domingo, 14 de junho de 2026

Capítulo 27 — Dia de Novidades!! / Qru.

Capítulo 27: Dia de Novidades!! / Qru.

A luz da manhã entrou pelas escotilhas gradeadas do bunker — não forte, não invasiva. Aquele tom suave que anuncia o dia sem pressa.

Mike já estava acordado há alguns minutos. Não se mexeu. Ficou olhando para o teto, o braço ainda envolvendo Maria, o corpo dela encostado no dele.

Ela respirou fundo uma vez, duas. Depois abriu os olhos.

— Que horas são?

— Cedo.

— Como você sabe?

— Sempre sei.

Ela virou o rosto devagar, olhou para ele. Os olhos castanhos profundos dele já estavam nela.

— Você fica me olhando dormir?

— Não.

— Mentiroso.

Mike não negou. Não confirmou. Só ficou com ela.

O silêncio não era pesado. Era confortável — o tipo que só existe quando duas pessoas já não precisam preencher o vazio com palavras.

Maria se levantou primeiro. Puxou o cobertor até o peito, sentou na cama por um segundo, os cabelos loiros bagunçados caindo sobre os ombros.

— Vou tomar um banho.

— Vou fazer café.

Ela saiu. Mike ficou mais um minuto na cama, ouvindo o som dos passos dela pelo corredor.

Depois levantou. Vestiu a calça cargo. A camiseta preta estava no chão — ele pegou, vestiu, passou a mão pelo cabelo.

Foi para a cozinha.

---

O café estava quase pronto quando Maria apareceu. Cabelo úmido preso de qualquer jeito. A blusa azul do pai. A tatuagem de borboleta no antebraço visível.

Mike encheu a xícara dela. Pousou na bancada.

Ela pegou. Não disse nada. Mas o olhar dela — aquele olhar — disse tudo.

Os dois ficaram na cozinha, cada um com sua xícara, o silêncio ocupado.

Foi o barulho do motor que quebrou.

---

Apolo estacionou o Opala na clareira. Beatriz desceu primeiro, foi direto para a traseira do carro. Apolo abriu o porta-malas — as caixas estavam empilhadas até o teto. Mantimentos. Suprimentos. O que dava para carregar.

— Bom dia, pessoal — disse Apolo, descendo a rampa com uma caixa nos braços. — Trouxe reforço.

Maria apareceu na entrada da cozinha. Mike já estava na sala, perto da rampa.

Beatriz entrou com outra caixa, pousou na bancada e olhou para os dois. Foi rápido — um segundo. Mas o suficiente.

— Bom dia — disse ela, com um sorriso que não perguntava mas já sabia.

— Bom dia — respondeu Maria.

Beatriz olhou para Mike. Depois para Maria. Não disse nada. Não precisava.

Apolo entrou com a segunda caixa.

— Pode tirar os cavalos da chuva, não tem mais. O resto tá no carro ainda.

— Por que você fez isso? — perguntou Mike.

— Porque vocês não iam fazer. — Apolo pousou a caixa na mesa. — E porque o estoque do bunker tava mais vazio que minha conta no fim do mês.

Mike foi até o Opala. Pegou as duas últimas caixas. Voltou, pousou na bancada.

— Quanto foi?

— Não interessa.

— Interessa.

Apolo olhou para ele.

— Não vou aceitar dinheiro, Mike.

— Não perguntei se ia aceitar. Perguntei quanto foi.

Os dois se encararam.

Beatriz olhou de lado.

Apolo soltou o ar pelos dentes.

— Mil e quinhentos, com o frete.

Mike tirou a carteira do bolso da calça. Contou. Entregou.

Apolo pegou. Não discutiu. Guardou.

Beatriz sorriu. Maria arqueou uma sobrancelha.

Os dois se olharam de novo.

---

A manhã foi passando. Os mantimentos foram guardados. O café foi renovado. A rotina tomou conta do bunker — mas havia algo diferente no ar. Algo que não se via, se sentia.

Apolo percebeu primeiro. Não comentou.

Beatriz percebeu segundo. Também não comentou.

Foi ela quem puxou Maria de canto.

A despensa. Um espaço pequeno, iluminado por uma lâmpada fraca. Longe dos ouvidos dos homens.

— Senta aqui — disse Beatriz, apontando para um banquinho.

— Não tenho tempo para—

— Senta.

Maria sentou.

Beatriz ficou de pé, braços cruzados.

— Vou te contar uma coisa. E você vai me contar outra. Combinado?

Maria demorou um segundo.

— Combinado.

Beatriz respirou fundo.

— Quando a gente saiu daqui ontem... o Apolo me levou naquele restaurante na rua das lanchonetes. Aquele com as luzinhas amarelas.

— Eu conheço.

— A gente já estava lá fazia um tempo. Ele pediu sobremesa, conversou sobre bobagens. Depois... — Beatriz ergueu a mão esquerda. No dedo anelar, uma aliança fina, prata, simples. — Ele pediu.

Maria olhou para a aliança. Depois para Beatriz.

O rosto da enfermeira — que sempre foi prática, direta, sem rodeios — agora estava completamente aberto. Brilhando.

— Beatriz...

— Pois é.

Maria se levantou. Abraçou a amiga. O abraço durou mais que o normal — o tipo de abraço que diz "estou feliz por você" sem precisar de palavras.

Quando se separaram, Beatriz estava com os olhos marejados.

— Não choro — disse ela.

— Não vai.

— Tá quase.

— Tá. — Maria sorriu. — Mas não vai.

As duas riram.

Beatriz enxugou o rosto com as costas da mão.

— E você? Não ia me contar alguma coisa?

Maria olhou para a porta da despensa. Para o corredor. Para a cozinha, onde Mike e Apolo estavam.

— Aconteceu — disse ela, baixo.

Beatriz ergueu uma sobrancelha.

— Aconteceu o quê?

— O que você está pensando.

Beatriz ficou em silêncio por um segundo. Depois sorriu — um sorriso largo, de quem acertou na loteria e está tentando não gritar.

— Me conta. Mas não tudo. Só o que pode.

Maria contou.

Não contou cada detalhe. Contou o essencial. A conversa. O rádio. A música. O quarto. A manhã.

Beatriz ouviu em silêncio. Quando Maria terminou, ela não disse nada.

Apenas segurou a mão da amiga.

— Você merece — disse Beatriz. — Depois de tudo que você perdeu... você merece.

Maria apertou a mão de volta.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer.

As duas saíram da despensa.

---

Na cozinha, Mike e Apolo estavam à mesa. Duas cervejas long neck na bancada. Não geladas — não tinha geladeira boa — mas geladas o suficiente.

Apolo estava nervoso. Mike percebeu.

— Fala logo. Tá parecendo um moleque.

Apolo respirou fundo.

— Eu pedi a Beatriz em casamento.

Mike ficou olhando para ele.

— No restaurante, depois que saímos daqui. Ela aceitou.

O silêncio durou dois segundos.

Mike estendeu a mão.

— Parabéns.

Apolo apertou. Demorou um segundo a mais que o normal.

— Obrigado.

— Ela é boa — disse Mike. — Prática. Direta. Não se assusta fácil. — Ele pausou. — E completa o que você tem de... debilidade.

Apolo olhou para ele de lado.

— Você tá diferente.

— Diferente como?

— Não sei. Mais... aberto.

Mike tomou um gole da cerveja.

— As coisas mudam.

Apolo não perguntou mais nada. Mas olhou para o corredor onde Beatriz e Maria tinham saído. Depois voltou para Mike.

— Ela é boa para você também.

Mike não respondeu. Mas o silêncio dele era o tipo que concordava.

---

A batida na porta do bunker os tirou da conversa.

Apolo foi abrir.

Sérgio, Jonathan e Marcos desceram a rampa — mochilas nas costas, expressões de quem estava de férias e não ia perder um minuto de luz do dia.

— Bom dia — disse Sérgio, olhando em volta. — Tem café?

— Tem — disse Maria, já indo para a cozinha.

Os garotos se espalharam pelo bunker. Marcos foi direto para a bancada, Jonathan ligou o rádio — o mesmo que Mike tinha ligado na noite anterior.

A música começou baixa. Uma canção qualquer, sem importância.

Beatriz e Maria prepararam o almoço. Apolo ajudou a descarregar mais algumas caixas do Opala. Mike ficou na sala, observando.

O rádio ainda tocava.

Mas a voz do radialista, quando entrou, não era a mesma da noite anterior.

— Atlântida FM... e agora, um olhar sobre o dia...

A música parou. A notícia começou.

Mike foi até o rádio. Aumentou o volume.

As mãos de Maria pararam de cortar os legumes.

— Moradores da região de Santa Rosa relatam um incêndio de grandes proporções nas primeiras horas da manhã. Equipes do corpo de bombeiros e da polícia militar estão no local. A suspeita inicial é de incêndio criminoso...

O bunker ficou em silêncio.

— Liga a TV — disse Mike.

Apolo pegou o controle. A tela acendeu.

O apresentador falava sério, o rosto iluminado pela luz do estúdio.

— ...e as investigações agora se concentram em dois pontos: o incêndio registrado hoje em Santa Rosa e a destruição de uma chácara na região de Caxias do Sul, ocorrida há dois dias. Em ambos os casos, as chamas consumiram os imóveis de forma quase total, mas há diferenças significativas...

A imagem cortou para a chácara de Mike. O que restava dela — paredes queimadas, telhado desabado, o portão ainda de pé.

— A propriedade ficava em uma área de residências de militares. O proprietário, o General Mitchel Ferrer, está desaparecido desde os eventos em Porto Alegre...

Mike não se mexeu.

Maria olhou para ele. Ele não olhou de volta.

— ...e agora, imagens ao vivo do incêndio em Santa Rosa...

A tela mostrou a mata. Fumaça subindo ao fundo. Viaturas estacionadas. E, no meio da estrada de terra, parcialmente coberto por lonas, um veículo — preto e prata, as rodas para o alto, a lataria toda queimada.

Um jipe militar.

Mike desligou a TV.

O silêncio foi absoluto.

Foi Marcos quem quebrou primeiro, a voz mais baixa que o normal.

— A gente... pode dar uma volta?

Jonathan olhou para ele.

— Vamos até lá — cochichou Marcos. — É perto.

Os dois se levantaram. Sérgio foi junto.

— Cuidado — disse Apolo.

Eles subiram a rampa. O som das bikes se afastou pela estrada de terra.

---

Chegaram em vinte minutos.

O cheiro de queimado ainda estava forte no ar. A fumaça já tinha baixado, mas a terra ainda estava quente. Viaturas por todo lado. Policiais. Bombeiros. Um perímetro isolado com fita amarela.

Os garotos pararam a uma distância segura. Olharam.

O jipe estava lá — o mesmo que Mike tinha destruído. Todo queimado. As portas abertas. O banco do motorista reduzido a carvão.

— Vamos embora — disse Sérgio, puxando o braço de Jonathan.

Um policial se aproximou.

— Vocês não deviam estar aqui. Vão para casa.

Os três não discutiram. Subiram nas bikes e começaram a voltar.

No caminho, Marcos perdeu o equilíbrio. A roda da frente escorregou no barro. Ele caiu de lado, a mão direita raspando no chão de cascalho.

— Dói? — perguntou Jonathan, ajudando a levantar.

— Não é nada. Só ralou.

O sangue escorria devagar entre os dedos. Marcos limpou na calça. Subiu na bike. Continuaram.

Não viram a sombra.

Não sentiram o cheiro.

Mas algo os seguia pela mata.

---

A porta do bunker estava aberta quando eles chegaram.

Sérgio entrou primeiro. Jonathan atrás. Marcos foi o último.

E foi quando a criatura saltou.

Pequena — não mais que um metro e quarenta. Pele escamada refletindo a luz fraca do bunker. Olhos vermelhos fixos. As garras abertas.

— MARCOS!

O grito de Jonathan fez todo mundo se virar.

Mike já estava em movimento.

A lanterna UV-C estava na bancada, ao lado do rádio. Ele pegou com a mão esquerda. A pistola com a direita.

A criatura estava em cima de Marcos — não atacando, apenas sobre ele. As garras tocavam os ombros do garoto, mas não perfuravam. A boca aberta, os dentes pequenos e afiados, mas sem morder.

— Fica parado — disse Mike.

Marcos não se mexeu.

Mike ligou a lanterna UV-C. A luz branco-azulada cortou o ar.

A criatura gritou — aquele som que não era dor, era aviso. Recuou um passo. Depois outro.

Atravessou o bunker como um clarão e sumiu pela rampa.

Mas no fundo, parada na entrada da clareira, uma silhueta.

Preta como piche. Viscosa. Os contornos tremulando como se o corpo dela não estivesse completamente decidido a existir.

Ela ficou olhando por um segundo.

Depois também sumiu.

Mike desligou a lanterna. Guardou a pistola.

— Alguém se machucou?

— Só o Marcos — disse Sérgio, a voz trêmula. — Ele caiu da bike.

Beatriz já estava com o kit de primeiros socorros. Abriu, pegou a gaze e o álcool. Segurou o braço de Marcos com firmeza — a firmeza de quem já fez isso centenas de vezes em hospital.

— Deixa eu ver. — Ela limpou o ferimento com cuidado. Marcos fechou a cara, mas não gritou. — Não é profundo. Mas sangrou. Vou fazer um curativo pra evitar infecção.

Enrolou a gaze com a precisão de quem aprendeu nos plantões noturnos. Quando terminou, deu um tapinha no ombro dele.

— Pronto. Vai doer por uns dias, mas passa.

Marcos olhou para o curativo. Depois para Beatriz.

— Obrigado.

— Disponha.

Mike olhou para a porta do bunker. Depois para a mata lá fora.

— Ela seguiu o cheiro.

Ninguém respondeu.

---

Apolo quebrou o silêncio.

— É melhor levar todo mundo para casa.

Beatriz já estava de pé. Os garotos pegaram as mochilas. Marcos olhou para a mão enfaixada, depois para a porta.

— Vamos — disse Apolo.

As despedidas foram rápidas. Um "até amanhã" que ninguém sabia se ia se cumprir.

O Opala ligou. Os faróis acenderam. O carro sumiu na estrada de terra.

O bunker ficou vazio.

Mike e Maria — sozinhos de novo.

Ele estava encostado na bancada. Ela sentada no sofá.

O rádio ainda tocava baixo. Uma música qualquer, sem importância.

— A gente sabia que não ia durar — disse Maria.

— Eu sei.

— A paz.

— Eu sei.

Ela se levantou. Foi até ele.

— Hoje à noite...

— A gente fica acordado.

— É melhor.

Mike olhou para a porta. Para a rampa.

— Eu fico de guarda.

Maria encostou no ombro dele.

— Eu também.

Os dois ficaram assim — olhando para o vazio, ouvindo o rádio, esperando o próximo golpe.

O bunker estava em silêncio.

Mas o silêncio não era mais paz.

Era tensão..

Capítulo 26 — Nada Mais Importa

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Capítulo 26: Nada Mais Importa

O Opala sumiu na curva da estrada, o ronco do motor se afogando no silêncio da noite.

Beatriz foi com Apolo. Os garotos foram juntos. O bunker ficou vazio.

Maria ficou parada na entrada da rampa por um momento, olhando para a clareira escura. Depois se virou e desceu. O barulho dos próprios passos ecoou pelas paredes de concreto.

Mike já estava na cozinha.

A cafeteira estava no canto, meio cheia, o café já passando do ponto. Ele encheu a própria xícara até a metade, virou de um gole, fez careta — amargo, frio, não importava. Encheu outra para ela. Pousou na bancada.

Maria sentou na cadeira de sempre. Pegou a xícara. Não bebeu. Ficou com as duas mãos em volta, sentindo o quente que já não era mais tão quente.

— Você vai ficar aí parado? — perguntou ela, sem olhar para ele.

Mike estava encostado na pia, os braços cruzados, os olhos fixos no nada.

— Pensando.

— No quê?

Ele demorou.

— Em como a gente chegou até aqui.

Maria ergueu a xícara, tomou um gole, pousou de volta.

— Eu sei como.

— Como?

— Teimosia. — Ela olhou para ele de lado. — A minha. A do meu pai. A sua.

Mike desviou.

— A sua não é teimosia.

— O que é, então?

Ele ficou em silêncio por um segundo.

— Coragem.

Maria não respondeu. O silêncio ficou pesado — não o peso de quem não tem o que dizer, mas o peso de quem tem muito e não sabe por onde começar.

Foi Mike quem quebrou.

— Eu não tive pai.

A frase saiu seca, direta, do jeito que as coisas saíam nele. Como se estivesse arrancando um curativo de uma ferida que nunca tinha mostrado pra ninguém.

Maria não se mexeu. Não perguntou "o quê?". Só esperou.

— Minha mãe... — ele começou, e parou. — Eu nem conheci. Fui criado por um casal de idosos. Deram o que podiam. O básico. Já era mais do que eu tinha.

— O que aconteceu com eles?

— Morreram. — A voz saiu sem emoção. — Os dois. Em menos de um ano. Fui para um orfanato.

O silêncio que se seguiu tinha uma textura nova. Mais velho. Mais fundo.

— Você nunca contou isso pra ninguém? — perguntou Maria.

— Não.

— Por que está contando agora?

Mike olhou para a xícara vazia na mão dela.

— Porque não tem mais ninguém. — Ele pousou a própria xícara na bancada. — A chácara foi. A farda foi. O nome... — ele fez uma pausa — o nome também.

Maria ficou olhando para ele. Depois olhou para as próprias mãos.

— Meu pai foi assassinado.

Mike não se surpreendeu — já sabia. Mas ouviu.

— Quatro anos atrás. Ninguém foi punido. O inquérito arquivado em três semanas.

— Eu sei.

— Eu passei anos tentando limpar o nome dele. Mostrar que ele não era louco. Que o que ele via era real. — Ela segurou a xícara com mais força. — Sabe o que eu consegui?

Mike não respondeu.

— Nada. Só me queimaram junto. Me chamaram de maluca. Perdi tudo que construí. O laboratório do meu pai... eu mesma destruí.

— Você fez o que precisava fazer.

— E você? — Ela olhou para ele de frente. — O que você fez?

— A mesma coisa.

Os dois ficaram em silêncio.

O bunker parecia menor agora. As paredes de concreto, as prateleiras, os cabos, os equipamentos — tudo ali, mas tudo mais perto. Não era claustrofobia. Era intimidade.

Maria levantou primeiro.

— Vou tomar um banho.

Mike só acenou.

Ela foi até o corredor. Parou na porta do quarto.

— Mike.

— O quê?

— Não vai embora.

Ele olhou para ela.

— Não vou.

Ela entrou. A porta fechou.

---

O som do chuveiro veio abafado pelas paredes do bunker. Mike ficou na cozinha, ouvindo. Não era o som — era o silêncio entre os sons.

Esperou alguns minutos. Depois foi para o banheiro da área comum. Abriu o chuveiro. Ficou embaixo da água fria até sentir que o corpo tinha desistido de tremer.

Não era frio.

---

Quando saiu, vestiu a camiseta preta e a calça cargo. Não a farda. Não mais.

Foi para a sala.

Maria já estava lá.

Cabelo úmido preso de qualquer jeito. A blusa azul que pegou na casa do pai — larga nos ombros, mas dela. Sentada no sofá, os pés no chão, as mãos cruzadas no colo.

Mike sentou no outro canto. Não colado. Não longe.

— Não liga a TV — disse ela.

— Não ia.

— Saber o que estão falando da gente... não vai mudar nada.

— Eu sei.

O silêncio voltou. Mas era outro. Menos pesado. Mais ocupado.

Foi então que Mike viu.

No canto da sala, em cima de uma estante de madeira velha, um rádio. Não o comunicador — um rádio de verdade. Antena retrátil, botões de plástico amarelado. Estava ali desde o começo. Ninguém nunca tinha ligado.

Ele levantou. Foi até o rádio. Girou o botão de volume. Ajustou a frequência lentamente.

O chiado da estática preencheu a sala.

— O que você está fazendo? — perguntou Maria.

— Uma coisa que eu devia ter feito antes.

Ele girou mais um pouco. A estática sumiu. A voz do radialista entrou suave, daquele jeito de madrugada:

— Você está ouvindo Atlântida FM. A música que não sai do coração. E agora, para quem precisa lembrar que não está sozinho...

A música começou.

Os primeiros acordes preencheram o espaço. Mike voltou para o sofá.

Maria não disse nada. Ficou olhando para o rádio como se visse algo que não via há anos.

A voz do cantor entrou:

"I've been taken by the hand / Got me down on my knees / I've been down on the streets / And there's so many lessons to learn..."

(Fui levado pela mão / Me colocou de joelhos / Passei pelos becos / E há tantas lições para aprender...)

Maria virou o rosto na direção do rádio.

"I've been down on my knees / And I know there's so much more to understand..."

(Estive de joelhos / E sei que há muito mais para entender...)

Mike olhou para ela.

"I want to know what love is / I want you to show me..."

(Eu quero saber o que é o amor / Eu quero que você me mostre...)

Ela olhou de volta.

Não foi um olhar de pergunta. Não foi hesitação. Foi reconhecimento — o tipo que acontece quando duas pessoas que perderam tudo finalmente se dão conta de que ainda têm uma coisa.

"I want to feel what love is / I know you can show me..."

(Eu quero sentir o que é o amor / Eu sei que você pode me mostrar...)

Mike se moveu primeiro. Devagar.

Não invadiu. Não apressou.

A mão foi até o rosto dela. Os dedos tocaram a linha da mandíbula. O polegar passou pela maçã do rosto.

Maria fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, ele estava mais perto.

— Mike...

— Eu sei.

Não era um pedido de desculpa. Era um "eu também sei".

O beijo foi suave. Não era fome. Era fome guardada por tempo demais, que aprendeu a se conter.

A mão dela foi para o braço dele. A dele foi para a nuca dela.

"I want to know what love is / I want you to show me..."

(Eu quero saber o que é o amor / Eu quero que você me mostre...)

Não houve pressa.

O beijo durou o tempo de uma respiração longa, depois mais um pouco. Quando se separaram, Maria estava com os olhos marejados — mas não de tristeza.

— Não chora — disse ele.

— Não vou.

— Tá quase.

— Tá. — Ela sorriu — um sorriso pequeno, torto. — Mas não vou.

Ele encostou a testa na dela. Os dois ficaram assim, a respiração misturada, o rádio ainda tocando.

"I want to feel what love is / I know you can show me..."

(Eu quero sentir o que é o amor / Eu sei que você pode me mostrar...)

Ela puxou ele de volta.

O segundo beijo foi mais fundo. Mais demorado. As mãos começaram a se mover — o braço dela em volta do pescoço dele, a mão dele na cintura dela.

Nenhum dos dois falou. Não precisava.

Eles se levantaram do sofá juntos. As mãos não se soltaram. Os olhos não se desgrudaram.

O corredor estava escuro. O quarto de Maria ficava no fundo.

A porta estava aberta.

E a música continuava.

---

A luz da manhã entrou pela abertura gradeada pequena.

O rádio ainda estava ligado — baixinho, na sala. O radialista falava com a voz de quem cuida da madrugada:

— Atlântida FM... as canções de amor continuam no ar... para quem acordar com o coração mais leve...

Mike estava de costas, o rosto virado para a janela. Maria estava encostada no ombro dele, o cabelo espalhado no travesseiro, os olhos abertos mas o corpo em repouso.

A camiseta preta estava no chão. A blusa azul também.

O cobertor cobria o que precisava ser coberto.

Nenhum dos dois falou.

O som do rádio preenchia o quarto.

Mike virou a cabeça devagar. Olhou para ela.

Ela olhou de volta.

Não era estranho. Não era vergonha. Era o silêncio depois da tempestade — quando o vento para, a água baixa, e o que fica é só o chão firme.

Mike puxou o cobertor até o ombro dela.

Ela encostou a mão no peito dele. O coração batia devagar.

Do lado de fora do bunker, o dia nascia em Santa Rosa. As notícias continuavam na TV. Os carros pretos ainda circulavam. Larkin ainda dava ordens. O mundo ainda estava desabando.

Mas dentro daquele quarto, naquele momento, não havia nada disso.

Só os dois.

E o rádio.

E a certeza de que, depois de perder tudo, ainda restava alguma coisa.

*Nada mais importa.*

Capítulo 25 — Sem Volta

Capítulo 25: Sem Volta

Mike se moveu.

Empurrou o corpo da parede com um movimento seco, foi até o centro da sala e olhou para Apolo.

— Preciso dar um fim no jipe.

Apolo ergueu a cabeça.

— Vou com você.

— Não. — Mike foi direto. — Eu vou sozinho.

Apolo franziu a testa.

— Por quê?

Mike o encarou. Não respondeu.

Apolo conhecia aquele olhar. Suspirou.

— Tá bom. Não vou perguntar de novo. — Fez uma breve pausa, e um meio sorriso apareceu. — Sim, senhor, General...

Mike não riu. Mas os olhos, por uma fração de segundo, ficaram menos duros.

Apolo virou para os garotos.

— As bikes estão aí fora?

— Na parede — disse Jonathan.

— A gente coloca — completou Sérgio, já se levantando.

Ele e Jonathan foram até a parede, pegaram as próprias bicicletas e começaram a levar para fora, subindo a rampa com o cuidado de quem não queria fazer barulho. Marcos olhou para os dois, depois para Mike.

— Quer que eu leve a minha também?

— Fica — disse Mike. — Só precisamos de duas.

Marcos assentiu.

Mike pegou a jaqueta.

— A gente se encontra na estrada velha, antes da ribanceira.

— Maria — disse Apolo, com um tom mais leve. — A gente volta logo.

Ela não respondeu. Mas não desviou o olhar de Mike.

Ele ficou com ela por um segundo.

— Volto logo.

Virou e subiu a rampa.

---

Lá fora, os garotos já tinham colocado as duas bikes na caçamba do furgão — uma encaixada na outra, as rodas viradas para o lado certo. Jonathan deu uma última ajustada enquanto Sérgio prendia com o elástico.

— Pronto — disse Sérgio.

Apolo já estava no banco do motorista.

— Boa. Desçam.

Os dois desceram da caçamba e fecharam a porta. O furgão ligou e saiu devagar pela estrada de terra, os faróis apagados.

Mike já estava no jipe — o mesmo estacionado atrás do bunker desde a fuga de Porto Alegre, coberto de barro, a identificação militar ainda visível na porta, os pneus marcando o chão de terra batida.

Ligou o motor. O ronco grave preencheu a clareira.

Manteve distância do furgão, os olhos fixos na estrada.

---

Chegaram na curva larga que dava para o vale em menos de quinze minutos.

Apolo parou o furgão no acostamento, os piscas desligados. Desceu, foi até a beirada — a ribanceira descia íngreme por uns trinta metros até o fundo seco, onde só pedra e mato rasteiro.

O jipe parou ao lado.

Mike desceu. Os dois se olharam por um segundo.

— É aqui — disse Mike.

— É fundo — disse Apolo. Não era hesitação. Era constatação.

Mike não respondeu. Foi até a porta do jipe e abriu. Pegou o isqueiro do bolso da jaqueta — o mesmo com que tinha acendido o cigarro mais cedo. Acendeu. Aplicou a chama na ponta do estofado do banco do motorista.

O fogo demorou um pouco para pegar — primeiro uma chama pequena, depois o plástico começou a deformar, o cheiro de queimado subiu no ar.

Mike fechou a porta. Empurrou o jipe com o ombro — o veículo começou a deslizar devagar no barro. Depois ganhou velocidade.

A ribanceira engoliu o carro em poucos segundos — a lataria batendo nas pedras, o vidro traseiro estourando no primeiro impacto. Quando chegou ao fundo, o tanque pegou fogo. Uma labareda alta subiu rápido, iluminando a mata ao redor por um instante antes de se estabilizar num incêndio baixo e constante.

Mike já estava correndo para o furgão. Entrou no banco do passageiro. Bateu a porta.

— Vai.

Apolo engatou a primeira e acelerou.

---

O furgão percorreu a estrada de terra por mais uns vinte minutos até chegar no asfalto. A casa do pai de Jonathan ficava no começo do bairro, a garagem aberta, as luzes da cozinha acesas.

Apolo encostou o furgão na calçada.

— Fica aí — disse ele, para Mike. — Eu resolvo.

Desceu. Foi até a porta da garagem. Bateu — uma batida curta, sem pressa.

O pai de Jonathan apareceu depois de alguns segundos, seu nome é Matteo Jean Jankolski.
uma xícara de café na mão. Um senhor de meia-idade, cabelo grisalho, o mesmo olhar atento que o filho tinha quando estava processando alguma coisa.

— Apolo? Trouxe o furgão de volta?

— Trouxe, seu Jankolski. — Apolo sorriu com a serenidade específica de professor. — Limpo, abastecido, como prometido.

O pai olhou para o carro estacionado na garagem. Depois para Apolo.

— E o material?

— Guardado. Deu tudo certo. — Apolo inclinou a cabeça. — A escola agradece. O professor que ia buscar acabou não precisando, mas a gente conseguiu trazer tudo.

O pai de Jonathan acenou com a cabeça.

— Que bom. Vocês precisando é só falar, o carro tá à disposição.

— Obrigado. — Apolo já ia se virar, mas parou. — Ah, quase esqueci. As bicicletas dos garotos estão dentro. Deixa eu pegar.

Foi até a traseira do furgão, abriu a porta e tirou as duas bikes — a de Sérgio e a de Jonathan, apoiadas uma na outra. Apoiou as duas no chão.

O Sr. Matteo olhou para as bikes.

— Vocês vão voltar de bicicleta?

— Vamos — disse Apolo, natural. — É perto. A gente tá dando uma passeada.

— E os garotos? Eles voltam com vocês?

Apolo sentiu a pergunta e respondeu rápido, sem titubear.

— Volto sim. Deixo eles antes das dez. Pode ficar tranquilo.

Então ele assentiu, satisfeito.

— Tá certo. Bom domingo pra vocês.

— Pro senhor também.

Apolo pegou a própria bike e a de Sérgio. Mike já tinha descido do furgão e pegou a de Jonathan. Os dois começaram a pedalar rua abaixo.

O pai de Jonathan nem viu Mike direito — só uma figura de jaqueta jeans e óculos escuros, sumindo na esquina.

---

No fim da rua, Apolo virou a cabeça.

— Vamos pelo caminho das lanchonetes.

— É mais longo — disse Mike.

— É mais seguro. Não passa perto daquele lugar.

Mike não discutiu. Os dois seguiram pela rua asfaltada, as bicicletas rangendo baixo, o céu já escurecendo no fim da tarde. O movimento das lanchonetes era tranquilo — algumas famílias, casais, gente tomando café e comendo pastel. Ninguém olhou duas vezes para dois homens de bike.

Apolo pediu um cigarro. Mike deu.

Ficaram em silêncio a maior parte do caminho. Não precisavam de palavras.

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Enquanto isso, no bunker, a noite começava a cair lá fora — mesmo que dentro não desse para ver.

Beatriz estava sentada na mesa da cozinha com Maria. As duas tinham passado a última hora conversando — primeiro sobre coisas práticas, depois sobre coisas que nenhuma das duas ia chamar de pesadas mas que pesavam assim mesmo.

— Ele é sempre assim? — Beatriz perguntou.

— Quem?

— O Mike. — Beatriz tomou um gole de café. — Chega, resolve, sai. Não pede opinião. Não espera resposta.

Maria ficou com a xícara na mão por um momento.

— É — disse, por fim. — É sempre assim.

— E você aguenta?

Maria olhou para o fundo da xícara.

— Tô aprendendo.

Beatriz não perguntou mais nada. Mas o sorriso que deu era o tipo que sabe mais do que fala.

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O barulho das bikes na rampa anunciou a chegada antes de a porta se abrir.

Mike e Apolo desceram — suados, com as bainhas das calças sujas de barro seco. Mike foi direto para a bancada, pegou um copo d'água, bebeu de uma vez.

Apolo jogou o corpo no sofá.

— Devolvido — disse ele. — Limpo, abastecido. Nem perguntou nada.

— Nem ia — disse Mike.

— O pai do Jonathan mandou um abraço.

— Mentiroso.

— Tá bom, não mandou. Mas ficou feliz com o carro.

Os garotos riram. O clima pesado da TV tinha dado lugar a alguma outra coisa — não alívio, não exatamente. Mas um passo à frente.

Mike pousou o copo. Olhou para Maria. Ela olhou de volta. Os dois se mediram por um segundo — não era o mesmo olhar de antes do abraço, nem o mesmo de depois. Era um lugar intermediário, novo, que nenhum dos dois sabia nomear ainda.

Mike desviou primeiro.

— Agora não tem mais volta — disse ele, para ninguém em específico. — O jipe foi. O furgão voltou. O que a gente tem é o que está aqui.

Apolo olhou para o relógio.

— Sete e meia. Preciso levar eles de volta.

— As bikes estão aqui — disse Jonathan.

— Eu sei. — Apolo se levantou. — Beatriz, você vem?

Ela já estava de pé.

— Vou.

As despedidas foram rápidas — um "até amanhã" dos garotos, um "boa noite" da Beatriz, um aceno de cabeça do Mike que valia por despedida.

Quando a porta se fechou atrás deles, o som do Opala ligou lá fora e se afastou pela estrada de terra.

O bunker ficou em silêncio.

Mike e Maria — sozinhos.

Ele encostado na bancada. Ela sentada na cadeira da cozinha, a xícara fria na mão.

Nenhum dos dois se mexeu por alguns segundos.

— Foi bem — disse Maria, por fim.

— O quê?

— O que você fez. Com o jipe. Com o furgão. Com tudo.

Mike não respondeu imediatamente.

— Não foi bem. Foi necessário. — Ele pausou. — São coisas diferentes.

Maria ficou com ele por um momento.

— Eu sei.

O silêncio que se seguiu não era vazio. Era ocupado — do tipo que não precisa ser preenchido com palavra porque as coisas já estão ditas, só não nomeadas ainda.

Mike foi até a cafeteira. Encheu a xícara dela. Encheu a dele.

Pousou a dela na frente dela com a mão — o mesmo gesto da manhã, o mesmo cuidado.

Maria segurou a xícara com as duas mãos. Olhou para o fundo do café.

— Obrigada — disse ela. Não pelo café.

Mike sentou na cadeira ao lado. Não disse nada.

Mas ficou.

E às vezes era o único lugar onde as coisas precisavam começar.

Capítulo 24 — Notícias e Surpresas

Capítulo 24: Notícias e Surpresas

O bunker ficou quieto depois que o furgão saiu.

Maria ficou parada por um momento na cozinha, a xícara de café ainda na mão, o som do motor desaparecendo pela estrada de terra. Depois pousou a xícara, foi até a bancada e abriu o primeiro caderno do pai.

Trabalhar era o único jeito que ela conhecia de não pensar.

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Sérgio chegou primeiro, como sempre — pontual com a eficiência de quem considera atraso uma forma de desrespeito. Jonathan veio logo atrás, a bike encostada na parede da entrada. Josué foi o último, quieto como sempre, como alguém que já está dentro antes de entrar.

Os três desceram a rampa e encontraram Maria na sala de operações, cercada pelos cadernos e pelos equipamentos que haviam passado a manhã sendo instalados.

— Apolo não está? — perguntou Sérgio.

— Ainda não. — Ela não levantou os olhos. — Vão chegando. Tem coisa pra fazer.

Não precisou de mais. Os três jogaram as mochilas no canto e foram.

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A manhã passou no ritmo específico de quando há trabalho concreto pra fazer e ninguém precisa negociar o que é de cada um. Sérgio assumiu a organização dos cabos com a mesma lógica com que havia numerado as prateleiras na noite anterior. Jonathan montava os racks seguindo as instruções de Maria sem precisar perguntar mais de uma vez. Josué ficava nos cantos, aparecia quando era necessário, desaparecia quando não era — a presença mais útil que silenciosa.

Maria trabalhava ao centro de tudo. Os cadernos do pai abertos na bancada ao lado, os olhos entre a tela e as páginas, construindo a ligação entre o que o Dr. Eduardo havia documentado e o que os equipamentos agora podiam processar.

Marcos chegou uns vinte minutos depois, a bike suja de lama até o quadro, o fôlego curto de quem pedalou rápido e parou de repente.

— Pensei que vocês iam avisar — disse ele, descendo a rampa. — Jonathan me mandou mensagem assim que acordei. Não deu tempo nem de tomar café direito.

— Tem café ali — disse Maria, apontando com a cabeça.

Marcos olhou para a garrafa térmica. Depois para a bancada. Depois para os cabos que o irmão já havia organizado com uma precisão quase cirúrgica.

— Tá bonito isso aqui — disse ele, pegando a caneca.

— Tá — concordou Sérgio, sem levantar os olhos.

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Foi Sérgio quem ouviu o Opala primeiro.

— Apolo.

A porta se abriu e Apolo desceu a rampa com a energia de domingo de manhã que havia perdido o memo de que tinha que ser tranquilo. Olhou em volta, avaliou o espaço com aprovação silenciosa.

— Ficou bom.

— Ficou — confirmou Sérgio.

Apolo foi até a bancada, pegou o café que havia sobrado na cafeteira, tomou sem reclamar da temperatura e ficou parado por um segundo antes de falar.

— Preciso contar uma coisa.

O tom era o suficiente para todo mundo parar.

Maria levantou os olhos dos cadernos. Sérgio cruzou os braços. Jonathan e Josué esperaram.

— Ontem à noite, quando cheguei em casa, a Beatriz estava esperando. — Ele pousou a xícara. — Ela sabia que tinha alguma coisa errada. Você não  conhece a Beatriz — ela não para enquanto não entende. Acabei contando tudo.

O silêncio durou dois segundos.

— Tudo? — disse Maria.

— Tudo.

Ela ficou olhando para ele por um momento. Depois fechou o caderno.

— Apolo. — A voz saiu sem raiva, mas com o peso de quem entende o tamanho do que foi dito. — Você sabe o que isso significa. Se eles chegarem até ela—

— Eu sei. — Ele não desviou. — Mas ela já estava chegando nas perguntas certas sozinha. Era questão de tempo. E prefiro ela dentro sabendo do que fora imaginando coisa pior.

Uma pausa.

— Ela quer conhecer vocês. Vou buscar ela ao meio-dia.

Ninguém respondeu de imediato.

Sérgio olhou para Jonathan. Jonathan olhou para Josué. Josué ficou olhando para a parede com aquela calma de quem processa diferente.

— Traz ela — disse Maria, por fim. — Mas deixa claro que aqui dentro as regras são as mesmas pra todo mundo.

— Ela é enfermeira — disse Apolo, com o tom de quem oferece isso como informação útil. — Prática, direta, não entra em pânico fácil.

— Melhor ainda. — Maria reabriu o caderno.

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Apolo saiu no Opala pouco antes do meio-dia.

O bunker voltou ao ritmo de antes — o zumbido dos equipamentos, os passos entre a bancada e as prateleiras, o som das páginas sendo viradas.

Jonathan havia ligado o rádio modificado no volume baixo, mais por hábito do que por necessidade. Sérgio organizava os cabos por frequência e comprimento com a concentração de quem transforma ordem em conforto.

Foi então que ouviram o motor.

Não era o Opala.

Era o furgão — mais pesado do que havia saído pela manhã.

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Lá fora, o movimento da chegada fez todo mundo sair do bunker.

Sérgio foi o primeiro, depois Jonathan, depois Josué. Marcos veio atrás, ainda secando as mãos no pano da bancada. Maria saiu por último — sem pressa, como quem não quer que ninguém perceba que saiu.

O que viu fez ela parar no meio da rampa.

O furgão estava estacionado ao lado do Opala. Apolo já tinha descido, gargalhando, os braços abertos. Mas não era ele que ela estava olhando.

Era o homem do lado do furgão.

A camiseta preta com a caveira no centro, desbotada nas bordas por lavagens que não contavam. A calça cargo preta de motoqueiro. As botas de couro. Os óculos escuros enfiados no rosto como se sempre tivessem estado ali. A postura — não menos vigilante, mas diferente. Mais solta. Mais ele.

Mike estava de costas para ela, falando com Apolo. Depois se virou.

E viu Maria.

Ela sentiu o estômago girar — aquele negócio físico, involuntário, que não se controla. Não era a primeira vez que via ele. Mas era a primeira vez que via esse ele. O que tinha estado escondido embaixo da farda o tempo todo.

Mike levantou a mão. Pegou o óculos escuro pela haste. Baixou devagar — o movimento lento, deliberado, como quem quer ter certeza de que está vendo a mesma coisa.

Os olhos deles se encontraram.

O tempo não parou. Mas ficou mais lento.

— Maria?

Beatriz estava ao lado dela, com a mão estendida, esperando.

— Oi... — Maria piscou, voltando. — Oi, desculpa. Beatriz?

— Beatriz. — Ela sorriu, mas os olhos foram rápidos — de Maria para Mike, de Mike para Maria, e de volta. — Apolo falou muito de você.

— Falou bem, espero.

— Sempre.

Maria apertou a mão dela sem soltar o olhar de Mike. Ele já tinha recolocado o óculos, mas não tinha desviado.

Não precisava.

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Apolo desceu do Opala no meio daquela troca. Viu Mike. Parou.

Por um segundo ficou só olhando — e então saiu uma gargalhada que não era de surpresa, era de reconhecimento.

— Essa aí é a cara do Mitchel Ferrer que eu conheci na faculdade! — Ele abriu os braços como se apresentasse alguém pra uma plateia invisível. — Não te via assim desde que você entrou pro serviço!

Mike tirou o cigarro da boca com dois dedos.

— Menos conversa. Me ajuda a tirar as malas do furgão.

Beatriz havia descido do Opala no meio da gargalhada do namorado. Ficou parada com os braços levemente cruzados, olhando para a cena com a expressão de quem chegou preparada para o inesperado e ainda assim está processando mais do que esperava.

— Beatriz — disse Apolo, acenando na direção dela. — Esse é o Mike. Mitchel Ferrer, pra ser exato. General que trocou a farda pela caveira.

— Ex-general — disse Mike, sem nenhum drama. — E você não foi convidado pra fazer apresentação.

Beatriz o olhou por um segundo. Depois descruzou os braços.

— Beatriz Oliveira. Namorada do homem que claramente não sabe guardar segredo.

Mike olhou pra ela. Depois pra Apolo.

— Pelo menos ela é direta.

— Eu avisei — disse Apolo, satisfeito.

Os dois abriram a traseira do furgão. As malas saíram primeiro. E então a Harley apareceu — preta e prata, ocupando espaço com a presença específica de coisa que não precisa se anunciar.

Apolo assobiou.

— Quando você vai me deixar pilotar essa?

— Nunca.

— Nunca é muito tempo.

— Pra você não é.

Jonathan e Sérgio haviam saído do bunker e pararam na entrada quando viram a moto. Jonathan ficou olhando com os olhos ligeiramente maiores que o normal. Sérgio ficou ao lado com a expressão de quem está catalogando informação nova.

— Garotos — disse Mike, sem tirar os óculos. — O furgão precisa de limpeza. O pai do Jonathan não vai querer o carro de volta nesse estado.

Os dois se entreolharam.

— Sim, senhor — disse Jonathan, com uma seriedade que durou exatamente até Mike virar as costas, momento em que se inclinou para Sérgio e disse em voz baixa: — O Marcos vai pirar.

Sérgio concordou com um único aceno, já indo buscar água e panos.

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Maria estava na bancada quando Beatriz desceu a rampa.

As duas se olharam por um segundo — a avaliação rápida e mútua que acontece entre pessoas que já ouviram falar uma da outra antes de se ver.

— Maria — disse Beatriz.

— Beatriz. — Maria estendeu a mão. — Apolo falou bem de você.

— Apolo fala bem de todo mundo. — Ela apertou a mão com firmeza. — Mas ouvi o suficiente pra saber que você é a razão pela qual ele não dormiu direito faz semanas.

Maria abriu levemente a boca.

— Não de um jeito ruim — completou Beatriz, com uma rapidez que sugeria que havia aprendido a especificar. — Ele te respeita muito. Isso é raro nele.

Maria ficou com ela por um segundo. Depois inclinou a cabeça em direção à cozinha.

— Café?

— Precisava de café desde ontem.

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Lá dentro, o bunker voltou a pulsar.

Sérgio já estava de volta aos cabos. Jonathan ajudava Marcos a posicionar os racks. Josué aparecia e desaparecia nos cantos.

Mike estava na bancada do fundo, separando ferramentas com a concentração de quem prefere trabalhar a conversar. Mas Maria sentia os olhos dele — mesmo quando não estava olhando.

Beatriz também percebeu.

— Você está bem? — perguntou, baixo, enquanto cortava os sanduíches na cozinha.

— Estou — respondeu Maria, rápido demais.

Beatriz não insistiu. Mas o silêncio dela era o tipo que escuta.

Maria cortou mais dois pães antes de falar.

— Ele é... diferente.

— Diferente como?

— Diferente de como eu imaginei.

Beatriz a olhou de lado.

— E como você imaginou?

Maria ficou em silêncio por um segundo.

— Não sei mais.

Beatriz não perguntou mais nada. Mas o sorriso que deu era o tipo que sabe mais do que fala.

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A tarde foi tomando forma com aquela lentidão específica de domingo que acontece mesmo dentro de um bunker. Os equipamentos foram sendo posicionados e testados. Beatriz e Maria trabalhavam na cozinha com a naturalidade de quem descobriu que tem ritmo parecido sem ter combinado. Apolo e Mike movimentavam os racks mais pesados sem precisar de coordenação verbal. Jonathan e Sérgio voltaram com o furgão limpo.

Marcos estava na bancada auxiliando o irmão, ainda impressionado com a transformação do general. De vez em quando olhava de canto para Mike, como quem espera que a qualquer momento ele vá voltar a ser o militar sério de sempre — mas Mike continuava ali, de jaqueta jeans e camiseta de caveira, carregando equipamento como se tivesse feito isso a vida inteira.

O trabalho andava rápido.

Maria estava na bancada central, ajustando as conexões dos equipamentos que haviam trazido do laboratório do pai. Beatriz levava os cabos conforme ela pedia — uma sintonia silenciosa que já funcionava sem precisar combinar.

Foi quando Maria levantou a cabeça e os olhos foram direto para Mike.

Ele estava do outro lado da sala, braços cruzados, observando os garotos organizarem as prateleiras. Não fazia nada. Só estava ali. E mesmo assim ocupava o espaço de um jeito que não dava para ignorar.

— Você gosta dele.

Beatriz falou baixo. Não era acusação. Era constatação.

Maria demorou um segundo para responder.

— Não sei.

— Sabe, sim. — Beatriz ajeitou um fio na bancada. — Só não quer dizer em voz alta.

Maria ficou em silêncio.

— Ainda.

Beatriz deixou a frase no ar. Depois pegou outro cabo e foi para o outro lado da sala, deixando Maria com os próprios pensamentos.

Mike, do outro lado, sentiu o olhar dela. Virou a cabeça devagar.

Os olhos se encontraram de novo.

Dessa vez, nenhum dos dois desviou primeiro.

O silêncio entre eles durou mais do que o necessário para uma troca de olhos comum. Mike não sorriu. Não acenou. Apenas ficou com ela — um segundo, dois, três.

Depois voltou a observar os garotos, como se nada tivesse acontecido.

Maria respirou fundo e retomou o trabalho.

Mas havia um calor no peito que não tinha explicação técnica.

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Mike olhou para o espaço quando tudo estava no lugar — os cadernos do Dr. Eduardo organizados por série, os equipamentos conectados, as prateleiras numeradas pelo Sérgio na noite anterior. Ficou assim por um segundo.

Não disse nada. Mas Maria, que estava na entrada da cozinha com a xícara na mão, viu.

Apolo também viu. E não disse nada, o que era mais raro do que qualquer comentário que pudesse ter feito.

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Foi Sérgio quem ligou a TV no canto da sala.

— Pra ver se tem alguma coisa sobre ontem — disse ele, sem cerimônia.

Os primeiros minutos foram notícias sem relação. Depois o apresentador mudou de expressão — aquela mudança específica que acontece quando o que vem a seguir é diferente do roteiro.

— Em destaque nesta tarde — disse ele, com a voz de quem está lendo com cuidado. — Polícia e forças militares confirmam a destruição total do antigo laboratório de pesquisas que pertencia à família Costa — um local desativado há anos na região metropolitana de Porto Alegre. O que inicialmente parecia acidente começa a ganhar contornos mais complexos com o desaparecimento da cientista quântica Maria Eduarda Costa, filha do último proprietário do local. Fontes ligadas à investigação informam que a cientista está desaparecida há dias, em meio a eventos registrados no sul do país que atraíram atenção de autoridades federais. As autoridades buscam testemunhas e não descartam envolvimento de grupos organizados ou atividades de pesquisa não autorizadas.

A câmera mostrou imagens aéreas do terreno destruído — helicópteros em círculos, viaturas enfileiradas, a terra ainda escura onde o laboratório havia sido.

O bunker ficou em silêncio.

Maria estava parada na entrada da cozinha com a xícara na mão, olhando para a própria imagem aérea na tela. Beatriz ficou ao lado dela sem dizer nada.

Mike ficou de pé, de costas para a TV. Depois virou.

— Apagaram o rastro deles e jogaram em cima da gente. — A voz saiu seca, sem surpresa. — Era o plano desde o início.

— Meu nome está na TV — disse Maria.

— Está. — Ele ficou com ela por um momento. — O que muda é onde eles acham que você está. E não é aqui.

Ninguém respondeu. O peso do que tinham acabado de ver ainda estava fresco, a consternação tomando conta da sala em camadas — primeiro o choque, depois o entendimento, depois o silêncio pesado de quem sabe que não há nada a fazer a não ser continuar.

Foi Marcos quem quebrou primeiro, a voz mais baixa que o normal.

— E agora?

— Agora a gente trabalha — disse Maria, voltando para a bancada. Mas havia algo na voz dela que não estava completamente ali.

O clima ficou pesado, a energia que antes era de propósito agora dava lugar a uma tensão difusa. Ninguém sabia direito o que dizer. Mike estava de braços cruzados, encostado na parede, os olhos fixos em algum ponto distante. Apolo passou a mão no rosto, cansado. Os garotos trocavam olhares.

Beatriz foi quem moveu primeiro.

— Vou preparar mais café — disse ela, num tom que não era fuga, era cuidado. Pousou a mão no ombro de Maria por um segundo e foi para a cozinha.

O silêncio continuou, mas agora com uma textura diferente — menos paralisado, mais respirável.

E foi nesse silêncio que Mike se moveu.

sábado, 13 de junho de 2026

Capítulo 23 — O Que Ficou por Dizer

Capítulo 23 : O Que Ficou por Dizer

Mike acordou às cinco e quarenta da manhã.

Não havia alarme — nunca havia. O corpo tinha relógio próprio, calibrado por anos de formação que não distinguia dia útil de domingo, missão de folga. De um instante para o outro estava acordado, os olhos abertos no teto baixo do bunker, a cabeça já somando o que havia e o que precisava acontecer.

Ficou deitado por exatamente trinta segundos ouvindo o ambiente. Zumbido do gerador. Silêncio nas partes corretas. Nenhum movimento além do seu.

Levantou.

Dobrou o cobertor com a precisão de sempre. Pegou as roupas — as do Apolo, que continuavam sendo as únicas que tinha — e foi ao banheiro sem fazer barulho. Lavou o rosto com água fria, escovou os dentes olhando para o nada, passou a mão pela barba que já havia passado do ponto que considerava aceitável.

Saiu e foi direto para a cozinha.

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A geladeira tinha pouco — tinha sempre pouco — mas havia ovos, o resto do pão de forma de dois dias atrás, queijo e uma maçã solitária que ninguém havia tocado. Mike ficou parado com a geladeira aberta por alguns segundos, avaliando o inventário com o mesmo olhar que usava pra avaliar recursos em campo.

Fechou a geladeira e foi até o armário.

Havia uma lata de café que Apolo guardava no fundo, atrás de tudo, como se esconder fosse proteger. Mike pegou, encheu a cafeteira, ligou no nível mais baixo pra não fazer barulho.

Enquanto o café passava, ele trabalhou devagar.

Limpou a mesa com um pano úmido — coisa que não era hábito, mas havia algo na noite de ontem que pedia um gesto diferente dessa manhã. Abriu o pão de forma, colocou no prato. Cortou o queijo em fatias mais ou menos iguais. Partiu a maçã em oito pedaços com uma precisão que revelava anos de facas em contextos muito mais sérios. Organizou tudo no centro da mesa com uma simetria que não era perfeccionismo — era o único jeito que ele conhecia de fazer as coisas.

A cafeteira apitou.

Encheu duas xícaras. Colocou as duas na mesa, depois voltou com o açucareiro — o pequeno, de vidro, que Maria usava toda manhã com uma colher exata.

Ficou olhando para a mesa por um segundo.

Não era grande coisa. Era pão velho, queijo fatiado e café passado às seis da manhã num bunker no interior do Rio Grande do Sul. Mas estava arrumado. E às vezes arrumado era o máximo que se podia oferecer.

Foi então que ouviu.

Do fundo do corredor — o som inconfundível de um chuveiro sendo ligado.

Mike olhou para a xícara de café ainda vazia na frente dele. Pegou a cafeteira e a encheu de novo, mais até a borda desta vez. Reorganizou o pão no prato dela. Ajustou o açucareiro dois centímetros à esquerda.

Depois sentou, cruzou os braços sobre a mesa e esperou.

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Maria chegou quinze minutos depois.

Cabelo úmido preso de qualquer jeito, calça cargo que era dela, a blusa que havia tirado do armário na casa do pai — simples, azul, que ficava um pouco grande nos ombros mas era dela e isso era suficiente. Os olhos ainda carregavam o cansaço de uma noite que claramente não havia sido boa, e havia algo na linha da boca que Mike reconheceu do dia anterior.

Ela ainda estava bicuda.

Ele não disse nada.

Maria entrou na cozinha, viu a mesa e parou por um segundo — tempo suficiente pra registrar que estava diferente do habitual, mas não tempo suficiente pra comentar. Puxou a cadeira, abriu o notebook pelo reflexo — a sequência automática de quem começa o dia sempre do mesmo jeito.

Mike esperou ela começar a levantar a tela. 

Colocou a xícara de café na frente dela com a mão, pausando a abertura do notebook sem forçar. Só o peso da xícara na parte de cima, gentil mas claro.

Ela olhou para a xícara. Depois para ele.

Pegou a xícara.

Mike fechou o notebook com cuidado, pegou o próprio café e sentou na cadeira ao lado — não na de frente, onde ficava normalmente. Ao lado.

Maria tomou o primeiro gole em silêncio. Olhou para a mesa arrumada. Para o queijo. Para a maçã cortada em pedaços iguais.

Não disse nada. Mas algo na linha dos ombros mudou — quase imperceptível — como quando uma tensão decide que ainda não é hora de ir embora, mas recua um passo.

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O silêncio durou mais do que seria desconfortável entre duas pessoas que não se conhecessem. Entre eles tinha um peso diferente — não vazio, ocupado. Cheio de coisas que nenhum dos dois estava acostumado a dizer em voz alta.

Foi Mike quem quebrou.

— Ontem eu fui grosso.

Não havia introdução. Não havia preparação. Saiu como sempre saíam as coisas nele — direto, sem ornamento.

Maria não respondeu de imediato. Tomou mais um gole de café.

— Fui — disse ela.

— Não precisava ter sido daquele jeito.

— Não precisava.

Silêncio.

— Eu sei que aquilo custou — disse Mike, olhando para a xícara na própria mão. — O laboratório. A casa. — Uma pausa. — Eu devia ter reconhecido isso antes de abrir a boca.

Maria ficou olhando para o prato. Depois pegou um pedaço de maçã.

— O que você disse não estava completamente errado — disse ela, devagar. — Começou pelo laboratório do meu pai. Pelas pesquisas dele. Pela herança que eu assumi sem entender completamente o que estava assumindo.

— Isso não justifica o que eu disse do jeito que disse.

Ela o olhou de lado.

— Não justifica. — Concordou. — Mas não é mentira.

Mike ficou com ela por um momento — o olhar que avalia, que mede.

— Me conta sobre ele.

Maria parou o movimento com o pedaço de maçã no ar.

— Sobre o meu pai?

— Sim.

Ela pousou a maçã. Ficou em silêncio por alguns segundos, como quem decide quanto da resposta vai dar.

— Ele era teimoso — disse ela, por fim. — Do tipo que não pede ajuda, que não explica o que está fazendo até ter certeza do resultado. — Ela pausou. — Eu herdei isso.

— Eu percebi.

Ela o olhou com aquele meio sorriso que não chegava a ser sorriso.

— Ele dedicou a vida inteira àquelas pesquisas. Desde antes de mim. Minha mãe dizia que ele amava o laboratório mais do que qualquer outra coisa. Ela não estava muito errada. — Maria olhou para a xícara. — Mas ele me ensinou tudo que eu sei. Cada protocolo, cada método. Eu cresci dentro daquele laboratório. Era o único lugar onde eu entendia completamente o que estava acontecendo ao meu redor.

Mike ouviu sem interromper.

— Quando ele morreu — ela começou, e parou.

Ficou assim por um segundo.

— Quando ele foi morto — corrigiu ela, a voz saindo mais baixa mas mais firme. — Não foi doença. Não foi acidente. Meu pai foi assassinado. E até hoje ninguém foi responsabilizado. O inquérito foi arquivado em três semanas. — Ela o olhou de frente. — Isso não acontece por acidente.

O silêncio que se instalou era de natureza diferente dos anteriores.

Mike ficou imóvel. Não de surpresa — de processamento. A cabeça fazendo o que sempre fazia quando recebia informação nova: conectando, cruzando, buscando padrão.

— Quando? — perguntou ele.

— Quatro anos atrás.

— Antes ou depois de ele fechar o laboratório?

Maria o olhou com atenção diferente — como quem percebe que a pergunta não é aleatória.

— Dois meses depois. Ele havia lacrado tudo, guardado os cadernos, desligado os sistemas. Disse que precisava de tempo. Que estava vendo coisas que não estava pronto para entender.

— Ele te contou o que havia visto?

— Não completamente. — A voz saiu um pouco mais dura. — Ele dizia que me proteger era mais importante do que me explicar. — Ela pausou. — Eu nunca perdoei completamente isso.

Mike assentiu devagar. Não como quem concorda — como quem registra.

Ficou em silêncio por um momento.

— Eu também tive uma perda — disse ele, sem anunciar que ia dizer.

Maria virou levemente a cabeça.

— Uma namorada. Cintia. — O nome saiu sem dificuldade, que era talvez o sinal de que havia sido dito muitas vezes dentro da própria cabeça antes de chegar à voz. — Ela trabalhava pro governo. Assessoria direta da presidência.

— Quanto tempo?

— Três anos. — Mike tomou um gole. — Eu estava prestes a ser promovido. General de uma estrela. Não era o teto — eu queria mais — mas era o próximo degrau. A chácara em Caxias, a estabilidade, a promoção. Era o plano.

Maria ouviu sem interromper.

— Ela apareceu uma noite. Sem aviso. — Ele falou devagar, com a objetividade de quem narra algo que já foi processado muitas vezes mas que ainda tem peso. — Assustada. Disse que havia visto coisas que não devia ter visto. Que estava envolvida em algo grande demais. Que precisava sumir.

— Sumir como?

— Largar tudo. Mudar de cidade. Desaparecer da vida que tinha. — Ele pausou. — Me pediu pra ir junto.

O silêncio durou alguns segundos.

— E você não foi — disse Maria. Não era pergunta.

— Não fui. — A voz saiu sem autocomiseração, só com o peso de quem aprendeu a carregar uma decisão. — Eu tinha a promoção. Tinha a chácara. Falei que a gente podia resolver de outro jeito, que não precisava fugir, que ia passar. — Ele olhou para a xícara. — Ela ficou me olhando por um tempo. Depois começou a chorar. Disse que então estava acabado. Saiu correndo.

— Você foi atrás?

— Fui até a porta. — Mike ficou em silêncio por um segundo. — Ela entrou no carro e foi embora. Eu fiquei parado na entrada da chácara até a poeira assentar.

Maria não disse nada.

— Dois dias depois — ele continuou, a voz no mesmo tom de sempre, que era talvez a coisa mais pesada de todas — encontraram o carro dela na beira de uma estrada. Ela dentro. Motor desligado. Sem marca de acidente. Sem causa identificada no laudo inicial. — Ele ergueu levemente o queixo. — O inquérito foi arquivado em menos de um mês.

O silêncio que se instalou tinha a mesma textura do que Maria havia criado quando falou do pai.

Ela ficou olhando para ele por um momento.

— O mesmo padrão — disse ela, baixinho.

— O mesmo padrão — confirmou Mike.

Nenhum dos dois falou por alguns segundos. A cafeteira emitiu um som leve no canto — o tipo de som que faz quando esfria. Ninguém se mexeu para ligar de novo.

— Toda a rispidez — disse Maria, devagar. — Toda a casca.

Não era pergunta. Era uma conclusão chegando.

Mike olhou para ela.

— Não é desculpa — disse ele.

— Não é. — Ela assentiu. — Mas é explicação.

Ficou com ele por um momento.

— Ontem eu falei que tudo começou por sua causa. — A voz saiu diferente — não mais seca, não mais de campo. Havia algo abaixo dela que Mike claramente não estava acostumado a expor e que estava expondo assim mesmo. — Isso foi ignorante. Estúpido. — Ele pausou. — Você não é o laboratório. Você não é a herança do seu pai. Você é a pessoa que está carregando tudo isso e ainda consegue raciocinar quando eu já teria parado.

Maria ficou imóvel por um segundo.

Os olhos foram — a água subindo devagar, sem aviso, sem drama. Ela piscou uma vez, duas. Não segurou.

Levantou da cadeira.

Mike não teve tempo de recuar. Os braços dela foram ao redor dele — rápido, sem anunciar, com a urgência de quem decide e executa antes de pensar melhor.

Ele ficou parado por um segundo inteiro.

Havia algo no jeito que o corpo dele respondeu — não imobilidade de recusa, imobilidade de surpresa genuína. A do militar treinado para antecipar que simplesmente não havia antecipado aquilo.

Depois completou.

As mãos foram às costas dela, devagar, com o mesmo cuidado com que havia arrumado a mesa mais cedo. O abraço fechou — não com força, com firmeza. O tipo que não aperta mas que sustenta.

Ficaram assim por alguns segundos.

Quando ela se afastou, os olhos estavam vermelhos mas secos. Ela o olhou de frente — ele a olhou de frente — e havia algo naquele espaço entre os dois que nenhum dos dois tinha vocabulário para nomear e que ambos, por razões diferentes, não tentaram.

Maria desviou primeiro. Passou a mão pelo rosto, respirou fundo.

Mike se levantou. Levou a xícara até a pia, deu as costas por um instante enquanto lavava.

— É bom a gente resolver umas coisas — disse ele.

Maria ficou olhando para as costas largas dele — a camiseta do Apolo que continuava esticada nos ombros, ridícula e inevitável.

— Que coisas?

Ele secou as mãos no pano de prato. Pegou as chaves do furgão da bancada.

— Umas coisas que só eu posso resolver.

Ela assentiu — um movimento pequeno, certo. Porque conhecia Mike o suficiente pra saber que quando ele dizia isso, era exatamente isso.

Ele foi para a porta. Parou com a mão na maçaneta.

— O café tem açúcar. — Disse, sem virar. — Coloquei a quantidade que você usa.

Saiu antes que ela respondesse.

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O furgão percorreu a rodovia por meia hora antes de Mike virar para o atalho de terra que levava à chácara em Caxias do Sul. O caminho que havia feito centenas de vezes — saindo pela estrada lateral que cortava entre propriedades rurais e chegava num portão de metal com travamento duplo.

O portão estava fechado. Mas havia marcas de pneu frescas na lama do acostamento.

Alguém havia parado ali.

Mike desceu do furgão com a mão na cintura no seu revólver e abriu o portão com cuidado. Entrou a pé pelos primeiros cinquenta metros, avaliando o caminho. A chácara apareceu depois da curva — a construção de alvenaria, o alpendre, a garagem lateral.

A porta de madeira da entrada estava entreaberta.

Ele não havia deixado entreaberta.

Varredura metódica — cômodo por cômodo, ângulo por ângulo. Sala, cozinha, quartos, banheiro. Nada fora do lugar. Nada mexido de forma óbvia.

Mas Mike conhecia aquela casa de memória.

Foi a luz que denunciou. Duas das lâmpadas de teto refletindo de um jeito ligeiramente errado — um ângulo que não era do vidro, era de outra coisa.

Pegou a escada dobrável do corredor. Subiu. Examinou a base da primeira lâmpada com a lanterna.

Escuta eletrônica. Pequena, preta, fio fino indo para dentro do forro.

A segunda tinha outra.

Mike desceu a escada com o mesmo silêncio com que havia subido. Ficou parado no centro da sala, olhando para as lâmpadas no teto.

Depois foi ao quarto e abriu o armário.

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Trinta minutos para fazer as malas — duas grandes, método de quem sabe o que é essencial e não desperdiça tempo com o resto. Roupas, equipamentos de comunicação, documentos, uma caixa de metal fechada a cadeado que foi direto para o fundo de uma das malas sem pausa.

Na garagem, tirou a lona que cobria a moto.

A Harley Davidson estava como havia deixado — preta e prata, customizada ao longo de anos com modificações que não eram estéticas. Mike passou a mão no guidão, a verificação instintiva de quem checou aquele veículo mais vezes do que conseguia contar.

Voltou para dentro uma última vez.

Abriu a gaveta do quarto até encontrar o que procurava — coisas que havia deixado ali por nunca precisar levar pra campo. A camiseta preta com a caveira no centro, desbotada nas bordas por lavagens que não contou. A jaqueta jeans cinza escuro dobrada no fundo do armário, com os vincos de quem ficou parado tempo demais.

Tirou a camiseta do Apolo sem cerimônia.

Vestiu a camiseta preta vestiu a calça cargo preta de motoqueiro e calçou as botas de couro com o movimento automático de quem fez isso antes de cada saída em sua vida.
Encontrou seus óculos escuros que estavam de baixo da cama.
Pronto este era Mike Ferrer.

Ficou um segundo em frente ao espelho do banheiro.

Não era uniforme. Não era farda. Era o que sobrava quando tirava tudo que havia vestido por obrigação.

Era suficiente.

Pegou o galão de combustível que guardava para o gerador e percorreu os cômodos devagar — sala, cozinha, corredor — derramando com método, fazendo o rastro sair pela porta principal até o portão. A chácara que havia comprado com o primeiro salário de quando subiu de patente. O lugar onde havia planejado coisas que não se realizaram e onde havia parado de planejar.

Parou na entrada. Olhou para o interior uma última vez.

Acendeu um Cigarro e com o mesmo fósforo Jogou.

A chama correu pelo rastro com aquela velocidade que você aprende a calcular depois de ver uma vez. Mike foi para o furgão sem olhar para trás. Ligou o motor, saiu pelo caminho de terra, virou na estrada.

O estrondo chegou pelos retrovisores — baixo, pesado, o tipo que vai longe demais para ser ignorado.

Mike acelerou em direção a Santa Rosa.

Não havia mais nada em Caxias do Sul que fosse dele.

Capítulo 22 — O Laboratório Esquecido

Capítulo 22: O Laboratório Esquecido
O fim das Memorias

Mike ficou de pé no centro do bunker e esperou.

Não precisou pedir silêncio. O tom do corpo bastava — aquela imobilidade específica que não era repouso, era preparação. Os quatro garotos pararam o que estavam fazendo. Apolo virou de frente. Maria levantou os olhos do computador.

— Antes de qualquer coisa. — Ele olhou para os celulares espalhados pela mesa como se olhasse para uma ameaça que ainda não havia se apresentado completamente. — A criatura estava conectada. Mente coletiva — o que ela captou dentro do campo, eles captaram junto. Não sabemos o quanto conseguiram ver antes de ela sumir, mas agora que a janela dela fechou, eles vão tentar abrir outra.

Ele apontou para os celulares.

— Nenhum aparelho ativo. Nenhum. A partir de agora, comunicação só pelos WalkToks, nas frequências que o Sérgio já calibrou. Celular ligado é sinal. E sinal eles sabem rastrear melhor do que a gente imagina.

Marcos olhou para o próprio celular. Olhou para Mike. Não disse nada, mas a expressão disse tudo.

— Por quanto tempo? — perguntou Jonathan.

— Até eu dizer o contrário.

Ninguém discutiu. Era o tipo de instrução que tinha lógica demais pra ter contra-argumento.

Mike virou para os quatro.

— Vocês ficam. — Disse do jeito que sempre dizia — sem espaço entre a frase e o fim da conversa. — Quando a gente chegar com o material do laboratório, preciso que esse espaço esteja pronto pra receber. Bancada central limpa, prateleiras livres no fundo, gerador na capacidade máxima. Qualquer equipamento que precisar de energia constante vai precisar de linha dedicada.

Sérgio já estava olhando para o espaço com os olhos de quem calcula antes de concordar.

— Dá pra fazer.

— Então faz.

Apolo pegou as chaves do furgão da bancada. Maria já estava de pé, o computador fechado embaixo do braço — o único pertence que havia carregado desde o início de tudo.

Mike foi o último a sair.

Na entrada, Marcos o parou com um olhar — não com palavras, só com a expressão de quem quer ir junto e sabe que não vai poder.

Mike não disse nada. Só fechou a porta do bunker atrás de si.

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O furgão pegou na segunda tentativa, tossindo uma vez antes de estabilizar. Apolo assumiu o volante. Mike no banco do passageiro. Maria no banco de trás, o computador no colo, os olhos na janela.

A estrada para o interior saía de Santa Rosa em linha reta por alguns quilômetros antes de começar a curvar entre lavouras e mata baixa. Quarenta minutos, Maria havia dito. Na prática, eram quarenta minutos de asfalto que ia ficando cada vez mais silencioso, cada vez mais distante do que qualquer um deles conhecia como rotina.

O furgão seguiu sem que ninguém sentisse necessidade de preencher o silêncio.

Foi Apolo quem falou, por volta do décimo minuto, sem tirar os olhos da estrada.

— Você foi lá depois que ele morreu?

Maria demorou um segundo.

— Não.

Apolo não perguntou mais nada.

O furgão continuou. A paisagem abriu numa planície larga, o céu pesado de nuvens baixas que não chegavam a chuva mas prometiam pressão.

Mike ficou olhando para a estrada até o fim.

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A propriedade apareceu depois de uma curva fechada — uma porteira de madeira velha, o caminho de terra batida que subia levemente até a casa. Térrea, paredes de alvenaria que já haviam visto décadas, varanda coberta com telha colonial. Ao redor, campo aberto com árvores esparsas, e nos fundos o que parecia um galpão mas não era.

Apolo parou o furgão na frente da porteira.

Os três ficaram parados por um momento.

Maria desceu sem falar. Abriu a porteira — o trinco estava enferrujado mas cedia, como se ainda soubesse a mão dela. Apolo avançou o furgão pelo caminho. Ela fechou a porteira atrás, caminhou até a varanda e parou na frente da porta principal.

A chave estava onde sempre esteve — sob a terceira pedra do lado esquerdo da soleira, onde o pai havia colocado uma vez porque perdia as chaves toda semana e nunca havia tirado de lá depois.

Ela abriu a porta.

O cheiro entrou antes da luz. Madeira, poeira assentada, e alguma coisa que não tinha nome — o cheiro específico de uma casa que não foi habitada faz tempo mas que ainda carrega as pessoas que viveram nela.

Maria ficou parada no batente por um segundo.

Depois entrou.

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Mike foi direto para os fundos. Apolo ficou na entrada por um instante, olhando para o interior da casa — os móveis cobertos por lençóis, os quadros ainda na parede, a xícara na prateleira da cozinha que alguém havia lavado e guardado e nunca mais usou.

Seguiu Maria.

Ela estava no corredor, em frente a uma porta fechada. Não era o quarto dela — era o escritório do pai. Ficou alguns segundos com a mão na maçaneta sem abrir.

Apolo parou atrás dela. Não disse nada. Só ficou.

Ela abriu.

O escritório era pequeno. Uma mesa, duas estantes, papéis organizados com a precisão de quem acreditava que ordem era uma forma de respeito pelo próprio trabalho. Na parede, um mapa do Rio Grande do Sul com marcações que Maria claramente conhecia — havia crescido olhando para aquele mapa. Sobre a mesa, um caderno fechado com uma fita marcando a última página escrita.

Maria foi até a mesa. Abriu o caderno no marcador.

A letra do pai era pequena, inclinada para a direita. Ela leu em silêncio por alguns segundos. Apolo não viu a expressão — só viu os ombros, e a forma como eles desceram levemente, como se um peso antigo tivesse sido posto no chão por um segundo antes de ser recolhido.

Ela fechou o caderno e o colocou embaixo do braço junto com o computador.

— Preciso de dez minutos no meu quarto — disse ela. — Depois a gente desce pro laboratório.

— Toma o tempo que precisar — disse Apolo.

Ela já estava andando pelo corredor.

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O quarto de Maria era o menor da casa — ela havia escolhido o menor quando criança porque tinha a melhor janela, com vista para a parte de trás da propriedade onde o campo encontrava a mata. A janela estava fechada. Ela abriu. A brisa entrou com cheiro de terra úmida.

Ficou parada por um segundo olhando o campo. Depois foi para o guarda-roupa.

Havia roupas que não usava faz anos junto com as que havia deixado na última vez que esteve ali. Separou o que era útil com rapidez — calças, camisetas, uma jaqueta que não havia levado porque havia saído de casa sem planejar ficar fora mais de um dia. Tudo em menos de cinco minutos, dobrado numa mochila que tirou da prateleira de cima.

Antes de fechar a mochila, pausou.

Foi até a mesinha de cabeceira. Abriu a gaveta. Dentro, entre uma caneta sem tampa e um bloco de notas velho, havia uma fotografia — ela e o pai, ela com uns doze anos, os dois na entrada do laboratório com expressões sérias porque o pai não sorria em foto mas havia deixado ela segurar a câmera com o timer automático e ficara sério por força do hábito. Ela segurava um caderno pequeno. Ele tinha a mão no ombro dela do jeito desajeitado de quem não sabia muito bem como demonstrar mas tentava.

Ela pegou a fotografia. Acariciou a borda com o polegar, devagar. Olhou fixo para os dois na imagem — o pai sério, ela com o caderno na mão — e deixou o ar pesar por três segundos. Depois pousou a foto de volta na gaveta, aberta, virada pra cima.

Fechou o guarda-roupa e saiu.

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A entrada do laboratório ficava nos fundos da casa, atrás do galpão — uma estrutura de concreto embutida no terreno que de fora parecia parte da fundação. Mike já havia encontrado a tampa de acesso quando Maria chegou. Estava de cócoras examinando o mecanismo de travamento com a atenção de quem avalia sem mexer até entender.

— Código ou chave? — perguntou ele.

— Código. — Maria digitou a sequência no painel embutido na lateral. — Era a data de nascimento da minha mãe. Ele nunca foi bom com senhas.

A tampa hidráulica se abriu com um rangido lento. Luzes automáticas acenderam em sequência pelo corredor de concreto que descia em leve inclinação — não bruscas como luz de emergência, mas as luzes de trabalho que o Dr. Eduardo havia instalado porque preferia trabalhar à noite e precisava de algo que não cansasse os olhos.

Os três desceram.

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O laboratório estava parado no tempo.

Não havia sinais de invasão, de vandalismo, de deterioração além do que o tempo faz por conta própria. As bancadas de aço estavam no lugar. Os equipamentos cobertos por panos de algodão, como alguém que arruma a própria casa antes de viajar sem saber que não vai voltar. Nos armários ao longo da parede, caixas numeradas com a letra pequena e inclinada do pai.

Maria ficou imóvel na entrada por três segundos.

Depois virou para os dois.

— Caixas numeradas de um a doze, parede direita — esses são os protocolos. — A voz saiu com a objetividade de sempre, mas havia algo abaixo dela que Mike reconheceu e não nomeou. — As caixas cinzas na bancada central são os equipamentos de análise. Os cadernos são quatro, estão no armário de chave preta no fundo. Precisamos de tudo.

— Quanto tempo temos? — perguntou Mike.

— Não sei. Mas não muito.

Não precisou de mais.

Mike foi para a parede direita. Apolo para a bancada central. Maria foi para o armário de chave preta.

O trabalho começou em silêncio — o tipo de silêncio de pessoas que não precisam coordenar em voz alta porque cada uma sabe o que está fazendo. As caixas foram sendo empilhadas perto da entrada. Os equipamentos embalados com o pano de algodão que os cobria, porque era o que tinham e era suficiente.

Maria encontrou os quatro cadernos exatamente onde havia dito. Segurou a pilha com os dois braços e ficou assim por um segundo — quatro cadernos que o pai havia preenchido ao longo de anos, cada um numerado na lombada com uma letra além do número, um sistema de indexação que só ele entendia completamente e que ela havia aprendido a decifrar ao longo de anos de conversas que não eram conversas, eram aulas que o pai não chamava de aulas.

Colocou os cadernos na mochila com cuidado.

Voltou para ajudar com o resto.

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Levaram quarenta minutos para esvaziar o laboratório.

Não tudo — havia equipamentos fixados nas bancadas que precisariam de ferramentas que não tinham, e havia o sistema de monitoramento integrado nas paredes que não sairia sem obra. Mas o que era portátil, o que era essencial, o que o Dr. Eduardo havia construído com as mãos e documentado em papel — isso saiu.

O furgão ficou pesado. Mike e Apolo fizeram três viagens cada pelo corredor de concreto. Maria ficou em cima organizando o carregamento na caçamba com a lógica de quem cresceu naquele laboratório e sabia o que era frágil e o que aguentava pressão.

Quando a última caixa foi colocada e a caçamba fechada, os três ficaram parados por um momento na frente do furgão.

O sol havia descido um pouco mais no céu. A propriedade estava quieta. O campo ao redor sem movimento, os pássaros que haviam voltado depois da chegada deles agora chamando de algum lugar na mata.

Maria foi até o banco de trás. Abriu a mochila e tirou o tablet — diferente do computador, menor, com uma capa preta simples que claramente não era de uso cotidiano.

Entrou no furgão.

Apolo entrou. Mike entrou.

O furgão saiu pelo caminho de terra em direção à porteira.

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— A gente conseguiu — disse Apolo, quando saíram na estrada. A voz tinha o peso específico de quem precisava dizer em voz alta para acreditar completamente. — Está tudo aqui. Os cadernos, os protocolos, os equipamentos. A gente tem base pra trabalhar de verdade agora.

Mike olhou pela janela do passageiro sem responder.

— Os garotos vão ter organizado o espaço — continuou Apolo. — Com o que a gente trouxe mais o que já está no bunker, dá pra montar um laboratório funcional. Não igual ao do Eduardo, mas funcional.

— Funcional é suficiente — disse Mike.

Maria estava no banco de trás com o tablet no colo. Os dois não haviam percebido que ela não havia dito nada desde que saíram da propriedade.

— Eles não vão achar nada lá — disse Apolo. — Mesmo que cheguem, não tem mais nada que interesse. A gente tirou tudo que importava.

— Quase tudo — disse Maria, sem levantar os olhos do tablet.

Apolo a olhou pelo retrovisor.

Maria estava digitando alguma coisa. Devagar, com a atenção de quem confirma antes de executar.

— Maria. — A voz de Apolo saiu com uma interrogação que não chegou a se formar em pergunta.

Ela apertou o botão.

O tablet emitiu um som — único, limpo, como uma confirmação de sistema. Depois uma voz sintética, calma como voz de sistema sempre é:

Sequência de contenção iniciada. Autodestruição em uma hora. Por favor, evacue o perímetro.

O furgão seguiu pela estrada.

Ninguém falou.

Apolo olhou para o retrovisor. Maria estava com os olhos na janela agora, o tablet com a tela ainda acesa no colo, a contagem descendo em números que ela não estava olhando.

Mike ficou olhando para a estrada à frente.

— Vamos — disse ela, em voz baixa. Como se respondesse uma pergunta que ninguém havia feito.

O furgão acelerou levemente.

O silêncio que se instalou era diferente de todos os anteriores. Não era o silêncio de quem não tem o que dizer. Era o silêncio de quem entende o que acabou de acontecer e respeita o peso disso sem precisar nomeá-lo.

Voltaram para Santa Rosa sem que ninguém dissesse mais uma palavra.

---

O furgão parou na clareira quarenta minutos depois.

Os garotos já estavam na entrada — Marcos na frente, Jonathan logo atrás, Sérgio ao lado com o comunicador na mão, Josué um passo atrás como sempre. A clareira havia sido reorganizada: o caminho até a rampa estava limpo, e pela expressão de Sérgio era evidente que havia passado a última hora e meia coordenando os outros com a eficiência de quem nasceu para isso.

— Como foi? — perguntou Sérgio.

— Depois — disse Mike.

A descarga começou sem mais palavras.

Caixa por caixa, equipamento por equipamento, os quatro cadernos na mochila de Maria que ela mesma carregou sem deixar ninguém tocar. Os garotos integraram o ritmo sem precisar de instrução — Marcos e Jonathan na caçamba passando as caixas, Josué e Sérgio recebendo e levando para dentro, Apolo e Mike fazendo o trajeto mais pesado.

O bunker foi se enchendo.

A bancada central estava limpa como Mike havia pedido. As prateleiras do fundo, vazias. O gerador no limite. Sérgio havia pensado nos detalhes que ninguém havia pedido — fita numerada nas prateleiras, espaço delimitado no chão para as caixas maiores, a extensão de tomadas já posicionada onde os equipamentos precisariam de energia.

Mike olhou para o espaço reorganizado por um segundo.

Não disse nada. Mas o silêncio era o tipo que em Mike equivalia a aprovação.

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Quando a última caixa entrou e a caçamba fechou, o trabalho havia durado quinze minutos.

Os garotos foram ficando mais quietos à medida que o espaço tomava forma — havia algo na seriedade do que estavam construindo que chegava até eles sem que ninguém precisasse explicar.

Apolo saiu do bunker depois que tudo entrou. Veio com duas long necks na mão e encontrou Mike parado do lado de fora, encostado no furgão. Estendeu uma para ele.

Mike pegou sem comentar.

Os dois ficaram assim por alguns minutos — encostados no furgão, as long necks na mão, olhando para nada específico. O céu havia fechado de vez, as nuvens baixas.

— Ela não disse uma palavra no caminho de volta — disse Apolo, sem tom de acusação. Só de quem estava pensando em voz alta.

— Eu sei.

— Você sabe o que aquilo custou pra ela.

Mike tomou um gole. Ficou em silêncio por um momento.

— Sei.

Apolo olhou para a entrada do bunker. Dentro, pelas vozes abafadas que chegavam, Maria estava orientando os garotos sobre onde cada equipamento deveria ser posicionado — a voz técnica de volta, a objetividade de sempre, como se o laboratório pudesse ser reorganizado aqui e isso fosse suficiente.

— Ela nunca tinha voltado ao laboratório — disse Apolo. — Desde que o pai morreu. A casa ela ainda vinha, mas o laboratório do Eduardo — que um dia foi do avô dela também — nunca mais tinha sido aberto. Hoje foi a primeira vez.

Mike não respondeu.

Apolo olhou para ele de canto.

— Fala alguma coisa pra ela quando tiver oportunidade.

— Já falei o suficiente.

— Mike.

— Apolo. — A voz saiu no tom de quem encerra um assunto antes que ele comece. — O laboratório está aqui. Ela está bem. É o que importa agora.

Apolo abriu a boca. Fechou. Tomou a long neck.

---

Maria saiu alguns minutos depois.

Ficou na entrada do bunker por um instante, olhando para os dois encostados no furgão. Depois desceu a rampa e veio até eles com os braços levemente cruzados sobre uma jaqueta de lã grossa — velha, grande demais nos ombros, claramente não era dela mas ela havia vestido assim mesmo.

— Está tudo organizado lá dentro — disse ela. — Os garotos fizeram bem. O Sérgio numerou as prateleiras.

— Eu vi — disse Mike.

Ela ficou parada por um momento.

— Quando a gente tiver descansado, precisamos começar pelos cadernos. Tem coisa que meu pai nunca digitalizou. Se Larkin ou quem quer que esteja com ele tiver acesso a registros anteriores, eles vão saber que existem. A gente precisa estar na frente.

— Amanhã — disse Mike.

— Pode ser que amanhã já seja tarde — rebateu ela, mais seca.

— Pode ser. Mas hoje não vai ser. Você não dormiu, eu não dormi, o Apolo dormiu numa cadeira. Amanhã.

Maria ergueu o queixo.

— Você age como se descanso fosse luxo.

— Profissional descansado erra menos — disse Mike. — Cansado não é trabalhar mais. É estragar o que já foi feito.

— Eu sei disso — ela cortou. — Não precisa falar comigo como se eu fosse recruta.

— Então para de agir como se fosse — respondeu ele, no mesmo tom.

O silêncio ficou mais pesado.

— Não precisa ser assim — disse ela, a voz mais baixa mas firme.

— Assim como?

— Assim. — Ela apontou para ele com a mão aberta. — Nesse tom. Como se tudo fosse ordem. Eu estou falando sobre o trabalho, Mike. Não estou te questionando.

— E eu estou respondendo sobre o trabalho — disse ele. — Amanhã. Ponto final.

Ela o encarou.

— Você está sendo grosso porque está com medo de admitir que a gente está atrasado. E está sendo grosso comigo porque é mais fácil do que admitir que tudo isso começou por minha causa.

Mike não desviou o olhar.

— Começou por sua causa — disse ele, direto. — Seu pai, seu laboratório, sua herança. A gente está aqui limpando o que sobrou.

As palavras bateram. Maria não respondeu de imediato. Os olhos marejaram — não chorou, mas a água subiu o suficiente para brilhar na luz baixa. Ela respirou fundo uma vez, como quem segura.

Ficou olhando para ele. Depois olhou para Apolo, em silêncio. Virou de novo para Mike.

Deu dois passos, tirou a long neck da mão dele sem pedir licença, e se afastou.

Foi até a porta do bunker e parou. De costas para os dois.

Foi então que o som chegou.

Distante — abafado, muito longe, mas inconfundível. Um estrondo baixo e pesado que durou menos de dois segundos.

Apolo e Mike viraram a cabeça na direção do som, instintivamente.

Quando voltaram os olhos para ela, Maria não tinha se virado. Continuava parada, de costas.

Levantou a long neck. Virou gole por gole, sem pressa, até esvaziar. Jogou a garrafa para trás sem olhar, a garrafa bateu no chão e rolou.

Entrou no bunker.

Ela entrou no bunker e passou direto pelos garotos sem dar boa noite.

Jonathan percebeu primeiro. Levantou os olhos dos cabos que organizava, viu a expressão dela — não triste, não brava, só fechada — e continuou finalizando as arrumações em silêncio. Marcos abriu a boca para falar, olhou para o Jonathan e desistiu. Sérgio apenas assentiu de leve quando ela passou, como quem entende que tem hora que não se pergunta.

Ela seguiu até o fundo, onde as prateleiras novas ainda estavam sendo montadas. Parou por um segundo olhando para os quatro cadernos empilhados na bancada, a mão pousou na capa do de cima por um instante e saiu.

Ouviram ao fundo a batida de uma porta. Seca. O som estalado de metal contra metal.

Ninguém se meteu.

---

Lá fora, o silêncio entre Apolo e Mike durou mais do que o confortável.

Foi Apolo quem quebrou.

— A culpa não é cem por cento dela — disse ele, sem tirar os olhos do horizonte escuro.

Mike não respondeu.

Apolo virou de frente para ele.

— Você está agindo como se ela tivesse planejado tudo isso. Ela não planejou, Mike. Ela foi enganada.

— Enganada — repetiu Mike, no tom neutro de sempre.

— Enganada — confirmou Apolo, e agora a voz subiu um tom. — Ela acreditava de verdade que dali ia sair algo bom. Que ia tirar tecnologia que ia colocar o Brasil lado a lado com os Estados Unidos. Ela tinha o sonho idiota e bonito de ver o país dela fazendo história. Era ambição, sim. Mas era ambição limpa.

Mike ficou olhando para ele.

Apolo deu um passo à frente e colocou o dedo no peito dele.

— Se não fossem pessoas como você — disse ele — que sabotaram ela, que transformaram anos de estudo em motivo pra chacota, que pegaram a credibilidade de uma mulher que só queria entregar algo pro país dela e pisaram em cima... não haveria esse descaso. Não haveria essa pressão toda em cima dela.

Mike abriu a boca. Fechou. Poderia ter respondido na mesma moeda — era o que ele sempre fazia. Mas não fez. Ficou parado, os olhos fixos no chão por um segundo mais longo que o normal.

Apolo baixou a mão.

— Você escutou? — perguntou, mais baixo agora. — Aquilo ali... — ele fez um gesto vago na direção de onde o estrondo tinha vindo — ...é o passado dela explodindo. É ela abrindo mão de tudo pra entrar de cabeça na única coisa que hoje é a salvação da gente. A gente não tem noção do que vai acontecer daqui pra frente, Mike.

Mike abaixou a cabeça. Pela primeira vez naquela noite, os ombros desceram.

— Está ok — disse ele. — Eu entendi.

Apolo o estudou por um momento. Depois virou a long neck que ainda tinha na mão e tomou o último gole.

— Bom — disse ele. — Hoje eu não durmo aqui no bunker. Preciso da minha cama. Preciso do calor da minha namorada. Vou levar os garotos pra casa. E hoje... — ele olhou para a porta do bunker — ...você vai encarar o clima que você criou.

Mike assentiu uma vez.

— Ok.

---

Apolo entrou no bunker. Mike veio logo atrás, os olhos procurando sem chamar — procurando onde ela estava, sem falar nada.

— Bora, garotada — disse Apolo, batendo palmas uma vez. — Vamos embora. O carro já tá ligado.

Mike olhou para ele por cima do ombro.

— O furgão deixa pra entregar amanhã no final da tarde. Tem umas coisas pra resolver amanhã.

Apolo balançou a cabeça que sim.

Jonathan, que estava enrolando o último cabo, levantou a cabeça.

— Meu pai não vai usar ele nesse final de semana não.

Mike virou para ele.

— Amanhã, antes do final da tarde, ele vai estar pronto pra ser devolvido.

— Ok — disse Jonathan.

Marcos passou por Mike a caminho da rampa e parou.

— Boa noite, tio Mike.

Mike olhou para ele. Um sorriso de canto — pequeno, quase imperceptível — apareceu. Passou a mão na cabeça do garoto, bagunçando o cabelo de propósito.

— Boa noite, Marcos.

Josué veio logo atrás, quieto como sempre.

— Boa noite, tio Mike. Boa noite pra todo mundo.

— Boa noite, Josué.

Apolo já estava na porta, com a mão na maçaneta. Olhou para dentro do bunker uma última vez.

— Talvez amanhã eu apareça aqui mais tarde do que o comum — disse ele. — Preciso resolver umas coisas com a Bia.

Mike estava encostado na bancada, os braços cruzados.

— Eu também tenho umas coisas pra resolver amanhã. Eu e o furgão. Mas com responsabilidade.

Apolo balançou a cabeça e abriu um sorriso curto.

— Boa noite, meu irmão.

— Boa noite.

A porta fechou.

---

O bunker ficou em silêncio.

Mike ficou parado por alguns segundos olhando para a porta fechada. Depois foi até o banheiro no fundo.

Entrou, ligou o chuveiro e ficou parado debaixo da água quente sem se mexer. Não pensou nela. Não pensou em nada específico. Só deixou a água correr enquanto a cabeça processava o que tinha acontecido lá fora — a discussão, o dedo no peito, o estrondo distante, a long neck gole por gole.

Quando desligou o chuveiro, se enxugou ainda pensativo. Vestiu uma camiseta limpa, foi até a cozinha, abriu a geladeira e contou quantas long necks ainda tinham.

Fechou a geladeira. Na volta, parou no meio do salão e olhou para o laboratório montado — tudo organizado, as prateleiras numeradas pelo Sérgio, os quatro cadernos empilhados na central, os equipamentos do Dr. Eduardo cobertos e prontos.

Ficou olhando por um momento.

Depois virou e entrou para o quarto.

Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...