pessoas, mas contra esses seres que habitam esses lugares. — Fez uma pausa. — Talvez essas regiões sejam exatamente isso. Dimensões alternativas.
Sérgio se inclinou para frente.
— Como na teoria das cordas.
Josué olhou para ele, levemente surpreso.
— Exatamente.
Os fragmentos não formavam ainda uma resposta completa. Mas pela primeira vez, ciência, fé e experiência vivida estavam apontando para o mesmo lugar.
Foi Mike quem cortou o silêncio com objetividade.
— A única saída que eu vejo é voltarmos lá. Precisamos saber se a fenda ainda está aberta, o que restou no laboratório, e entender pra onde essa coisa foi depois que saiu de Maria.
Marcos bateu a mão na mesa.
— Então invade de novo. Amanhã.
— Vocês, não — disse Mike, sem margem para debate. — Vocês ficam em casa. Eu, Maria e Apolo vamos.
— Mas precisamos de uma brecha no sistema — disse Apolo.
— Eu sei todas as entradas — disse Maria, com mais firmeza agora. — E talvez meu cartão ainda tenha acesso. O laboratório foi construído nas terras da minha família. Se Larkin não alterou o sistema, eu ainda consigo entrar.
Mike olhou para o cartão que ela segurava. Pegou o copo com o resto de água da mesa e mergulhou o cartão dentro, devagar.
— Seria a primeira coisa que eles rastreariam — disse. — Se você usar esse cartão, em minutos eles sabem onde estamos. Precisamos de outro caminho. Uma falha. Um ponto cego que eles não consideraram.
Virou para Apolo.
— Amanhã a gente resolve isso. Por hoje, ficamos aqui.
Apolo olhou em volta para o grupo.
— Aqui vocês estão seguros. Ninguém além da minha família sabe que esse bunker existe. Tem comida, energia, água e quartos. — Levantou. — Mas agora eu levo esses garotos de volta. — Olhou para Mike. — Deixei uma mochila no quarto. Veja se tem algo que serve.
Os garotos se despediram um por um. Marcos murmurou um "boa sorte" que soou mais sincero do que qualquer coisa que ele tinha dito em semanas.
— Fiquem bem — disse Apolo na porta. — Trancam tudo.
No carro, no caminho de volta, Apolo manteve os olhos na estrada. A rota passava pelo perímetro externo do complexo laboratorial — o mesmo trajeto de sempre, natural o suficiente para não despertar suspeita.
Marcos cochilava encostado na janela. Sérgio mexia no celular. Jonathan ficou em silêncio o caminho todo.
Então Apolo diminuiu a velocidade.
A fachada escura do laboratório surgiu entre as árvores — mas desta vez havia algo diferente. Duas viaturas pretas sem identificação estavam estacionadas na entrada principal. Holofotes varriam o terreno em arcos lentos e regulares.
Não era segurança de rotina.
Apolo passou sem parar, sem olhar diretamente, mantendo uma velocidade constante e displicente.
— Apolo — disse Jonathan, a voz baixa e tensa. — Isso não estava assim da outra vez.
— Eu sei.
Sérgio havia parado de mexer no celular. Marcos tinha acordado sem que ninguém precisasse chamá-lo.
Apolo acelerou de volta ao ritmo normal assim que saíram do ângulo de visão dos holofotes. A mão no volante estava firme, mas os nós dos dedos, brancos.
Eles não estavam vasculhando o laboratório por protocolo.
Estavam procurando alguma coisa.
*Ou alguma coisa havia chegado antes deles.*
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