sábado, 13 de junho de 2026

Capítulo 21 — Anti-Habitantes

Capítulo 21 — Anti-Habitantes

A câmara selada nunca parou de pulsar.

Durante toda a noite, o campo magnético emitiu aquele zumbido baixo e constante que não era exatamente um som — era uma presença. O tipo de coisa que entra pelos ouvidos e vai parar no fundo do peito, onde o desconforto não tem nome mas tem endereço.

Mike havia tentado sentar. Tentado encostar na parede. Tentado fechar os olhos por alguns minutos.

Não havia funcionado nenhuma vez.

Ele ficou de pé na maior parte da madrugada, os braços cruzados, os olhos voltando sempre para a câmara — para os contornos da criatura dentro do campo, que pulsavam com uma regularidade inquieta, como algo que respira mas não deveria.

Maria ficou na cadeira ao lado do computador. Não estava mais digitando — só observando os dados que os sensores da câmara enviavam em tempo real. Números que subiam e desciam com uma lógica que ela entendia tecnicamente mas que biologicamente ainda não conseguia traduzir em algo tranquilizador.

Apolo havia cedido por volta das três da manhã. Não numa cama — numa cadeira, com a cabeça inclinada para o lado e os braços cruzados sobre o peito, como alguém que não planejava dormir mas o corpo decidiu por ele. Continuou assim até as sete e quarenta.

Quando acordou, a primeira coisa que fez foi olhar para a câmara.

A criatura estava mais agitada do que quando ele havia fechado os olhos.

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Os quatro chegaram juntos — Sérgio na frente, Jonathan logo atrás, Marcos fechando, e Josué por último, quieto como sempre, como alguém que estava junto sem precisar anunciar. As bikes pararam na entrada da clareira com aquele barulho de cascalho que anunciava chegada antes de qualquer palavra.

Eram oito e poucos da manhã de um sábado que não tinha nada de sábado.

Apolo abriu a entrada. Os quatro desceram a rampa com as mochilas nas costas e pararam quando viram Mike e Maria.

Não precisou de explicação. A ausência de sono tem uma aparência específica — olhos que estão abertos mas que demoram um segundo a mais pra focar, uma quietude no rosto que não é calma, é esgotamento que aprendeu a se segurar.

— Vocês não dormiram — disse Sérgio. Não era pergunta.

— Apolo dormiu — respondeu Mike, sem tirar os olhos da câmara.

Apolo não negou.

Os garotos foram até a câmara. Ficaram parados em volta dela por alguns segundos — a criatura dentro do campo magnético movia os membros de forma lenta mas deliberada, os olhos vermelhos abrindo e fechando em intervalos irregulares.

— Ela tá se mexendo mais — disse Jonathan, a voz baixa.

— Sim — confirmou Maria. — A faixa de 4 a 8 Hz está perdendo efeito. Ela está se adaptando ao campo. Se não fizermos nada, o campo não vai segurar por muito mais tempo.

Marcos estava agachado na frente da câmara, olhando para a criatura com uma expressão que ninguém ali havia visto nele antes — concentrada, sem nenhum traço do humor habitual.

— Eu vi uma coisa — disse ele, sem levantar os olhos.

— Que coisa? — perguntou Apolo.

— Uma frequência. — Ele ficou em silêncio por um segundo. — A gente trabalha com frequências faz tempo, eu e o Jonathan. Todos os nossos projetos de ciências nos últimos dois anos são sobre isso.

— Marcos — disse Jonathan, com o tom de quem sabe o que vem depois.

— Deixa eu falar. — Marcos finalmente se levantou. — Existe uma faixa chamada de frequências de conexão. Alguns chamam de frequência pineal. Outros chamam de frequência de Deus.

O silêncio que se seguiu tinha texturas diferentes dependendo de quem estava sentindo.

Mike olhou para ele com a expressão de quem está ouvindo mas reservando julgamento.

Maria ergueu uma sobrancelha.

Apolo ficou quieto.

— 963 hertz — continuou Marcos. — A teoria é que essa frequência tem uma relação direta com as leis da realidade física. Com o que é possível existir aqui. — Ele apontou para a criatura. — Isso aí é um demônio. E frequência de Deus em cima de demônio...

— Não é um demônio — disse Maria, com a gentileza direta de quem corrige sem diminuir. — É um ser dimensional. Vem de uma estrutura de realidade diferente da nossa e está tentando se estabilizar aqui. É física, não teologia.

— Pode ser as duas coisas — disse Josué, de um canto.

Havia chegado com os outros mas ficara encostado na parede sem chamar atenção. Quando falou, foi sem tom de debate — só como quem oferece uma possibilidade.

Maria o olhou por um segundo. Não respondeu.

Jonathan foi até a bancada e pegou a arma de frequência — o dispositivo remendado de fita isolante que ele e Marcos haviam construído na noite anterior. Verificou a configuração.

— Posso tentar — disse ele. — Se a teoria do Marcos estiver certa, a reação vai ser imediata.

Mike olhou para o dispositivo. Depois para Jonathan. Depois para a câmara.

— Faz.

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Jonathan se aproximou da câmara devagar, a arma de frequência na mão, e ajustou o dial para 963 Hz.

A criatura parou de se mover.

Não foi uma parada gradual — foi imediata, como se algo fundamental tivesse mudado no ambiente ao redor dela. Os olhos vermelhos fixaram em Jonathan por um instante.

Ele ativou o dispositivo.

O som que saiu não era alto — era mais sentido do que ouvido, uma vibração que preencheu o espaço do bunker de uma forma que ninguém soube descrever depois com precisão. O ar ficou diferente. Mais denso, ou mais definido — como se as bordas das coisas tivessem ficado levemente mais reais.

A criatura reagiu.

Os contornos do corpo dela começaram a tremer — não como quando os tiros a haviam atravessado, mas de outra forma. Mais profunda. Como se algo interno estivesse cedendo. A forma física que havia construído com tanto esforço começou a desfazer-se pelas bordas, revertendo para aquela textura de sombra densa que tinham visto no túnel.

Marcos assistia com os olhos arregalados e a boca entreaberta.

Maria estava de pé, registrando tudo no computador com uma velocidade que sugeria que as mãos estavam na frente do pensamento.

Mike ficou imóvel.

A criatura estava voltando. Não morrendo — voltando. Para aquilo que era antes de conseguir se manifestar fisicamente. A sombra se condensando, os contornos desaparecendo, os olhos vermelhos piscando cada vez mais devagar.

E então — antes de sumir completamente — ela emitiu um som.

Não era uma vocalização. Não era dor. Era outra coisa inteiramente — algo que atravessava o campo magnético como se ele não existisse, uma frequência baixa e contínua que todos sentiram antes de ouvir, nos dentes, na base do crânio, no peito.

Durou três segundos.

Depois a criatura se dissipou. A câmara selada ficou vazia, o campo magnético zumbindo para nada.

O bunker ficou em silêncio absoluto.

Ninguém se mexeu por um momento.

Foi Marcos quem falou — e pela primeira vez desde que o conheciam, não havia nenhuma leveza na voz.

— Ela não tava gritando de dor. — Ele olhou para a câmara vazia. — Ela tava avisando alguma coisa.

— Pra quem? — disse Jonathan, baixinho.

Josué se afastou da parede devagar. Quando falou, foi com aquela calma de quem carrega pensamentos há tempo e finalmente encontrou o momento certo.

— Ela não pertencia a lugar nenhum — disse ele. — Nem de onde veio, nem aqui. Era como se estivesse entre os dois lados sem ser de nenhum.

Maria ficou olhando para os dados da câmara por alguns segundos. Depois fechou o computador com cuidado, como quem precisa de um gesto físico pra organizar o pensamento.

— É exatamente isso — disse ela. — Do ponto de vista dimensional, essa criatura não era habitante da dimensão de origem e não conseguia ser habitante desta. Era um híbrido instável. Matéria não totalmente física, tentando infringir leis que não foram feitas pra ela.

Sérgio olhou para a câmara vazia.

— Anti-habitante — disse ele, quase para si mesmo.

A palavra pousou no ar do bunker de um jeito que nenhuma outra havia pousado até então.

Maria olhou para ele.

— Anti-Habitante — repetiu ela, devagar. Como quem testa o peso de algo antes de decidir que é sólido. — Não é um nome. É uma descrição. Eles não habitam nenhuma das duas dimensões de forma legítima. São contrários à habitação. Anti-Habitantes.

— Todos eles — disse Josué.

— Todos eles — confirmou Maria.

Mike ficou olhando para a câmara por um momento. Depois para os outros.

— Então não era só aquela criatura. — Não era pergunta. — É o que eles são.

— É o que eles são — disse Maria.

O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os anteriores. Não era o silêncio de quem não tem resposta. Era o silêncio de quem acabou de nomear algo que estava ali o tempo todo, esperando ser visto.

E o som que a criatura havia emitido antes de sumir — aquele aviso gutural que atravessara o campo magnético como se ele não existisse — de repente fazia ainda mais sentido.

Ela não havia avisado os humanos.

Havia avisado os outros.

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A decisão de ir ao laboratório do pai de Maria não foi uma decisão — foi uma conclusão. Sem o que havia na câmara, sem a criatura, sem a evidência física, eles tinham relatos e teorias. O laboratório do Dr. Eduardo H. Costa era a única chance de transformar o que haviam visto em algo que resistisse ao tempo e ao escrutínio.

— Preciso dos equipamentos do meu pai — disse Maria. — Ele desenvolveu sistemas específicos para preservação de matéria instável. Cadernos, protocolos, registros que nunca foram digitalizados. Se ainda estiverem lá, a gente tem base pra continuar.

— Onde fica? — perguntou Mike.

— Propriedade da família. Interior de Santa Rosa. Uns quarenta minutos daqui.

Ela fez uma pausa. O tipo de pausa que antecede algo que a pessoa guardou por tempo demais.

— Tem uma coisa que eu nunca contei pra ninguém. — Ela olhou para a câmara vazia antes de continuar. — Meu pai tinha medo do que estava pesquisando. Medo de verdade. Então ele instalou um sistema de contenção de emergência no laboratório. Se algo extradimensional entrar lá e o sistema for ativado, o lugar inteiro pode ser selado e incinerado por dentro. É um último recurso. Ele esperava nunca precisar usar.

O silêncio que se seguiu foi de natureza diferente dos anteriores.

— Tipo uma autodestruição — disse Jonathan, baixinho.

— Exatamente — confirmou Maria. — Ele construiu uma saída que não deixa nada pra trás.

Mike ficou olhando para ela por um momento.

— E você sabe como ativar.

— Sei.

Mais silêncio.

— Como chegamos lá? — perguntou Mike, voltando ao tom de operação.

Jonathan levantou a mão levemente.

— Meu pai tem um furgão.

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A questão do furgão levou quinze minutos de conversa e chegou a uma conclusão simples: Apolo e Jonathan iriam buscá-lo. O problema era o transporte de ida.

O carro do Apolo estava no bunker. Se ele fosse de carro até a casa de Jonathan, teria que deixar o carro lá quando voltasse com o furgão — e alguém teria que ir buscar o carro depois, o que criava mais uma movimentação visível num momento em que visibilidade era o último que precisavam.

Marcos olhou para as bikes apoiadas na parede da entrada.

— Vai de bike.

Apolo olhou para as bikes. Depois para Marcos.

— A minha tá lá em casa — disse Sérgio. — Vim na garupa do Jonathan. Josué veio na do Marcos.

Marcos se levantou da cadeira com uma solenidade desnecessária.

— Pode usar a minha. É reforçada.
Apolo olhou para a bike. Para Marcos. Para a bike de novo.

— Demorou. Valeu.

A bike do Marcos era azul, pequena, com o guidão levemente torto de uma queda antiga e um adesivo de time de futebol na alça. Apolo era um homem de um metro e oitenta e dois.

Mike olhou para a bike. Depois para Apolo. Havia algo nos olhos dele que, em qualquer outra circunstância, poderia ter sido um sorriso.

— Tô indo de bike — disse Apolo, com a resignação de quem sabe que não há alternativa melhor.

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Eles saíram da clareira lado a lado — Apolo na bike do Marcos, os joelhos levemente abertos para acomodar a estrutura pequena, Jonathan na própria bike ao lado, mantendo uma velocidade que não humilhava o outro nem completamente.

Os que ficaram no bunker assistiram pela entrada até eles sumirem na curva da estrada.

Marcos ficou olhando por um segundo a mais do que os outros.

— Ele tá pedalando com a dignidade de um general — disse ele, para ninguém em específico.

Ninguém respondeu. Mas Sérgio virou o rosto para o outro lado.

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A casa de Jonathan era uma construção de dois andares com garagem aberta. O furgão branco estava exatamente onde Jonathan havia dito — coberto por uma lona velha, estacionado no fundo da garagem com aquela estabilidade de coisa que não sai todo dia.

O pai de Jonathan estava na cozinha quando os dois entraram. Um homem de meia-idade, camisa de manga curta, xícara de café na mão — o tipo de figura que transmite rotina de sábado de manhã e não está esperando nenhuma surpresa.

Jonathan foi direto ao ponto, com uma naturalidade que só funciona quando a pessoa acredita no que está dizendo.

— Pai, preciso do furgão hoje. A escola liberou acesso ao laboratório de ciências no fim de semana e a gente tem que buscar uns equipamentos que o professor Apolo conseguiu emprestado de outro colégio. São caixas, precisa de espaço.

O pai olhou para Jonathan. Depois para Apolo.

Apolo sustentou o olhar com a serenidade específica de professor — aquela combinação de autoridade e tédio institucional que funciona em qualquer contexto.

— É material frágil — Apolo acrescentou. — Equipamentos de física. Não dá pra levar em carro comum.

O pai de Jonathan pousou a xícara.

— Você traz de volta com o tanque cheio.

— Com o tanque cheio — confirmou Apolo.

As chaves deslizaram pela bancada da cozinha.

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O furgão saiu da garagem tossindo duas vezes antes de pegar. As bikes foram colocadas na caçamba. Apolo assumiu o volante, Jonathan no banco do passageiro.

No caminho de volta, Jonathan conectou o rádio modificado — aquele que sintonizava as frequências do grupo.

O que captou não era do grupo.

A voz veio fria, organizada, falando para alguém que não respondia no canal que eles podiam ouvir.

*— Primeiro casco reportando. O exemplar foi neutralizado internamente. Sinal de localização confirmado antes da dissipação. Coordenadas transmitidas. Equipe de contenção em deslocamento para o setor.*

Apolo pisou levemente no freio.

Jonathan ficou olhando para o rádio.

*— O laboratório secundário do Dr. Eduardo H. Costa continua como ponto de interesse prioritário. Não interfiram antes da chegada do grupo. Repito — não interfiram antes.*

A transmissão cortou.

O furgão seguiu pela estrada de Santa Rosa em silêncio por alguns segundos.

— Eles sabem — disse Jonathan.

— Sabem — confirmou Apolo.

— E estão esperando a gente chegar lá.

Apolo não respondeu de imediato. As mãos no volante, os olhos na estrada.

— Sim — disse ele, por fim. — Estão esperando.

Jonathan olhou para a janela.

— E a gente vai mesmo assim.

Não era pergunta.

Apolo acelerou.

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De volta no bunker, a transmissão foi reproduzida para todos a partir do rádio do furgão. Ninguém falou enquanto ouvia. Quando terminou, o silêncio durou mais do que o confortável.

Foi Mike quem cortou.

— Eles deixaram a criatura ser capturada de propósito. Ela transmitiu a localização antes de sumir. E agora estão esperando que a gente vá até o laboratório.

— É armadilha — disse Sérgio.

— É armadilha — concordou Mike.

— Mas a gente vai assim mesmo — disse Maria.

Não havia hesitação na voz. Havia a objetividade de quem já calculou as alternativas e chegou à única que faz sentido.

— Os cadernos do meu pai estão lá. Os equipamentos estão lá. E se o sistema de contenção ainda funcionar... temos uma carta na manga que eles não esperam que a gente tenha. — Ela olhou para Mike. — A armadilha é real. Mas o que está naquele laboratório também é.

Mike ficou olhando para ela por um momento.

Depois virou para os outros.

— Então planejamos. Não chegamos lá sem saber o que vamos encontrar.

Marcos abriu a boca.

Mike antecipou.

— Vocês ficam.

Marcos fechou a boca.

Apolo pousou as chaves do furgão na mesa. Lá fora, a manhã de sábado seguia sem saber de nada — o sol batendo no asfalto de Santa Rosa, a cidade no ritmo de quem não tem urgência.

Dentro do bunker, eles sabiam que alguém do outro lado também sabia onde estavam. E que estava esperando.

A questão não era se iam. Era como iam chegar lá antes de o outro lado decidir que esperar não valia mais a pena.

domingo, 7 de junho de 2026

Capítulo 20: Todos para a Floresta.

            Protocolo Vértice - Conspiração Extradimensional 
                                 Arco - 2 O Despertar do Vazio 


Capítulo 20: Todos para a Floresta

A última solda esfriou perto das nove da noite.

Apolo encostou o ferro na bancada, limpou as mãos no pano e olhou para o emissor UV-C que havia passado horas montando. Funcionava. Testado duas vezes, confirmado nas duas. Ao lado dele, o segundo emissor — idêntico, construído com as peças que havia trazido na caixa grande da tarde.

Mike estava encostado na parede com a long neck quase no fim, observando tudo com aquela expressão que não era aprovação nem reprovação — era avaliação permanente.

Maria fechou o computador pela segunda vez naquele dia e espreguiçou os braços acima da cabeça sem cerimônia.

— Então — disse ela. — Temos os emissores.

— Temos os emissores — confirmou Apolo.

Silêncio satisfeito por alguns segundos.

Foi Marcos quem quebrou.

— Eu tenho uma ideia.

Ninguém respondeu de imediato. O histórico de ideias do Marcos era variado o suficiente pra gerar aquela fração de segundo de hesitação coletiva.

— Pode falar — disse Apolo, com a paciência de quem está acostumado.

Marcos se levantou do chão onde estava sentado e foi até a bancada.

— Frequência. — Ele disse a palavra como se ela resolvesse tudo sozinha. — Se essas criaturas vêm de outra dimensão, elas respondem a estímulos que a gente não consegue ver. Mas frequência... frequência atravessa tudo. É física básica.

— Marcos — disse Sérgio, com o tom de irmão mais velho que sabe quando parar.

— Deixa eu terminar. — Marcos não desacelerou. — Tem faixas de frequência que simulam presença humana. Entre 4 e 8 Hz. Baixíssimas. Se a gente emitir isso, atrai. E tem frequências mais altas que desestabilizam estrutura molecular — especialmente em matéria instável. Como elas.

O silêncio que se seguiu era diferente do anterior.

Jonathan, que havia ficado quieto o tempo todo, olhou para o irmão com algo entre orgulho e alívio — como quem esperava que alguém finalmente dissesse em voz alta o que os dois já discutiam há tempo.

— Todos os nossos projetos de ciências nos últimos dois anos são sobre frequência — disse Jonathan, a voz mais firme que o normal. — Todos.

— Por causa de quem? — perguntou Maria, genuinamente curiosa.

Os dois irmãos trocaram um olhar rápido.

— De uma pessoa — disse Marcos. — Não vem ao caso agora.

Havia algo no tom que fechava aquela porta sem explicação. Ninguém insistiu.

Mike olhou para os dois por um momento. Depois olhou para a long neck vazia na sua mão, colocou ela na bancada e cruzou os braços.

— E você sabe construir isso? — perguntou, direto pra Marcos. — Não teorizar. Construir.

Marcos abriu a boca.

— Eu ajudo — disse Jonathan, antes que o irmão respondesse. — A gente constrói.

Havia algo diferente na voz de Jonathan. Não era a animação do Marcos — era algo mais quieto e mais firme. A chateação de quem está acostumado a não ser levado a sério e decidiu que dessa vez ia provar sem pedir licença.

Mike olhou para ele por um segundo. Não disse nada. Só afastou levemente da bancada pra dar espaço.

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A próxima hora e meia foi barulhenta, concentrada e cheirando a componentes eletrônicos.

Marcos e Jonathan vasculharam as prateleiras do bunker com a determinação de quem sabe o que está procurando — um gravador antigo que Apolo guardava sem razão aparente, um amplificador portátil de som, cabos, um pequeno alto-falante desmontado, uma placa de circuito que havia sobrado da construção dos emissores. Juntaram tudo na mesa e começaram.

Do outro lado da bancada, Apolo e Sérgio trabalhavam na armadilha magnética multipolar — uma estrutura de contenção portátil que Sérgio havia esboçado em papel durante a tarde enquanto fingia prestar atenção em outra coisa. A ideia era simples na teoria: um campo eletromagnético suficientemente concentrado pra imobilizar uma estrutura instável como a das criaturas, compacto o suficiente pra ser carregado até a mata e depois trazido de volta ao bunker como câmara selada.

— Vai segurar? — perguntou Apolo, enquanto ajustava os polos.

— Não sei — respondeu Sérgio, com a honestidade direta de quem prefere não prometer o que não pode garantir. — Mas a lógica está certa.

Mike observava tudo do seu canto. Sem ajudar, sem atrapalhar. Só vendo.

Maria havia reaberto o computador pela terceira vez — desta vez não pra hackear nada, mas pra cruzar os dados que já tinha com a teoria das frequências de Marcos. Quanto mais lia, menos descartava.

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Foi perto das dez e meia que o comunicador chiou.

Não era nenhum deles.

Sérgio foi o primeiro a reagir — ajustou a frequência por instinto, e a voz veio mais clara. Fria. Organizada. Dando instruções a alguém que não respondeu em nenhum momento que eles puderam ouvir.

Era Larkin.

*— Setor confirmado. A expansão está dentro do esperado. Mantenham o perímetro Norte fechado até a nova ordem. Qualquer interferência externa deve ser contida. Não eliminada. Contida.*

Uma pausa.

*— Eles ainda não entendem o que estão vendo. Isso trabalha a nosso favor.*

O comunicador chiou de volta ao silêncio.

Ninguém no bunker falou por alguns segundos.

— "Eles" — repetiu Jonathan, baixinho.

— A gente — disse Marcos, com uma seriedade que não combinava com a forma que ele normalmente falava.

Mike tirou os olhos do comunicador e olhou para Apolo.

Apolo assentiu uma vez, devagar — o gesto de quem compreende sem precisar traduzir.

— Então a janela é agora — disse Mike. — Antes que fechem o perímetro.

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As armas ficaram prontas quarenta minutos depois.

A arma de frequência era feia. Um gravador antigo com o mecanismo interno reconfigurado, conectado ao amplificador portátil por dois cabos coloridos diferentes que Marcos havia identificado com pedaços de fita isolante. O alto-falante ficou preso à estrutura com abraçadeiras. Parecia exatamente o que era — algo construído às pressas por dois adolescentes num bunker.

Mas quando Marcos testou a faixa de 4 Hz, o ar ao redor vibrou de um jeito que todos sentiram antes de ouvir.

Mike ficou olhando para o dispositivo por um momento.

Não disse nada.

A armadilha magnética multipolar era mais sólida — Apolo e Sérgio haviam conseguido montar uma estrutura de metal que fechava em torno de um ponto central, com os polos distribuídos pra criar um campo uniforme quando ativada. Cabia numa mochila grande. Funcionava com bateria de carro portátil que Apolo havia guardado havia anos sem saber por quê.

Maria testou a lanterna UV-C improvisada pela última vez. A luz branco-azulada cortou o ar do bunker e todos desviaram os olhos instintivamente.

— Funciona — disse ela. Não era comemoração. Era confirmação.

Mike olhou para os três dispositivos alinhados na bancada. Depois olhou para os três garotos.

— Vocês não vêm.

Marcos abriu a boca.

— Marcos. — Só o nome. No mesmo tom de sempre.

Marcos fechou a boca.

Jonathan não disse nada. Mas havia algo nos olhos dele — não raiva, não resignação. Era outra coisa. A consciência de que o que os dois haviam construído estava prestes a ir pra campo, e isso era suficiente.

— Ficam nos comunicadores — disse Apolo. — Qualquer coisa que a gente precisar, vocês estão na linha. Entendido?

— Entendido — disse Sérgio.

Os outros dois assentiam.

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Apolo levou os três no carro pelas ruas escuras de Santa Rosa. Pouco antes de meia-noite, parou na frente da casa de Marcos e Jonathan primeiro. Os dois desceram sem muito barulho — a cidade estava quieta, as janelas apagadas.

Marcos parou na calçada e olhou pro carro antes de entrar.

— Não estraguem a arma — disse ele.

Apolo riu baixinho.

— Vai dormir, Marcos.

Na casa do Sérgio — que era a mesma casa do Apolo — o irmão mais novo desceu, já com o comunicador na mão.

— Estarei na escuta — disse ele, com uma voz que tinha mais de vinte anos do que os dezessete que tinha.

Apolo não respondeu. Pousou a mão no ombro dele por um segundo. Depois foi embora.

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O carro parou na beirada da mata quinze minutos depois.

Mike já estava fora antes do motor apagar, a arma de frequência a tiracolo, a armadilha magnética multipolar na mochila nas costas. Apolo saiu logo depois. Maria foi por último, a lanterna UV-C improvisada na mão, os olhos já se ajustando ao escuro entre as árvores.

O comunicador de Apolo chiou suavemente.

— Três na escuta — disse a voz de Sérgio, de casa. Quieta. Pronta.

— Recebido — respondeu Apolo. — Silêncio de rádio a partir de agora. Só se a gente chamar.

— Entendido.

Os três entraram na mata.

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A floresta de Santa Rosa à meia-noite tinha um silêncio que não era ausência de som — era presença de outra coisa. As árvores absorviam o ruído, o chão úmido abafava os passos, e o ar tinha aquele peso que Mike havia sentido pela primeira vez no túnel do laboratório.

Ele caminhou na frente. Maria no centro. Apolo fechando.

Avançaram por uns trezentos metros sem nada. Só o farfalhar das folhas e a respiração de três pessoas que sabiam o que estavam procurando e preferiam não encontrar rápido demais.

Foi Mike quem fez o sinal — punho fechado, parada imediata.

Todos congelaram.

No ar à frente, uma vibração. Não visual. Sensorial. O tipo de coisa que os pelos do braço registram antes dos olhos.

Mike ativou a arma de frequência no nível mais baixo — 4 Hz. O dispositivo feio e improvisado dos dois irmãos vibrou na sua mão, e o ar ao redor respondeu com aquela mesma presença que haviam sentido no teste do bunker.

Apolo ficou à esquerda. Maria ficou—

O portal abriu atrás dela.

Não havia aviso. Não havia som. Uma fenda azul e pulsante se abriu a menos de um metro das costas de Maria, e a criatura começou a emergir dela — baixa, curvada, os olhos vermelhos já fixos.

Mike se moveu antes de qualquer pensamento.

Três passos e ele estava entre Maria e a criatura, a arma de frequência apontada, o corpo como barreira. Maria recuou um passo — não de covardia, mas de ajuste de posição — e levantou a lanterna UV-C com a precisão de quem calculou o ângulo antes de ter medo.

A criatura oscilou.

Mike aumentou para a faixa alta na arma de frequência. O dispositivo gritou num tom que não era exatamente audível mas que se sentia nos dentes, nos olhos, na base da nuca.

A criatura gritou de volta — aquele som que não era dor mas era outra coisa, mais funda, mais antiga.

Apolo ativou a armadilha magnética multipolar e jogou a estrutura à frente, no espaço entre todos eles. Os polos se abriram, o campo se instalou no ar com um zumbido baixo e constante.

— Agora! — disse Mike.

Maria disparou a lanterna UV-C em cheio.

A luz branco-azulada envolveu a criatura. Ela se contorceu, os contornos tremularam, e então — como se algo essencial tivesse cedido — ela colapsou para dentro do campo magnético, imobilizada, os olhos vermelhos piscando de forma irregular.

Apolo fechou a armadilha.

O campo selou.

O silêncio voltou para a floresta.

Os três ficaram parados por alguns segundos, respirando.

Mike olhou para a arma de frequência na sua mão. Para o dispositivo remendado com fita isolante e abraçadeiras que dois irmãos haviam construído num bunker em menos de duas horas.

Não disse nada.

Mas guardou o dispositivo com um cuidado que não havia usado quando pegou.

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De volta ao bunker, colocaram a armadilha magnética multipolar — agora câmara selada — sobre a bancada central. A criatura dentro pulsava de forma irregular, os contornos escurecendo progressivamente.

Apolo acionou o comunicador.

— Missão concluída. Todos bem.

A linha explodiu.

— *Sério?!* — a voz de Marcos veio alta demais pra meia-noite.

— Conseguiram?! — Jonathan, mais contido mas igualmente desperto.

— *Funcionou?* — Sérgio, já mais técnico. — *A armadilha segurou?*

— Segurou — disse Apolo. — A arma de frequência também.

Uma pausa do outro lado.

Depois, a voz de Jonathan — quieta, direta:

— *E funcionou mesmo. Não foi sorte.*

— Não foi sorte — confirmou Apolo.

Mike estava de costas para o comunicador, olhando para a criatura na câmara selada. Mas Apolo o viu levantar levemente o queixo — o gesto mínimo de quem reconhece algo sem estar pronto pra dizer em voz alta.

Era suficiente.

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A celebração foi curta e honesta — o tipo que acontece entre pessoas cansadas que sabem que o trabalho não acabou. Maria abriu uma das long necks que sobraram, tomou um gole e passou pra Apolo. Mike não pegou. Ficou olhando para a câmara selada com a atenção de quem está calculando quanto tempo têm.

— Está se desfazendo — disse Maria, já de volta ao computador, os olhos nos dados que a câmara transmitia. — A estrutura molecular está colapsando. A combinação do UV-C com a frequência alta acelerou o processo. Em poucas horas não vai sobrar nada.

— Então precisamos estabilizar — disse Mike.

— Sim. — Maria ficou em silêncio por um momento. Depois, como quem lembra de algo que estava guardado fundo: — Meu pai tinha um laboratório. Antigo, numa propriedade da família aqui em Santa Rosa. Equipamentos que ele desenvolveu antes de mim, antes de tudo isso. Alguns deles eram voltados especificamente pra preservação de matéria instável. — Ela olhou para a câmara. — Se ainda estiverem lá... talvez a gente consiga segurar ela tempo suficiente pra estudar.

Apolo olhou para Mike.

Mike olhou para a câmara.

— Quanto tempo a gente tem?

Maria analisou os dados por mais alguns segundos. Depois afastou levemente o computador.

— Não sabemos quanto tempo exato. A câmara está segurando, mas a taxa de colapso é irregular. Pode ser horas. Pode ser mais.
Mike ficou olhando para a câmara selada por um momento. Depois virou.

— Então a gente descansa. Amanhã é sábado. Com os garotos aqui e a cabeça no lugar, a gente consegue avançar.

Apolo assentiu devagar, encostando na bancada com o peso de quem já estava operando no limite faz tempo.
— Vamos descansar. — Fez uma pausa curta. — Ou pelo menos tentar.

O bunker ficou em silêncio.
A câmara selada pulsava baixinho no canto — a criatura dentro, imóvel, os contornos ainda tremulando numa frequência que nenhum dos três conseguia ignorar completamente.

Mas era o que tinham. E por essa noite, era suficiente.

Capítulo 19: Preparativos para o Primeiro.

 
                                        Capítulo 19: Preparativos para o Primeiro.
Contato Direto.

Mike acordou antes do sol. Não era hábito, era formação. O corpo dele não sabia dormir até tarde, independente do que tivesse acontecido na véspera.

Ficou alguns segundos deitado, olhando para o teto baixo do bunker, organizando o que era real e o que poderia ter sido sonho. Não era sonho. Os tiros atravessando aquela coisa sem deixar marca. As fendas pulsando no ar como feridas abertas na realidade. Tudo muito real.

Levantou.

Dobrou o cobertor, arrumou o espaço com a precisão automática de quem fez isso em acampamentos, quartéis e lugares piores do que um bunker no interior do Rio Grande do Sul. Foi até o banheiro, abriu o chuveiro e ficou embaixo da água fria por mais tempo do que precisava — não por conforto, mas porque era o único momento em que o cérebro podia processar sem precisar agir.

Quando saiu, foi até a cadeira onde havia deixado as roupas do Apolo na noite anterior. A farda estava dobrada sobre o encosto, mas ele não a vestiu. Pegou a calça cargo escura e a camiseta cinza que Apolo havia separado.

A calça serviu. A camiseta não.

Não era culpa do Apolo — os dois tinham a mesma altura, o mesmo quadro. O problema era que Mike carregava no tronco uns quinze anos de treinamento que Apolo havia trocado por uma sala de aula. O tecido esticou nos ombros, fechou no peito, e ele puxou a gola uma vez antes de desistir de ajustar.

Seguiu para a cozinha improvisada no canto do bunker. Estava sozinho. O único som era o zumbido baixo do gerador e o ruído da cafeteira esquentando.

Estava enchendo a segunda xícara quando ouviu passos.

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Maria entrou com o cabelo ainda úmido, preso de qualquer jeito, e o computador embaixo do braço. Não disse nada. Foi direto para a mesa, abriu o computador, e colocou uma xícara vazia ao lado — com a naturalidade de quem não está pedindo, só indicando.

Mike olhou para a xícara. Olhou para ela.

Ela já estava digitando.

Ele pegou a cafeteira e encheu a xícara dela sem comentar. Depois foi sentar do outro lado da mesa, as mãos em volta da própria xícara, os olhos percorrendo o bunker com o instinto de quem avalia ambiente mesmo sem precisar.

Alguns minutos se passaram em silêncio.

— Obrigada — disse ela, sem tirar os olhos da tela.

Ele assentiu.

Maria voltou para o computador. Mas não digitou nada por um momento.

— As roupas do Apolo ficaram... — ela começou, e então parou, como se tivesse decidido não terminar a frase.

Mike olhou para ela.

— Ficaram o quê?

— Nada. — Ela levantou o café até os lábios, e havia algo no canto da boca dela que não era exatamente um sorriso, mas chegava perto.

Mike olhou para a camiseta esticada no próprio peito, depois voltou para ela.

— Fala.

— É que ficou um pouco... — ela virou levemente a tela do computador, fingindo ajustar o ângulo. — Pequena.

— Apolo é mais magro.

— Não é magro, é normal.

— Eu também sou normal.

Dessa vez ela não escondeu. Riu — rápido, baixo, o tipo de riso que escapa antes da pessoa decidir se vai deixar sair. Ela cobriu com a xícara imediatamente.

Mike ficou olhando para ela por um segundo. Depois tomou o café.

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A manhã foi passando com aquela lentidão específica de quando duas pessoas dividem um espaço fechado e ainda estão aprendendo os limites uma da outra.

Maria trabalhava. Mike revirava prateleiras, catalogava o que havia disponível, anotava em papel — não confiava em dispositivo nenhum dentro daquelas paredes desde que soubera da CIA.

Em algum momento ela falou sem tirar os olhos da tela:

— Você sempre foi militar?

— Sempre.

— Desde quando?

— Dezoito anos.

Ela processou isso.

— Então você nunca teve um plano B.

— Não precisei.

— Isso não te assusta?

Mike pousou o que tinha na mão e olhou para ela.

— O que deveria me assustar nisso?

— Depender de uma coisa só. — Ela ainda não havia olhado para ele. — Se um dia essa coisa desaparecer, você não tem mais nada pra se segurar.

O silêncio durou mais do que o habitual.

— E você? — disse ele. — Herdou um laboratório, construiu uma carreira em cima dele, e agora ele tá nas mãos de quem quer te ver presa ou morta. Qual dos dois tá mais exposto?

Maria parou de digitar.

Ficou assim por alguns segundos. Depois retomou, mais devagar.

— Ponto — disse ela, baixinho.

Mike voltou para as prateleiras. Mas o silêncio que ficou era diferente do anterior — menos estranho. Mais habitado.

---

Perto do meio-dia, Maria fechou o computador pela primeira vez desde de manhã.

— Preciso comer alguma coisa.

Mike já estava na geladeira. Tinha pouco — pão de forma, queijo fatiado, duas latinhas de refrigerante que provavelmente eram do Apolo. Ele montou dois sanduíches sem perguntar preferências e colocou um na frente dela.

Ela olhou para o prato.

— Você faz isso sempre? Agir antes de perguntar?

— É mais rápido.

— E se eu não comesse queijo?

— Você come.

Ela abriu a boca, fechou. Pegou o sanduíche.

— Tá bom.

Comeram em silêncio. Lá fora — se é que existia um lá fora dentro do bunker — o dia seguia sem que eles soubessem direito como estava o tempo, que horas eram de verdade, se o mundo além daquelas paredes ainda funcionava da forma que sempre funcionou.

Mike ficou olhando para o nada por um instante.

— Você acredita que tem solução pra isso? — perguntou ele. Não havia dúvida genuína na voz. Era o tipo de pergunta que um general faz quando quer calibrar quem está do seu lado.

Maria terminou de mastigar antes de responder.

— Acredito que tem. Mas não tenho certeza se a gente vai encontrar a tempo.

— Essa diferença importa?

— Pra mim importa. — Ela o olhou de frente pela primeira vez naquela manhã, sem desviar. — Eu prefiro trabalhar com o que é real do que com o que eu gostaria que fosse verdade.

Mike ficou com ela por um momento — o olhar que avalia, que mede.

— Eu também — disse ele.

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Foi por volta do meio da tarde que o comunicador na mesa vibrou.

A voz de Apolo chegou pelo aparelho antes mesmo de Mike atender.

— Buscando o pessoal agora. Chego em uns trinta minutos.

Mike apertou o botão.

— Entendido.

Pousou o aparelho e olhou para Maria, que já havia reaberto o computador.

— Vai ficar mais cheio aqui.

— Eu sei. — Ela não levantou os olhos. — Já me preparei pra isso.

Havia algo na forma como ela disse — simples, direta, sem drama — que Mike arquivou em algum lugar que ele não estava pronto para examinar ainda.

Levantou, ajeitou a camiseta apertada uma última vez, e foi preparar o espaço para o que estava por vir.

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Apolo parou o carro na clareira pouco depois das três da tarde. Os três garotos desceram antes mesmo do motor apagar — Sérgio na frente, Jonathan logo atrás, Marcos por último, com a mochila nas costas e o olhar de quem dormiu mal e não ia admitir isso pra ninguém.

— Como foi? — Apolo perguntou, andando ao lado deles em direção à entrada.

— A aula — respondeu Marcos — ou a noite?

— As duas.

— A aula foi normal. A noite foi péssima.

Apolo abriu a entrada do bunker. O mecanismo se moveu, a rampa desceu, e os quatro entraram.

Dentro, Mike estava de pé ao lado da bancada. Maria no computador. As ferramentas já organizadas. O ambiente havia mudado desde a madrugada — havia um propósito tomando forma no espaço, visível mesmo antes de qualquer explicação.

Sérgio olhou em volta, depois para Apolo.

— O que a gente vai fazer?

Foi Maria quem respondeu, sem tirar os olhos da tela:

— Vamos confirmar o que eu suspeito. E depois vamos construir algo que funcione contra elas.

— O UV-C? — disse Sérgio.

Maria parou de digitar. Olhou para ele com uma atenção diferente.

— Como você sabe disso?

— Física quântica. — Ele jogou a mochila no chão e puxou uma cadeira. — Apolo é meu irmão. Eu ouço mais do que ele acha.

Apolo passou a mão no rosto, entre o orgulho e o exaspero.

Mike observou a cena do canto. Não disse nada. Mas havia algo nos olhos dele que, por uma fração de segundo, parecia menos fechado do que de manhã.

— Então — disse Maria, voltando para a tela com um meio sorriso. — Vamos trabalhar.

---

E foi o que aconteceu.

O bunker mudou de tom em questão de minutos. Apolo foi direto para a bancada, onde já havia separado desde cedo uma lâmpada de néon antiga, um transformador e um emaranhado de fios que, nas mãos certas, poderia se tornar algo útil. Nas mãos do Apolo — que havia passado anos ensinando física antes de qualquer coisa — eram as mãos certas.

— Posso montar um emissor UV com isso aqui — disse ele, já conectando os primeiros fios com uma concentração que deixava claro que havia passado parte da noite pensando nisso. — Vai levar algumas horas pra testar. Mas funciona.

Maria havia reaberto o computador com uma determinação diferente da manhã — mais focada, mais rápida. Os dedos se moviam com urgência.

— Vou tentar acessar o sistema do laboratório de novo. Se eu conseguir puxar mais dados sobre as criaturas, a gente para de trabalhar no escuro.

Mike ficou de pé no centro do bunker por um momento, avaliando o espaço, as pessoas, os recursos. Depois foi para as prateleiras e começou a separar o que havia — lanternas, fios reserva, baterias, uma caixa de ferramentas que Apolo guardava com o cuidado de quem sabe que um dia vai precisar.

Foi Marcos quem quebrou o ritmo.

Ele havia puxado uma mochila do canto e estava enchendo com gaze, água e uma lanterna, com a eficiência de quem havia decidido isso antes mesmo de chegar.

— A gente vai junto — disse ele. Não era pergunta.

— Não vão — respondeu Mike, sem parar o que estava fazendo.

— A gente pode ajudar. — Marcos cruzou os braços, a voz firme pra alguém de quinze anos. — Se piorar, a gente recua pro bunker.

Jonathan assentiu ao lado dele. Sérgio ficou quieto, mas o silêncio dele era o tipo que concorda.

Mike largou o que tinha na mão e se virou para os três com uma calma que era mais pesada do que qualquer tom elevado.

— Vocês já ajudaram. Vocês estão ajudando agora. — Ele apontou para as mochilas. — Continuem montando isso. Água, gaze, lanternas, baterias reserva. Se a gente precisar de suporte daqui, vai precisar que alguém saiba onde cada coisa está.

Marcos abriu a boca.

— Mas—

— Marcos. — A voz de Mike não subiu. Ficou exatamente no mesmo tom. E foi exatamente isso que fechou o assunto.

Apolo olhou para o sobrinho — porque era assim que tratava Marcos, mesmo sem o sangue — e deu um leve aceno de cabeça que dizia *deixa pra lá*. Marcos soltou o ar pelo nariz e voltou para a mochila.

---

Foi por volta das quatro da tarde que Apolo levantou da bancada, limpou as mãos num pano e disse que ia buscar o restante do carro.

Voltou minutos depois com duas caixas. Uma grande, uma menor.

A grande tinha suprimentos — mais gaze, esparadrapo, fios específicos que ele havia parado numa loja no caminho de volta da escola, duas lanternas UV compactas que encontrou num brechó de equipamentos técnicos e que Deus sabia como estavam ali.

A menor ele colocou sobre a mesa com um certo cuidado casual — o tipo de cuidado que tenta não chamar atenção.

Mike olhou para a caixa. Depois para Apolo.

— O que é isso?

— Mantimento — disse Apolo.

— Que tipo de mantimento?

Apolo abriu a aba da caixa. Dentro, dois fardinhos de cerveja long neck, pequenas, geladas ainda da bolsa térmica que havia colocado no banco de trás do carro.

Mike ficou olhando por um segundo.

— Você passou num mercado.

— Passei num mercado.

— No meio de tudo isso, você passou num mercado e comprou cerveja.

— Comprei mantimento — corrigiu Apolo. — A cerveja foi por conta.

Mike pegou uma das long necks, olhou para ela, e abriu sem mais comentários.

Apolo abriu a dele com o mesmo silêncio satisfeito de quem sabia que havia tomado a decisão certa.

Maria observou os dois, depois voltou para a tela com um meio sorriso que não explicou.

Os garotos trocaram olhares. Marcos estava claramente pesando se valia a pena pedir uma. Decidiu que não valia.

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A tarde afundou no trabalho.

Apolo soldava. Mike organizava. Os garotos montavam e remontavam as mochilas até tudo estar no lugar certo. Maria não saiu do computador.

Foi quando ela parou.

Completamente. Os dedos suspensos sobre o teclado, os olhos fixos na tela.

— Consegui.

Não havia euforia na voz. Havia o peso de quem acabou de ler algo que confirma o pior e o melhor ao mesmo tempo.

— O sistema do laboratório ainda tem registros dos primeiros testes. Dados de composição atmosférica das criaturas, padrões de resposta a estímulos externos. — Ela virou o computador lentamente para que todos pudessem ver. — UV-C não só afeta. Desestabiliza a estrutura delas em nível celular. É muito mais do que eu esperava.

O bunker ficou em silêncio.

Apolo pousou o ferro de solda.

Mike tomou um gole da cerveja devagar, olhando para a tela.

— Quanto tempo pra montar os emissores? — perguntou ele.

— Com o que eu trouxe hoje — disse Apolo, olhando para as peças na bancada — umas três horas. Talvez menos.

Mike assentiu. Pousou a long neck.

— Então vamos terminar isso hoje.

Ninguém discutiu.

Lá fora, a noite começava a fechar. E dentro do bunker, pela primeira vez desde que tudo havia começado, havia algo que se parecia perigosamente com um plano real.

Capítulo 18: A Volta ao Bunker

                                                       Capítulo 18: A Volta ao Bunker
 Criando Estratégias

O carro entrou na clareira com os faróis apagados. Apolo desligou o motor e os três ficaram parados por alguns segundos, ouvindo o silêncio da mata como se precisassem ter certeza de que estavam sozinhos.

Desceram sem falar. A porta pesada do bunker se fechou atrás deles com um som abafado, definitivo. Apolo girou o trinco e encostou as costas na parede por um instante, olhos fechados.

Mike foi direto para a mesa. Pegou o comunicador e ajustou o canal.

— Sérgio, Marcos, Jonathan. Três na escuta. Confirmem.

Estática. Depois, um por um:

— Sérgio. Positivo.

— Marcos. Positivo.

— Jonathan. Positivo.

— Executamos o plano esta noite.

Silêncio absoluto nos três canais.

Era o tipo de silêncio que dizia mais do que qualquer reação. Ninguém esperava que fosse acontecer naquele momento — nenhum aviso, nenhuma confirmação prévia. Só havia a conversa de que precisava ser feito. E agora estava feito.

Apolo estendeu a mão naturalmente, como quem assume o lugar que é o seu. Mike entregou o comunicador sem resistência — por ora.

— Galera. — A voz de Apolo chegou mais quente, mais próxima. O tom que ele usava quando precisava que alguém de fato ouvisse. — A gente entrou no laboratório. Conseguimos acesso pelo túnel. O que encontramos lá dentro... olha, eu vou ser honesto com vocês porque vocês merecem saber. As fendas se multiplicaram dentro do complexo, tem presença militar pesada no perímetro, e houve um contato direto com algo que não deveria estar na nossa dimensão. Uma criatura. E ela—

Mike tomou o comunicador.

— Isso basta. — A voz saiu seca, sem espaço pra negociação. — O que vocês precisam saber é o seguinte: portas trancadas, luzes acesas, comunicador ligado. Qualquer coisa fora do padrão, qualquer coisa que não pareça certa — acionam imediatamente. Sem avaliar, sem tentar resolver. Entendido?

Uma pausa.

— Entendido. — Sérgio.

— Entendido. — Jonathan.

— ...Entendido. — Marcos.

Mike desligou.

O silêncio que ficou dentro do bunker era diferente do de fora.

Apolo ficou olhando para o comunicador na mão de Mike por um segundo. Depois olhou para ele.

— Eles precisavam saber mais do que isso.

— Não precisavam.

— Mike. — A voz de Apolo não tinha raiva. Tinha peso. — Foram eles que me trouxeram até aqui. Foram eles que viram o laboratório primeiro, que me chamaram, que começaram tudo isso. Eles já estão dentro. Muito antes de você e eu termos pisado naquele túnel.

Mike não respondeu imediatamente.

Olhou para Apolo por um momento — o tipo de olhar que avalia, que mede, que reconhece sem ceder completamente.

— Então a gente garante que é o único buraco em que eles vão estar. — Pousou o comunicador na mesa. — Mais do que isso eles não precisam carregar agora.

Apolo não concordou. Mas não insistiu.

Conhecia Mike de longa data. Sabia quando aquela muralha tinha porta e quando não tinha.

---

O bunker estava quieto. Maria havia se sentado com um copo d'água nas mãos, os olhos no chão, o pensamento claramente em outro lugar. Apolo puxou uma cadeira. Mike ficou de pé, apoiado na mesa, os braços cruzados.

Ficou assim por alguns segundos antes de falar.

— Três tiros. Centro de massa. — A voz saiu diferente do habitual — não havia relatório naquele tom, havia algo próximo do desconcerto, o que em Mike era quase impossível de ver. — Os projéteis atravessaram. Não houve sangue. Não houve ferimento. A criatura... reagiu. Mas não foi dor. — Ele pausou, como se ainda estivesse tentando encaixar o que os olhos haviam visto numa categoria que a mente conseguisse processar. — Eu não sei como chamar o que foi. Só sei que não existe nada no que eu já enfrentei que se comporte assim.

O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores. Mais fundo.

— Porque ela não é daqui — disse Maria, sem levantar os olhos. — Nenhuma delas é.

Apolo olhou para ela.

— Você está pensando em algo desde o carro. Pode falar.

Maria levantou a cabeça e pousou o copo.

— A imunidade aos tiros, o cheiro, as microfendas se formando dentro do complexo... tudo aponta pra mesma direção. Elas não chegaram completamente. Estão chegando. O organismo delas ainda está em processo de estabilização — na nossa atmosfera, na nossa física, na nossa realidade. As regras que valem aqui ainda não valem completamente pra elas. E talvez seja exatamente por isso que os projéteis não causaram o que deveriam causar.

— E se isso mudar? — perguntou Apolo. — Se elas terminarem de se estabilizar?

Maria não respondeu de imediato.

— Então as regras mudam junto. — Ela disse com a objetividade de quem prefere a verdade ao conforto. — Por isso precisamos agir antes disso acontecer.

— Como? — disse Mike.

— Luz ultravioleta. UV-C especificamente. — Maria falou devagar, construindo o raciocínio em voz alta enquanto tomava forma. — Nossa atmosfera filtra naturalmente boa parte desse espectro. Se elas vêm de um lugar com composição diferente, com outro tipo de radiação dominante, uma exposição concentrada de UV-C pode ser exatamente o que o organismo delas não consegue processar nesse estágio. Pode desestabilizar a estrutura delas antes que terminem de se fixar aqui.

Silêncio.

Apolo olhou para Mike. Mike olhou para Maria.

— É só teoria — disse ela, antecipando a pergunta. — Mas é o que temos.

— Então é com isso que trabalhamos — disse Mike. — O que você precisa pra montar algo?

— Peças. Tempo. — Ela olhou em volta do bunker com os olhos de quem já estava calculando o espaço. — Aqui dá.

Apolo assentiu devagar.

— Então amanhã começa.

Mike apagou a luz principal, deixando só a secundária acesa. O bunker afundou numa meia-luz alaranjada, e os três ficaram quietos por um momento — cada um carregando o peso do que havia visto, e a clareza incômoda do que ainda estava por vir.

Lá fora, a mata estava em silêncio.

Mas ninguém ali acreditava mais que esse silêncio significava segurança.

Capítulo 17: A Verdade sobre a Fenda


Capítulo 17: A Verdade sobre a Fenda

A porta do bunker se abriu e Apolo entrou trazendo o cheiro da noite com ele. Mike e Maria levantaram ao mesmo tempo.

— Está tudo certo — disse Apolo, respirando fundo enquanto fechava a porta. — Os garotos estão seguros. Em casa.

Mike já estava de pé, os olhos alertas.

— Então vamos. Precisamos saber o que está acontecendo lá dentro.

Ninguém discutiu. Maria se levantou, Apolo pegou as chaves, e os três saíram para a escuridão sem precisar de mais palavras. A tensão entre eles era densa, mas compartilhada — o tipo de silêncio que une mais do que separa.

Apolo parou o carro antes da curva final, longe o suficiente para não ser visto. Subiram a pé até o alto da colina que dava visão direta ao complexo.

O que encontraram fez os três ficarem imóveis.

O laboratório havia sido transformado. Onde antes havia apenas a estrutura herdada pela família de Maria, agora havia caminhões militares estacionados no perímetro, geradores portáteis, cabos grossos saindo pelas janelas, e equipes fardadas movendo equipamentos pesados com uma urgência que dispensava explicação — aquilo não era operação de rotina.

— Eles estão ampliando a capacidade da fenda — murmurou Maria, a voz baixa e tensa. — Isso é muito ruim.

Apolo tentou contar os homens lá embaixo. Antes que terminasse, um zumbido cortou o ar acima deles.

Um drone surgiu da direção do laboratório, varrendo a encosta com a câmera estabilizada, captando qualquer movimento na vegetação.

Mike não hesitou. Levantou, ajustou por uma fração de segundo e atirou. O drone caiu girando entre os arbustos, a câmera estilhaçada no impacto.

— O que você fez? — Apolo se abaixou instintivamente. — Eles vão saber que estamos aqui!

— Já suspeitavam que alguém estava — respondeu Mike, descendo até o aparelho com passos rápidos. Examinou os destroços. — Mas não viram nenhum rosto. Ainda temos uma janela.

Lá embaixo, o movimento mudou. Figuras fardadas começaram a se espalhar pelo perímetro externo com lanternas e rádios, varrendo a mata em formação. Os três recuaram entre as árvores, imóveis, controlando a respiração enquanto os feixes de luz passavam metros abaixo deles.

Esperaram.

Quando a busca deslocou para o lado oposto do terreno, Mike se virou para os dois.

— Precisamos entrar. Agora, enquanto eles estão distraídos.

Maria já estava de pé.

— Eu sei como.

Ela os guiou pela linha de mata que contornava a propriedade, usando cada sombra como cobertura. Chegaram a uma parede lateral do complexo que, do ângulo certo, ficava fora do alcance dos holofotes.

Maria parou diante de uma seção de concreto que parecia idêntica ao resto da estrutura. Passou a mão pela superfície com uma familiaridade antiga.

— Era aqui — disse ela. — A entrada secreta.

Mas a parede estava selada. Uma camada nova de concreto cobria o que antes era um acesso.

Apolo soltou o ar pelos dentes.

— Fecharam.

Maria ficou alguns segundos em silêncio, pensando. Então:

— Eu preciso de um notebook.

— Para quê? — perguntou Mike.

— Para gerar um código de emergência em outro ponto do sistema. Se eu forçar um alerta em outra ala, o acesso aqui fica vulnerável por alguns minutos.

Apolo já tinha o notebook aberto e nas mãos dela antes que ela terminasse a frase. Os dedos se movendo com a precisão de quem havia ajudado a construir aquele sistema do zero. Menos de três minutos depois, uma vibração surda atravessou a parede — e a seção de concreto se deslocou lentamente para o lado, revelando a entrada de um túnel escuro.

O ar que veio de dentro não era frio. Era pesado.

Entraram.

O túnel era estreito, as paredes úmidas, o chão de terra batida abafando cada passo. Apolo empunhou a lanterna à frente. A luz revelava alguns metros de caminho e depois nada — uma escuridão que parecia sólida.

Então o cheiro chegou.

Forte, químico, com algo orgânico misturado que tornava difícil identificar — amônia, ou decomposição, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Apolo cobriu o nariz com o antebraço. Maria fechou os olhos por um segundo, como se o cheiro tivesse despertado algo que ela preferia não recordar.

A lanterna começou a falhar.

Apolo bateu nela com a palma da mão. A luz voltou — e iluminou a criatura.

Estava parada no meio do túnel, a menos de dez metros. Baixa, a postura curvada para frente, a pele escamada refletindo o facho de luz de forma irregular. Os olhos vermelhos não piscavam. Apenas observavam, com uma atenção que não era instintiva — era calculada.

Nenhum dos três respirou.

Mike levantou a arma devagar e disparou três vezes. Os projéteis atravessaram a criatura como se atravessassem névoa — sem resistência, sem ferimento, sem deixar marca. Por um instante ela não se moveu. Depois soltou um som que não era dor — era outra coisa, mais funda, mais antiga — e desapareceu pelo túnel à frente.

— Vamos — disse Mike, avançando pelo túnel na direção em que a criatura havia desaparecido.

Chegaram a uma câmara mais larga, onde o corredor se abria. E ali os três pararam de vez.

No ar, flutuando sem apoio, havia fendas. Não uma — dezenas. Pequenas, irregulares, espalhadas pela câmara como cortes feitos por uma faca invisível na própria realidade. Cada uma exalava aquele cheiro sufocante, e as bordas pulsavam de forma lenta e orgânica — se fechando e abrindo com uma consistência gelatinosa, como se fossem tecido vivo. A substância que escorria pelas bordas era densa, escura, e corroía levemente o concreto onde pousava.

Nenhum dos três conseguiu falar.

Então, atrás deles, o grito da criatura ecoou no túnel. Mais próximo desta vez.

— Corre — disse Mike.

Não precisou repetir.

Eles recuaram pelo túnel em velocidade máxima, os passos dissonantes contra o chão de terra, a lanterna chacoalhando e projetando sombras que pareciam se mover sozinhas. A porta falsa surgiu no final do corredor e Apolo a empurrou com o ombro.

Do lado de fora, os militares estavam concentrados no perímetro oposto, respondendo ao alarme que Maria havia gerado. A janela ainda estava aberta.

Cruzaram o terreno pelo mato, subiram a colina, chegaram ao carro. Apolo girou a chave antes mesmo de fechar a porta.

Ninguém falou durante o primeiro trecho da estrada.

A escuridão passava rápido pelas janelas. O cheiro do túnel ainda estava na roupa de todos.

Foi Apolo quem tentou primeiro, a voz baixa, quase para si mesmo.

— Ela levou três tiros. Três tiros e saiu andando.

Mike ficou em silêncio. Olhou para a estrada à frente.

— E aquelas fendas — continuou Apolo. — No meio do túnel. No ar. Como se o próprio lugar estivesse se abrindo por dentro.

— Não era só o lugar — disse Maria.

Os dois olharam para ela.

— Eram as criaturas. Elas estavam se espalhando ali dentro. — Ela pausou, organizando o pensamento em voz alta. — O cheiro, as microfendas, a resistência aos tiros. Isso não é coincidência.

— Então o que é? — perguntou Apolo.

Maria olhou pela janela por um momento. Quando respondeu, a voz saiu firme — quase clínica, como se a hipótese já tivesse forma antes mesmo de ser dita.

— Elas estão se adaptando à nossa dimensão. — Fez uma pausa curta. — Talvez seja por isso que os tiros não a afetaram — o organismo dela ainda não é totalmente estável aqui. As regras que valem pra nós ainda não valem completamente pra ela.

O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior. Mais pesado. Mais cheio.

Apolo diminuiu levemente a velocidade sem perceber, como se o corpo tivesse processado a informação antes da mente.

— E quando estiverem? — disse ele, quase em voz baixa.

Maria não respondeu.

Não precisava.

Capítulo 16: Reunião no Bunker.


Capítulo 16: Reunião no Bunker.

Mike dirigia com Maria ao seu lado, que mordia o sanduíche devagar, quase sem apetite. De repente, ela largou o pão no colo e começou a se contorcer no banco — gemidos abafados, o corpo se curvando como resposta a uma dor que vinha de dentro sem ter mais nada dentro.

Mike freou o jipe no acostamento, jogando cascalho para o mato.

— Maria! Respira. Olha pra mim. Eu tô aqui.

Segurou os ombros dela com firmeza, a voz firme mas baixa, como quem tenta trazer alguém de volta de um pesadelo acordado. Pegou a garrafa de água do banco traseiro e ajudou ela a beber em pequenos goles.

Aos poucos, o surto foi cedendo. Maria ficou ofegante, suada, os olhos piscando até encontrar o foco.

— Desculpa... — murmurou. — Tô com muito sono. Tô muito cansada.

Mike ajeitou o encosto para ela ficar mais reclinada e ficou alguns segundos olhando para o rosto dela. A imagem ainda estava vívida na sua mente — a sombra desprendendo-se daquele corpo, saindo como fumaça densa, e Maria desabando logo depois. O que ficou nela não era a criatura. Era a marca que ela deixou. E aparentemente, essa marca doía.

*Pra onde ela foi?* Essa pergunta não saía da cabeça dele desde então.

Suspirou. Pegou o celular. Duas e meia da tarde. Acelerou de volta para a estrada.

Na escola, o sinal das aulas tocou pouco antes das seis e meia. Jonathan, Marcos e Sérgio saíram pelos fundos, onde Apolo já esperava com o carro ligado. Josué veio junto, trocando passos rápidos com Marcos.

O celular de Apolo vibrou.

— Acabei de passar a placa de entrada da cidade — disse a voz de Mike. — Chego em uns vinte e cinco minutos. Tudo bem por aí?

— Tudo sim. Tô pegando o pessoal pra receber vocês.

Assim que desligou, Sérgio bateu na mão dele.

— E aí, irmão!

Logo atrás vieram Jonathan e Marcos, esse último com a expressão de quem estava funcionando no limite.

— Cara — resmungou Marcos —, se não tiver comida nesse lugar misterioso, eu vou surtar de verdade.

Os outros riram. Apolo puxou Sérgio levemente pelo braço, baixando a voz.

— O que ele tá fazendo aqui? — disse, com um gesto discreto em direção a Josué.

— Ele tá ciente de tudo — respondeu Sérgio. — Disse que conhece a existência de lugares como aquele que a gente viu. Chama de regiões celestiais.

Apolo ergueu uma sobrancelha.

— Cristão.

Não era uma pergunta. Josué ouviu, e respondeu sem se abalar.

— Sou. Mas pode ficar tranquilo — disse, encarando Apolo de frente. — Eu sei guardar segredo.

— Assim espero — respondeu Apolo, o olhar varrendo os três garotos de uma vez. — Melhor do que certas pessoas aqui.

Ninguém contestou.

— Entrem. Eu explico no caminho.

Antes de ligar o motor, ele os encarou pelo espelho retrovisor.

— Escutem. O que tá acontecendo é sério demais. Vocês vão conhecer duas pessoas agora. Prestem atenção em tudo que elas disserem.

Ligou o carro. Seguiram para o Bunker do Vale Verde.

Por fora, o local parecia um barracão abandonado — madeira velha, mato por todos os lados, quase invisível no meio da mata. Marcos olhou em volta com desconfiança.

— Isso aqui não é mal-assombrado?

Apolo esboçou meio sorriso.

— Só se for mal-assombrado por mim. Esse bunker fica nos terrenos da minha família.

Ele mexeu em um mecanismo escondido entre pedras e vegetação, e um grande pedaço de barranco falso começou a se levantar, revelando uma rampa de acesso descendo para o escuro. Por um momento, ninguém se mexeu.

Desceram.

Por dentro, o contraste era quase surreal. O bunker era amplo, bem iluminado, com salas, beliches, prateleiras de suprimentos e uma sala central com sofás e uma mesa comprida.

— Fiquem à vontade. Vou lá fora esperar as outras duas pessoas.

O jipe parou na clareira pouco depois. Apolo foi ao encontro deles.

Mike desceu primeiro, fardado, e abriu a porta do passageiro com cuidado, ajudando Maria a sair. Ela estava de pé, mas havia algo frágil nela — como alguém que ainda estava aprendendo a habitar o próprio corpo de novo.

— Você deve ser a cientista — disse Apolo, avaliando-a com cuidado.

— Sou Maria — respondeu ela.

Quando entraram na sala central, os garotos pararam de falar. Os olhos de todos foram direto para os dois. Havia algo nos rostos de Mike e Maria que dispensava introdução — o tipo de coisa que se sente antes de compreender.

Apolo quebrou o silêncio.

— Mike. O que aconteceu?

Mike respirou fundo. Começou a falar.

— Eu estava no laboratório principal em Porto Alegre. Fui até lá como eu já havia te dito — para buscar a verdade. Descobri que a CIA está envolvida. Eles querem usar a fenda para seus próprios fins, e agora estão atrás de mim e de Maria.

Ele olhou para ela rapidamente antes de continuar.

— Eu a salvei porque ela foi quem deu início ao teste, e quando tudo desandou, eu estava diante de uma fenda dimensional se formando na parede do laboratório. Um trinco na realidade. Vi ela caindo, a máquina foi sabotada, e eu tirei ela de lá.

Sérgio olhou para Maria.

— E você lembra do que aconteceu?

Ela demorou um momento para responder.

— Nem tudo — disse, com honestidade. — Mas vou tentar.

Respirou fundo e começou.

— O laboratório era meu. Herdei do meu pai, mas estava sendo utilizado com o aval do presidente para desenvolver o projeto. Naquele dia, estávamos prontos para o primeiro teste real. A intenção era abrir a fenda para encontrar novos minerais, novas formas de matéria que pudessem ser usadas para curar doenças. Eu queria encontrar algo do outro lado que servisse para o bem.

Ela parou. Os dedos entrelaçados sobre o colo.

— Larkin estava lá. E havia um. Um homem que não falava com ninguém. Só observava. Larkin o trouxe para "coletar informações." — Ela usou os dedos como aspas, e havia amargura no gesto. — Quando a fenda abriu, eu vi uma sombra. Com formato de pessoa. Não era nada que pertencesse a este mundo. Do outro lado tudo parecia igual ao nosso — mesmas formas, mesma estrutura — mas com cores alteradas. Como um negativo.

— E a sombra? — perguntou Apolo.

— Estava parada na entrada da fenda. Me olhando. — Maria fechou os olhos por um instante. — Eu senti um pressentimento muito forte e pedi para desligar a máquina. Larkin se recusou. Tentei eu mesma redirecionar o feixe de luz, e aí a máquina desligou sozinha. Mas a criatura passou pela fresta antes de fechar.

Silêncio.

— Eu lembro daquilo vindo em minha direção. Depois disso... — ela hesitou — é como se eu tivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Eu via a mata. Via rostos de jovens. Mas não conseguia controlar o que estava acontecendo comigo.

Mike se inclinou levemente para frente.

— Ela saiu — disse ele, com voz quieta. — Eu vi. Antes de a gente sair do laboratório, a sombra se desprendeu dela e... foi embora. — Ele olhou para os outros. — O que sobrou em Maria é a marca. O rastro do que atravessou ela.

O peso daquela afirmação levou alguns segundos para pousar sobre todos na sala.

Foi Josué quem falou primeiro, do seu canto, com a voz de quem está pensando em voz alta.

— Se ela saiu de Maria... ela foi pra algum lugar.

Ninguém respondeu. Mas ninguém precisou.

Apolo pediu água para Maria e Mike foi buscar. Ela bebeu, parecendo um pouco mais estável, antes de continuarem.

Foi Josué quem retomou.

— Eu tenho uma teoria. É meio louca.

— Fala — disse Apolo. — Qualquer coisa é bem-vinda agora.

— Aprendi com o meu pastor sobre uma carta de Paulo aos Efésios. O texto fala em regiões celestiais — planos além do físico, habitados por seres que não são humanos. E diz que nossa luta não é contra pessoas, mas contra esses seres que habitam esses lugares. — Fez uma pausa. — Talvez essas regiões sejam exatamente isso. Dimensões alternativas.

Sérgio se inclinou para frente.

— Como na teoria das cordas.

Josué olhou para ele, levemente surpreso.

— Exatamente.

Os fragmentos não formavam ainda uma resposta completa. Mas pela primeira vez, ciência, fé e experiência vivida estavam apontando para o mesmo lugar.

Foi Mike quem cortou o silêncio com objetividade.

— A única saída que eu vejo é voltarmos lá. Precisamos saber se a fenda ainda está aberta, o que restou no laboratório, e entender pra onde essa coisa foi depois que saiu de Maria.

Marcos bateu a mão na mesa.

— Então invade de novo. Amanhã.

— Vocês, não — disse Mike, sem margem para debate. — Vocês ficam em casa. Eu, Maria e Apolo vamos.

— Mas precisamos de uma brecha no sistema — disse Apolo.

— Eu sei todas as entradas — disse Maria, com mais firmeza agora. — E talvez meu cartão ainda tenha acesso. O laboratório foi construído nas terras da minha família. Se Larkin não alterou o sistema, eu ainda consigo entrar.

Mike olhou para o cartão que ela segurava. Pegou o copo com o resto de água da mesa e mergulhou o cartão dentro, devagar.

— Seria a primeira coisa que eles rastreariam — disse. — Se você usar esse cartão, em minutos eles sabem onde estamos. Precisamos de outro caminho. Uma falha. Um ponto cego que eles não consideraram.

Virou para Apolo.

— Amanhã a gente resolve isso. Por hoje, ficamos aqui.

Apolo olhou em volta para o grupo.

— Aqui vocês estão seguros. Ninguém além da minha família sabe que esse bunker existe. Tem comida, energia, água e quartos. — Levantou. — Mas agora eu levo esses garotos de volta. — Olhou para Mike. — Deixei uma mochila no quarto. Veja se tem algo que serve.

Os garotos se despediram um por um. Marcos murmurou um "boa sorte" que soou mais sincero do que qualquer coisa que ele tinha dito em semanas.

— Fiquem bem — disse Apolo na porta. — Trancam tudo.

No carro, no caminho de volta, Apolo manteve os olhos na estrada. A rota passava pelo perímetro externo do complexo laboratorial — o mesmo trajeto de sempre, natural o suficiente para não despertar suspeita.

Marcos cochilava encostado na janela. Sérgio mexia no celular. Jonathan ficou em silêncio o caminho todo.

Então Apolo diminuiu a velocidade.

A fachada escura do laboratório surgiu entre as árvores — mas desta vez havia algo diferente. Duas viaturas pretas sem identificação estavam estacionadas na entrada principal. Holofotes varriam o terreno em arcos lentos e regulares.

Não era segurança de rotina.

Apolo passou sem parar, sem olhar diretamente, mantendo uma velocidade constante e displicente.

— Apolo — disse Jonathan, a voz baixa e tensa. — Isso não estava assim da outra vez.

— Eu sei.

Sérgio havia parado de mexer no celular. Marcos tinha acordado sem que ninguém precisasse chamá-lo.

Apolo acelerou de volta ao ritmo normal assim que saíram do ângulo de visão dos holofotes. A mão no volante estava firme, mas os nós dos dedos, brancos.

Eles não estavam vasculhando o laboratório por protocolo.

Estavam procurando alguma coisa.

*Ou alguma coisa havia chegado antes deles.*

sábado, 6 de junho de 2026

Capítulo 15: Fuga e Consequências


Capítulo 15: Fuga e Consequências

Mike conseguiu deixar para trás a confusão no laboratório principal em Porto Alegre e os homens da CIA que o cercavam. Encontrou um abrigo temporário por alguns minutos para organizar os pensamentos. Sabia que não poderia seguir sozinho — precisava de ajuda, e a única pessoa em quem confiava de olhos fechados era Apolo.
Ainda dirigindo, com uma mão no volante e a outra no telefone, discou o número.
O som do telefone tocando se misturava ao barulho dos carros na estrada.
— Apolo, é o Mike. Preciso de ajuda — disse ele, tentando manter a voz controlada.
— Mike? O que está acontecendo? Você está bem? — respondeu Apolo, com voz preocupada.
— Estou vivo, mas longe de estar bem — respondeu Mike, rouco. — Preciso de um lugar seguro para me esconder. A CIA está atrás de mim.
— Me encontrem em casa. Vou levar vocês num lugar porque eu quero que vocês conheçam algumas pessoas — disse Apolo sem hesitar, referindo-se ao seu esconderijo secreto, o "Bunker do Vale Verde", uma estrutura abandonada localizada em uma área de mata isolada nos arredores de Santa Rosa.
Mike assentiu.
— Estou a caminho — disse ele, desligou o telefone e acelerou o jipe pela estrada em direção ao interior do Rio Grande do Sul.
No banco ao lado, Maria ainda estava desacordada.
Enquanto isso, no laboratório principal em Porto Alegre, a CIA continuava trabalhando. Larkin tentava controlar a energia instável da fenda dimensional. O presidente recebia atualizações constantes.
Mike dirigia há um dia e meio, parando apenas o necessário. O cansaço pesava, mas a adrenalina o mantinha acordado. De repente, Maria se mexeu no banco do passageiro. Abriu os olhos lentamente, confusa.
— O que... onde estou? — perguntou, voz fraca.
Mike olhou para ela.
— Você está segura, Maria. Estou levando você para um lugar seguro, em Santa Rosa — disse ele, tentando acalmá-la.
Maria olhou para ele, ainda desorientada.
— Quem é você? O que está acontecendo? — perguntou ela, enquanto fragmentos de memória voltavam.
— Meu nome é Mike. Você estava em perigo. A CIA está atrás de nós dois agora — explicou ele.
Maria ficou assustada.
— A CIA? O que eu fiz?
— Não é o que você fez. É o que você sabe — respondeu Mike, oferecendo-lhe um sanduíche. — Coma. Você precisa recuperar as forças.
Enquanto Maria comia, o celular de Mike tocou. Ele atendeu rapidamente.
Era Apolo.
— Mike, qual é a sua posição? — perguntou Apolo.
— Ainda estou a umas cinco, seis horas de Santa Rosa. Tenho Maria comigo.
— Entendido. Continue em frente. Estou preparado para recebê-los.
Mike sorriu aliviado.
— Entendido, Apolo. Chegaremos em breve.
Maria olhou para ele, curiosa.
— Quem é Apolo?
— Um velho amigo. Alguém em quem posso confiar. Ele vai nos ajudar a entender tudo isso — respondeu Mike.
De repente, Maria teve um forte feedback mental. Começou a se contorcer, gritando de dor.
— Não pode ser… não pode ser verdade! — repetia ela.
Mike parou o jipe na beira da estrada e tentou acalmá-la.
Enquanto isso, no laboratório de informática da escola...
Jonathan, Marcos e Sérgio estavam reunidos, pesquisando na internet. Estavam frustrados, pois nada explicava o que haviam visto.
Eles haviam vasculhado a fundo teorias antigas: o projeto MK-Ultra, o Projeto Montauk, o Projeto Filadélfia — histórias sobre experimentos secretos, manipulação da mente e fenômenos que desafiavam a realidade. Mas nenhuma daquelas histórias parecia se encaixar no que tinham visto.
— E se tudo isso for algo novo? Como vamos conseguir ligar os pontos se não há nada parecido com o que vimos? — perguntou Sérgio.
Até que a porta do laboratório de informática se abriu. Era Josué, o amigo que vivia mais envolvido com a igreja da região. Ele entrou e se aproximou dos três.
Os garotos, incapazes de guardar tudo para si, acabaram contando-lhe o que haviam visto. Josué ouviu com atenção e disse:
— Vocês vão achar uma loucura, mas nas Escrituras temos relatos sobre dimensões além da nossa realidade, chamadas de “regiões celestiais”.
A conversa seguia quando o walkie-talkie dentro da mochila de Sérgio tocou.
— Garotos, na escuta? — era a voz de Apolo.
Sérgio pegou o aparelho rapidamente.
— Positivo — respondeu ele.
— Me encontrem após a aula, me encontrem nos fundos da escola. Vou levar vocês num lugar porque eu quero que vocês conheçam algumas pessoas.

Capítulo 14: Ligando os Pontos.


Capítulo 14: Ligando os Pontos.

General Mitchel Ferrer chegou ao laboratório principal em Porto Alegre com a intenção clara de falar diretamente com o presidente. Ele precisava relatar a construção suspeita e não autorizada que havia descoberto na região de Santa Rosa. Porém, assim que entrou no complexo, foi interceptado por um assessor.
— General Mitchel, o presidente precisa falar com o senhor com urgência. Por favor, me acompanhe.
Mitchel mudou o semblante, surpreso, mas seguiu. Foi levado ao gabinete onde o presidente o aguardava.
— Gen. Mitchel, obrigado por vir tão rápido — disse o presidente, apertando sua mão com firmeza. — A cientista Maria Eduarda, nossa principal pesquisadora quântica, esteve impossibilitada de continuar com a evolução do experimento Phantom-dimensional. Mas agora é o momento de seguirmos em frente.
O presidente fez uma pausa, caminhou até a janela e olhou para fora por alguns segundos antes de virar-se novamente para Mitchel, com expressão grave.
— Eu quero que você entenda a importância desse projeto, General. É fundamental para o futuro do país. Talvez, se der certo, possamos tirar o Brasil do patamar de país de terceiro mundo e colocá-lo no mesmo nível dos Estados Unidos.
Nesse momento, a secretária do presidente entrou na sala:
— Senhor presidente, o senhor tem uma reunião de emergência com a liderança dos cientistas e dos americanos. A imprensa está esperando para fazer perguntas sobre o projeto.
O presidente assentiu e olhou para Mitchel.
— Desculpe, General. Vamos continuar essa conversa mais tarde.
Mitchel saiu do gabinete visivelmente descontente e irritado. Caminhava de cabeça baixa pelos corredores, tentando processar tudo. Enquanto andava, vários flashes da visão que tivera voltaram com força — a colina, a mata densa, o laboratório escondido em Santa Rosa.
Dessa vez, porém, não eram apenas imagens confusas. Ele começava a ter um novo entendimento sobre o que havia visto. Era como se pedaços da visão estivessem se encaixando agora, revelando algo que antes não estava claro. Aquela compreensão mais profunda foi o que realmente o levou até a colina.
“Que diabos está acontecendo?”, pensou consigo mesmo. “Por que aquelas visões me levaram exatamente naquela colina? O que tem naquele laboratório? Preciso falar com o presidente.”
Perdido em pensamentos, ouviu soldados chamando seu nome:
— General! General Mitchel, vem aqui!
Ele virou-se e viu cerca de dez soldados do seu pelotão reunidos em um canto do corredor. Todos pareciam fulos da vida.
— General, o que é que tá acontecendo nesse lugar? — desabafou um deles. — A gente tá mais puto do que nunca. O presidente tá fomentando essa ideia maluca de uma cientista frustrada!
Os outros soldados concordaram, murmurando insatisfação. Mitchel parou, ouviu atentamente e, após um momento, concordou com a cabeça.
— Eu tenho uma ideia — disse ele, baixando a voz. — Vocês vão secretamente até a sala do projeto e cortam alguns fios da Phantom Dimensional. Façam o necessário para que tenhamos outro vexame. Não queremos que essa máquina funcione novamente. Quem sabe assim o presidente cai na real de que essa cientista não passa de uma maluca.
Os soldados assentiram, determinados. Mitchel deu as ordens finais em tom baixo e os enviou para a missão.
Enquanto eles se afastavam, Mitchel respirou fundo, ainda furioso, e voltou em direção ao gabinete do presidente, disposto a passar por cima de quem fosse preciso para falar com ele.
Ao se aproximar novamente, a secretária o interceptou:
— General, o presidente ainda está em reunião. O senhor não foi liberado.
Mitchel respondeu rispidamente:
— Eu preciso falar com ele agora.
Seguiu em direção à porta. Estava quase chegando quando ouviu os tiros — vários tiros secos ecoando forte vindos da direção do laboratório.
Ele parou imediatamente, abandonou a ideia de abrir a porta, sacou a pistola e saiu correndo em direção ao som dos disparos.
Quando se aproximava do laboratório, no corredor final que dava acesso ao saguão, foi barrado por vários homens da CIA, fortemente armados.
— Me deixem passar! — gritou Mitchel, fulo da vida. — O que diabos está acontecendo aqui? Eu preciso passar!
Os agentes não se moveram. Mitchel estava prestes a forçar a passagem quando sentiu uma mão firme tocar seu ombro. Ao virar-se, deparou-se com um homem de terno escuro, bem vestido, com expressão calma e controlada.
— Acalme-se, General. Acalme-se — disse o homem em voz baixa e firme.
Outros generais chegaram atrás de Mitchel, também questionando o que estava acontecendo. O homem de terno puxou Mitchel um pouco para o lado.
— General Mitchel... está tudo sob controle. Já conseguimos conter a situação.
— Que situação? — perguntou Mitchel, agitado. — O que está acontecendo aqui?
O homem sorriu levemente e respondeu:
— Houve tentativas de frustrar nossos planos. Esses desertores foram interceptados. Fique tranquilo, General.
Mitchel colocou as mãos na cabeça, desesperado. O homem estendeu a mão:
— Eu sou Elliot Gilliard.
Mitchel apertou a mão dele de forma automática, ainda atônito. Elliot continuou, com tom quase amigável:
— Fique tranquilo. Em breve eu te convido para ir até a minha casa lá em Copacabana. Vamos dar algumas voltas no calçadão, tomar uma cerveja, conhecer algumas garotas. O que acha, General? Você precisa de umas férias. E logo isso ocorrerá.
Mitchel agradeceu de forma seca e se afastou. Ainda atônito e muito mais preocupado agora — temendo ser descoberto como o líder daquela conspiração —, ele se dirigiu para fora do laboratório principal. Lá, viu homens da CIA carregando os corpos dos soldados que ele havia ordenado para sabotar o experimento.
Desolado, colocou as mãos no rosto, respirou fundo várias vezes, quase sem conseguir controlar a tensão que tomava conta do peito.
Dez minutos depois, o assessor do presidente se aproximou e tocou seu ombro:
— General Mitchel, todos estão aguardando os representantes do Exército Brasileiro no saguão principal do laboratório. A cientista já está posicionada para fazer a abertura teste diante da liderança dos cientistas, da CIA e do executivo brasileiro.
Desolado, Mitchel se dirigiu até o saguão principal. Não entrou. Ficou na porta, de braços cruzados, encarando cada um dos presentes. Seus olhos se perderam em Maria Eduarda. Ela não estava bem. Havia algo sombrio em seu olhar que fez seu corpo se arrepiar. Era como se uma força invisível os conectasse. Ela estava diferente: semblante frio, olhos mais escuros, destemida e silenciosa.
No momento em que a cientista anunciou o início autorizado do experimento, ela apertou o botão. A máquina lançou um pulso de energia azul cromático contra a parede do saguão. Diante de todos, formava-se uma trinca dimensional.
Porém, Maria passou mal imediatamente. Mitchel, em um ato de impulso, correu até ela. Quando estava chegando próximo, assustou-se ao ver uma sombra negra saindo do corpo dela e rastejando rapidamente em direção à trinca dimensional. Sem hesitar, ele a pegou nos braços e a levou em direção à enfermaria.
Ao chegar lá, percebeu que soldados da CIA o cercavam, apontando armas e falando sobre ele. Sem pensar duas vezes, saiu pela porta de serviço do laboratório, carregando Maria. Acomodou-a de qualquer jeito no banco do seu jipe, deu partida e acelerou em direção a Santa Rosa, deixando todo o turbilhão para trás no laboratório de Porto Alegre.

Capítulo 13: A Investigação Noturna


Capítulo 13: A Investigação Noturna

Apolo deixou os garotos em suas casas, ainda inquieto com tudo o que havia acontecido. Não conseguia tirar da cabeça a imagem da fissura na parede. Decidiu que precisava fazer algo. Na madrugada, pegou o binóculo, a lanterna e saiu sozinho para investigar novamente o laboratório.
Enquanto dirigia, enviou as fotos que havia tirado para seus amigos que pesquisavam fenômenos paranormais e aparições.
“Preciso de informações sobre isso. É urgente”, escreveu.
Ao chegar perto do local, estacionou o carro um pouco antes da colina e continuou a pé. A madrugada estava fria e silenciosa demais. Cada passo parecia fazer barulho demais na mata escura.
Ao subir a colina, ele congelou.
Havia um homem parado mais acima, imóvel, olhando para o laboratório. No mesmo instante em que Apolo se mexeu, o homem virou-se bruscamente, apontando uma lanterna forte direto no rosto dele.
— Alto lá! — gritou o homem, voz firme e agressiva. — Quem é você e que merda está fazendo aqui?
Apolo ergueu a mão para proteger os olhos da luz, coração disparado.
— Calma! Me chamou Apolo Mendes; Por favor não faça nada!
Houve um segundo de tensão pesada. A lanterna baixou um pouco.
— Apolo...? — disse o homem, ainda desconfiado. — Que diabos você tá fazendo aqui no meio da madrugada?
Só então Apolo reconheceu a voz.
— Mike...? — respondeu, surpreso. — Cara, você quase me mata de susto.
Mike baixou completamente a lanterna, mas manteve a postura rígida, claramente ainda em alerta.
— Eu perguntei primeiro. O que você tá fazendo aqui?
Apolo respirou fundo, ainda com a adrenalina alta, e decidiu ser sincero:
— Na verdade... eu também estou investigando o laboratório. Existem coisas muito estranhas ali.
O céu já começava a clarear levemente no horizonte. Mike olhou para os lados, verificando o perímetro, e bufou.
— Não podemos ficar aqui. Daqui a pouco amanhece e não é bom sermos vistos espionando esse lugar. Vamos pra uma lanchonete. Preciso de um café... e você vai me explicar direitinho o que está acontecendo.
Apolo concordou. Os dois desceram a colina e foram até a lanchonete mais próxima. Sentaram-se em uma mesa afastada, pediram café e Mike foi direto ao ponto:
— Eu estou de babá de uma cientista renomada... digo, maluca. Essa bruxa não desiste de tentar abrir um portal. Pra mim isso é coisa de louco. E o pior é que ela está recebendo mais investimento que o próprio Exército. Estamos sendo usados como seguranças dessa maluca que já errou várias vezes, gastando dinheiro por ambição do presidente.
Apolo, ainda cauteloso, comentou:
— Portal? Que doideira...
Ele hesitou, mas acabou contando parte do que viu:
— Eu vi algumas máquinas estranhas e uns caras de carro preto. Você tá sabendo de algo? Foi meu irmão mais novo e os amigos dele que me falaram desse laboratório. Pra não deixar eles irem sozinhos, eu fui junto.
Mike alertou:
— Fica longe desse pessoal. Esses são os americanos... Acho que é a CIA ou coisa do tipo.
Então Mike baixou o tom de voz e falou sobre o sonho:
— No final da tarde de ontem eu estava no sítio e tive um sonho estranho... Nessa visão, a bruxa estava abrindo o portal e aconteceu uma coisa esquisita. Uma voz me chamou de dentro de uma fenda. Acordei apavorado... e com um pedido pra que eu ficasse de babá dela hoje.
Mike tomou um gole de café e completou:
— Por isso vim ver o laboratório. Mas tá tudo bem pelo visto...
Apolo ficou boquiaberto.
Eles trocaram números de telefone. Mike finalizou:
— Não se preocupe. Eu estou vendo isso. Eu te dou algum feedback. Não se exponha, não sei qual é a intenção dos americanos aqui. E deixa esses garotos longe dali. Vou tentar acabar com isso hoje. Vou falar com o presidente.

Capítulo 12: A Primeira Investida.

      Enfermeira Beatriz Oliveira                   Professor Apolo Mendes 


Capítulo 12: A Primeira Investida.

Os garotos saíram do local e retornaram para uma lanchonete da cidade para pensar e conversar sobre o que haviam visto. Sérgio deu a ideia de comprarem um binóculo no caminho. 
— Eu compro — disse Sérgio, com um sorriso.
Marcos, o mais novo, reclamou:
— Eu não posso ficar até tão tarde na rua.
Johnny, com um sorriso malicioso, provocou:
— Isso é mentira, você tem medo!
Marcos deu um soquinho no braço de Johnny e respondeu:
— Cala a boca, você tá me queimando!
O clima amistoso foi interrompido quando Johnny ficou tenso, lembrando do olhar que Maria havia lançado para eles. Aquilo o fez temer que o mesmo espírito pudesse atormentar sua família.
Eles decidiram conversar com Apolo, irmão de Sérgio, professor de física e especialista em fenômenos extraterrestres.
Apolo estava em casa com sua namorada Beatriz, curtindo um momento com a família, ouvindo boa música e conversando com os pais. Os garotos o chamaram à parte e pediram que fosse até o quarto de Sérgio.
Assim que Apolo entrou, Sérgio trancou a porta, desesperado:
— Precisamos conversar.
Apolo estranhou:
— Pra que trancar a porta? Só tem nós aqui. Sérgio, o que você fez?
Eles se sentaram e os garotos contaram tudo o que haviam visto, em tom de muita seriedade. Quando terminaram, o silêncio foi rompido por uma risada alta de Apolo:
— Vocês estão metidos nisso?
Ele continuou rindo por alguns segundos, mas logo ficou sério:
— Eu estou com vocês. Vamos fazer o seguinte: mais tarde eu levo Beatriz para casa e, na volta, entramos nessa de cabeça.
Johnny questionou:
— Mas como vamos fazer?
Apolo respondeu:
— Johnny, no meu carro tem algumas coisas que usamos nas expedições para verificação de fenômenos extraterrestres. Tenho walkie-talkies, lanternas e tudo que precisamos. Vocês levem a câmera para gravar, porque nós vamos invadir o laboratório hoje.
— Se preparem aí. Tomem um sorvete que eu vou dispensar a Bia.
A tarde seguiu tranquila. Às 19h, Apolo disse em voz alta:
— Vamos, Bia!
Beatriz se despediu dos pais de Sérgio. Antes de sair, Apolo passou pela porta do quarto dos garotos, piscou e falou:
— Já volto.
Ainda gritou para os pais:
— Mãe! Na volta eu vou passear com os garotos, tudo bem?
O pai respondeu:
— Coloque gasolina no carro.
— Tá bom, pai. Relaxa.
E saiu.
Os garotos ficaram apavorados. Agora a coisa tinha ficado séria, pois o irmão de Sérgio havia abraçado a ideia completamente. Marcos comentou, com medo:
— Eu preciso voltar pra casa ainda hoje...
Jonathan retrucou:
— Para de ser medroso. Agora a gente tá com um dos melhores da região, vai dar tudo certo. O laboratório está vazio, tenho certeza que os vidros foram pintados e a luz vai estar lá.
Sérgio completou:
— Devemos estar preparados para tudo. Meu irmão não entra numa coisa dessas sem planejamento. Dificilmente vamos abortar essa missão.
Enquanto discutiam, ouviram uma buzina e um grito:
— Vamos, garotos!
No carro, Apolo apontou para uma caixa:
— Dentro dessa caixa tem tudo que nós precisamos.
Eles se equiparam com rádios comunicadores, lanternas e a câmera. Apolo os levou até perto do laboratório. Ao chegar, perguntou:
— Onde fica esse laboratório?
Johnny indicou:
— Deixe o carro encostado aqui. Vamos entrar pela floresta.
Apolo, um pouco confuso, mas empolgado, concordou. Os quatro desceram e seguiram a pé até um muro na parte de trás do laboratório.
Apolo ficou impressionado com o tamanho da estrutura. Subiram o muro, ele cortou as defesas e entraram. Dentro, Apolo percebeu uma escotilha aberta:
— Entraremos por aqui.
Os garotos, com medo, respiraram fundo e o seguiram.
Marcos segurava a câmera enquanto caminhavam com as lanternas acesas. Sérgio notou que os vidros não estavam pintados e não havia luz acesa nos corredores. No centro do laboratório, encontraram várias máquinas e, no meio, uma espécie de arma apontada para a parede.
Eles se aproximaram de uma fissura na parede. Marcos questionou:
— Não tem como isso ser real... Depois dessa parede estamos do lado de fora do laboratório.
Apolo chegou mais perto com a lanterna e confirmou que havia algo ali. Marcos, nervoso, passou a câmera para Sérgio e atravessou a fissura. Do outro lado, ele disse:
— Eu vejo o laboratório... um ambiente um pouco mais escuro. Tem um cheiro diferente, eu não sei o que é isso...
Todos entraram. Apolo tirou várias fotos com o celular e fizeram filmagens. Porém, ele decidiu:
— Para nossa segurança, devemos sair daqui. Isso não é um fato extraterrestre... talvez seja um portal. Vamos sair agora.
Eles voltaram para a dimensão normal, saíram do laboratório e retornaram para a casa de Sérgio e Apolo em silêncio.
No caminho, avistaram quatro ou cinco carros pretos indo na direção oposta, em direção ao laboratório. Todos ficaram tensos. Um dos carros reduziu, o vidro baixou e um homem desceu, observando-os. Apolo, com as mãos trêmulas, virou à direita na próxima rua, como se fosse para o centro.
Ao chegar em casa, a mãe de Apolo questionou por que ele não havia deixado os garotos nas casas deles, mas logo foi dormir. Os quatro se reuniram na sala, tomando chimarrão, ainda assustados.
Apolo quebrou o silêncio:
— Eu já fiz várias excursões em busca de vida extraterrestre, em busca de uma verdade fora desse planeta. Mas é a primeira vez que eu concluo, com esses olhos que Deus me deu, que vi um experimento macabro feito por homens aqui neste lugar. Vocês têm noção de que vimos outra dimensão? Uma dimensão que pode ser como a da teoria dos espelhos?
Johnny, o mais nerd, respondeu:
— Sim, é como se tudo fosse a mesma coisa que aqui. Nós não sabemos o que estava em Maria, mas eu só sei que aquilo não estava naquele lugar... e se estava, ele nos viu e não fez nada. Como se quisesse que continuássemos indo lá.
Apolo cortou:
— Isso não irá mais acontecer. Devemos agora buscar ajuda da polícia, do exército, de qualquer órgão. Eu vou pedir licença do meu trabalho e nós estamos juntos nessa.
O celular de Apolo tocou. Era Beatriz, preocupada porque ele não havia atendido. Apolo se afastou para falar com ela.
Enquanto isso, os garotos ficaram na sala, repetindo:
— Estamos ferrados... estamos ferrados!
Apolo voltou e disse:
— Venham, Marcos, Jonathan. Eu vou deixar vocês em casa em segurança. Vamos dar um ponto final nisso aqui, ok? Eu vou primeiro contatar meus amigos, mostrar os detalhes, e depois só informo a vocês o que for útil. Isso não é coisa para crianças, e nem sei se é coisa para adultos normais. Por hora, é melhor não voltarmos naquele lugar e ficarmos atentos se estamos sendo seguidos. Fiquem com os rádios. Nós precisamos sempre nos falar.
Apolo deixou os garotos em suas casas e retornou. Sérgio já dormia no sofá. Apolo lavou o rosto, deitou ao lado dele e adormeceu.

Capítulo 11: A Busca por Respostas.

                       

Capítulo 11: A Busca por Respostas.

Os garotos chegaram à casa de Jonathan ofegantes e assustados. Trancaram a porta da sala e tentaram processar tudo o que tinham visto.
— O que foi aquilo? — perguntou Marcos, ainda tentando entender.
— Não sei — respondeu Sérgio —, mas acho que era aquela cientista que virou meme. A que vivia falando de coisas estranhas.
Jonathan, já sentado no sofá, pegou o celular.
— Vamos pesquisar sobre ela. Deve ter alguma coisa na internet.
Eles começaram a procurar. Logo encontraram informações: Maria era uma pesquisadora renomada, que havia trabalhado em vários projetos importantes. Mas também acharam as críticas pesadas e matérias chamando-a de “cientista louca” por causa de suas teorias.
— Olha isso — disse Sérgio, apontando para a tela. — Ela tem um experimento para apresentar em Brasília. Acho que é importante.
Jonathan franziu a testa.
— Mas o que isso tem a ver com o que aconteceu? E o que foi aquilo que entrou nela?
Marcos, um pouco mais calmo agora, falou:
— A gente precisa descobrir mais. E rápido, antes que aconteça outra coisa.
Eles decidiram: no dia seguinte, quando a rua estivesse mais movimentada, voltariam para observar. Iriam de bicicleta, mas não chegariam perto. O laboratório ficava num vale em Santa Rosa, então ficariam numa colina, de longe, só observando.
Na manhã seguinte, se comunicaram pelo celular.
— Tô pronto — disse Jonathan.
— Pronto também — respondeu Sérgio.
— Eu também — falou Marcos, com a voz ainda um pouco trêmula.
Saíram da vila e pedalaram até a colina. De lá, tinham uma boa visão do laboratório inteiro.
Ao chegarem, a primeira coisa que notaram foi que o laboratório estava trancado com correntes pesadas. Nenhum carro preto. Nenhum sinal da luz azul. Jonathan reparou que os vidros haviam sido pintados de preto por dentro. Só daria para confirmar à noite se alguma luz vazasse.
Mas o que mais incomodou não foi o que viram. Foi o que não ouviram.
Silêncio absoluto. Nenhum pássaro. Nenhum inseto. Nenhum barulho de animal. O mato ao redor do laboratório parecia morto.
Jonathan, o mais sensível dos três, foi o primeiro a sentir. Um cheiro forte, químico e enjoativo, subiu no ar.
— Ugh, que cheiro é esse? — Marcos tapou o nariz. — Parece animal morto.
Sérgio também sentiu a mesma ânsia. Mas não tirou os olhos do laboratório.
— A gente vai sair daqui — disse ele, voz baixa e decidida. — Vamos nos preparar. E vamos descobrir um jeito de entrar.

Pausa por tempo indeterminado...

Pessoal que talvez tenha lido algo naknsei se realmente isso está acontecendo...  Mais queria expressar que estou passando por uma situação ...