domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 34 — D4 — Quarta Dimensão.

Capítulo 34: D4 A Quarta dimensão.

O bunker estava em silêncio. Apenas o zumbido da frequência 963 preenchia o ar — baixo, constante, como uma respiração invisível. Os monitores das câmeras recém-instaladas mostravam a clareira vazia, a estrada de terra deserta, as árvores imóveis sob o sol da tarde.

Maria estava na bancada há horas.

Os cadernos do avô estavam abertos à sua frente — o de couro ornamentado com as iniciais A.C. (Antônio Cohen) e os outros, mais simples, que pertenceram ao pai, Dr. Eduardo H. Costa. Ela folheava devagar, comparando anotações, tentando ligar pontos que não se conectavam.

Mike e Apolo estavam sentados perto do rádio antigo — o que Apolo havia ligado na Atlântida FM, onde a música tocava baixo e os locutores falavam sobre o tempo, sobre trânsito, sobre política. Nada sobre fendas. Nada sobre criaturas. Nada sobre a entrevista de Larkin.

— Eles estão abafando — disse Mike, a voz baixa. — A mídia tradicional não vai tocar no assunto. Só os canais de notícia que eles controlam.

— E a Atlântida FM? — perguntou Apolo.

— É música e notícia local. Não interessa pra eles. Por isso ainda está no ar.

Apolo olhou para os monitores.

— Esse bunker não é mais um refúgio. É uma prisão.

Mike não respondeu. Mas não discordou.

— Preciso de munição — disse ele, mudando de assunto. — Como eu vou conseguir agora?

— Tá marcado. Eu também tô.

— Pois é.

Apolo ficou em silêncio por um segundo. Depois lembrou.

— Lá na garagem... na sala da bagunça... tem duas caixas que nunca foram abertas.

— De quem?

— Do tio-avô. Militar. A família não leva ele a sério. Vive no apocalipse, sabe? A gente chama ele de maluco.

Mike olhou para ele.

— E agora?

Apolo engoliu seco. O cinismo morreu na garganta.

— É. Agora é apocalipse.

Levantaram.

---

Beatriz já estava na garagem velha quando eles chegaram.

Ela tinha descido antes, sozinha, para espairecer. A tensão do hospital ainda doía. O rosto do boiadeiro ainda aparecia quando ela fechava os olhos.

Ela mexia em caixas menores — algumas escritas com "Kit de Primeiros Socorros", outras sem identificação. Organizava o que podia ser útil. Gaze, esparadrapo, álcool. Encontrou um medidor de frequência cardíaca antigo, desses de dedo. Não sabia se funcionava, mas guardou.

— Como vocês tinham tudo isso? — perguntou, sem olhar para trás.

Apolo respondeu:

— O pessoal do clube deixou. Quando descobriram que a CIA estava envolvida, quando eu tropecei no vespeiro... eles simplesmente sumiram. Bloquearam. Nunca mais atenderam o rádio.

— Tudo ficou para trás — completou Mike.

Beatriz não perguntou mais.

Eles foram até o fundo da garagem.

Duas caixas de madeira. Grandes. Fechadas com travas de ferro enferrujadas. Em uma delas, uma inscrição a tinta preta: "Material Bélico — Uso Exclusivo em Caso de Invasão."

Mike olhou para Apolo.

— Quando seu tio-avô enviou isso?

— Quando soube que eu tava construindo o bunker. Meu pai contou pra ele. Só que meus pais nunca falaram do que realmente se tratava — só que era um refúgio. Ele mandou as caixas. Eu nunca abri.

Mike pegou um pé de cabra encostado na parede.

Abriram a primeira.

Dentro, palha seca — não serragem. E sob a palha, um rifle. Ao lado, caixas de munição. Pistolas. Carregadores. Armamento suficiente para uma invasão.

— Tesouro — murmurou Beatriz.

— Quase ouro — concordou Mike.

Abriram a segunda caixa.

Dentro, um rádio antigo — desses de frequência, com botões de metal e uma antena retrátil quebrada. Faltavam alguns botões. Estava empoeirado, enferrujado.

Ao lado, jornais velhos. Notícias antigas. E uma parafernália de bips — pequenos dispositivos eletrônicos, cada um com um número gravado.

— O que é isso? — perguntou Mike.

Apolo pegou um dos bips.

— Meu tio-avô mandou um desses pra cada um da família. No dia do aniversário. Com uma carta: "Se precisar de qualquer coisa, aperte este botão."

— Você já apertou?

— Nunca. A fama dele é... complicada.

Mike não disse nada. Mas guardou um dos bips no bolso.

---

A cena mudou.

Maria ainda estava na bancada.

As páginas em russo estavam à sua frente. Ela as separou das demais, organizando por data — ou pelo que parecia ser data. O desenho do avião chamava atenção: pequeno, porte para uma ou duas pessoas. Escritas em cirílico contornavam a aeronave.

Ela reconheceu algumas palavras. Russo básico. Mas o suficiente para saber que aquilo não era anotação científica. Era um plano. Um projeto.

Embaixo, muitas linhas riscadas. E no meio dos rabiscos, uma sigla repetida várias vezes:

D4?

D4??

D4!!!

A última página estava rasgada. Faltava um pedaço. Maria passou o dedo sobre a borda irregular, tentando imaginar o que estava escrito ali.

Ela olhou para as palavras riscadas. O tamanho delas. A proporção. Todas tinham o mesmo comprimento aproximado. Como se a mesma palavra tivesse sido escrita e apagada muitas vezes.

"Phromet", pensou. Estavam riscando a palavra "Phrome...".

Mas o que isso significava?

E por que o avô dela — um cientista brasileiro, filho de judeus, que nunca demonstrou qualquer conexão com a Rússia — tinha páginas inteiras em russo?

Maria fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, focou na sigla.

D4.

Ela repetiu mentalmente. D4. D4. D4.

Foi então que aconteceu.

O bunker sumiu.

A escuridão veio. Não a escuridão de quando se apaga a luz — outra coisa. Mais densa. Mais pesada. Como se o ar tivesse virado sólido.

Ela tentou se mexer. Não conseguiu.

Uma sombra. Grande. Enorme. Com um formato que seus olhos não conseguiam traduzir — algo anormal, algo que não pertencia a nenhuma categoria que ela conhecia.

E então o sussurro.

Baixo. Distorcido. Vindo de todos os lados ao mesmo tempo.

"...Chronos..."

Apenas isso. Uma palavra. Um sopro.

Ela tentou gritar. Não saiu som.

A sombra se moveu. Ou não se moveu — era difícil saber. O tempo parecia estar errado ali.

"...Chronos..."

De novo. Mais próximo.

Maria tentou recuar. Não havia chão.

E então — o transe acabou.

Ela voltou para o bunker com um baque seco. Estava caída no chão, ao lado da bancada. O corpo inteiro tremia. A blusa estava grudada na pele, encharcada de suor.

— MARIA! — Mike já estava ao lado dela, segurando-a pelos ombros. — Maria, olha pra mim.

Ela tentou falar. A voz saiu trêmula, quebrada.

— Eu... eu vi...

Beatriz correu da cozinha com um copo d'água. Apolo veio atrás, pálido. Ajudaram Mike a colocá-la no sofá.

Maria bebeu. A mão tremia tanto que Beatriz precisou segurar o copo.

— O que foi? — perguntou Mike. — O que você viu?

Ela respirou fundo.

— As páginas... do meu avô. Têm coisas em russo. Um avião. Anotações. E uma sigla... D4.

— D4? — repetiu Apolo.

— Eu fiquei olhando pra ela. Pensando. E aí... eu fui arrebatada.

— Arrebatada como? — perguntou Beatriz.

— Eu não sei. Eu só... eu não estava mais aqui. Eu vi uma sombra. Uma sombra enorme, com um formato... errado. E ouvi uma voz. Sussurrando.

— O que a voz disse? — perguntou Mike.

Maria franziu a testa.

— Eu... não lembro direito. Era baixo. Distorcido. Fez sentido na hora, mas agora... sumiu.

Ela mentiu. Não sabia por quê. Mas a palavra Chronos ficou guardada em algum lugar da mente dela — como se não fosse para ser dita em voz alta ainda.

Mike a observou por um segundo. Não acreditou completamente. Mas não insistiu.

— E a sigla? — perguntou Apolo. — D4. O que significa?

Maria levantou os olhos.

— Quarta dimensão.

O silêncio caiu pesado. Os monitores mostravam a clareira vazia. A frequência 963 zumbia baixo.

Apolo olhou para Mike. Mike olhou para Maria. Beatriz prendeu a respiração.

— Quarta dimensão — repetiu Apolo, devagar. — Isso é... tempo.

— É tempo — confirmou Maria.

Ninguém falou.

Beatriz foi até a bancada, onde havia deixado os kits médicos. Remexeu nas caixas pequenas até encontrar o que procurava — um frasco de comprimidos. Ela leu o rótulo, sacudiu um comprimido na mão.

— Toma. É calmante.

Maria obedeceu. Engoliu seco.

— Chega por hoje — disse Beatriz, com a voz firme de quem dá uma ordem. — Foi revelação demais. Vamos dormir.

Ninguém discutiu.

---

Foram para os quartos.

Maria deitou ao lado de Mike. O corpo ainda tremia levemente, o suor frio demorando a secar. Ele a puxou para perto, os braços envoltos nela.

O sono veio rápido. O calmante ajudou. A exaustão também.

Dentro de alguns minutos, Maria respirava devagar, perdida no escuro.

Mike ficou acordado.

Os olhos abertos no teto do bunker. A frequência 963 zumbindo. A respiração de Maria no peito dele.

Ele não conseguia dormir.

E lá fora, na clareira, as câmeras continuavam gravando.

Capítulo 33 — O Preço de Ser Procurado

Capítulo 33: O Preço de Ser Procurado

O bunker amanheceu cinza.

Não pela falta de luz — o sol lá fora estava alto, e a claridade entrava pelas escotilhas gradeadas. O cinza estava nos rostos. Nas olheiras. No jeito como cada um se movia, devagar, como se o corpo pesasse mais do que deveria.

Mike já estava de pé quando os outros acordaram. Não dormiu bem — ninguém dormiu. Passou a noite ouvindo o zumbido da frequência 963 e pensando nos carros pretos, nos homens de terno, no boiadeiro que Beatriz viu morrer.

Maria saiu do quarto com a blusa azul do pai e o cabelo preso de qualquer jeito. Beatriz veio atrás, o rosto ainda pálido, as marcas do horror da véspera ainda frescas. Apolo estava na cozinha quando elas chegaram, a xícara de café já na mão, os olhos fixos em algum ponto distante.

— Alguém dormiu? — perguntou Beatriz, com uma voz que já sabia a resposta.

— Não — respondeu Apolo.

— Também não — disse Maria.

Mike entrou na cozinha, pegou a cafeteira, encheu uma xícara e sentou. Ninguém falou por alguns segundos. O silêncio não era vazio — era ocupado. Cheio de coisas que nenhum deles sabia como dizer em voz alta.

— Eu não paro de pensar naquele homem — Beatriz quebrou o silêncio, a voz baixa. — No hospital. O jeito que ele olhou pra mim. Ele sabia que ia morrer.

— Ele sabia — confirmou Apolo. — E sabia o que estava vindo atrás dele.

— Cão dos infernos — disse Mike, repetindo as palavras do boiadeiro. — Não era só um bicho. Era outra coisa.

Maria tomou um gole de café. A xícara tremeu levemente na mão.

— A gente já lidou com isso antes. No túnel. Na captura.

— Mas agora eles estão se organizando — disse Mike. — Não são mais criaturas isoladas aparecendo do nada. Eles têm jaleco, têm hospital, têm documento.

— E têm a mídia — completou Apolo. — Isso é o que mais me assusta. O controle da narrativa.

Mike pousou a xícara.

— Mais cedo ou mais tarde, a gente vai aparecer na televisão como foragido. É o padrão. Primeiro te isolam. Depois te queimam. Depois te caçam.

— Você acha que vão fazer isso? — perguntou Beatriz.

— Se já não fizeram — respondeu Mike.

O silêncio voltou. Mais pesado agora.

Apolo olhou para o relógio na parede.

— Eu vou buscar os garotos.

— Não — Mike foi rápido. — Seu carro é muito visível. Opala preto, vidro fumê. Eles já viram você na escola, na lanchonete. Tão de olho.

— E aí? Vou deixar eles lá?

— A gente se comunica por rádio. Eles ficam em casa por enquanto. Até a poeira baixar.

Apolo não gostou. Mas sabia que Mike tinha razão.

Foi quando ouviram.

O rádio na sala de operações chiou. Um som baixo, depois uma voz — clara, firme, jovem.

— Apolo? Apolo, é o Jonathan. Vocês estão aí? Por favor, diz que sim.

Apolo saiu da cozinha correndo. Os outros atrás.

Ele pegou o rádio, ajustou a frequência.

— Estamos. O que foi?

— Liga a TV. Agora. Qualquer canal de notícia.

— O que está acontecendo?

— É sobre vocês. Sobre a Maria. Sobre o tio Mike. Tá passando em tudo quanto é lugar.

Apolo ligou a TV. A RS News estava no ar. O âncora — um homem de meia-idade, terno azul, expressão grave — falava com a voz medida de quem anuncia algo que já sabia há tempo.

— ...e agora, as informações que chegam da nossa equipe de investigação apontam para um desdobramento inesperado neste caso que tem mobilizado as autoridades gaúchas e federais. A cientista quântica Maria Eduarda Costa, filha e neta de pesquisadores renomados, é oficialmente considerada foragida pela Polícia Federal.

A tela mostrou uma foto de Maria. Não a Maria do bunker, de cabelo preso e blusa azul. Era uma foto de arquivo — jaleco branco, crachá no peito, olhar sério de quem posava para documento oficial.

— A cientista é acusada de sabotagem no projeto de abertura da Fenda Dimensional em Porto Alegre, que resultou na morte de soldados brasileiros e na fuga de documentos classificados como de segurança nacional. De acordo com as investigações, Maria Eduarda teria agido em conluio com um militar desertor.

A foto mudou. Mike apareceu na tela. Farda. Boina. O olhar duro de General de uma estrela. O nome na legenda: General Mitchel Ferrer.

— O General Mitchel Ferrer, que na data dos eventos estava destacado para a segurança do projeto, teria raptado a cientista ainda desacordada após um confronto com forças de segurança no laboratório de Porto Alegre. Testemunhas oculares afirmam que o militar disparou contra agentes da CIA e fugiu com a pesquisadora em um veículo oficial.

Maria prendeu a respiração.

— As investigações também relacionam o General Ferrer à destruição de sua própria chácara na região de Caxias do Sul, incendiada há poucos dias, e ao desaparecimento de um jipe militar encontrado carbonizado numa ribanceira próximo a Santa Rosa. O chassi do veículo corresponde ao utilizado pelo militar na noite da fuga. Não foram encontrados vestígios humanos no local.

Apolo murmurou:

— Eles tão montando um queijo.

— Um queijo enorme — disse Mike, a voz gelada.

A tela cortou para uma entrevista. Larkin Andersen. O rosto sério, o terno escuro, a gravata perfeitamente ajustada. O brilho nos olhos que Maria conhecia bem — não o brilho da verdade, o brilho de quem está no controle.

— Maria Eduarda — disse ele, inclinando levemente a cabeça, como se falasse diretamente com a câmera —, eu sei que você está vendo isso. Eu sei que você está ouvindo. E quero que você saiba: ninguém está bravo com você. O que aconteceu foi um acidente. Uma tragédia. Você não tem culpa de ter sido manipulada por esse militar que a raptou.

Beatriz olhou para Mike. Mike não desviou os olhos da tela.

— Seu trabalho é importante. O que você construiu vai mudar o mundo. E você merece estar aqui, fazendo parte disso, colhendo os frutos do que plantou. Ninguém quer te prender. Ninguém quer te machucar. Só queremos te ouvir, te proteger, e terminar o que você começou.

Uma pausa.

— Apareça. Dê um sinal. Estamos de prontidão para enviar equipes de salvamento para qualquer lugar. Só precisamos saber que você está bem.

Larkin inclinou a cabeça novamente. O sorriso que veio em seguida não era amigável. Era venenoso.

— Quanto ao General Ferrer... Mitchel... — o nome saiu com desprezo. — Ele vai responder por cada um dos seus atos. Não apenas pelo rapto. Não apenas pela sabotagem. Mas por cada mentira, cada covardia, e por ter colocado em risco a maior descoberta da história da humanidade. Ele não tem desculpa. Ele não tem salvação. Ele é um homem morto.

O silêncio no bunker era absoluto.

Larkin continuou, a voz mais baixa, mais íntima.

— Maria, eu fui sincero com você. Sempre fui. Sabe disso. Você confiou em mim uma vez, e eu não decepcionei. Confie de novo. Volte. Antes que seja tarde demais.

A entrevista terminou. A tela voltou para o âncora, que parecia desconfortável.

— Bom... vamos agora às informações sobre o tempo para os próximos dias. E também uma nota sobre a oferta de um banco europeu para financiar projetos de devolução de recursos...

Apolo desligou a TV.

O bunker ficou em silêncio.

Maria estava imóvel, os olhos fixos no lugar onde a tela estivera.

— Ele disse que você confiou nele — Mike quebrou o silêncio. A voz não era acusadora. Era investigativa. — O que ele quis dizer com isso?

Maria demorou a responder.

— A gente trabalhou junto. No começo. Antes da sabotagem. Ele era... convincente. Sabia o que dizer. Sabia como me fazer sentir que o que eu estava fazendo importava.

— E você confiou?

— Sim. — A palavra saiu baixa, quase inaudível. — E foi um erro. Um erro que eu nunca mais vou repetir.

Mike ficou com ela por um momento. Depois assentiu.

— Todo mundo tem um desses na vida.

Beatriz ainda estava pálida, as mãos enroladas na xícara de café.

— E agora? Eles sabem que a gente existe. Sabem os nomes. Sabem os rostos. Em breve vão saber onde a gente está.

— Por isso — disse Mike — a gente precisa saber primeiro.

Foi até a bancada. Olhou para Apolo.

— A garagem velha. A caixa com as câmeras e o DVR. Ainda está lá?

Apolo lembrou na hora. A caixa empoeirada, os cabos emaranhados, as câmeras pequenas de segurança residencial.

— Nunca chegamos a montar. Tem que ver se funciona ainda.

— A gente monta hoje.

Apolo olhou para a rampa que levava à porta de ferro. Lá fora, a clareira. A mata. A estrada de terra onde os carros pretos poderiam aparecer a qualquer momento.

— Vamos.

Subiram.

A garagem velha estava como sempre — escura, empoeirada, cheirando a óleo e ferrugem. A caixa estava no fundo, atrás de uma prateleira de livros antigos sobre fenômenos extraterrestres.

Mike abriu. Tirou o DVR — pesado, antigo, mas com cara de ainda funcionar. As câmeras eram pequenas, com cabos longos e emaranhados.

— Sérgio e Jonathan vão saber o que fazer com isso — disse Apolo.

— Então a gente chama eles.

— Pelo rádio?

— Pelo rádio. Eles ficam em casa. A gente busca ninguém por enquanto.

Voltaram para o bunker. Mike ligou o DVR numa tomada. O aparelho acendeu. A tela ficou azul. Depois preta. Depois — um sinal.

— Funciona — disse Apolo, surpreso.

— Funciona — confirmou Mike.

Começaram a instalar. Não foi rápido. As câmeras foram posicionadas nas árvores ao redor da clareira, nos ângulos que davam visão da estrada de terra e do barraco. Os cabos foram enterrados às pressas, cobertos de folhas e terra. O DVR ficou na sala de operações, com os monitores apontados para a bancada.

Quando tudo ficou pronto, eles se reuniram em volta dos monitores.

A imagem mostrava a clareira vazia. O barraco. A estrada de terra. As árvores ao fundo.

— Nada — disse Beatriz.

— Por enquanto — respondeu Mike.

Foi quando Maria viu.

Na tela do canto inferior direito — na câmera que apontava para a entrada da estrada — uma sombra. Não um animal. Não uma pessoa. Algo escuro, meio translúcido, que se movia devagar entre as árvores.

— Olhem — ela apontou.

Todos olharam.

A sombra parou. Ficou imóvel por alguns segundos. Depois se afastou, sumindo na mata.

— A frequência — disse Maria. — Está mantendo eles à distância. Mas não está impedindo de se aproximar.

— Pelo menos agora a gente vê eles chegando — disse Mike. — Antes não dava.

Apolo desviou os olhos dos monitores.

— E os garotos?

— Fica por hoje — respondeu Mike. — Amanhã a gente vê.

O silêncio voltou. A frequência 963 zumbia baixo. Os monitores mostravam a clareira vazia. A sombra não apareceu de novo.

Maria foi até a bancada.

Os cadernos do avô estavam ali, empilhados, como ela havia deixado na noite anterior. Ela pegou o que estava embaixo — o mais velho, a capa de couro puída, as páginas amareladas.

Sentou. Começou a folhear.

Não era a primeira vez. Já tinha lido aquele caderno antes, anos atrás, quando o avô ainda estava vivo. Mas agora ela procurava outra coisa. Algo que não tinha prestado atenção na primeira vez.

As páginas passavam. Anotações sobre energia negativa, matéria exótica, a teoria das cordas.

E então ela encontrou.

No meio do caderno, uma página diferente. A letra não era a mesma — era mais antiga, mais trêmula. Do avô já idoso, talvez nos últimos meses de vida. A tinta desbotada. Algumas palavras riscadas.

E no centro da página, uma palavra sublinhada três vezes.

Protocolo Vértice.

Maria leu em silêncio. A mão começou a tremer — não de medo, de antecipação.

— Mike — chamou, a voz saindo num fio.

Mike foi até ela.

— O que foi?

— Meu avô sabia.

— Sabia o quê?

— Tudo. A fenda. As criaturas. A conspiração. Ele deixou... ele deixou uma chave.

Ela ergueu os olhos.

— A gente precisa encontrar o resto desses documentos. Se ainda existem.

Mike olhou para ela. Depois para os monitores. Depois para a porta de ferro lá no alto.

— A gente encontra.

A frequência 963 zumbia. O bunker escuro. Lá fora, a noite começava a cair.

E dentro do bunker, pela primeira vez em dias, havia uma centelha de esperança — frágil, pequena, mas real.

Capítulo 32 — O Paciente do Último Andar

Capítulo 32: O Paciente do Último Andar

O relógio na parede marcava duas e quinze.

Beatriz entrou no hospital pelo portão lateral, o mesmo de sempre, onde os seguranças já conheciam seu rosto e só acenavam. A recepção principal estava tranquila — movimento baixo, próprio de tarde de quarta-feira. As meninas do balcão conversavam entre si, rindo de alguma coisa que Beatriz não ouviu direito.

— Boa tarde, meninas — disse ela, passando.

— Boa tarde, enfermeira — responderam em coro, e uma delas ainda completou: — A senhora tá com uma cara boa hoje.

— Dormi bem. Pela primeira vez na semana.

Elas riram. Beatriz seguiu.

A área de troca ficava no fim do corredor, depois da sala de descanso dos médicos. Ela abriu seu armário — o de número 12, com o adesivo de borboleta no canto — e trocou a blusa de passeio pelo uniforme azul-claro. Ajustou o crachá no bolso. Prendeu o cabelo num coque rápido, prático, sem espelho.

Passou pela ala da pediatria no caminho para o posto dela.

A pediatria estava silenciosa — o silêncio bom, de crianças dormindo ou entretidas com tablet. Uma técnica que passou por ela com um carrinho de medicamentos acenou com a cabeça.

— Tudo calmo? — perguntou Beatriz.

— Tudo calmo. A enfermeira chefe pode ficar tranquila.

— Sempre fico.

Saiu da pediatria. Cruzou com o doutor Mauro no corredor principal — ele vinha da UTI, a expressão cansada de quem acabava de sair de um plantão de doze horas.

— Beatriz, bom dia. Já chegou?

— Já. Como foi a noite?

— Teve um infarto às quatro da manhã, mas estabilizou. O resto foi rotina.

— Que bom.

Ela seguiu. Passou pela sala de medicação, pelo posto de enfermagem da ala B, pelo refeitório vazio. Cada passo, uma informação — tudo corria bem, não faltavam médicos, os leitos estavam dentro do esperado.

Chegou na sala dela.

Pequena. Mesa de madeira velha com balcão de fórmica verde. Um computador antigo que demorava pra ligar. O livro de ocorrências — capa preta, páginas amareladas — sempre aberto na página do dia.

Beatriz sentou. Abriu o livro. Pegou a caneta.

Datou. Anotou a hora. Escreveu com a letra miúda e organizada que usava desde o curso técnico:

13 de maio de ...
Murmurou o ano ..
Horário às 14:20 escreveu ela com jeito.
Embaixo, Enfermeira Beatriz Oliveira assume plantão. Ala B e C operando normalmente. Todos os leitos ocupados: 12. Transferências: 0. Óbitos: 0.

Assinou. Fechou o livro.

Foi quando ouviu os gritos.

— ENFERMEIRA! ENFERMEIRA BEATRIZ!

Os dois técnicos de enfermagem correram pelo corredor — brancos, ofegantes, os olhos arregalados. O mais novo, o Lucas, chegou primeiro, as mãos apoiadas nos joelhos.

— Chegou... uma unidade do SAMU... com um paciente. Sozinho. Sem familiar.


— O que ele tem?

— Não sei. Os paramédicos não falaram direito. Só pediram a senhora.

Beatriz já estava de pé.

— Onde ele está?

— No estacionamento. Estão trazendo agora.

Ela saiu da sala. Passou correndo pela recepção — as meninas levantaram, assustadas — e chegou no estacionamento quando a maca entrava pelo acesso de emergência.

A maca vinha na frente, empurrada por dois paramédicos suados. Em cima, um homem. Cabelo grisalho, pele queimada de sol, chapéu de couro ainda na cabeça. Camisa xadrez aberta no peito, suja de terra e sangue. O rosto dele — o que dava pra ver — estava pálido, os olhos semicerrados, a boca mexendo como se estivesse rezando sem som.

— O que houve com ele? — perguntou Beatriz, acompanhando a maca.

— Não sabemos — respondeu o paramédico mais velho, o bigode grisalho. — Fomos chamados por um morador da estrada, perto de São Francisco do sul, em uma zona Rural chamada de vila da Glória. O senhor estava caído na beira do asfalto, sozinho. Não tinha carro, não tinha cavalo. 
Um vizinho que ouviu os gritos que ligou para o resgate, chegando lá só tinha ele, o chapéu, e os ferimentos.

— Que ferimentos?

— Olha só.

O paramédico afastou a camisa aberta do homem.

O peito estava marcado — arranhões profundos, cinco sulcos paralelos do ombro até o abdômen. Como garras. Não era faca. Não era acidente de estrada.

Beatriz sentiu o estômago apertar, mas não parou.

— Coloca na sala de emergência. Chamem o doutor Mauro e a doutora Renata. 
Depois também vou querer uma cópia da tomografia, pego assim que ele estabilizar.

Levaram o homem para a sala vermelha. Beatriz foi atrás, já puxando as luvas.

A sala se encheu rápido. Médicos, técnicos, enfermeiros. Monitores apitando. Soro sendo pendurado. Oxigênio. O doutor Sérgio — cardiologista, cabelo ralo, óculos de grau grosso — avaliou os ferimentos com um olhar preocupado.

— Isso é ataque de animal, Beatriz?

— Não sei. Vamos perguntar pra ele quando acordar.

O homem abriu os olhos.

Não devagar — de repente. Como se alguém tivesse ligado um interruptor. A mão dele agarrou o pulso de Beatriz com uma força que não combinava com o estado em que estava.

E GRITOU!!!!

SOCORROOO ELE ESTA,VINDO, ELE ESTÁ VINDO...
O CÃO DOS INFERNOS, ESTÁ VINDO ELE ... ELE....

Então Beatriz falou: Calma senhor, acalmasse e nós conte o que foi que aconteceu!!

O homem engoliu em seco. Os olhos estavam marejados — não de choro, mas sim de desespero.

— Eu tava... eu tava levando o gado pro curral... aí senti um calafrio, mais não comum, e nem do nada, então do meio da mata eu vi dona eu vi... ele o cão dos INFERNOS!!

 Ele saiu de uma nuvem preta; A porta do inferno dona, ela se abriu e ele .. e ele ..

— E ele o que diga. Falou um paramédico...

Ele fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, a voz saiu num fio: 

— O bicho. Preto. Grande. Parecia um cão, mas não era... os olhos brilhavam, de Cor vermelho dona, e ele me derrubou do cavalo... eu corri... ele veio atrás... me agarrou... 

— a mão dele apertou o pulso dela mais forte — ...mas ele não queria me matar. Ele queria... 

— Queria o quê?

— Entrar em mim eu lutei e gritei então foi quando ele ouviu algo e enterrou suas garras em mim eu tentei fugir me arrastando e vi quando ele voltou pela nuvem..
E então eu não lembro mais de nada...

O silêncio na sala foi pesado. O doutor Mauro trocou um olhar com a doutora Renata. Alguém pigarreou.
Então doutor Mauro disse ele está tendo alucinações, leve ele para o último andar, para uma sala reservada ..
Saiu da sala como se fosse se comunicar sobre a ocorrência.

Beatriz disse:

— Você está seguro agora. Está no hospital. Ninguém vai entrar em você.

O homem balançou a cabeça, como se aquilo não fosse resposta suficiente. Mas fechou os olhos. O monitor cardíaco apitava num ritmo regular — o coração dele estava estável, pelo menos.

Foi quando ouviram.

Motores. Muitos motores. E o som de portas batendo no estacionamento.

— O que é isso? — perguntou Lucas, indo até a janela.

Ele ficou pálido.

— Beatriz... a senhora precisa ver isso.

Beatriz foi até a janela.

Carros. Muitos carros. Todos pretos, vidros escuros, estacionados em fila na entrada do hospital. Homens de terno preto desciam e se espalhavam pelo perímetro, conversando em rádios de punho. Pareciam militares, mas não usavam farda — usavam ternos que pareciam blindados.

E no meio deles, uma equipe com roupas diferentes.

Roxo. Jalecos de um roxo intenso, quase berrante. Bordados no peito: bandeirinhas dos Estados Unidos e de Israel, lado a lado.
Mulheres de cabelos presos e dois homens altos todos com semblante duro quase visíveis através das máscaras. Uma mulher ia na frente — cabelo preto liso, olhos puxados, aspecto de descendente de japoneses. 

Os homens de terno abriram passagem. A equipe de roxo entrou no hospital sem dizer uma palavra.

Beatriz desceu correndo.

A recepção estava em polvorosa. As meninas não sabiam se pediam identificação ou se se escondiam atrás do balcão.

— É do governo?— sussurrou uma delas. —Um deles mostrou uns documentos. 

É tudo autorizado.

A mulher de roxo já estava no elevador, acompanhada de dois homens de jaleco roxo e mais dois de terno. O elevador subiu.

— Último andar — disse Lucas, ofegante, aparecendo ao lado de Beatriz. — Eles foram para o último andar.

— No centro cirúrgico desativado??

— Sim, levaram o boiadeiro.

Beatriz não pensou duas vezes.

Foi pela escada. Subiu dois degraus por vez, a mão no corrimão frio, a respiração ofegante. O último andar do hospital era um lugar vazio — salas desativadas, equipamentos antigos, corredores que cheiravam a mofo e desuso. Ninguém subia ali. Ninguém tinha motivo.

Ela saiu da escada. O corredor estava escuro — algumas luzes piscando, outras apagadas. No fundo, uma porta fechada. Luz branca vazando pela fresta de baixo.

Beatriz se aproximou devagar. Passo silencioso. Pé ante pé.

Chegou na porta.

Olhou pela fresta.

A sala era grande. As mesas de cirurgia ainda estavam lá, cobertas por lençóis amarelados. No centro, o boiadeiro estava deitado numa maca, rodeado pela equipe de roxo.

A mulher de cabelo preto estava ao lado dele, segurando um tablet. Os outros dois médicos — se é que eram médicos — ajustavam algo nos braços do paciente. Soro? Não era soro. Os tubos eram escuros, grossos, ligados a uma máquina portátil que Beatriz não reconheceu.

Ela prendeu a respiração.

Foi quando viu.

Um dos médicos — o homem do lado esquerdo — tirou a luva. A mão dele... a mão dele começou a mudar. Os dedos se alongaram. A pele escureceu ficou com aspecto gosmento.. Entre os dedos, uma membrana. E a ponta de cada dedo se afinou se uniu e virou um tentáculo fino, longo, que se movia em em direção a maca 

Ele se inclinou sobre o boiadeiro.

O tentáculo entrou pela boca do paciente.

Não houve grito. O boiadeiro abriu os olhos — arregalados, desesperados — mas não conseguiu se mexer. Os outros dois da equipe de roxo o seguravam pelos ombros, imóveis, como se pesassem uma tonelada.

A mulher de cabelo preto não olhou para o paciente. Olhou para o tablet. Anotou alguma coisa.

O corpo do boiadeiro começou a tremer.

Não era convulsão — era outra coisa. A pele dele ficou cinzenta, os olhos perderam o brilho, a boca abriu mais — não voluntariamente, como se algo estivesse puxando de dentro.

O tentáculo se retraiu devagar.

E o boiadeiro morreu.

Beatriz viu o momento exato — o monitor cardíaco portátil apitando uma nota contínua, plana, infinita. A equipe de roxo não se mexeu. A mulher de cabelo preto desligou o tablet, guardou na pasta.

— O próximo — disse ela. A voz era calma, prática, como se estivesse falando de uma lista de compras.

Um dos homens de jaleco roxo fez uma anotação.

— Despacha o corpo. Laudo: insuficiência múltipla dos órgãos. Causa natural. Família já foi comunicada?

— Não tem família — respondeu o outro.

— Melhor ainda.

Beatriz recuou.

Passo silencioso. Pé ante pé. O coração batia tão alto que ela tinha medo que ouvissem. Chegou na porta da escada. Abriu devagar. Entrou. Desceu.

Não correu. Não podia correr. No hospital, quem corre chama atenção. Ela desceu andando rápido, o que dava pra disfarçar de pressa profissional.

Passou pela recepção. As meninas estavam quietas agora, os olhos arregalados.

— Beatriz... o que está acontecendo?

— Não sei. E foi com passos rápidos sem olhar pra trás..

Passou pela sala de emergência. O doutor Mauro a viu e abriu a boca para falar — ela passou direto.
Enquanto percebia que ele ficou olhando ela se afastar.

Chegou na área de troca. Abriu o armário. Tirou a blusa de passeio. Vestiu. Guardou o crachá no bolso. Deixou seu jaleco lá. Não olhou no espelho.

Saiu pelo estacionamento.

A moto estava onde ela tinha deixado — uma Honda Twister preta, anos de uso, mas confiável. Ela colocou o capacete. Ligou. Acelerou.

Os homens de terno preto olharam para ela. Um deles falou algo no rádio. Beatriz não esperou para saber o quê.

Saiu do estacionamento e pegou a avenida.

A cidade estava estranha — menos movimento do que o normal, as pessoas nas calçadas olhando para os próprios celulares, as lojas abrindo e fechando sem critério. Beatriz passou pelo centro, pela praça, pela igreja matriz.

A escola.

Ela reduziu.

Carros pretos. Muitos. Estacionados na porta, no estacionamento, na rua lateral. Homens de terno preto circulando, conversando em rádios. A porta da escola estava lacrada com fitas amarelas.

Interditada — pensou.

Acelerou de novo.

Na saída da cidade, quando ela já pegava a estrada de terra que levava à chácara da família de Apolo, ela viu no retrovisor. Um dos homens de terno preto estava parado na esquina, o rádio no ouvido, olhando na direção dela.

Ele falou alguma coisa.

Beatriz acelerou. O vento cortava o capacete, o barulho do motor preenchia os ouvidos. A estrada de terra pulava embaixo das rodas, a lama respingando na perna da calça.

Chegou na clareira em menos de quinze minutos.

Jogou a moto num cavalo de pau — a traseira derrapou na terra, a frente rodou, e ela parou a moto de lado, quase derrubando. O barulho do motor ecoou pela mata. Dali de dentro do bunker, dava pra ouvir tudo.

Desligou. Jogou a moto no chão, sem se preocupar em apoiar o descanso. Correu para o barraco. Subiu a rampa de madeira aos tropeços.

— ABRE! — gritou, batendo na porta de ferro com as duas mãos. — ABRE, SOU EU! BEATRIZ!

Dentro do bunker, Apolo já estava de pé. O coração disparou — aquela batida desesperada na porta não era normal. Mas ele reconheceu a voz.

— É a Beatriz — disse, para Mike e Maria. — É a Beatriz.

Subiu a rampa correndo. Girou os cursores. A porta rangeu abrindo.

Beatriz entrou como um furacão. O cabelo solto bagunçado, ela largou o capacete bunker a dentro, o rosto pálido, a respiração ofegante.

— TRANCA! — ela gritou, empurrando Apolo — TRANCA ISSO AGORA !!!!!

Apolo girou os cursores de volta. Porém a porta não se fechou corretamente ele estava muito nervoso e nem percebeu.

Beatriz desceu a rampa correndo, quase caiu chegando do corredor, e se jogou na parede do corredor, encostando as costas, as mãos no rosto um choro de horror e medo.

Mike já estava de pé, a mão na pistola. Maria correu para ver ela. Sérgio saiu de trás do sofá, os olhos arregalados.

— O que foi? — perguntou Mike.

Beatriz levantou a cabeça. O rosto estava avermelhado, os olhos marejados.

— Eles mataram um homem. No hospital. Na minha frente.

— Quem? — perguntou Apolo, descendo a rampa.

— Os de roxo. Os caras de jaleco roxo que chegaram nos carros pretos com uns homens de terno preto, levaram um paciente pro último andar... e um deles...

Ela engoliu em seco.

— Um deles enfiou a mão sei lá, na boca do cara. A mão dele virou um tentáculo negro e gosmento e ele sugou o homem até matar. Eu vi. Eu tava olhando pela fresta da porta.

— Eles te viram? — perguntou Mike.

— Não. A sala é grande, a porta é longe. Desci em silêncio e corri para me trocar.

 Peguei a moto. Vim direto pra cá.

— Alguém te seguiu?

— Não vi ninguém. Mas na saída da cidade... tinha um homem de terno preto parado na esquina. Ele olhou pra mim. Falou algo no rádio.

Apolo passou a mão no rosto e desceu pelos cabelos vermelho até a sua nuca...

— Eles sabem.

— Sabem o quê? — perguntou Beatriz.

— Que a gente existe. Que a gente tá mexendo com coisa que não devia.

Mike se virou para Apolo.

— Conta pra ela. Tudo.

Apolo contou de forma a quase tropeçar nas palavras as tudo que tinha ocorrido com ele e Sérgio.

Beatriz ouviu em silêncio, Maria lhe dera um copo de água que ficou esquecido na mão enquanto ouvia atenta e perplexa..

Então disse:

— Os mesmos carros —

 Foi quando ele terminou. 

— Na escola e no hospital.

— Os mesmos — confirmou Mike.

Beatriz tomou um gole d'água. A mão ainda tremia, mas a respiração já estava mais calma.

— Deixa eu te contar direito o que eu vi.
Então ela descreveu detalhes que não havia conseguido contar.

Quando ela terminou, Mike disse Cão dos infernos!! Com tom de dúvida...

Apolo murmurou..
Médicos de roxo? Transformando não em tentáculo isso é um absurdo. Disse ele levando a mão a boca ..

Sérgio estava branco. Maria tinha os braços cruzados, a expressão fechada. Mike não se mexia.

— Não é a mesma coisa que a gente já lidou tem outra forma — disse Mike.

Apolo disse eles não são humanos literalmente..

— Eles não são humanos — disse Beatriz. Concordando.
— Aquele médico... a mão dele... não é coisa de humano.

— Híbridos — disse Maria, pensando em voz alta. — A gente já viu algo parecido nos registros do meu avô. Seres que conseguem transitar entre dimensões. Que se disfarçam de humanos. Mas...

— Mas o quê?

— Os registros diziam que eles não conseguiam ficar muito tempo aqui. Que a nossa dimensão degradava o corpo deles. —
Provavelmente eles estão coletando sangue para usar conj fonte de energia para se estabilizar na nossa dimensão possívelmente!!

Maria olhou para Mike. — Se eles estão operando dentro de um hospital, com documentos, com equipe... é porque algo mudou.

— Eles estão mais adaptados. — disse Mike. — Mais rápido do que a gente imaginava.

O silêncio pesou.

Foi quando ouviram.

Passos. Lá em cima. Alguém estava subindo a rampa do barraco. Os passos eram leves, cautelosos — mas audíveis no silêncio do bunker.

Mike fez sinal. Todos se calaram. Ele apontou para trás da bancada — Maria puxou Beatriz e Sérgio. Apolo se encostou na parede ao lado da rampa.

Mike foi para o outro lado da parede porém a pistola já estava na mão, apontada para a entrada do corredor..

A porta rangeu abrindo.

Apolo gelou pois se lembrou que não conferiu se fechou ou não..

Mike nem se moveu pronto pra discernir disparos.

Duas silhuetas apareceram no topo da rampa. A primeira desceu devagar, com cuidado — foi se aproximando com passos seguros. 

E...

 Maike se vira apontando seu revólver na direção de ...
Marcos e Jonathan.


— TIO MIKE, NÃO! — gritou, tropeçando nos próprios pés e caindo sentado no chão com as mãos levantadas...

Mike baixou a arma no último segundo.

— PELO AMOR DE DEUS! — Marcos colocou a mão no peito, ofegante. — QUASE ME MATOU DO CORAÇÃO!

Jonathan que estava atrás dele, quando viu a pistola e saiu correndo para trás da bancada, agarrando-se em Sérgio pelo braço.

— QUE ISSO, TIO? — gritou Jonathan, pálido. — A GENTE SÓ VEIO ENCONTRAR VOCÊS!

— A gente ia avisar que chegamos— Mas a porta estava aberta então resolvemos entrar para ver se estava tudo bem.

Mike guardou a pistola.

— Meu pai nos levou para a escola mais cedo — explicou Marcos, ainda no chão da rampa. — mas os policiais não deixaram ninguém entrar. Tava tudo cercado. Aí meu pai falou que só poderíamos ir na casa do Sérgio após as 14 h chegando lá, olhando pra Apolo disse, seu pai disse que vocês não estavam e então viemos a pé até aqui..

Apolo foi até a porta de ferro. Girou os cursores de segurança de novo — agora para trancar de verdade. A porta se fechou com um clique seco.

— Senta todo mundo — disse Mike. — Vocês precisam saber o que está acontecendo.

Os garotos se espalharam pelo bunker. Marcos sentou no sofá, ainda ofegante. Jonathan puxou uma cadeira perto da bancada. Josué ficou de pé, encostado na parede, os braços cruzados.

Todos conversaram por horas sem perceber.

Então os garotos estavam com cara de muito medo, e Marcos perguntou.

— E agora? —

— Agora vocês vão pra casa — disse Mike.

— Mas—

— Não tem mas. Vocês vão pra casa talvez amanhã vocês..

Então..

O celular de Apolo tocou e era uma mensagem, Ele olhou.

— É o pai do Jonathan e do Marcos. — Leu em voz alta: "Apolo, pode trazer os guris mais cedo hoje. A prefeitura avisou que vai ter toque de recolher. Tão dizendo que tem onça solta na região. Antes das sete, por favor."

Apolo olhou o celular e na tela viu o hora eram 18:35.

Apolo guardou o celular.

— Toque de recolher por causa de onça — repetiu, com amargura. 
— Onça não invade escola no meio da cidade. Onça não entra em hospital, disse Mike.

— Eles estão criando uma narrativa — disse Maria. — Pra explicar os corpos. 

Pra justificar o patrulhamento.

— E pra esconder o que realmente está acontecendo — completou Mike.

Apolo olhou para os garotos.

— Vamos. Agora.

Subiu a rampa com eles. Mike foi atrás. Beatriz ficou dentro, ainda pálida, mas de pé.

Lá fora, a clareira estava silenciosa.
O sol já estava baixo. 
O céu estava num tom laranja suave, as árvores imóveis, sem vento. A mata ao redor parecia calma. Pássaros cantavam ao longe.

Apolo levantou a moto da Beatriz — ela estava caída de lado, o guidão torto. Ajeitou. Apoiou no descanso.

— Tá tudo limpo — disse ele, olhando em volta. — Nem parece que aconteceu alguma coisa.

— É o silêncio que mais assusta — disse Mike.

Apolo virou para os garotos.

— Vou levar vocês pelo caminho das lanchonetes. É mais longo, mas é mais seguro.

— E a Beatriz? — perguntou Sérgio.

— A Beatriz fica aqui hoje vou voltar pra cá.

Mike olhou para Apolo.

— Amanhã a gente precisa montar um sistema de vigilância. Vi umas câmeras e um DVR na garagem velha, na sala das bugigangas do seu clube antigo.

Apolo lembrou na hora. A caixa empoeirada, os cabos emaranhados, as câmeras pequenas de segurança residencial.

Nunca chegamos a montar tem que ver se funciona ainda..

— Serve. A gente monta amanhã.

— Vou precisar dos garotos — disse Mike. — Pelo menos o Sérgio e o Jonathan. Eles entendem de eletrônica.

Apolo assentiu.

— Amanhã cedo eu trago eles.

Os garotos entraram no Opala. Apolo ligou o motor. O carro saiu devagar pela estrada de terra, os faróis acesos contra o crepúsculo.

Mike ficou na clareira até o carro sumir na curva.

Depois entrou no barraco, Fechou a porta de ferro. Girou os cursores, Desceu a rampa.

Beatriz estava sentada no sofá, com o copo vazou na mão. Maria ao lado dela, em silêncio.

Mike foi até a bancada. E ficou andando de um lado para o outro enquanto a frequência 963 zumbia baixo — o som invisível que agora fazia parte do bunker.

Beatriz começou a falar se Deus existe agora é hora de ele aparecer.

Maria ouvindo ficou em silêncio..

Mike nem deu ouvidos.

Uns 14 minutos depois da saída Apolo retorna.

Entra e diz..

Sem exitar..

— Vamos dormir — Amanhã o trabalho começa cedo.

Beatriz se levantou. Maria foi com ela até o quarto do fundo. Mike ficou na sala por um momento, ouvindo o zumbido, olhando para a porta de ferro lá no alto.

Apolo deu um toque no ombro do amigo e foi na direção dos quartos.


Encarou mais um pouco a porta no final do corredor e em seguida, apagou a luz.

O bunker mergulhou no escuro.

Apenas a frequência continuava — baixa, constante, como uma respiração invisível.

E a noite, lá fora, estava cheia de olhos que eles ainda não podiam ver.

Capítulo 31 — Perseguição

Capítulo 31: Perseguição

O sinal tocou às onze e vinte.

Apolo estacionou o Opala na rua lateral, antes da curva que dava acesso ao portão principal da escola. Já de longe viu.

Viaturas. Um caminhão da polícia militar estacionado de través na calçada, bloqueando a entrada de veículos. Carros pretos — três, quatro, talvez cinco — espalhados pelo estacionamento e pela rua em frente. SUVs com vidros escuros, motor ligado, antenas no teto. Parecia cena de filme, mas não era.

— Caramba — murmurou Sérgio, no banco de trás, abaixando a cabeça para olhar pela janela. — Tudo isso por causa de um funcionário?

— Não é por causa do funcionário — disse Apolo. — Fica aí. Se alguém chegar perto do carro, se abaixa e tranca as portas. Não abre pra ninguém.

— Se baterem?

— Não vão bater. Mas se baterem, não abre.

Apolo desceu.

O ar estava pesado, a umidade grudando na pele. O chão ainda molhado da chuva da noite anterior. Ao se aproximar do portão principal, um policial o parou — mão erguida, expressão neutra.

— Área interditada, senhor. Só funcionários e autoridades.

— Sou professor — disse Apolo, mostrando a identificação. — Professor Apolo Mendes. Física.

O policial olhou para o crachá. Depois para Apolo.

— Seu nome está na lista, professor?

— Não sei. O diretor está aí?

O policial hesitou. Depois acenou com a cabeça.

— Acompanhe.

Apolo passou pelo portão. O pátio estava vazio — nenhum aluno, nenhum funcionário da limpeza, nenhum rosto conhecido. Apenas os homens fardados e os de terno preto, circulando entre as alas do prédio com a discrição forçada de quem não quer parecer que está investigando.

O diretor estava na porta da secretaria.

Um homem baixo, barriga proeminente, bigode grisalho mal aparado. Sapatos engraxados, camisa branca passada a ferro, gravata azul-marinho frouxa no pescoço.

— Professor Apolo — disse o diretor, estendendo a mão. — Obrigado por vir.

— O que aconteceu? — perguntou Apolo.

— O funcionário da limpeza foi encontrado no pátio dos fundos às duas da madrugada. A escola está interditada por tempo indeterminado. Aulas virtuais começam na segunda-feira. O governo garantiu o salário de todo mundo — isso eles deixaram claro. Mas, professor... — o diretor baixou a voz — ...esses homens de terno preto chegaram antes da polícia. Não perguntaram nada. Só começaram a andar.

Apolo ouviu em silêncio.

— O senhor está dispensado — continuou o diretor. — Pegue o que veio buscar e vá. Quanto menos eu souber, melhor.

— Só vim pegar uma camisa que deixei no armário — disse Apolo. — E os materiais das aulas virtuais. Provas, exercícios, planejamento. Não tenho nada em casa.

— Seja rápido.

Apolo foi até a sala dos professores. O corredor estava vazio, as portas das salas abertas. Na sala dos professores, abriu o armário com a chave. Pegou a camisa xadrez velha. E no fundo, atrás dos livros, a pasta preta — grossa, pesada, com todo o material que ele ia precisar para dar aula à distância.

Guardou na mochila. Fechou o armário. Saiu.

No pátio, os homens de terno preto o observaram. Um deles falou algo no rádio de punho.

O policial no portão liberou Apolo com um aceno.

O Opala estava onde havia deixado. Sérgio estava abaixado no banco de trás, trancado.

— Tudo certo? — perguntou Sérgio, aparecendo.

— Tudo. Peguei o material das aulas.

Apolo ligou o motor. Saiu devagar. Olhou no retrovisor — nenhum carro preto o seguiu.

Mas ele não confiou.

— Vamos dar uma volta.

— Pra quê?

— Pra ver se alguém vem atrás.

Ninguém veio. Fizeram o trajeto mais longo até o centro — praça, igreja matriz, rua das lanchonetes.

— Vamos parar ali — disse Apolo, apontando para a Lancheria do Beto. — Tô com fome.

— Umas três pessoas lá dentro — disse Sérgio, olhando. — Parece tranquilo.

— Tranquilo.

Desceram.

A lanchonete estava com movimento baixo — um casal de meia-idade perto da janela, um caminhoneiro no balcão lendo jornal, uma senhora no fundo tomando chimarrão. Beto atrás do balcão.

— Apolo! — Beto ergueu a mão. — A escola fechou mesmo?

— Fechou. Aulas virtuais agora.

— Pois é, a cidade inteira já sabe.

Pedram pastéis. Comeram devagar. O casal foi embora. O caminhoneiro pagou e saiu. Ficaram só eles e a senhora do fundo.

— Vou lavar as mãos — disse Apolo, levantando.

— Vou junto — disse Sérgio.

Foram até o fundo. O banheiro masculino era pequeno — azulejo branco, pia minúscula, uma lâmpada piscando. No fundo, uma janela de escotilha que abria para fora, na altura do peito.

Apolo abriu a torneira.

Foi quando ele olhou pela janela.

O beco entre a lanchonete e o prédio vizinho — escuro, úmido, paredes descascadas. E no fundo do beco, parado, um homem.

Terno preto. Imóvel. Olhando direto para a janela do banheiro.

Apolo não se mexeu.

— Sérgio.

— O quê?

— Não olha agora. Tem um cara ali fora. Terno preto.

Sérgio prendeu a respiração.

— O que a gente faz?

— Espera.

Apolo desceu a tampa do vaso — barulho. Deu descarga. Abriu a torneira de novo. Demorou.

O homem não se mexeu.

Foi quando ouviram.

Um grito. Do outro lado da lanchonete. Vindo do banheiro feminino.

Alto. Cortante.

— Socorro! Tem alguém aqui!

Passos. Muitos passos. Porta do banheiro feminino sendo aberta à força. Vozes masculinas — "calma, senhora", "saia daí", "olha ali, tem alguém".

Apolo olhou pela janela de novo.

O beco estava vazio.

O homem de terno preto tinha corrido para dentro.

— Agora — disse Apolo.

Abriu a janela com força. Pulou para o beco, caiu de lado no chão molhado. Levantou.

— Vem!

Sérgio pulou atrás. Caiu pior — joelho no chão, um gemido — mas levantou.

Correram. Saíram na rua de trás, deram a volta pelo quarteirão, chegaram no Opala.

Apolo entrou. Ligou o motor.

A mão bateu no botão do rádio sem querer.

A música explodiu. _*Runaway - Bon Jovi*_

_*"On a steel horse I ride...*_

_*I'm wanted... dead or alive..."*_

— Puta merda — ele abaixou o volume, mas não desligou. Não dava tempo. Engatou a ré, saiu da vaga com os pneus cantando.

No retrovisor, dois carros pretos saíram do estacionamento da lanchonete. Faróis acesos.

— Eles tão vindo — disse Sérgio, o rosto branco.

Apolo acelerou. Pegou a avenida, passou o sinal vermelho. Virou à esquerda, depois à direita, entrou num bairro residencial.

Os carros pretos acompanharam.

_*"Sometimes I sleep, sometimes it's not for days..."*_

— Segura — disse Apolo.

Entrou numa rua sem saída. No fundo, um terreno baldio, mato alto. Do outro lado, a continuação da avenida.

— Vai dar?

— Vai ter que dar.

Apolo jogou o Opala no terreno baldio. Galhos arranharam as portas. Lama respingou nos vidros. O carro pulou nos buracos, bateu o fundo numa raiz — mas passou.

Saiu na avenida do outro lado.

Os carros pretos não apareceram.

_*"The people I know all got something to do..."*_

Apolo olhou no retrovisor. Nada.

Não reduziu. Continuou acelerando, fez mais curvas, pegou a estrada de terra. A lama espirrava, o carro derrapava, mas ele não parou até chegar na clareira.

Desligou o motor. A música parou no meio da frase — corte seco, abrupto.

O silêncio foi ensurdecedor.

Apolo ficou com as mãos no volante, ofegante. Suor escorrendo pela testa.

— Vai entrar — disse ele. — Fala pra Maria que a gente foi seguido. Eu vou já.

Sérgio desceu. Correu para o barraco. Digitou o código na porta de ferro — a luz azul piscou, a porta abriu. Ele desceu a rampa correndo.

— Maria! — gritou. — A gente foi seguido!

Maria largou o computador na hora. Levantou, foi até ele.

— Onde está o Apolo?

— Lá fora. No carro. Ele disse que vinha.

Lá fora, Apolo não foi direto para o barraco.

Ele contornou a clareira, foi até a garagem velha — uma construção de madeira coberta de musgo, quase invisível no meio da mata. Ninguém usava aquilo há anos.

Pressionou a mão contra um painel escondido atrás de uma tábua solta. A luz azul do leitor biométrico brilhou. A porta de madeira — que parecia parte da parede, sem maçaneta, sem trinco — se abriu devagar, rangendo.

Apolo entrou. A porta se fechou atrás dele.

Dentro, a garagem.

O espaço era amplo, empoeirado, com cheiro de óleo e ferrugem. Uma prateleira com caixas velhas. Ferramentas espalhadas. Livros empoeirados sobre fenômenos extraterrestres — os restos do antigo grupo de estudos ufológicos.

E a moto.

A Harley Davidson de Mike estava no centro da garagem, exposta, sem lona. As ferramentas no chão ao redor — chaves inglesas, alicates, uma lata de óleo vazia. Alguém tinha mexido nela recentemente.

Apolo estranhou. Mas não teve tempo de pensar.

Ouviu um rangido atrás dele. Uma parte do piso de madeira se levantou — uma escotilha no chão, que ele nem sabia que existia.

Mike saiu de dentro.

Jaqueta jeans, camiseta preta, óculos escuros enfiados na cabeça.

— Você tá aí — disse Mike.

Apolo deu um passo para trás, assustado.

— Como você... o que você está fazendo aqui?

— Tava mexendo na moto. Usei a escotilha dos fundos — liga a garagem com o bunker. O pessoal antigo instalou. Você nunca usou?

— Não sabia que existia.

— Nem eu, até umas semanas atrás. O Sérgio que achou, mexendo nos papéis antigos.

Mike olhou para Apolo de cima a baixo. A calça suja de lama. A camisa molhada de suor. A respiração ofegante.

— O que aconteceu?

Apolo respirou fundo.

— Fui na escola. Peguei o material das aulas virtuais — provas, exercícios, planejamento. Nada demais.

— E?

— E me seguiram.

Mike ficou em silêncio.

— Dois carros pretos. Saíram da lanchonete atrás de mim. Perdi eles no caminho, mas... chegaram perto. Muito perto.

— Eles viram você saindo da escola com a pasta?

— Provavelmente. Devem ter achado que era outra coisa.

— O que você disse pro diretor?

— Que vim buscar material pras aulas virtuais. É a verdade.

Mike pensou por um segundo.

— E eles acreditaram?

— Não sei. Mas me seguiram até a lanchonete. Entraram atrás de mim. Tiveram que invadir o banheiro feminino pra me procurar. A senhora gritou, se assustou. Foi aí que eu escapei pelo beco.

Mike assentiu devagar.

— Eles estão te marcando. Querem saber onde você vai. Quem você encontra.

— Eu sei.

— Vamos descer. Você conta direito lá dentro.

Desceram pela escotilha do chão — uma escada de ferro enferrujada que levava direto para o bunker. O corredor subterrâneo era estreito, mal iluminado, com cheiro de terra úmida.

Chegaram na sala principal.

Maria estava de pé, os braços cruzados. Sérgio no sofá, ainda pálido.

— Senta — disse Maria, apontando para a cadeira.

Apolo sentou. Contou tudo — desde a chegada na escola, a conversa com o diretor, a interdição, o material que pegou no armário. As aulas virtuais. O movimento na lanchonete. O homem de terno preto no beco. O grito no banheiro feminino. A fuga pela janela. A perseguição de carro. O terreno baldio.

Quando terminou, o bunker ficou em silêncio.

Mike foi até a bancada. Pegou a pasta preta, abriu, folheou rápido. Provas. Exercícios. Planejamento de aula. Nada mais.

— Não é isso que eles querem — disse Mike. — Eles querem saber o que você sabe. Onde você vai. Quem você encontra. A pasta é só um pretexto.

— E agora? — perguntou Apolo.

Mike fechou a pasta.

— Agora a gente sabe que eles estão mais perto do que a gente imaginava.

Apolo olhou para a rampa que subia para a porta de ferro. Lá em cima, a clareira. A mata. A estrada de terra.

— Será que eles viram a gente entrar aqui?

— Não sei — disse Mike. — Mas não podemos contar com a sorte.

Foi até a parede onde os monitores estavam instalados — desligados ainda, aguardando as câmeras que ele planejava colocar. Passou a mão na tela preta.

— A partir de agora, a gente assume que estão vigiando.

Maria foi até ele.

— O que você quer dizer com isso?

— Quero dizer que a porta de ferro lá em cima pode não ser segura por muito tempo.

O silêncio pesou.

A frequência 963 zumbia baixo no fundo — o som invisível que agora fazia parte da rotina.

Lá fora, a tarde caía. A clareira escurecia.

E dentro do bunker, ninguém sabia quantos olhos estavam parados na mata, esperando.

INFORMATIVO IMPORTANTE!!!!

• De última hora quero informar a todos que, ainda hoje nós iremos fazer a conclusão do Volume 1 na Página Oficial do BLOGGER.
Da Série: Protocolo Vértice - Conspiração Extradimensional.

Por que acelerar?
— Estamos com uma demanda de funções, tenho obras a criar e série de livros a concluir, fora as funções de editor que precisam acelerar para completar a diagramação do volume 1 em capa mole e capa dura pela Amazon Kindle.

— Aquilo que no canal do WhatsApp seria um tempo sabático, está dando margem para a plataforma apagar todo o início dos trabalhos. Obrigando a transferência de todo o canal para uma comunidade fechada no whatsapp. 

— E por último mais não menos importante quero encontrar o meu público.

— Público seja lá onde você esteja leitores sérios que gostam de imersão.
Eu estou te procurando!!!
E vou encontrar vocês!!!

• Tenho um planejamento de divulgação que precisa dar início fora trabalhos com um projeto integralmente novo em todos os sentidos pra mim.

A criação da: Rádio MythosCast.

— Com ponto inicial nas obras de programações e criação de espaço para Narração da nossa Série!!!!!

A inteligência artificial é de fato muito boa mais a Narração velada pode dar o gostinho Brasileiro que só nos temos; Fora uma imersão absurda por meio de ferramentas e narrativa oratória...

Isso tudo em contraste com cursos para a fidelização da minha editora Mythos publish & mídia.

— Que pretendo estender pra mais pessoas que gostam de trabalhar com isso..

Ganhando seu dinheiro e tendo um nome pra creditar nisto...
Com a compra exclusiva do selo e tendo suporte pra toda a postagem..

— Então estes são belos motivos pra acelerar completar o sabático e iniciar o volume 2 de Protocolo Vértice Conspiração Extradimensional (Arco 3 - Projeto Érebus).

— Agora dando marca Mr. SandmanBr.1995 uma equipe de prontidão.

— Espero que você leitor compreenda e credite que eu vou dar a vocês a melhor imersão de web série que eu puder e se eu puder farei com o máximo de respeito e congruência..

Fiquem com Deus, um abraço e um beijo de seu grande amigo virtual ou não Mr. SandmanBr.1995


Capítulo 30: Fé x Física — O Debate Infindável.

Capítulo 30: Fé x Física — O Debate Infindável.
O som que ainda está por vir.


O bunker ficou em silêncio depois da fala de Mike.

Ninguém discordou. Ninguém concordou. As palavras dele ficaram no ar, pesadas, como a chuva que caía lá fora batendo nas escotilhas gradeadas.

Foi Beatriz quem puxou o fio de volta. Ela ainda segurava a mão de Marcos, examinando o ferimento.

— Isso não é normal — disse ela, a voz baixa.

Todos olharam.

Ela soltou o curativo com cuidado. A gaze caiu. O ferimento — o corte que tinha sido aberto, ralado, sangrento — estava quase completamente fechado. Apenas uma linha rosa na palma da mão, como uma cicatriz de semanas, não de um dia.

— Isso foi ontem — continuou Beatriz. — Era pra estar inflamado. Dolorido. Suturando. Isso aí parece que faz duas semanas.

Marcos olhou para a própria mão. Abriu e fechou os dedos.

— Não dói nada — disse ele, honestamente surpreso.

Jonathan olhou para a mão do irmão. Depois para Beatriz. Depois para o teto de concreto, as escotilhas lá em cima.

— O que é normal? — perguntou ele, com uma calma que não combinava com o caos ao redor. — Depois de tudo que a gente viu... depois da fenda, das criaturas, da frequência, do que o Josué fez ontem... alguém aqui ainda sabe o que é normal?

O silêncio que se seguiu foi pesado. Não o silêncio de quem não tem resposta — o silêncio de quem percebe que a pergunta não tem mais sentido.

Foi Mike quem quebrou de novo.

— Eu sei. — A voz saiu baixa, diferente. Ele não olhou para ninguém. Ficou com os olhos fixos na xícara vazia à sua frente. — Quando eu era moleque, eu sabia o que era normal.

Todos se viraram para ele.

Mike nunca falava de si mesmo. Nunca.

— Eu fui criado num orfanato — continuou ele, no mesmo tom. — Depois fui adotado por um casal de batistas. Gente boa. Me deram teto, comida, uma cama. E me deram Deus.

Maria ficou imóvel.

— Eram batistas fervorosos — disse Mike, com uma ponta de nostalgia ou amargura — ou as duas coisas. — Toda semana na igreja. Oração antes das refeições. Bíblia na mesa de cabeceira. Aquele negócio de "confia no Senhor" pra tudo.

— O que aconteceu? — perguntou Sérgio, em voz baixa.

Mike demorou a responder.

— A vida aconteceu. — Ele ergueu os olhos. — Eu entrei pro exército. Vi coisas que nenhum sermão preparou. Perdi gente. Matei gente. E fui me afastando. Primeiro da igreja. Depois da oração. Depois da ideia de que alguém lá em cima estava escutando.

Foi nesse momento que ouviram.

TOC TOC TOC.

Três batidas secas na porta de ferro lá em cima. O som ecoou pelo duto de ventilação, abafado mas inconfundível.

Todos se entreolharam. Mike levantou da cadeira, a mão indo para a cintura por instinto. Apolo fez um gesto para ele esperar.

— Quem é? — gritou Apolo, subindo a rampa.

— Sou eu. Josué.

Apolo girou os cursores. A porta rangeu ao abrir.

Josué entrou.

Estava molhado. O cabelo escuro colado na testa, a mochila nas costas encharcada, a bermuda grudada nas pernas. Respirava fundo, como quem pedalou rápido para não se molhar mais do que já estava.

— Começou a chover mais forte lá fora — disse ele, descendo a rampa. — Não dava nem pra ver a estrada direito.

— Tá vendo? — Marcos apontou para o teto. — Eu falei que o céu tava estranho.

Josué deixou a mochila no chão, perto da parede. Olhou para o grupo reunido na cozinha. Percebeu o clima estranho — o rosto de Maria ainda levemente corado, a postura tensa de Mike, os garotos com os olhos baixos, Beatriz com a lixa ainda na mão.

— O que foi que eu perdi? — perguntou ele.

Ninguém respondeu de imediato. Foi Mike quem falou, retomando o fio da meada como se a porta nunca tivesse sido aberta.

— Agora eu não sei — disse ele, completando a frase que havia sido interrompida. — Eu queria ter a certeza que você tem, Josué. Mas não tenho. Só sei que... tem coisa acontecendo que não é só bala e frequência.

Apolo, que já vinha se segurando desde o início da conversa, não suportou.

— Ah, pelo amor de Deus — disse ele, a voz carregada de exasperação. — Tudo tem que ter um viés espiritual agora? A mão do moleque cicatrizou porque o corpo dele é jovem e saudável. A tal da "cura" que vocês estão chamando tem explicação biológica. E essa história de "frequência de Deus"... isso não é ciência. Isso é wishful thinking com verniz de laboratório.

Josué, que até então estava em silêncio, secando o cabelo com a barra da camiseta, ergueu a cabeça. A água escorria pelo pescoço, mas os olhos estavam secos e firmes.

— O senhor acha que tudo tem explicação, professor?

— Tudo tem explicação — respondeu Apolo, firme. — Pode ser que a gente não tenha descoberto ainda. Mas existe. Seja física, biologia, química. Não tem mágica. Não tem milagre.

— E a fenda? — Josué não recuou. — A criatura que eu vi sumir ontem? O senhor viu?

Apolo franziu o rosto.

— Fenômenos dimensionais são diferentes. Isso é ciência de ponta. Teoria das cordas, branas, buracos de minhoca. Não é... — ele gesticulou em direção a Josué — ...esse negócio de fé e oração que você trouxe.

— O senhor sabe qual era a frequência que a gente usou ontem? — perguntou Sérgio, se metendo na conversa.

Apolo o olhou.

— 963 Hertz. A chamada "frequência de Deus".

— Pois é. — Sérgio cruzou os braços. — E por que ela funcionou? Por que a UV-C funcionou? A gente não entende completamente, mas funcionou. Por que não pode ser os dois?

Apolo abriu a boca.

— Porque—

— Porque o senhor não quer, professor — completou Josué, com calma. — O senhor quer uma explicação que caiba no seu caixa de ferramentas. Mas e se a caixa de ferramentas for maior do que o senhor pensa?

O silêncio ficou tenso. A chuva lá fora batia nas escotilhas do bunker, um tamborilar constante que agora fazia parte da conversa.

Apolo olhou para Josué com uma expressão que oscilava entre a irritação e um raro brilho de admiração relutante. Ele não gostava de ser desafiado. E gostava menos ainda de não ter uma resposta imediata.

Foi Beatriz quem quebrou o gelo.

— E se a gente parar de tentar ganhar a discussão e começar a tentar entender o que tá acontecendo? — disse ela, com a praticidade de quem está acostumada a resolver problemas em vez de ganhar debates. — Josué, você veio de bike na chuva até aqui. Não foi por acaso. O que você tem pra dizer?

Josué se aproximou da mesa. Abriu a mochila. Tirou um caderno pequeno — capa de couro puída, páginas amareladas, o cheiro de tempo e uso.

— Meu caderno de decretos — disse ele, pousando sobre a mesa com cuidado. — Meu pastor me orientou há uns dois anos. Toda manhã eu escrevo orações. Decretos. Coisas que eu creio que vão acontecer. E leio em voz alta. Todo dia. Reforço.

— Reforço — repetiu Maria, o cérebro científico ligando. — Como um treino. Repetição. Condicionamento.

— Se o senhor quiser ver assim — disse Josué. — Eu vejo como fé praticada.

— E funcionou? — perguntou Marcos.

Josué olhou para a própria mão. Depois para a cicatriz na mão de Marcos.

— Funcionou.

— E o que seu pastor falou? — perguntou Jonathan.

— Ele disse que eu preciso ir além — respondeu Josué. — Que o que aconteceu ontem foi um sinal. E que... — ele hesitou — ...que talvez eu precise estar em outro lugar.

— Outro lugar como? — perguntou Apolo, já com o tom defensivo de volta.

Josué respirou fundo.

— Meus pais receberam uma ligação do Canadá. — A voz saiu mais baixa, como se ele mesmo ainda estivesse processando. — Uns pastores de lá pediram ajuda. Missão. E meus pais... aceitaram. Vamos nos mudar. Eu vou junto.

O bunker caiu em silêncio absoluto. A chuva lá fora batia nas escotilhas com mais força — ou era impressão.

Jonathan foi o primeiro a reagir.

— Você vai... sair do país?

— Pelo visto.

— Quando? — perguntou Marcos, com a voz trêmula.

— Não sei ainda. Mas logo. Talvez nas próximas semanas.

Apolo ficou branco. Acabara de debater com o garoto, de questionar cada uma das suas convicções — e agora descobria que ele ia embora. Que não haveria tempo para mais debates, para mais perguntas, para entender o que diabos estava acontecendo.

Ele não disse nada. Só pegou a xícara e foi até a pia. Virou as costas para todos.

Mike observou a cena em silêncio. Depois olhou para Maria.

Maria estava com o caderno de Josué nas mãos. Folheava devagar, os olhos percorrendo as páginas com uma atenção científica — mas havia algo além da ciência no jeito que ela tocava o papel.

— Essa frequência 963... — disse ela, pensando em voz alta. — A gente já sabe que estabiliza a estrutura molecular das criaturas. O que acontecer se a gente mantiver ela no ar? Continuamente?

— Uma barreira — disse Sérgio. — Como a armadilha magnética, mas... constante.

— Exatamente.

Apolo se virou da pia. Ainda estava irritado, mas a curiosidade científica falou mais alto.

— Você quer instalar caixas de som no bunker? Com a frequência rodando em loop?

— Quero — disse Maria. — Se a teoria do Josué estiver certa — ou mesmo se não estiver, se for só física — a frequência 963 desestabiliza as criaturas. Não vai impedir uma invasão, mas pode atrasar. Dar tempo.

— E se for os dois? — perguntou Josué. — Ciência e fé trabalhando juntas?

Maria olhou para ele.

— Aí a gente tem uma solução que não viria de nenhum dos dois lados sozinhos.

Apolo não respondeu. Mas não disse não.

Uma hora depois, as caixas de som estavam instaladas.

Não eram grandes — duas caixas portáteis, dessas de apresentação escolar, que Apolo tinha guardadas no fundo do armário há anos. Conectadas a um tablet velho, configuradas para tocar o arquivo de áudio de 963 Hertz em loop contínuo.

O som era baixo. Quase inaudível. Mas estava ali — uma vibração constante no fundo de tudo, como um zumbido que se sentia mais do que se ouvia.

Josué ficou parado no centro da sala, os olhos fechados, sentindo.

— É como uma oração sem palavras — disse ele, baixinho.

Apolo ouviu. Não comentou.

O relógio na parede marcava vinte para as oito.

— Vinte pras oito — disse Apolo. — É melhor levar vocês de volta.

— E amanhã a gente volta pra escola — disse Sérgio, com amargura.

— A gente — confirmou Apolo.

As despedidas foram rápidas. Josué foi o último a sair. Parou na rampa, olhou para o bunker, para as caixas de som, para Mike e Maria.

— Obrigado — disse ele. — Por ouvirem.

— Vai com Deus, moleque — disse Mike.

Josué subiu a rampa. Apolo girou os cursores. A porta de ferro se fechou com um baque surdo.

O som do Opala ligou lá em cima, no barraco, e se afastou pela estrada de terra molhada.

O bunker ficou vazio.

Mike e Maria ficaram.

O zumbido baixo da frequência 963 preenchia o ar.

Ela foi até o mapa na parede da sala de operações. Pegou um alfinete vermelho. Colocou em Alagoas.

— Mais um ponto — disse ela. — E não vai ser o último.

Mike foi até a parede oposta, onde ficava uma das escotilhas gradeadas. Olhou para o duto de ar, para a luz cinzenta que entrava lá de cima.

— Amanhã a rotina normal — disse ele, sem se virar. — Escola. Aula. Café. Como se nada tivesse acontecido.

— Como se — disse Maria.

Ele se virou.

Os olhos se encontraram.

O zumbido da frequência estava ali. Constante. Como uma respiração invisível.

— Isso não vai parar — disse Mike. — Até que a fenda seja fechada. Ou até que ela nos engula a todos.

Ninguém respondeu.

O zumbido continuou.

E todos pareciam ouvir, no fundo, o som do que ainda estava por vir.

Capítulo 29: Sem máquina de lavar ?

Capítulo 29: Sem máquina de lavar ?

A quarta-feira amanheceu cinza em Santa Rosa.

Lá fora, a chuva fina começara a cair ainda de madrugada, molhando a terra batida da clareira. O barraco abandonado que servia de entrjada para o bunker rangia com o vento, as telhas soltas batendo uma na outra num ritmo irregular.

Dentro do bunker subterrâneo, o silêncio era profundo — apenas o zumbido baixo do gerador e a respiração de duas pessoas no quarto do fundo. A iluminação vinha de dutos de ar e pequenas escotilhas gradeadas no teto, por onde a luz cinzenta da manhã entrava sem força.

Mike estava de costas para a parede, um braço sob a nuca, o outro envolvendo Maria. Vestia apenas um samba-canção — shorts de dormir — e sem camisa. O peito subia e descia no ritmo lento de quem ainda não quer acordar.

Maria estava encostada no ombro dele. A camisola rosa curta — não vulgar, mas curta — subiu um pouco na coxa durante a noite. O cabelo loiro espalhado no travesseiro. A mão dela pousada no peito dele, onde o coração batia devagar.

O rádio da sala estava desligado. O bunker parecia suspenso no tempo.

Foi o barulho do motor que quebrou tudo.

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Lá fora, na estrada de terra que levava à clareira, o Opala de Apolo subia devagar, os pneus estalando no cascalho molhado. Dentro, Beatriz no banco do carona, Sérgio e Jonathan atrás, Marcos no meio dos dois, a mão direita ainda enfaixada.

— Por que tão devagar? — perguntou Marcos.

— Porque o chão está molhado — respondeu Apolo. — E porque não tenho pressa.

O carro parou na clareira, perto do barraco abandonado. Todos desceram. A chuva fina molhava os cabelos e os ombros.

Apolo foi na frente. Entrou no barraco — o piso de madeira rangendo sob os pés, o cheiro de mofo e terra úmida. No fundo, a porta de ferro maciça. Ele se agachou, girou o primeiro cursor — um daqueles mecanismos antigos, de cofre, que exigiam força e jeito. Girou o segundo. Foi no terceiro quando parou.

Na parte de baixo dos cursores, um pequeno visor quadrado — geralmente apagado, inativo há anos — estava aceso. Azul.

Apolo franziu a testa.

— O que é isso? — perguntou Beatriz, ao lado dele, enxugando o cabelo com a mão.

— Leitor biométrico — respondeu Apolo, surpreso. — Maria ativou a segurança.

— Segurança?

— Porta trancada de verdade. Só entra quem está no sistema.

Ele tentou o código mesmo assim. Os cursores giraram, mas a porta não cedeu.

— Travada — disse Sérgio, atrás, encolhendo os ombros contra o frio.

— Maria! — Apolo bateu na porta com a palma da mão. O som ecoou no espaço confinado do barraco. — Maria, abre!

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Dentro do bunker, no quarto do fundo, Mike acordou como sempre acordava — de um segundo para o outro, o corpo inteiro em alerta.

Os olhos abriram. A mão direita já foi para a cabeceira, onde a pistola ficava todas as noites. Os dedos encontraram o metal frio.

O movimento brusco sacudiu a cama. Maria acordou com o solavanco, os olhos ainda pesados.

— O que foi? — a voz dela saiu grossa, arrastada. — O que que tá acontecendo?

— Alguém parou na clareira — respondeu Mike, já sentando na borda da cama, a pistola no colo.

Maria piscou duas vezes, o cérebro ligando aos poucos.

— É o Apolo.

— Não sei se é o Apolo — Mike já estava de pé, o corpo tenso, o olhar fixo na porta do quarto. — Mas é bom eu ficar atento.

Maria se sentou, puxando o lençol até o peito por instinto.

— Eu ativei o leitor biométrico ontem à noite — disse ela, a voz ainda rouca. — Depois que todo mundo foi embora. Por segurança. Se for o Apolo, ele não consegue entrar. Mas...

— Mas?

— Mas ele sabe o código. Se a porta não abrir, ele vai saber que algo está diferente.

Mike não respondeu. Levantou-se, a pistola na mão, e foi até a porta do quarto. Abriu devagar, enfiou a cabeça no corredor.

Do outro lado da porta principal, ouvia vozes abafadas vindas do barraco lá em cima. Apolo, Beatriz e os garotos.

— Mike! Maria! — a voz de Apolo ecoava pelo duto de ventilação. — Tá todo mundo aqui fora! Abre essa porta!

Mike suspirou. Baixou a pistola.

— É ele.

— Falei — disse Maria, com um meio sorriso.

— Veste alguma coisa — respondeu Mike, sem olhar para trás. — Eu vou abrir.

Ele já estava saindo do quarto quando Maria pulou da cama.

— Espera! — sussurrou ela, desesperada. — Mike! Espera!

Mike parou. Virou o rosto.

Ela apontou para si mesma — a camisola rosa curta, o cabelo bagunçado, o lençol caído.

— Eu não tô vestida!

Mike olhou. Demorou um segundo a mais que o necessário.

— É curta — disse ele, com uma naturalidade que só ele conseguia.

— Mike!

— Tá bom. — Ele recuou até o quarto. — Mas rápido. Eles vão arrombar a porta.

Maria vestiu a primeira coisa que viu pela frente — a camiseta preta dele, que estava jogada no chão, e uma calça jeans que pegou na mala. Passou a mão pelo cabelo, tentando domesticar o que não tinha jeito.

— Pronto — disse ela, ofegante. — Vai.

Os dois saíram do quarto e percorreram o corredor lado a lado até a base da rampa que subia para a porta de ferro.

Foi quando Apolo conseguiu.

O leitor biométrico apitou. A porta de ferro rangeu. Os cursores giraram no sentido inverso — e a porta se abriu com um baque surdo.

Apolo estava no batente, no fundo do barraco, a luz cinzenta da chuva atrás dele. Beatriz ao lado. Sérgio, Jonathan e Marcos logo depois, todos com os cabelos molhados, os ombros encolhidos.

E todos viram.

Mike e Maria saindo do corredor, no topo da rampa. Ele de samba-canção — o shorts de dormir — sem camisa, a pistola ainda na mão, o cabelo desgrenhado. Ela com a camiseta preta dele — larga, desbotada, bordas desfiadas — e a calça jeans vestida às pressas.

O silêncio durou dois segundos eternos.

Ninguém piscou.

Apolo tentou falar. A voz saiu presa, os lábios se mexendo sem coordenar.

— B-b-bom... bom... — ele pigarreou, tentou de novo, a voz saindo mais alta do que pretendia. — BOM DIA!

Ninguém respondeu.

Apolo passou por Mike e Maria como se não estivessem ali — ou como se estivesse fingindo tão desesperadamente que não estavam que o corpo decidiu agir antes do cérebro. Ele desceu a rampa em disparada, passou pelo corredor e sumiu na direção da cozinha, os passos acelerados ecoando no concreto.

— Vamos, pessoal! — gritou ele, já do outro lado da parede. — Entra! Entra todo mundo! Fecha essa porta que está entrando chuva!

Os garotos entraram — duros, os movimentos retos, como robôs programados para esquecer o que tinham acabado de ver. Beatriz foi a última, mas antes de descer a rampa, olhou para Mike e Maria com um sorriso de canto.

— Vocês dois... — disse ela, balançando a cabeça. Depois desceu.

Mike fechou a porta de ferro. Girou os cursores. O bunker voltou a ficar isolado do mundo lá de cima.

---

Na cozinha, o caos silencioso já estava armado.

Sérgio sentou primeiro. Os olhos arregalados, ele olhou para Mike, para Maria, para a camiseta preta, para o fato de os dois terem saído do mesmo quarto — e em vez de dizer qualquer coisa, pegou o pão que estava na sacola e enfiou uma mordida tão grande na primeira fatia que a boca ficou completamente cheia. Não mastigou. Ficou parado, as bochechas estufadas, como um hamster em estado de choque.

Jonathan ficou pálido. Os olhos foram de Mike para Maria, da camiseta para o quarto, e voltaram para o chão. Ele baixou a cabeça e passou a estudar os próprios tênis com uma atenção que nunca havia dedicado a calçado algum.

Beatriz tentou disfarçar. Tirou uma lixa de unhas do bolso — Deus sabia por que ela carregava uma lixa de unhas num bunker — e começou a lixar a unha do dedo anelar com uma intensidade cirúrgica. Os olhos dela, no entanto, estavam fixos em algum ponto lá no fundo, bem acima da cabeça de todo mundo.

Marcos foi o último a processar.

Olhou para Mike. Olhou para Maria. Olhou para o corredor que levava ao quarto. Olhou de novo para a camiseta preta que ela vestia — uma camiseta que ele já tinha visto antes, no corpo de Mike.

O cérebro de quinze anos fez o cálculo.

— Pessoal... — disse ele, com a voz mais alta que o necessário. — Vocês tão sem máquina de lavar?

Ninguém riu.

A vergonha coletiva foi tão densa que dava para cortar com faca.

O rosto de Maria ficou vermelho — da gola da camiseta preta até a raiz do cabelo. Abriu a boca, fechou, abriu de novo. Nenhum som saiu.

Mike — o homem que já tinha enfrentado criaturas de outra dimensão sem piscar — desviou o olhar. Por um segundo. Só um segundo. Mas foi o suficiente.

Jonathan finalmente ergueu a cabeça. Olhou para Marcos com uma expressão que, se pudesse matar só com o olhar, o irmão mais novo já teria sido enterrado.

— Cala a boca, moleque — disse Jonathan, em voz baixa e mortal.

Marcos encolheu os ombros.

— Foi mal. Foi mal.

Apolo estava na pia, de costas para a mesa, despejando café na garrafa térmica com uma concentração que sugeria que aquela era a tarefa mais importante da vida dele. Não se virou. Não disse nada. Só continuou despejando — mesmo depois que a garrafa transbordou.

Beatriz pegou um pano e enxugou sem comentar.

Mike olhou para Maria.

— Volta — sussurrou ele.

— O quê?

— Volta pro quarto. Pega uma roupa sua. Essa camiseta... — ele fez uma pausa — ...é muito óbvia.

Maria olhou para a própria roupa. A camiseta preta com a caveira desbotada. A que Mike vestia quando chegou de moto. A que ele usava nas noites de insônia.

— Ah, não... — murmurou ela.

— Volta.

Ela voltou pelo corredor. A porta do quarto fechou.

Mike ficou na cozinha sozinho com os outros. Respirou fundo uma vez, duas. Passou a mão pelo cabelo. Guardou a pistola na cintura.

Sentou na ponta da mesa.

---

Quando Maria saiu do quarto — desta vez com uma blusa azul dela, calça cargo, o cabelo preso — a cozinha já estava em clima de velório sem defunto.

Apolo continuava na pia, mas agora de frente para a mesa, os braços cruzados. Beatriz ao lado, a lixa guardada. Sérgio finalmente engoliu o pão. Jonathan mantinha os olhos na mesa. Marcos, felizmente, estava com a boca ocupada com um gole de café — não se sabia de onde tinha tirado aquela xícara.

Mike levantou. Foi até Maria. Puxou a cadeira ao lado dele para ela sentar. Ela sentou.

O silêncio durou mais do que o suportável.

Foi Mike quem quebrou.

— Nós — começou ele, e parou. Olhou para Maria. Ela assentiu. — Nós estamos juntos.

Palavra solta no ar. Simples. Direta. Do jeito que ele fazia tudo.

Beatriz pousou o pano.

Apolo descruzou os braços.

Sérgio prendeu a respiração.

Jonathan ergueu os olhos.

Marcos abriu a boca — e Jonathan o interrompeu antes que saísse qualquer coisa:

— Não fala nada.

Marcos fechou a boca.

Mike continuou:

— Essa situação toda... onde eu perdi tudo. Ela perdeu tudo. — Ele olhou para Maria, depois para os outros. — Gerou entre a gente um senso de unidade. E isso foi evoluindo. De forma natural.

— Um senso de unidade — repetiu Marcos, em voz baixa, testando a palavra.

— Marcos — Jonathan avisou.

— Tô quieto. Tô quieto.

Maria se inclinou na cadeira.

— A gente não planejou esconder de vocês — disse ela, a voz saindo mais firme do que o rosto, que ainda estava corado. — Só... não sabia como dizer.

Apolo finalmente se afastou da pia. Foi até Mike. Estendeu a mão.

— Parabéns — disse ele.

Mike apertou. O aperto demorou um segundo a mais que o normal.

— Obrigado.

Beatriz foi até Maria. Pegou na mão dela.

— Eu estou feliz por vocês — disse Beatriz, e a voz dela tremia um pouco, mas não de nervoso. — Depois de tudo que vocês perderam... vocês merecem.

Maria apertou a mão de volta. Não disse nada. Não precisava.

Sérgio se levantou, foi até Mike, e deu um tapinha no ombro dele — o gesto meio desengonçado de quem não sabe muito bem como demonstrar afeto mas quer tentar.

— É isso aí, tio — disse Sérgio. — Felicidades.

Jonathan foi até Maria. Não falou nada. Só deu um abraço rápido — o suficiente.

Marcos ficou na cadeira. Olhou para todos.

— Posso falar agora?

— Depende — disse Jonathan.

— É sério.

Jonathan assentiu.

Marcos se levantou. Foi até Mike e Maria. Estendeu a mão direita — a enfaixada — e disse, com uma seriedade que surpreendeu todo mundo:

— Bem-vindo à família, tio Mike.

Mike olhou para a mão enfaixada. Depois para o rosto sério de Marcos.

Apertou.

— Obrigado, moleque.

O clima mudou. O ar, antes pesado de vergonha e constrangimento, agora estava mais leve. Não completamente — ainda havia o eco do que tinham visto, o rubor nas bochechas de Maria, a forma como Mike ainda não conseguia olhar Apolo nos olhos por mais de dois segundos. Mas estava melhor.

Apolo se serviu de café de verdade — desta vez numa xícara, não na garrafa térmica.

Beatriz guardou o pano de vez.

Foi então que Apolo bateu a xícara na mesa.

— Bom — disse ele, mudando o tom. — Agora que isso foi resolvido... tem uma outra coisa.

Todos olharam.

— Ontem, quando cheguei em casa com o Sérgio e a Beatriz, passei pela sala. Meu pai estava vendo o jornal nacional. — Ele fez uma pausa. — O presidente vai anunciar alguma coisa hoje. Sobre o calendário escolar. Mudança nas férias.

— Mudança como? — perguntou Sérgio.

— Não sei. O jornal disse que a medida seria votada na madrugada. Se foi aprovada, o presidente vai anunciar ao vivo. Hoje.

— Que horas? — perguntou Mike.

— Nove e meia.

Mike olhou para o relógio na parede. Nove e vinte.

— Liga a TV.

Jonathan pegou o controle. A tela da televisão — pendurada na parede da sala de operações — acendeu.

O logo da RS News apareceu. A âncora — uma mulher de cabelos escuros, blusa azul, expressão contida — já estava no ar, mas o tom dela mudou quando uma nova informação entrou no teleprompter.

— Notícia de última hora — disse ela, com a voz grave. — A polícia confirma uma invasão noturna na Escola Estadual de Educação Básica Santa Rosa, na região metropolitana de Porto Alegre. A direção da escola ainda não se pronunciou oficialmente, mas fontes ligadas à Secretaria de Educação informam que o local foi violado durante a madrugada.

Jonathan ficou com o controle na mão, sem desligar.

— Como assim violado? — perguntou Marcos.

A âncora continuou:

— Como a escola não possui câmeras de segurança em todos os acessos, a polícia ainda não tem pistas concretas sobre os invasores. O caso mais grave, no entanto, é o de um funcionário da limpeza que fazia o fechamento do prédio. Ele foi encontrado caído no pátio dos fundos, com ferimentos graves. Foi socorrido e encaminhado ao Hospital Regional de Santa Rosa, onde permanece internado na UTI. A suspeita inicial é de ataque por animal de grande porte — uma onça, possivelmente.

Marcos ficou pálido.

— Onça? — sussurrou ele.

— Não é onça — disse Mike, a voz seca.

— Você não sabe disso — respondeu Apolo.

— Sei. — Mike virou para ele. — Porque onça não invade escola no meio da cidade.

Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...