Capítulo 32: O Paciente do Último Andar
O relógio na parede marcava duas e quinze.
Beatriz entrou no hospital pelo portão lateral, o mesmo de sempre, onde os seguranças já conheciam seu rosto e só acenavam. A recepção principal estava tranquila — movimento baixo, próprio de tarde de quarta-feira. As meninas do balcão conversavam entre si, rindo de alguma coisa que Beatriz não ouviu direito.
— Boa tarde, meninas — disse ela, passando.
— Boa tarde, enfermeira — responderam em coro, e uma delas ainda completou: — A senhora tá com uma cara boa hoje.
— Dormi bem. Pela primeira vez na semana.
Elas riram. Beatriz seguiu.
A área de troca ficava no fim do corredor, depois da sala de descanso dos médicos. Ela abriu seu armário — o de número 12, com o adesivo de borboleta no canto — e trocou a blusa de passeio pelo uniforme azul-claro. Ajustou o crachá no bolso. Prendeu o cabelo num coque rápido, prático, sem espelho.
Passou pela ala da pediatria no caminho para o posto dela.
A pediatria estava silenciosa — o silêncio bom, de crianças dormindo ou entretidas com tablet. Uma técnica que passou por ela com um carrinho de medicamentos acenou com a cabeça.
— Tudo calmo? — perguntou Beatriz.
— Tudo calmo. A enfermeira chefe pode ficar tranquila.
— Sempre fico.
Saiu da pediatria. Cruzou com o doutor Mauro no corredor principal — ele vinha da UTI, a expressão cansada de quem acabava de sair de um plantão de doze horas.
— Beatriz, bom dia. Já chegou?
— Já. Como foi a noite?
— Teve um infarto às quatro da manhã, mas estabilizou. O resto foi rotina.
— Que bom.
Ela seguiu. Passou pela sala de medicação, pelo posto de enfermagem da ala B, pelo refeitório vazio. Cada passo, uma informação — tudo corria bem, não faltavam médicos, os leitos estavam dentro do esperado.
Chegou na sala dela.
Pequena. Mesa de madeira velha com balcão de fórmica verde. Um computador antigo que demorava pra ligar. O livro de ocorrências — capa preta, páginas amareladas — sempre aberto na página do dia.
Beatriz sentou. Abriu o livro. Pegou a caneta.
Datou. Anotou a hora. Escreveu com a letra miúda e organizada que usava desde o curso técnico:
13 de maio de ...
Murmurou o ano ..
Horário às 14:20 escreveu ela com jeito.
Embaixo, Enfermeira Beatriz Oliveira assume plantão. Ala B e C operando normalmente. Todos os leitos ocupados: 12. Transferências: 0. Óbitos: 0.
Assinou. Fechou o livro.
Foi quando ouviu os gritos.
— ENFERMEIRA! ENFERMEIRA BEATRIZ!
Os dois técnicos de enfermagem correram pelo corredor — brancos, ofegantes, os olhos arregalados. O mais novo, o Lucas, chegou primeiro, as mãos apoiadas nos joelhos.
— Chegou... uma unidade do SAMU... com um paciente. Sozinho. Sem familiar.
— O que ele tem?
— Não sei. Os paramédicos não falaram direito. Só pediram a senhora.
Beatriz já estava de pé.
— Onde ele está?
— No estacionamento. Estão trazendo agora.
Ela saiu da sala. Passou correndo pela recepção — as meninas levantaram, assustadas — e chegou no estacionamento quando a maca entrava pelo acesso de emergência.
A maca vinha na frente, empurrada por dois paramédicos suados. Em cima, um homem. Cabelo grisalho, pele queimada de sol, chapéu de couro ainda na cabeça. Camisa xadrez aberta no peito, suja de terra e sangue. O rosto dele — o que dava pra ver — estava pálido, os olhos semicerrados, a boca mexendo como se estivesse rezando sem som.
— O que houve com ele? — perguntou Beatriz, acompanhando a maca.
— Não sabemos — respondeu o paramédico mais velho, o bigode grisalho. — Fomos chamados por um morador da estrada, perto de São Francisco do sul, em uma zona Rural chamada de vila da Glória. O senhor estava caído na beira do asfalto, sozinho. Não tinha carro, não tinha cavalo.
Um vizinho que ouviu os gritos que ligou para o resgate, chegando lá só tinha ele, o chapéu, e os ferimentos.
— Que ferimentos?
— Olha só.
O paramédico afastou a camisa aberta do homem.
O peito estava marcado — arranhões profundos, cinco sulcos paralelos do ombro até o abdômen. Como garras. Não era faca. Não era acidente de estrada.
Beatriz sentiu o estômago apertar, mas não parou.
— Coloca na sala de emergência. Chamem o doutor Mauro e a doutora Renata.
Depois também vou querer uma cópia da tomografia, pego assim que ele estabilizar.
Levaram o homem para a sala vermelha. Beatriz foi atrás, já puxando as luvas.
A sala se encheu rápido. Médicos, técnicos, enfermeiros. Monitores apitando. Soro sendo pendurado. Oxigênio. O doutor Sérgio — cardiologista, cabelo ralo, óculos de grau grosso — avaliou os ferimentos com um olhar preocupado.
— Isso é ataque de animal, Beatriz?
— Não sei. Vamos perguntar pra ele quando acordar.
O homem abriu os olhos.
Não devagar — de repente. Como se alguém tivesse ligado um interruptor. A mão dele agarrou o pulso de Beatriz com uma força que não combinava com o estado em que estava.
E GRITOU!!!!
SOCORROOO ELE ESTA,VINDO, ELE ESTÁ VINDO...
O CÃO DOS INFERNOS, ESTÁ VINDO ELE ... ELE....
Então Beatriz falou: Calma senhor, acalmasse e nós conte o que foi que aconteceu!!
O homem engoliu em seco. Os olhos estavam marejados — não de choro, mas sim de desespero.
— Eu tava... eu tava levando o gado pro curral... aí senti um calafrio, mais não comum, e nem do nada, então do meio da mata eu vi dona eu vi... ele o cão dos INFERNOS!!
Ele saiu de uma nuvem preta; A porta do inferno dona, ela se abriu e ele .. e ele ..
— E ele o que diga. Falou um paramédico...
Ele fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, a voz saiu num fio:
— O bicho. Preto. Grande. Parecia um cão, mas não era... os olhos brilhavam, de Cor vermelho dona, e ele me derrubou do cavalo... eu corri... ele veio atrás... me agarrou...
— a mão dele apertou o pulso dela mais forte — ...mas ele não queria me matar. Ele queria...
— Queria o quê?
— Entrar em mim eu lutei e gritei então foi quando ele ouviu algo e enterrou suas garras em mim eu tentei fugir me arrastando e vi quando ele voltou pela nuvem..
E então eu não lembro mais de nada...
O silêncio na sala foi pesado. O doutor Mauro trocou um olhar com a doutora Renata. Alguém pigarreou.
Então doutor Mauro disse ele está tendo alucinações, leve ele para o último andar, para uma sala reservada ..
Saiu da sala como se fosse se comunicar sobre a ocorrência.
Beatriz disse:
— Você está seguro agora. Está no hospital. Ninguém vai entrar em você.
O homem balançou a cabeça, como se aquilo não fosse resposta suficiente. Mas fechou os olhos. O monitor cardíaco apitava num ritmo regular — o coração dele estava estável, pelo menos.
Foi quando ouviram.
Motores. Muitos motores. E o som de portas batendo no estacionamento.
— O que é isso? — perguntou Lucas, indo até a janela.
Ele ficou pálido.
— Beatriz... a senhora precisa ver isso.
Beatriz foi até a janela.
Carros. Muitos carros. Todos pretos, vidros escuros, estacionados em fila na entrada do hospital. Homens de terno preto desciam e se espalhavam pelo perímetro, conversando em rádios de punho. Pareciam militares, mas não usavam farda — usavam ternos que pareciam blindados.
E no meio deles, uma equipe com roupas diferentes.
Roxo. Jalecos de um roxo intenso, quase berrante. Bordados no peito: bandeirinhas dos Estados Unidos e de Israel, lado a lado.
Mulheres de cabelos presos e dois homens altos todos com semblante duro quase visíveis através das máscaras. Uma mulher ia na frente — cabelo preto liso, olhos puxados, aspecto de descendente de japoneses.
Os homens de terno abriram passagem. A equipe de roxo entrou no hospital sem dizer uma palavra.
Beatriz desceu correndo.
A recepção estava em polvorosa. As meninas não sabiam se pediam identificação ou se se escondiam atrás do balcão.
— É do governo?— sussurrou uma delas. —Um deles mostrou uns documentos.
É tudo autorizado.
A mulher de roxo já estava no elevador, acompanhada de dois homens de jaleco roxo e mais dois de terno. O elevador subiu.
— Último andar — disse Lucas, ofegante, aparecendo ao lado de Beatriz. — Eles foram para o último andar.
— No centro cirúrgico desativado??
— Sim, levaram o boiadeiro.
Beatriz não pensou duas vezes.
Foi pela escada. Subiu dois degraus por vez, a mão no corrimão frio, a respiração ofegante. O último andar do hospital era um lugar vazio — salas desativadas, equipamentos antigos, corredores que cheiravam a mofo e desuso. Ninguém subia ali. Ninguém tinha motivo.
Ela saiu da escada. O corredor estava escuro — algumas luzes piscando, outras apagadas. No fundo, uma porta fechada. Luz branca vazando pela fresta de baixo.
Beatriz se aproximou devagar. Passo silencioso. Pé ante pé.
Chegou na porta.
Olhou pela fresta.
A sala era grande. As mesas de cirurgia ainda estavam lá, cobertas por lençóis amarelados. No centro, o boiadeiro estava deitado numa maca, rodeado pela equipe de roxo.
A mulher de cabelo preto estava ao lado dele, segurando um tablet. Os outros dois médicos — se é que eram médicos — ajustavam algo nos braços do paciente. Soro? Não era soro. Os tubos eram escuros, grossos, ligados a uma máquina portátil que Beatriz não reconheceu.
Ela prendeu a respiração.
Foi quando viu.
Um dos médicos — o homem do lado esquerdo — tirou a luva. A mão dele... a mão dele começou a mudar. Os dedos se alongaram. A pele escureceu ficou com aspecto gosmento.. Entre os dedos, uma membrana. E a ponta de cada dedo se afinou se uniu e virou um tentáculo fino, longo, que se movia em em direção a maca
Ele se inclinou sobre o boiadeiro.
O tentáculo entrou pela boca do paciente.
Não houve grito. O boiadeiro abriu os olhos — arregalados, desesperados — mas não conseguiu se mexer. Os outros dois da equipe de roxo o seguravam pelos ombros, imóveis, como se pesassem uma tonelada.
A mulher de cabelo preto não olhou para o paciente. Olhou para o tablet. Anotou alguma coisa.
O corpo do boiadeiro começou a tremer.
Não era convulsão — era outra coisa. A pele dele ficou cinzenta, os olhos perderam o brilho, a boca abriu mais — não voluntariamente, como se algo estivesse puxando de dentro.
O tentáculo se retraiu devagar.
E o boiadeiro morreu.
Beatriz viu o momento exato — o monitor cardíaco portátil apitando uma nota contínua, plana, infinita. A equipe de roxo não se mexeu. A mulher de cabelo preto desligou o tablet, guardou na pasta.
— O próximo — disse ela. A voz era calma, prática, como se estivesse falando de uma lista de compras.
Um dos homens de jaleco roxo fez uma anotação.
— Despacha o corpo. Laudo: insuficiência múltipla dos órgãos. Causa natural. Família já foi comunicada?
— Não tem família — respondeu o outro.
— Melhor ainda.
Beatriz recuou.
Passo silencioso. Pé ante pé. O coração batia tão alto que ela tinha medo que ouvissem. Chegou na porta da escada. Abriu devagar. Entrou. Desceu.
Não correu. Não podia correr. No hospital, quem corre chama atenção. Ela desceu andando rápido, o que dava pra disfarçar de pressa profissional.
Passou pela recepção. As meninas estavam quietas agora, os olhos arregalados.
— Beatriz... o que está acontecendo?
— Não sei. E foi com passos rápidos sem olhar pra trás..
Passou pela sala de emergência. O doutor Mauro a viu e abriu a boca para falar — ela passou direto.
Enquanto percebia que ele ficou olhando ela se afastar.
Chegou na área de troca. Abriu o armário. Tirou a blusa de passeio. Vestiu. Guardou o crachá no bolso. Deixou seu jaleco lá. Não olhou no espelho.
Saiu pelo estacionamento.
A moto estava onde ela tinha deixado — uma Honda Twister preta, anos de uso, mas confiável. Ela colocou o capacete. Ligou. Acelerou.
Os homens de terno preto olharam para ela. Um deles falou algo no rádio. Beatriz não esperou para saber o quê.
Saiu do estacionamento e pegou a avenida.
A cidade estava estranha — menos movimento do que o normal, as pessoas nas calçadas olhando para os próprios celulares, as lojas abrindo e fechando sem critério. Beatriz passou pelo centro, pela praça, pela igreja matriz.
A escola.
Ela reduziu.
Carros pretos. Muitos. Estacionados na porta, no estacionamento, na rua lateral. Homens de terno preto circulando, conversando em rádios. A porta da escola estava lacrada com fitas amarelas.
Interditada — pensou.
Acelerou de novo.
Na saída da cidade, quando ela já pegava a estrada de terra que levava à chácara da família de Apolo, ela viu no retrovisor. Um dos homens de terno preto estava parado na esquina, o rádio no ouvido, olhando na direção dela.
Ele falou alguma coisa.
Beatriz acelerou. O vento cortava o capacete, o barulho do motor preenchia os ouvidos. A estrada de terra pulava embaixo das rodas, a lama respingando na perna da calça.
Chegou na clareira em menos de quinze minutos.
Jogou a moto num cavalo de pau — a traseira derrapou na terra, a frente rodou, e ela parou a moto de lado, quase derrubando. O barulho do motor ecoou pela mata. Dali de dentro do bunker, dava pra ouvir tudo.
Desligou. Jogou a moto no chão, sem se preocupar em apoiar o descanso. Correu para o barraco. Subiu a rampa de madeira aos tropeços.
— ABRE! — gritou, batendo na porta de ferro com as duas mãos. — ABRE, SOU EU! BEATRIZ!
Dentro do bunker, Apolo já estava de pé. O coração disparou — aquela batida desesperada na porta não era normal. Mas ele reconheceu a voz.
— É a Beatriz — disse, para Mike e Maria. — É a Beatriz.
Subiu a rampa correndo. Girou os cursores. A porta rangeu abrindo.
Beatriz entrou como um furacão. O cabelo solto bagunçado, ela largou o capacete bunker a dentro, o rosto pálido, a respiração ofegante.
— TRANCA! — ela gritou, empurrando Apolo — TRANCA ISSO AGORA !!!!!
Apolo girou os cursores de volta. Porém a porta não se fechou corretamente ele estava muito nervoso e nem percebeu.
Beatriz desceu a rampa correndo, quase caiu chegando do corredor, e se jogou na parede do corredor, encostando as costas, as mãos no rosto um choro de horror e medo.
Mike já estava de pé, a mão na pistola. Maria correu para ver ela. Sérgio saiu de trás do sofá, os olhos arregalados.
— O que foi? — perguntou Mike.
Beatriz levantou a cabeça. O rosto estava avermelhado, os olhos marejados.
— Eles mataram um homem. No hospital. Na minha frente.
— Quem? — perguntou Apolo, descendo a rampa.
— Os de roxo. Os caras de jaleco roxo que chegaram nos carros pretos com uns homens de terno preto, levaram um paciente pro último andar... e um deles...
Ela engoliu em seco.
— Um deles enfiou a mão sei lá, na boca do cara. A mão dele virou um tentáculo negro e gosmento e ele sugou o homem até matar. Eu vi. Eu tava olhando pela fresta da porta.
— Eles te viram? — perguntou Mike.
— Não. A sala é grande, a porta é longe. Desci em silêncio e corri para me trocar.
Peguei a moto. Vim direto pra cá.
— Alguém te seguiu?
— Não vi ninguém. Mas na saída da cidade... tinha um homem de terno preto parado na esquina. Ele olhou pra mim. Falou algo no rádio.
Apolo passou a mão no rosto e desceu pelos cabelos vermelho até a sua nuca...
— Eles sabem.
— Sabem o quê? — perguntou Beatriz.
— Que a gente existe. Que a gente tá mexendo com coisa que não devia.
Mike se virou para Apolo.
— Conta pra ela. Tudo.
Apolo contou de forma a quase tropeçar nas palavras as tudo que tinha ocorrido com ele e Sérgio.
Beatriz ouviu em silêncio, Maria lhe dera um copo de água que ficou esquecido na mão enquanto ouvia atenta e perplexa..
Então disse:
— Os mesmos carros —
Foi quando ele terminou.
— Na escola e no hospital.
— Os mesmos — confirmou Mike.
Beatriz tomou um gole d'água. A mão ainda tremia, mas a respiração já estava mais calma.
— Deixa eu te contar direito o que eu vi.
Então ela descreveu detalhes que não havia conseguido contar.
Quando ela terminou, Mike disse Cão dos infernos!! Com tom de dúvida...
Apolo murmurou..
Médicos de roxo? Transformando não em tentáculo isso é um absurdo. Disse ele levando a mão a boca ..
Sérgio estava branco. Maria tinha os braços cruzados, a expressão fechada. Mike não se mexia.
— Não é a mesma coisa que a gente já lidou tem outra forma — disse Mike.
Apolo disse eles não são humanos literalmente..
— Eles não são humanos — disse Beatriz. Concordando.
— Aquele médico... a mão dele... não é coisa de humano.
— Híbridos — disse Maria, pensando em voz alta. — A gente já viu algo parecido nos registros do meu avô. Seres que conseguem transitar entre dimensões. Que se disfarçam de humanos. Mas...
— Mas o quê?
— Os registros diziam que eles não conseguiam ficar muito tempo aqui. Que a nossa dimensão degradava o corpo deles. —
Provavelmente eles estão coletando sangue para usar conj fonte de energia para se estabilizar na nossa dimensão possívelmente!!
Maria olhou para Mike. — Se eles estão operando dentro de um hospital, com documentos, com equipe... é porque algo mudou.
— Eles estão mais adaptados. — disse Mike. — Mais rápido do que a gente imaginava.
O silêncio pesou.
Foi quando ouviram.
Passos. Lá em cima. Alguém estava subindo a rampa do barraco. Os passos eram leves, cautelosos — mas audíveis no silêncio do bunker.
Mike fez sinal. Todos se calaram. Ele apontou para trás da bancada — Maria puxou Beatriz e Sérgio. Apolo se encostou na parede ao lado da rampa.
Mike foi para o outro lado da parede porém a pistola já estava na mão, apontada para a entrada do corredor..
A porta rangeu abrindo.
Apolo gelou pois se lembrou que não conferiu se fechou ou não..
Mike nem se moveu pronto pra discernir disparos.
Duas silhuetas apareceram no topo da rampa. A primeira desceu devagar, com cuidado — foi se aproximando com passos seguros.
E...
Maike se vira apontando seu revólver na direção de ...
Marcos e Jonathan.
— TIO MIKE, NÃO! — gritou, tropeçando nos próprios pés e caindo sentado no chão com as mãos levantadas...
Mike baixou a arma no último segundo.
— PELO AMOR DE DEUS! — Marcos colocou a mão no peito, ofegante. — QUASE ME MATOU DO CORAÇÃO!
Jonathan que estava atrás dele, quando viu a pistola e saiu correndo para trás da bancada, agarrando-se em Sérgio pelo braço.
— QUE ISSO, TIO? — gritou Jonathan, pálido. — A GENTE SÓ VEIO ENCONTRAR VOCÊS!
— A gente ia avisar que chegamos— Mas a porta estava aberta então resolvemos entrar para ver se estava tudo bem.
Mike guardou a pistola.
— Meu pai nos levou para a escola mais cedo — explicou Marcos, ainda no chão da rampa. — mas os policiais não deixaram ninguém entrar. Tava tudo cercado. Aí meu pai falou que só poderíamos ir na casa do Sérgio após as 14 h chegando lá, olhando pra Apolo disse, seu pai disse que vocês não estavam e então viemos a pé até aqui..
Apolo foi até a porta de ferro. Girou os cursores de segurança de novo — agora para trancar de verdade. A porta se fechou com um clique seco.
— Senta todo mundo — disse Mike. — Vocês precisam saber o que está acontecendo.
Os garotos se espalharam pelo bunker. Marcos sentou no sofá, ainda ofegante. Jonathan puxou uma cadeira perto da bancada. Josué ficou de pé, encostado na parede, os braços cruzados.
Todos conversaram por horas sem perceber.
Então os garotos estavam com cara de muito medo, e Marcos perguntou.
— E agora? —
— Agora vocês vão pra casa — disse Mike.
— Mas—
— Não tem mas. Vocês vão pra casa talvez amanhã vocês..
Então..
O celular de Apolo tocou e era uma mensagem, Ele olhou.
— É o pai do Jonathan e do Marcos. — Leu em voz alta: "Apolo, pode trazer os guris mais cedo hoje. A prefeitura avisou que vai ter toque de recolher. Tão dizendo que tem onça solta na região. Antes das sete, por favor."
Apolo olhou o celular e na tela viu o hora eram 18:35.
Apolo guardou o celular.
— Toque de recolher por causa de onça — repetiu, com amargura.
— Onça não invade escola no meio da cidade. Onça não entra em hospital, disse Mike.
— Eles estão criando uma narrativa — disse Maria. — Pra explicar os corpos.
Pra justificar o patrulhamento.
— E pra esconder o que realmente está acontecendo — completou Mike.
Apolo olhou para os garotos.
— Vamos. Agora.
Subiu a rampa com eles. Mike foi atrás. Beatriz ficou dentro, ainda pálida, mas de pé.
Lá fora, a clareira estava silenciosa.
O sol já estava baixo.
O céu estava num tom laranja suave, as árvores imóveis, sem vento. A mata ao redor parecia calma. Pássaros cantavam ao longe.
Apolo levantou a moto da Beatriz — ela estava caída de lado, o guidão torto. Ajeitou. Apoiou no descanso.
— Tá tudo limpo — disse ele, olhando em volta. — Nem parece que aconteceu alguma coisa.
— É o silêncio que mais assusta — disse Mike.
Apolo virou para os garotos.
— Vou levar vocês pelo caminho das lanchonetes. É mais longo, mas é mais seguro.
— E a Beatriz? — perguntou Sérgio.
— A Beatriz fica aqui hoje vou voltar pra cá.
Mike olhou para Apolo.
— Amanhã a gente precisa montar um sistema de vigilância. Vi umas câmeras e um DVR na garagem velha, na sala das bugigangas do seu clube antigo.
Apolo lembrou na hora. A caixa empoeirada, os cabos emaranhados, as câmeras pequenas de segurança residencial.
Nunca chegamos a montar tem que ver se funciona ainda..
— Serve. A gente monta amanhã.
— Vou precisar dos garotos — disse Mike. — Pelo menos o Sérgio e o Jonathan. Eles entendem de eletrônica.
Apolo assentiu.
— Amanhã cedo eu trago eles.
Os garotos entraram no Opala. Apolo ligou o motor. O carro saiu devagar pela estrada de terra, os faróis acesos contra o crepúsculo.
Mike ficou na clareira até o carro sumir na curva.
Depois entrou no barraco, Fechou a porta de ferro. Girou os cursores, Desceu a rampa.
Beatriz estava sentada no sofá, com o copo vazou na mão. Maria ao lado dela, em silêncio.
Mike foi até a bancada. E ficou andando de um lado para o outro enquanto a frequência 963 zumbia baixo — o som invisível que agora fazia parte do bunker.
Beatriz começou a falar se Deus existe agora é hora de ele aparecer.
Maria ouvindo ficou em silêncio..
Mike nem deu ouvidos.
Uns 14 minutos depois da saída Apolo retorna.
Entra e diz..
Sem exitar..
— Vamos dormir — Amanhã o trabalho começa cedo.
Beatriz se levantou. Maria foi com ela até o quarto do fundo. Mike ficou na sala por um momento, ouvindo o zumbido, olhando para a porta de ferro lá no alto.
Apolo deu um toque no ombro do amigo e foi na direção dos quartos.
Encarou mais um pouco a porta no final do corredor e em seguida, apagou a luz.
O bunker mergulhou no escuro.
Apenas a frequência continuava — baixa, constante, como uma respiração invisível.
E a noite, lá fora, estava cheia de olhos que eles ainda não podiam ver.